quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O ÚLTMO POEMA



Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

- Manuel Bandeira,
in "Libertinagem e Estrela da Manhã".

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

PRISCILA RÔDE



"Eu não estou triste.
Só estou fazendo silêncios.
Só estou me recolhendo.
Só estou amanhecendo, por dentro."

Priscila Rôde

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

MOTIVO



EU CANTO porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gôzo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Si desmorono ou si edifico,
si permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei si fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Cecília Meireles
de Viagem

domingo, 24 de fevereiro de 2013

MÁSCARAS



ah! o imenso da possibilidade.

quantas rotas em tormentas?
quantas máscaras desejadas?

sucumbes à pressão dos momentos.

nada se transfigura nos espelhos,
e todos os dias és
mais do que a soma das tuas partes.

às vezes, os mares da realidade assim obrigam.

é nessas águas que também somos humanos.



Vicente Ferreira da Silva

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

SABEDORIA



Era uma vez uma pessoa que procurava a sabedoria.

Tinham-lhe dito que para a atingir tinha sempre
de aceitar e recusar ao mesmo tempo tudo o que 
lhe fosse oferecido, dito ou mostrado.
Quando perguntava por onde era o melhor caminho
e lhe diziam «é por ali» ela devia seguir
imediatamente nesse sentido e depois no sentido
contrário.

Tendo assim percorrido todas as
direcções indicadas e as não indicadas, 
sem mais caminhos a percorrer, sentou-se no chão 
e começou a chorar.

 Sem saber, tinha chegado. 

Ana Hatherly,
 in 'Tisanas'

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

CRUZ E SOUZA


"...
Nada há que me domine e que me vença
Quando a minha alma mudamente acorda...
Ela rebenta em flor, ela transborda
Nos alvoroços da emoção imensa."

- Cruz e Sousa

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Lya Luft



" A vida não está aí apenas para ser suportada
ou vivida, mas elaborada. 
Eventualmente reprogramada. 
Conscientemente executada. 
Não é preciso realizar nada de espetacular.
Mas que o mínimo seja o máximo que a gente 
conseguiu fazer consigo mesmo." 

Lya Luft,
in Perdas & Ganhos

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

SENSAÇÃO


Nas tardes azuis de verão, irei pelos vergéis,
Picado pelo trigo, a pisar a erva miúda:,
A sonhar, sentirei um frescor sob os pés,
E o vento há de banhar-me a cabeça desnuda.

Em silêncio, eu não pensarei em nada:
Mas o amor infinito montará minh'alma,
E irei longe, muito longe, com o pé na estrada,
Pela natureza, feliz – na companhia da amada. 

Arthur Rimbaud

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

MIA COUTO


“... 
nós temos olhos que se abrem para dentro,
esses que usamos para ver os sonhos...”

Mia Couto,
in Estórias abensonhadas

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

FABRÍCIO CARPINEJAR



A felicidade é provisória. 
É um clarão.
Um relance.
Um lampejo. 
Dura o suficiente para virar
uma lembrança.
Assim que some temos que 
sair atrás dela de novo.


Fabrício Carpinejar

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

EXALTAÇÃO


Venha!
Venha uma pura alegria
Que não tenha
Nem a senha
Nem o dia!

Abra-se a porta da vida
Sem se perguntar quem é!
E cada qual que decida
Se quer a alma aquecida
No lume da nova fé.

Venha!
Venha um sol que ninguém tenha
No seu coração gelado!
Venha
Uma fogueira de lenha
De todo o tempo passado!


Miguel Torga
in Libertação de "Poemas Completos

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

ALBERT CAMUS


O homem não é nada em si mesmo. 
Não passa de uma probabilidade infinita. 
Mas ele é o responsável infinito dessa probabilidade. 

Albert Camus


sábado, 9 de fevereiro de 2013

OSCAR WILDE


Por detrás da alegria e do riso, 
pode haver uma natureza vulgar, 
dura e insensível.
Mas, por detrás do sofrimento,
há sempre sofrimento.
Ao contrário do prazer, 
a dor não tem máscara.

Oscar Wilde

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

LUZ...


“Há uma luz
que vem de fora
e penetra a alma.
Há uma luz
que vem de dentro
e ilumina
o mundo.”

Leopoldo Scherner

HERBERTO HELDER


As palavras não fazem
o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender
as palavras.

Herberto Helder

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

PASSEIO NO JARDIM



Quem aspira o perfume
deste longo jardim
de palavras cortadas
como se fossem caules
vê no chão espalhadas
as pétalas da rosa:
estilhaços de mim.

Nunca me completei
e sonho o que seria 
se a mim me reunisse
a mim mesmo somado
como um ramo de flores
ou a gota de orvalho
na manhã condenada.

Sempre me procurei 
dentro de mim perdido
em meus próprios domínios.
E no nunca me achar
é que me encontro e sou.
Só parto ao regressar.
Só venho quando vou.

Lêdo Ivo
In Crepúsculo Cívil

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

LYA LUFT



” O olho do outro está grudado em mim e me sinto 
permanentemente avaliado, nem sempre aprovado: 
se eu não for como sugerem ou exigem meu grupo,
família, sociedade, se não atender às propagandas,
aos modelos e ideais sugeridos, serei considerado 
diferente. Como adolescentes queremos ser iguais à 
turma, como adultos queremos ser aceitos pela tribo:
a pressão social é um fato inegável.

Não controlada, ela nos anulará”.


Lya Luft, 
in Múltipla Escolha 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O SILÊNCIO



Há um grande silêncio que está à escuta...

E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa,
qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje
até a tua dúvida metafísica, Hamleto!

E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala
o silêncio escuta...
e cala.


Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo


sábado, 2 de fevereiro de 2013

A ALMA



Às vezes eu sinto – minha alma
Bem viva.
Outras vezes porém ando erradio,
Perdido na bruma, atraído por todas as distâncias.

Às vezes entro na posse absoluta de mim mesmo
E a minha essência é alguma coisa de palpável
E de real.
Outras vezes porém ouço vozes chamando por mim,
Vozes vindas de longe, vozes distantes que o vento traz nas tardes mansas.

Sou o que fui ...
Sou o que serei ...

Às vezes me abandono inteiramente a saudades estranhas
E viajo por terras incríveis, incríveis.
Outras vezes porém qualquer coisa à-toa –
O uivo de um cão na noite morta,
O apito de um trem cortando o silêncio,
Uma paisagem matinal,
Uma canção qualquer surpreendida na rua – 
Qualquer coisa acorda em mim coisas perdidas no tempo
E há no meu ser uma unidade tão perfeita
Que perco a noção da hora presente, e então

Sou o que fui.
E sou o que serei.

Augusto Frederico Schmidt
in Poesias Completas

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

ESTRADA


Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo o mundo é igual. todo o mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única.
Até os cães.
Estes cães da roça parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho
manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,
Que a vida passa! que a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.

Manuel Bandeira,
in "Estrela da Vida Inteira - O ritmo dissoluto"

domingo, 27 de janeiro de 2013

PASSAGEM DAS HORAS


"Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero..."

Fernando Pessoa

sábado, 26 de janeiro de 2013

RUMI



"Em cada coração há uma
janela para outros corações.
Eles não estão separados,
como dois corpos.
Mas, assim como duas lâmpadas
que não estão juntas,
Sua luz se une num só feixe."

Jalaluddin Rumi

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

ALLEGRO



Nuvens esgarçam-se; do céu em brasa
errante luz bruxuleia sobre vales ofuscados.
Pando com o vento quente procela
fujo a passo incansável
Atravessando uma vida nublada.
Ah, se por um instante
ao menos, entre mim e a luz eterna
uma propícia borrasca soprasse o cinzento nevoeiro!
Estrangeira é a terra que me cerca:
leva-me longe, arrancado da pátria,
de um lado para outro o poderoso vagalhão do destino.
Vamos, vento: corre com essas nuvens,
rasga esses véus
para que a luz me possa cair sobre os incertos atalhos!

Hermann Hesse
in Andares 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

MIA COUTO



“[…]Falamos em ler e pensamos apenas nos livros.
Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. 
Nós lemos emoção nos rostos, 
lemos os sinais climáticos nas nuvens, 
lemos o chão, lemos o Mundo, 
lemos a Vida.
Tudo pode ser página. 
Depende apenas da intenção de descoberta 
do nosso olhar.”

— Mia Couto

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

GABRIEL GARCIA MARQUEZ


"...se deixou levar por sua convicção de que
os seres humanos não nascem para sempre no dia
em que as mães os dão à luz, e sim que a
vida os obriga outra vez e muitas vezes a
se parirem a si mesmos."

Gabriel García Márquez
In: O amor nos tempos do cólera

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

HÁ DIAS



Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-se comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.

EUGÉNIO DE ANDRADE,
in Lugares do Lume 
 
 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

VIVER É...



Viver é uma peripécia. Um dever, um afazer, um prazer,
 um susto, uma cambalhota. Entre o ânimo e o desânimo,
 um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo.

Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado
 ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus,
 que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de 
tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração
 de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros.

 Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar 
ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. 
A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar
a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda,
 muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem
 sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos 
nem sentiremos mais tarde.

Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças.
 E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre.
 A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, 
onde todos somos alunos. 

Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós 
para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre
 uma impressão digital. A vida é um espaço e um tempo
 maravilhosos mas não se contenta com a contemplação.
 Ela exige reflexão. E exige soluções.

A vida é exigente porque é generosa. 
É dura porque é terna. 
É amarga porque é doce. 
É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós 
encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo. 
A vida é a mais séria das coisas divertidas.

Joaquim Pessoa, 
in 'Ano Comum'

domingo, 13 de janeiro de 2013

ÁRVORE DE INVERNO



Abandono de aves e de folhas
Ninguém já descansa à tua sombra.
só te resta a nua arquitetura
de ramos como braços de náufragos

Assim me enternecem
o teu frio, ausência de cor,
a tua penosa hibernação

Resignados, mas confiantes
ambos aguardamos
a ressurreição na primavera.

FERNANDO COUTO

sábado, 12 de janeiro de 2013

LABIRINTO



Não haverá nunca uma porta. Estás dentro
E o alcácer abarca o universo
E não tem nem anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor de teu caminho
Que teimosamente se bifurca em outro,
Que teimosamente se bifurca em outro,
Tenha fim. É de ferro teu destino
Como teu juiz. Não aguardes a investida
Do touro que é um homem e cuja estranha
Forma plural dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida.
Não existe. Nada esperes. Nem sequer
A fera, no negro entardecer.


Jorge Luis Borges
In Elogio da sombra (1969)
Tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

ÍMPAR



Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.

- Como quereis o equilíbrio?

David Mourão-Ferreira


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A ESTAÇÃO DAS LÁGRIMAS*



Quando a Estação das Lágrimas chegar;

Quando, diante do sal sobre seu rosto pairar
e a exata hora do terrível dia vier arder;

Quando, atrás ou adiante seu coração doído,
vir o cortinado de trevas a esconder a luz
dos seus olhos castanhos, verdes ou azuis;

Quando, sob o par de óculos de sol de Paris,
ou de esquinas do mais ermo pueril lugarejo,
não for capaz de esconder seu Luto e Pavor;

Quando tal Tempo – sempre cruel, fatal
e inesperado, tornar seu rosto disforme,
toldando-o de dores infames e sem cor;

Quando seu mais caro e próximo parente
ou amigo, aquele do peito, na Primavera
da Juventude ou Inverno da Velhice se for;

Quando a Estação das Lágrimas invadir
seus olhos vivos, tornando-se senhora voraz
do seu infante ou vetusto completo Ser:

Não adianta conselheiros sair a procurar.
Não perca seu tanto ou escasso tempo
a lhes escutar; a maior atenção lhes dar...

Não dê, alma e ouvidos, às suas tantas e tontas
palavras. Não àqueles esmerados fanáticos
(e não são poucos), no tão solícito consolar!

Antes, busque aqueles (e são poucos) que,
com discreta, sóbria e solene humildade,
lhe sussurram a clara Harmonia do Silêncio.

Aqueles que, com simples e suficientes frases,
sem nada querer, ou tanto se fazer escutar,
antes do Abraço Silente dizem carinhosamente:
“Não sei o quê falar!”

Estes são aqueles capazes de lhe ofertar alento;
de dar-lhe o primo, mais caro; necessário Silêncio,
enquanto, e sempre, que a Estação das Lágrimas
cobrir seu rosto com a ausência do calor franco.

Estes são aqueles que hão de ajudá-lo a curar
suas feridas sem Sal – até que seus olhos tornem
a suportar o Sol – que para nem todos se levanta;
para aqueles que nem sempre os sinos dobram!

Estes são aqueles que, na Estação das Lágrimas,
saberão a exata medida do Abraço à Dor Alheia
sem jamais esperar ou aventar qualquer Gratidão.

Então, enquanto o rio recebe o quê lhe cabe
da Estação das Lágrimas, em conduta a oceanos
vários, lembre-se que “Não sei o quê falar!”
diz Tudo que precisa ouvir durante o Abraço:

Tudo e Mais que irá aliviar seu cansaço; o peso
da sua Dor e Desespero – que, por anos, saberão
a fel e Amargo Desterro n’A Terra dos Homens.

Nada é mais necessário e sublime que isso; nada
melhor que, perdido no Tempo Efêmero da Vida,
lhe soará como acalanto capaz de a todos conceder
a Alforria da Terra!

Foi o quê aprendi da Estação das Lágrimas:
Tudo Preciso: na hora fatal da Lavoura Arcaica;
quando à Terra devolvi meus Pais e Filho!

Além de, à distância, ‘dizer’ adeus à Senhora:
Aquela – última guardiã, cúmplice e escrivã
das minhas Memórias de Infância, Juventude
e Velhice: Madrinha e Operária da Luz...

*Jairo De Britto - São Paulo, Capital.
(25 de Outubro - 15 de Novembro de 2012)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

II



A flor abriu nos caminhos do abismo.
 
Mãos desfeitas colheram-na
nos caminhos do abismo,
e as pétalas inocentes não murcharam.
 
A flor azul abriu no deserto silente.
 
Mãos crispadas colheram-na
no deserto silente
e as pétalas virginais não se crestaram.
 
A flor azul abriu no píncaro alto e puro.
 
Mãos sagradas colheram-na
no píncaro alto e puro,
e as pétalas miraculosas não tombaram.
 
E nos caminhos tristes,
no deserto,
no píncaro,
 
os Poetas cantaram. . . 
 
 
Tasso da Silveira
In: Puro Canto

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

RETRATO DE MULHER TRISTE



Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles,
in 'Poemas'

domingo, 6 de janeiro de 2013

A LÁGRIMA QUE SE ACUMULA...



A lágrima que se acumula e tolda momentaneamente a vida
é apenas uma pétala dessa grande árvore submersa
onde estão tempos,figuras,palavras ditas e ouvidas,
gestos,esforços,renúncias,insônias,misericórdias.

O suspiro é uma brisa paciente que deixa cair tudo isso
ai! que deixa cair tudo isso em grandes vales de silêncio.

Outras lágrimas se sucedem, nessas tristes, intermináveis
[primaveras].

E assim vamos, até a morte, sem esquecimento possível,
e só valemos pela posição que ocupamos nesse fantástico espetáculo.

Cecília Meireles
In Poesia Completa

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

EFEMÉRIDES



(POEMA DE DEZEMBRO)

Dezembro acende as luzes
em ricos pinheiros de natal.
Mas é naquela árvore
solitária nas grotas
ou à beira da estrada
que se agregam os bem-te-vis
e tagarelam as maritacas.

Mangueiras, perobas, flamboyants -
ao pássaro tanto faz:
folhagens são mimos anônimos. 

(Eu insisto em um Deus
que se ergue em tronco
e esparrama os braços
para acolher os seus.)

Fernando Campanella

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

NO CORAÇÃO, TALVEZ



No coração, talvez, ou diga antes:
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta.
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.

José Saramago,
in Os Poemas Possíveis

ESPAÇO CURVO E FINITO



Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.

José Saramago,
in OS POEMAS POSSÍVEIS

RECEITA PARA UM NATAL



Primeiro,ficar parado
durante um momento,de pé
ou sentado, numa sala ou mesmo
noutra dependência do lar.
Depois preparar
os olhos, as mãos, a memória
e outros utensílios indispensáveis. A seguir
começar a reunir
coisas, por ordem bem do interior
do coração e do pensamento:
a ternura dos avós, uma mancheia;
rostos de primos distantes, uma pitada;
sons de sinos ao longe, quanto baste;
a recordação duma rua, uns bocadinhos
um velho livro de quadrinhos
duas angústias mais tardias, alguns restos de azevias,
a lembrança de vizinhos ainda vivos mas ausentes
e de uns já passados.
Quatro beijos de seres amados ou de parentes
um cachecol de boa lã cinzenta aos quadrados
e um pouco de azeite puro e fresco
igual ao que a mãe usava noutro tempo saudoso.
Mexe-se bem,leva-se ao forno
e fica pronto e saboroso

- mesmo que, nostálgica, se solte uma pequena lágrima.

Nicolau Saião
In Olhares Perdidos

CITAÇÃO



"Na essência somos iguais, 
nas diferenças nos respeitamos."

Agostinho

domingo, 16 de dezembro de 2012

POSTERIDADE



Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.


Rui Knopfli
"Mangas verdes com sal"

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

HAVIA UMA PALAVRA


Havia
uma palavra
no escuro.
Minúscula.Ignorada.

Martelava no escuro.
Martelava
no chão da água.

Do fundo do tempo,
martelava.
contra o muro.

Uma palavra.
No escuro
Que me chamava.


EUGÉNIO DE ANDRADE,
in CHUVA SOBRE O ROSTO

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

POÉTICA



De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

Vinicius de Moraes

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O HOMEM QUE CONTEMPLA




Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.
E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.
Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

RAINER MARIA RILKE
In O Livro das Imagens, 1902 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

domingo, 9 de dezembro de 2012

VOCÊ E O SEU RETRATO




Por que tenho saudade
de você, no retrato,
ainda que o mais recente?

E por que um simples retrato,
mais que você, me comove,
se você mesma está presente?

Talvez porque o retrato,
já sem o enfeite das palavras,
tenha um ar de lembrança.

Talvez porque o retrato
(exato, embora malicioso)
revele algo de criança
(como, no fundo da água,
um coral em repouso).

Talvez pela idéia de ausência
que o seu retrato faz surgir
colocado entre nos dois

(como um ramo de hortênsia).

Talvez porque o seu retrato,
embora eu me torne oblíquo,
me olha, sempre, de frente

(amorosamente)

Talvez porque o seu retrato
mais se parece com você
do que você mesma (ingrato).

Talvez porque, no retrato
você está imóvel.

(sem respiração...)

Talvez porque todo retrato
é uma retratação.

Cassiano Ricardo,
in A Difícil Manhã

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

POEMA DA CURVA

(Museu do olho - Curitiba.
Obra de Oscar Niemeyer)

“Não é o ângulo reto que me atrai.
Nem a linha reta, dura, inflexível,
    criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e
    sensual. 
A curva que encontro nas
    montanhas do meu país, 
no curso sinuoso dos seus rios,
nas nuvens do céu, 
no corpo da mulher amada.
De curvas é feito todo o universo.
O universo curvo de Einstein.”

Oscar Niemeyer
 (Fevereiro de 1988)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

FLOR DE CACTO



Flor de cacto, flor que se arrancou
À secura do chão.
Era aí o deserto, a pedra dura,
A sede e a solidão.
Sobre a palma de espinhos, triunfante,
Flor, ou coração?

José Saramago
In Provavelmente Alegria


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

MUSICA PARA UM HINO



É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!

É possível viver de outro modo.
É possível transformar em arma a tua mão.
É possível viver o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser LIVRE, LIVRE, LIVRE.

Manuel Alegre
in O CANTO E AS ARMAS

domingo, 2 de dezembro de 2012

AS DÁDIVAS DO AMANTE



Deu-lhe a mais limpa manhã
Que o tempo ousara inventar.
Deu-lhe até a palavra lã,
E mais não podia dar.

Deu-lhe o azul que o céu possuía
Deu-lhe o verde da ramagem,
Deu-lhe o sol do meio dia
E uma colina selvagem.

Deu-lhe a lembrança passada
E a que ainda estava por vir,
Deu-lhe a bruma dissipada
Que conseguira reunir.

Deu-lhe o exato momento
Em que uma rosa floriu
Nascida do próprio vento;
Ela ainda mais exigiu.

Deu-lhe uns restos de luar
E um amanhecer violento
Que ardia dentro do mar.

Deu-lhe o frio esquecimento
E mais não podia dar.

Carlos Pena Filho
In:"Os Melhores poemas" 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

POSSIBILIDADES



Prefiro cinema. 
Prefiro os gatos. 
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta. 
Prefiro Dickens a Dostoievski. 
Prefiro-me gostando de homens 
em vez de estar amando a humanidade. 
Prefiro ter uma agulha preparada com linha. 
Prefiro a cor verde. 
Prefiro não afirmar 
que a razão é culpada de tudo. 
Prefiro as excepções. 
Prefiro sair mais cedo. 
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa. 
Prefiro as velhas ilustrações listradas. 
Prefiro o ridículo de escrever poemas 
ao ridículo de não os escrever. 
No amor prefiro os aniversários não redondos 
para serem comemorados cada dia. 
Prefiro os moralistas, 
que não prometem nada. 
Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais. 
Prefiro a terra à paisana. 
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores. 
Prefiro ter objecções. 
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem. 
Prefiro os contos de fadas de Grimm às manchetes de jornais. 
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas. 
Prefiro os cães com o rabo não cortado. 
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros. 
Prefiro as gavetas. 
Prefiro muitas coisas que aqui não disse, 
a outras tantas não mencionadas aqui. 
Prefiro os zeros à solta 
a tê-los numa fila junto ao algarismo. 
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas. 
Prefiro isolar. 
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando. 
Prefiro levar em consideração até a possibilidade 
do ser ter a sua razão.

WISLAWA SZYMBORSKA
Tradução: Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves ,
de Alguns gostam de poesia- Antologia