Mostrando postagens com marcador Fernando Pessoa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fernando Pessoa. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

OLHA-ME RINDO UMA CRIANÇA


Olha-me rindo uma criança
E na minha alma madrugou.
Tenho razão, tenho esperança
Tenho o que nunca bastou.

Bem sei. Tudo isto é um sorriso
Que e nem sequer sorriso meu.
Mas para meu não o preciso
Basta-me ser de quem mo deu.

Breve momento em que um olhar
Sorriu ao certo para mim...
És a memória de um lugar,
Onde já fui feliz assim.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

FERNANDO PESSOA




" Nascemos sem saber falar e morremos 
sem ter sabido dizer .
Passa-se nossa vida entre o silêncio de quem
está calado e o silêncio de quem não foi
entendido , e em torno disto , como uma abelha
em torno de onde não há flores , paira incógnito
um inútil destino ."

Fernando Pessoa , 
in " No jardim de Epícteto "





quinta-feira, 25 de junho de 2015

PAIRA À TONA DE ÁGUA




Paira à tona de água 
Uma vibração, 
Há uma vaga mágoa 
No meu coração.

Não é porque a brisa 
Ou o que quer que seja 
Faça esta indecisa 
Vibração que adeja, 

Nem é porque eu sinta 
Uma dor qualquer. 
Minha alma é indistinta, 
Não sabe o que quer. 

É uma dor serena, 
Sofre porque vê. 
Tenho tanta pena! 
Soubesse eu de quê!...”

*Fernando Pessoa*
Em “Poesias”, Lisboa, Ed. Ática, 1942.


quinta-feira, 28 de maio de 2015

TENHO TANTO SENTIMENTO





Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.”

Fernando Pessoa
Em “Cancioneiro”

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

PARA ALÉM DA CURVA DA ESTRADA...




Para além da curva da estrada 
talvez haja um poço, e talvez um castelo, 
e talvez apenas a continuação da estrada. 
Não sei nem pergunto. 
Enquanto vou na estrada antes da curva 
só olho para a estrada antes da curva, 
porque não posso ver senão a estrada antes da curva. 
De nada me serviria estar olhando para outro lado 
e para aquilo que não vejo. 
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos. 
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer. 
Se há alguém para além da curva da estrada, 
esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada. 
Essa é que é a estrada para eles. 
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos. 
Por ora só sabemos que lá não estamos. 
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva 
há a estrada sem curva nenhuma. 


Alberto Caeiro, em "Poemas Inconjuntos" 
Heterônimo de Fernando Pessoa

sábado, 24 de janeiro de 2015

OLHA-ME RINDO UMA CRIANÇA



Olha-me rindo uma criança
E na minha alma madrugou. 
Tenho razão, tenho esperança 
Tenho o que nunca bastou.

Bem sei. Tudo isto é um sorriso 
Que e nem sequer sorriso meu. 
Mas para meu não o preciso 
Basta-me ser de quem mo deu.

Breve momento em que um olhar 
Sorriu ao certo para mim... 
És a memória de um lugar, 
Onde já fui feliz assim.



Fernando Pessoa



sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

COMEÇAR HOJE O ANO




Nada começa.Tudo continua.
Onde ‘stamos, que vemos só passar?
O dia muda, lento, no amplo ar;
Múrmura, em sombras, flui a água nua.

Vem de longe,
Só nosso vê-las teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
È abismo o começo e ausência.

Nenhum ano começa. É Eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna Idade,
Precipício de Deus sobre o momento,

Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo: e verbo o pensamento.

Fernando Pessoa, Poesia
In Poemário - Assírio e Alvim - 2007

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

RITOS QUE AS HORAS CALMAS...




Ritos que as Horas Calmas 
      Ao entardecer 
Fazem com as almas 
      Sem se conhecer... 
E que em voos de ânsias 
      Põem espirituais distâncias 
Entre olhar e ver.

Turíbulos que a Tarde 
      Oscila no ar 
Donde a névoa arde 
      Cor desde cansar... 
Arco dos balanceados 
Turíbulos os raios do sol fechados 
      Na destreza do ar

Fim de missas no Poente 
      Bênçãos ainda são 
Luz branca e cinzas entre 
      Terra e coração 
Saem os fiéis p’la aberta 
Porta da paisagem que se deserta... 
      ...Sinos sem perdão...


 
Fernando Pessoa
In Poesia 1902/1917


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

TRISTEZA




Falo-me em versos tristes,
Entrego-me a versos cheios 
De névoa e de luar;
E esses meus versos tristes
São tênues, céleres veios
Que esse vago luar
Se deixa pratear.

Sou alma em tristes cantos,
Tão tristes como as águas 
Que uma castelã vê
Perderem-se em recantos
Que ela em soslaio, de pé,
No seu castelo de prantos
Perenemente vê. . .
Assim as minhas magoas não domo
Cantam-me não sei como
E eu canto-as não sei porquê.


Fernando Pessoa
Em Poesia do Eu
- Obra essencial de Fernando Pessoa





quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A CRIANÇA QUE RI NA RUA




A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo —
Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer coisa de amor,
Ainda que o amor seja mudo.

FERNANDO PESSOA,
in POESIAS INÉDITAS


terça-feira, 2 de setembro de 2014

ESTÁS SÓ.




Estás só. Ninguém o sabe.
Estás só.
Ninguém o sabe.
Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada

Fernando Pessoa (Ricardo Reis)
in Poemas de Ricardo Reis

(1888-1935)

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

'XII PRECE'



Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil, 
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda. 
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode ergue-la ainda. 

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia-
Com que a chama do esforço se remoça, 
E outra vez conquistaremos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa! 


Fernando Pessoa
in 'Mensagem'

sábado, 23 de agosto de 2014

DEPUS A MÁSCARA



Depus a máscara e vi-me ao espelho. — 
Era a criança de há quantos anos. 
Não tinha mudado nada... 
É essa a vantagem de saber tirar a máscara. 
É-se sempre a criança, 
O passado que foi 
A criança. 
Depus a máscara, e tornei a pô-la. 
Assim é melhor, 
Assim sem a máscara. 
E volto à personalidade como a um términus de linha. 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

A CRIANÇA QUE FUI CHORA NA ESTRADAa


I

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.


Fernando Pessoa
in Novas Poesias Inéditas.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

GUARDADOR DE REBANHOS


"...

Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr do sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria o fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

..."

Fernando Pessoa -
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos

O GUARDADOR DE REBANHOS


"Se às vezes digo que as flores sorriem
Se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque sou só essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.
É a Natureza a despertar!"

Fernando Pessoa -
(Alberto Caeiro) in O Guardador de Rebanhos


NÉVOA...



"Névoa... A manhã é névoa e o dia é este...
Que quero eu dele ou ele quer de mim?
Quero que a minha angústia nada ateste
De si, nem de quem quer um fim...

Quero que a manhã seja como é,
Porque o seria sem o eu querer;
E que eu tenha esse resto vil de fé
Que é ainda querer viver..."

Fernando Pessoa
in Poesia


terça-feira, 3 de junho de 2014

ENTRE O LUAR E A FOLHAGEM...


Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Tênue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade,
Atrai e doi.
Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Não é nem faz,
Só de segui-lo me perdi.

Fernando Pessoa
In Cancioneiro


DIZES-ME



Dizes-me: tu és mais alguma cousa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?
Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.
Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.
Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.


Fernando Pessoa
In Poemas Inconjuntos

domingo, 5 de janeiro de 2014

FERNANDO PESSOA




"Tudo se me evapora. A minha vida inteira,
as minhas recordações,a minha imaginação e o que
contém, a minha personalidade, tudo se me evapora.
Continuamente sinto que fui outro, que senti outro,
que pensei outro. Aquilo a que assisto é um
espectáculo com outro cenário.
E aquilo a que assisto sou eu."

Fernando Pessoa