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terça-feira, 25 de novembro de 2014

DOIS E DOIS SÃO QUATRO




Como dois e dois são quatro 
Sei que a vida vale a pena 
Embora o pão seja caro 
E a liberdade pequena 
Como teus olhos são claros 
E a tua pele, morena 
como é azul o oceano 
E a lagoa, serena 




Como um tempo de alegria 
Por trás do terror me acena 
E a noite carrega o dia 
No seu colo de açucena 



- sei que dois e dois são quatro 
sei que a vida vale a pena 
mesmo que o pão seja caro 
e a liberdade pequena.



Ferreira Gullar







domingo, 6 de abril de 2014

É VELHO O SOL DESTE MUNDO...



É velho o sol deste mundo; 
velha, a solidão da palavra, 
a solidão do objeto; 
e o chão - o chão onde os pés 
caminham. 
Donde o pássaro voa para a árvore. 
Ferreira Gullar 
In "A Luta Corporal e Outros Poemas"

sábado, 21 de julho de 2012

APRENDIZADO



Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

Ferreira Gullar
In Barulhos

sexta-feira, 6 de julho de 2012

TRADUZIR-SE



Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


Ferreira Gullar
In: Na Vertigem do Dia

terça-feira, 5 de junho de 2012

LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS



Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade

O tempo fora de mim
é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
_dura eternamente
enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)


Ferreira Gullar
in Muitas Vozes

quarta-feira, 9 de maio de 2012

CANTIGA PARA NÃO MORRER



Quando você for se embora,

moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.



Ferreira Gullar,
in De Dentro da Noite Veloz