Mostrando postagens com marcador Cecília Meireles. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cecília Meireles. Mostrar todas as postagens

sábado, 25 de abril de 2015

POEMA 16



Arte de Leonid Afremov


Sono sobre a chuva
que, entre o céu e a terra,
tece a noite fina.

Tece-a com desenhos
de amigos que falam,
de ruas que voam,
de amor que se inclina,

de livros que se abrem,
de face incompleta
que, inerme, deplora
com palavras mudas
e não raciocina...

Sobre a chuva, o sono:
tão leve, que mira
todas as imagens
e ouve, ao mesmo tempo,
longa, paralela,
a canção divina

dos fios imensos
que, nos teares de água,
entre o céu e a terra,
o tempo separa 
e a noite combina.


Cecília Meireles
In Metal Rosicler





domingo, 22 de março de 2015

DO MEU OUTONO




O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...


O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
E eu sofro a angustia irremediável da paisagem...


O outono vai chegar... O outono vem tão cedo!
Irão morrer flores e estrelas, como as crianças
Tristes e mudas, que impressionam, fazem medo?


O outono vai chegar... Têm vozes do passado
As horas loiras, a cantarem vagarosas,
Com ressonâncias de convento abandonado...


Vozes de sonho, vozes lentas, do passado,
Falando coisas nebulosas, nebulosas...


O outono vai chegar, como um poeta descrente
Que funerais desilusórios acompanha...


O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...


O outono vai chegar... Neva a nevoa do outono...
E eu sofro a angustia irremediável da paisagem... 



Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)







RUA



Procuro a rua
que ainda me resta:
é longa, é alta,
não é essa.
Esqueço o nome,
por sono ou pressa:
é alta, é clara,
mas não é esta.
Em cada esquina
havia festa:
é clara, é vasta,
não é essa.
Nunca me lembro
onde começa:
é vasta, é longa,
mas não é esta.
Rua que não
se manifesta:
é longa, é alta,
não é essa.

Cecília Meireles,
in Poesia Completa
Sonhos


EXCERTO





(...) “Minha infância de menina sozinha deu-me duas 
coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas
para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área
de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios
inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os 
relógios revelaram o segredo do seu mecanismo,
e as bonecas o jogo do seu olhar. (...)

Cecília Meireles
in Obra Poética, Rio de Janeiro, Nova Aguillar





terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

CARNAVAL




Com os teus dedos feitos de tempo silencioso,
Modela a minha mascara, modela-a...
E veste-me essas roupas encantadas
Com que tu mesmo te escondes, ó oculto!

Põe nos meus lábios essa voz
Que só constrói perguntas,
E, à aparência com que me encobrires,
Dá um nome rápido, que se possa logo esquecer...

Eu irei pelas tuas ruas,
Cantando e dançando...
E lá, onde ninguém se reconhece,
Ninguém saberá quem sou,
À luz do teu Carnaval...

Modela a minha mascara!
Veste-me essas roupas!

Mas deixa na minha voz a eternidade
Dos teus dedos de silencioso tempo...
Mas deixa nas minhas roupas a saudade da tua forma...
E põe na minha dança o teu ritmo,
Para me conduzir...

Cecília Meireles
Dispersos (1918-1964)


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

COMPRAS DE NATAL




A cidade deseja ser diferente, escapar às suas fatalidades.
Enche-se de brilhos e cores; sinos que não tocam, balões que
não sobem, anjos e santos que não se movem, estrelas que
jamais estiveram no céu.

As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro:
enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de vidro, fios
de ouro e prata, cetins, luzes, todas as coisas que possam 
representar beleza e excelência.

Tudo isso para celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos,
deitado numas palhas, há cerca de dois mil anos, num abrigo 
de animais, em Belém.

Todos vamos comprar presentes para os amigos e parentes, 
grandes e pequenos, e gastaremos, nessa dedicação sublime, 
até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer a última 
nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime,
nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso.

Grandes e pequenos, parentes e amigos são todos de gosto
bizarro e extremamente suscetíveis. Também eles conhecem
todas as lojas e seus preços — e, nestes dias, a arte de 
comprar se reveste de exigências particularmente difíceis.
Não poderemos adquirir a primeira coisa que se ofereça à
nossa vista: seria uma vulgaridade. Teremos de descobrir
o imprevisto, o incognoscível, o transcendente. 
Não devemos também oferecer nada de essencialmente
necessário ou útil, pois a graça destes presentes parece
consistir na sua desnecessidade e inutilidade.
Ninguém oferecerá, por exemplo, um quilo (ou mesmo um saco) 
de arroz ou feijão para a insidiosa fome que se alastra por
 estes nossos campos de batalha; ninguém ousará comprar uma 
boa caixa de sabonetes desodorantes para o suor da testa com que 
— especialmente neste verão — teremos de conquistar o 
pão de cada dia. Não: presente é presente, isto é, um objeto
extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para coisa
alguma.

