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domingo, 1 de fevereiro de 2015

PELAS LARGAS JANELAS ENTRA A NOITE...





Pelas largas janelas entra a noite quieta e um cheiro de frutos maduros,
Pelas janelas abertas chega até nós um perfume frio de estrelas.
Pelas janelas abertas penetra a mansa poesia dos caminhos, das
viagens noturnas com pássaros dormindo nas ramadas...

Oh!o sossego do lampião na mesa tosca,
E o sorriso do amor sobre os postais da parede!

Onde a música não chega, aí estaremos.
Onde o repouso se estender nascendo pelas madrugadas aí estaremos.
Estaremos confundidos pelos ramos virginais e pela nudez das campinas.

Estaremos misturados com os passarinhos das cercas.
Os ruídos dos trens cortarão nossos ouvidos.
Mas as nostalgias não estarão mais em nós,
Porque seremos simples como a noite,
Como a grande noite resinosa e infinita.

Augusto Frederico Schmidt,
in Coleção Melhores Poemas,
 seleção de Ivan Marques


ONDE ESTÃO

   



Onde estão as chaves
Que abriam os portões
Os quartos, as portas das casas
De outrora?

Onde estão as chaves?

Onde estão as casas
As chácaras, os sobrados,
Os pequenos quintais,
Os "chalets"
De outrora?

Onde estão as casas?

Onde estão os seres
Que esperávamos
Ansiosos
Na antecipação da infância?

Onde estão os seres?

Onde estão as amadas
Com as suas bolsas escolares
As suas merendas
E os seus segredos?

Onde estão as amadas?

Onde estão os medos...
Os pecados
Inconfessáveis
Os pressentimentos
As mãos inquietas
Pousando sobre
O incerto destino?

Onde estão os medos?

- Tudo isso se foi
Pelo caminho do frio.

Augusto Frederico Schmidt

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

PEQUENA IGREJA



Eu queria louvar-te, pequena e humilde igreja
Desta cidadezinha que está morrendo.
Eu queria agradecer-te a compreensão que me deste
Das coisas humildes e eternas.

Eu queria saber cantar a tua tranqüilidade
E a tua pura beleza,
Ó igreja da roça, adormecida diante do jardim cheio de rosas!
Ó pequena casa de Jesus Cristo, irmã das outras casas solenes
e graves.
Escondida e modesta, com as tuas torres e os teus sinos
Que sabem encher o ar matinal com um tão doce apelo,
E no instante vesperal lembram que é hora de dormir para a
grande família dos passarinhos inquietos,
Dos passarinhos que tumultuam o pobre jardim cheio de flores!

Augusto Frederico Schmidt
In ‘Estrela solitária’ (1940).

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

SONETO



Só preciso de poesia.
Não quero mais nada,
Não quero sorrisos,
Nem luxo, nem fama,

Nem bruxas, nem bodas
nem gritos de guerra,
Nem doidos volteios
Nas danças sensuais.

Só aspiro poesia. Poesia
E silêncio. No mundo fechado,
No escuro do tempo.

A luz da poesia é como a semente
Que na terra morre e logo apodrece,
E na vida renasce em flores e frutos.


Augusto Frederico Schmidt
In Um século de Poesia

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

PRIMAVERA II




Dia para quem ama
Dia límpido e claro!
O azul do céu, o azul da terra, o azul do mar!
Dia para quem é feliz e sem tormento
Dia para quem ama e não sofre de amor!
Dia para as felicidades inocentes.

Em mim, a mocidade acordou violentamente
Porque o sol expulsou as trevas e inundou-me!
Uma pulsação de vida enche meu ser doentio e incerto.

Vejo as águas correndo
Vejo a vida e o espaço
Vejo as matas e as grandes cidades líricas
Vejo os vergéis em flor!
É a primavera! É a primavera!
Desejo de tudo abandonar e sair cantando pelos caminhos!

Augusto Frederico Schmidt
In: UM SÉCULO DE POESIA

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

DE REPENTE OS SINOS!



De repente os sinos!

Inesperadamente
No meio da noite
Sinos tocando!
De todas as direções
Estão chegando vozes de sinos!
Sinos do sul
Sinos da noite,
Sinos das cidades
Surgindo das brumas,
Molhados das chuvas.
Sinos roucos
Cobertos de neve.
Sinos abafados,
Vozes sufocadas.
Sinos quentes,
Sinos juvenis,
Sinos claros,
Trazendo nas vozes
Os tons dos lilases,
Sinos que parecem 
De tão delicados
Feitos para as rosas
Despertar do sono.
Sinos das montanhas,
Sinos da agonia,
Sinos das tormentas
Sinos das tragédias.
Pungentes tangentes
Sinos tão alegres,
Vibrando e cantando,
Sinos me acordando,

De repente, os sinos!

Augusto Frederico Schmidt





VAZIO



A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, 
que é preciso contentar.


Augusto Frederico Schmidt, 
in Pássaro cego (1930).

domingo, 15 de setembro de 2013

'O AMOR'



O amor é frágil
O amor é humilde
O amor é claro
O amor é simples
O amor se vai
Foge e se perde
Subitamente
De repente
O amor é insólito
E inseguro
Surge e se esvai
É cinza 
É ouro
É ardência, é fogo
E é nada


Augusto Frederico Schmidt
In Um século de poesia

'PRIMAVERA I'



VEREI A PRIMAVERA se encaminhar com o seu chapéu de 
palha e o seu róseo vestido
Pelas ruas amigas, perto da casa em que mora.
Verei o teu rosto se tingir com a poeira dos ocasos
E tuas mãos morenas se balançarem tênues sob a água das cascatas
Longe das ingratidões, das lutas, dos equívocos de todo dia.
Os cisnes se confiarão como nos tempos calmos.
As violetas distantes sorrirão com as terras úmidas e grávidas.
Os pássaros, os ninhos vão cantar!
Verei chegar o teu vestido e te confundirei com a Primavera.
Seguirei com a Primavera pelas ruas.
Os circos vão pousar como pássaros enormes.
Primavera! Primavera!
O amor vai renascer nos campos
E as amadas dormirão cobertas pelos azuis sem fim.


Augusto Frederico Schmidt
In: UM SÉCULO DE POESIA

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A ALMA



Às vezes eu sinto – minha alma
Bem viva.
Outras vezes porém ando erradio,
Perdido na bruma, atraído por todas as distâncias.

Às vezes entro na posse absoluta de mim mesmo
E a minha essência é alguma coisa de palpável
E de real.
Outras vezes porém ouço vozes chamando por mim,
Vozes vindas de longe, vozes distantes que o vento traz nas tardes mansas.

Sou o que fui ...
Sou o que serei ...

Às vezes me abandono inteiramente a saudades estranhas
E viajo por terras incríveis, incríveis.
Outras vezes porém qualquer coisa à-toa –
O uivo de um cão na noite morta,
O apito de um trem cortando o silêncio,
Uma paisagem matinal,
Uma canção qualquer surpreendida na rua – 
Qualquer coisa acorda em mim coisas perdidas no tempo
E há no meu ser uma unidade tão perfeita
Que perco a noção da hora presente, e então

Sou o que fui.
E sou o que serei.

Augusto Frederico Schmidt
in Poesias Completas

quarta-feira, 27 de junho de 2012

QUANDO EU MORRER



Quando eu morrer o mundo continuará o mesmo,
A doçura das tardes continuará a envolver as coisas todas.
Como as envolve agora neste instante.
O vento fresco dobrará as árvores esguias
E levantará as nuvens de poesia nas estradas...

Quando eu morrer as águas claras dos rios rolarão ainda,
Rolarão sempre, alvas de espuma
Quando eu morrer as estrelas não cessarão de acender-se
no lindo céu noturno,
E nos vergéis onde os pássaros cantam as frutas
continuarão a ser doces e boas.

Quando eu morrer os homens continuarão sempre os mesmos.
E hão de esquecer-se do meu caminho silencioso entre eles,
Quando eu morrer os prantos e as alegrias permanecerão
Todas as ânsias e inquietudes do mundo não se modificarão.
Quando eu morrer os prantos e as alegrias permanecerão.
Todas as ânsias e inquietudes do mundo não se modificarão.
Quando eu morrer a humanidade continuará a mesma.
Porque nada sou, nada conto e nada tenho.
Porque sou um grão de poeira perdido no infinito.

Sinto porém, agora, que o mundo sou eu mesmo
E que a sombra descerá por sobre o universo vazio de mim
“Quando eu morrer...”


Augusto Frederico Schmidt

In "Nova Antologia Poética"

domingo, 22 de abril de 2012

SOU O QUE SEREI





Às vezes me abandono inteiramente a saudades
estranhas
E viajo por terras incríveis, incríveis.
Outras vezes porém qualquer coisa à-toa –
O uivo de um cão na noite morta,
O apito de um trem cortando o silêncio,
Uma paisagem matinal,
Uma canção qualquer surpreendida na rua –
Qualquer coisa acorda em mim coisas perdidas no tempo
E há no meu ser uma unidade tão perfeita
Que perco a noção da hora presente, e então

Sou o que fui.
E sou o que serei.


Augusto Frederico Schmidt