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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

MARIA



Maria, há tanta Maria
cantando na minha vida.
Maria cheia de graça,
Maria cheia de vida.

Andei mundo, rodei terra,
cruzei os mares que havia
e, em cada canto da terra,
o amor eu tive, Maria.

Na vida que Deus me deu,
deu-me tudo o que eu queria:
deu-me esperança e me deu
o amor que eu sempre amaria.

Eis por que sempre há Maria
mariando na minha vida.
Maria cheia de graça,
Maria cheia de vida. 

Gilberto Mendonça Teles

CHÁ DAS CINCO




para Jorge Amado 

Chá de poejo para o teu desejo 
chá de alfavaca já que a carne é fraca 
chá de poaia e rabo de saia 
chá de erva-cidreira se ela for solteira 
chá de beldroega se ela foge ou nega 
chá de panela para as coisas dela 
chá de alecrim se ela for ruim 
chá de losna se ela late ou rosna 
chá de abacate se ela rosna ou late 
chá de sabugueiro para ser ligeiro 
chá funcho quando houver caruncho 
chá de trepadeira para a noite inteira 
chá de boldo se ela pedir soldo 
chá de confrei se ela for de lei 
chá de macela se não for donzela 
chá de alho para um ato falho 
chá de bico quando houve fuxico 
chá de sumiço quando houver enguiço 
chá de estrada se ela for casada 
chá de marmelo quando houver duelo 
chá de douradinha se ela for gordinha 
chá de fedegoso pra mijar gostoso 
chá de cadeira para a vez primeira 
chá de jalapa quando for no tapa 
chá de catuaba quando não se acaba 
chá de jurema se exigir poema 
chá de hortelã e até amanhã 
chá de erva-doce e acabou-se 

(pelo sim pelo não 
chá de barbatimão) 


Gilberto Mendonça Teles

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

HINO À NOITE



Ó noite, eu te desejo, e anseio o teu abraço
macio como o luar, quieto como o jazigo.
A fadiga me esvai, domina-me o cansaço,
como um boêmio feliz eu vim dormir contigo.
De sonho em sonho andei.Fui poeta, fui mendigo.
Corri atrás do tempo e me perdi no espaço
e vi se desfazer meu pensamento antigo
e em sangue transformar-se a sombra do meu passo.
Um dia, a procurar-te, olhei para o poente:
na estrada solidão da tarde, impertinente,
um pássaro de sol crepusculava a esmo.
Então eu te encontrei e, em meu triste abandono,
meus olhos disfarcei na volúpia do sono
e caminhei cantigo em busca de mim mesmo.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

PLURAL DE NUVENS



Se há um plural de nuvens e se há sombras
projetadas no texto das cavernas,
por que não mergulhar, tentar nas ondas
a refração dos peixes e das pedras?

Há sempre alguma névoa, um lado obscuro
que atravessa o poema. Há sempre um saldo
de formas laterais, um como escudo
que não resiste muito a teu assalto.

Se alguma luz na contraluz se esbate,
se há no curso dos dias sol e vento,
talvez na foz do rio outra cidade
venha no teu olhar amanhecendo.

Importa é caminhar, colher florzinhas,
somar os ( im ) possíveis e parcelas,
criar no tempo algumas coisas findas,
algumas ilusões e primaveras.

Importa é ler de perto a cavidade
das nuvens e espiar os seus não-ditos:
o mais são armas para o teu combate,
falsos alarmes para os teus sentidos.


Gilberto Mendonça Teles
In Plural das Nuvens


terça-feira, 17 de julho de 2012

SIMPLICIDADE



Tudo é tão simples nesta vida e fica
às vezes tão confuso ou tão bisonho
que a linguagem das coisas se duplica
ante os olhos atônitos de sonho.
E essa simplicidade, clara e rica
de sensações indefiníveis, ponho
no pensamento real que frutifica
na ambiguidade em que me decomponho.
Mas o cenário vai mudando. E a vida
se lança calma e convenientemente
na foz do tempo. E eu continuo , a esmo,
minha jornada interrompida,
procurando o horizonte inexistente
na planície impossível de mim mesmo.


Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos