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terça-feira, 15 de abril de 2014

RESSALVA


Versos... não 
Poesia... não 
um modo diferente de contar velhas histórias 

Cora Coralina 
In ‘Poemas dos Becos de Goiás’ (1965)



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O CHAMADO DAS PEDRAS



A estrada está deserta.
Vou caminhando sozinha.
Ninguém me espera no caminho.
Ninguém acende a luz.
A velha candeia de azeite
de lá muito se apagou.

Tudo deserto.
A longa caminhada.
A longa noite escura.
Ninguém me estende a mão.
E as mãos atiram pedras.
Sozinha...
Errada a estrada.
No frio, no escuro, no abandono.
Tateio em volta e procuro a luz.
Meus olhos estão fechados.
Meus olhos estão cegos.
Vêm do passado.

Num bramido de dor.
Num espasmo de agonia
Ouço um vagido de criança.
É meu filho que acaba de nascer.

Sozinha...
Na estrada deserta,
Sempre a procurar
o perdido tempo que ficou pra trás.

Do perdido tempo.
Do passado tempo
escuto a voz das pedras:

Volta...Volta...Volta...
E os morros abriam para mim
Imensos braços vegetais.

E os sinos das igrejas
Que ouvia na distância
Diziam: Vem... Vem... Vem...

E as rolinhas fogo-pagou
Das velhas cumeeiras:
Porque não voltou...
Porque não voltou...
E a água do rio que corria
Chamava...chamava...

Vestida de cabelos brancos
Voltei sozinha à velha casa deserta.


CORA CORALINA
In Meu Livro de Cordel, 1998







 

terça-feira, 5 de março de 2013

POEMINHA AMOROSO



Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo..."

Cora Coralina

quarta-feira, 11 de julho de 2012

TODAS AS VIDAS



Vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho, olhando pro fogo.
benze quebranto, bota feitiço, ogum orixá.
macumba, terreiro, ogã, pai-de-santo.

Vive dentro de mim a lavadeira do rio vermelho,
seu cheiro gostoso d'água e sabão
rodilha de pano, trouxa de roupa, pedra de anil
sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim a mulhar cozinheira, pimenta e cebola
quitute bem feito, panela de barro, taipa de lenha
cozinha antiga, toda pretinha, bem cacheada de picumã
pedra pontuda, cumbuco de coco, pisando alho-sal.

Vive dentro de mim, a mulher do povo
bem proletária, bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa,
de chinelinha e filharada.

Vive dentro de mim a mulher roceira - enxerto da terra,
meio casmurra, trabalhadeira,
madrugadeira, analfabeta, de pé no chão
bem parideira, bem criadeira
seus doze filhos, seus vinte netos.

Vive dentro de mim a mulher da vida
minha irmãzinha, tão desprezada, tão murmurada
fingindo alegre seu triste fardo.
Todas as vidas dentro de mim:
na minha vida - a vida mera das obscuras.

Cora Coralina 

sábado, 30 de junho de 2012

DAS PEDRAS



Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos

Cora Coralina