Por isso é que os lojistas, num louvável esforço de imaginação,
organizam suas sugestões para os compradores,
valendo-se de recursos que são a própria imagem da ilusão.
Numa grande caixa de plástico transparente
(que não serve para nada), repleta de fitas de papel celofane
(que para nada servem), coloca-se um sabonete em forma de flor
(que nem se possa guardar como flor nem usar como sabonete),
e cobra-se pelo adorável conjunto o preço de uma cesta de rosas. 
Todos ficamos extremamente felizes!

São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes os
estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, 
os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos
parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão.
E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. Durável
— apenas o Meninozinho nas suas palhas,
a olhar para este mundo.


Cecília Meireles
In: Quatro Vozes
Rio de Janeiro, 1998, pág. 80.








segunda-feira, 6 de outubro de 2014

CADA PALAVRA UMA FOLHA




Cada palavra uma folha
no lugar certo. 

Uma flor de vez em quando
no ramo aberto. 

Um pássaro parecia
pousado e perto.

Mas não: que ia e vinha o verso
pelo universo. 

Cecília Meireles.
de Metal Rosicler





sexta-feira, 3 de outubro de 2014

PERSONAGEM




Teu nome é quase indiferente 
e nem teu rosto já me inquieta. 
A arte de amar é exactamente 
a de se ser poeta. 

Para pensar em ti, me basta 
o próprio amor que por ti sinto: 
és a ideia, serena e casta, 
nutrida do enigma do instinto. 

O lugar da tua presença 
é um deserto, entre variedades: 
mas nesse deserto é que pensa 
o olhar de todas as saudades. 

Meus sonhos viajam rumos tristes 
e, no seu profundo universo, 
tu, sem forma e sem nome, existes, 
silêncio, obscuro, disperso. 

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome, 
teu coração, tua existência, 
tudo - o espaço evita e consome: 
e eu só conheço a tua ausência. 

Eu só conheço o que não vejo. 
E, nesse abismo do meu sonho, 
alheia a todo outro desejo, 
me decomponho e recomponho.

Cecília Meireles,
in 'Viagem'

MOTIVO




Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa. 
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia que estarei mudo:
- mais nada.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)


SE EU FOSSE APENAS. . .



Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida! 

Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
-de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa. . .


Cecilia Meireles
In: Retrato Natural


EU SOU ESSA PESSOA A QUEM O VENTO CHAMA



Eu sou essa pessoa, a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza.
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizonte libertada, mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me:não quereis ou não sabeis ser sonho?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

"Agora és livre, se ainda recordas."


Cecília Meireles
in 'Solombra'










NOTURNO DO AMOR



Vem de manso...de leve...e suave e doce
Como um silêncio estático de prece...
Que a sua vida seja tal qual fosse
Apenas a saudade que me viesse...

Vem de manso...Na névoa da penumbra,
Faze um gesto litúrgico de benção!
A alta noite tristíssima deslumbra
Dos meus olhos nostálgicos, que pensam...

Sugere, mas não fales...Porque a frase
É vã, no amor...Mistério...Sonolência...
O esquecimento, quase...A morte, quase...
Intuições...Irrealismo...Inconsciência...


Cecília Meireles,
In:"Mar absoluto"


DA SOLIDÃO




Estarei só. Não por separada, não por evadida.
Pela natureza de ser só.

No entanto, a multidão tem sua musica,
seu ritmo, seu calor,
e deve ser uma felicidade, às vezes,
ser na multidão o que o peixe é no oceano.
Ah! mas quem sabe das solidões que haverá nessas águas enormes!

Estarei só. Recordarei essas cidades, esses tempos.
Recordarei esses rostos. Pode ser que recorde
alguma palavra.
Nada perturbou o meu estar só. Por vezes, com o rosto nas mãos,
pode ser que sentisse como os desertos amontoavam suas areias
entre meu pensamento e o horizonte.
Mas o deserto tem sua musica,
seu ritmo, seu calor.

Era uma solidão que outrora se levava nos dedos,
como a chave do silencio. Uma solidão de infância
sobre a qual se podia brincar,
como sobre um tapete.
Uma solidão que se podia ouvir, como quem olha para as arvores,
onde há vento.
Uma solidão que se podia ver, provar, sentir,
pensar, sofrer, amar, 
uma solidão como um corpo, fechado sobre a noção que temos de nós:
como a noção que temos de nós.

E andava, e sorria, cumprimentava e fazia discursos,
dava autógrafos, abria a janela, conhecia gavetas,
chaves, endereços, comprava, lia,
recordava, sonhava,
às vezes pensava – Solidão – e logo seguia,
tinha até dinheiro comigo, tinha palavras, também,
que escolhia, dava, usava, recusava...

Solidão – dizia: fechava a tarde de mil portas,
andava por essas fortalezas da noite,
essas escadas, essas plataformas, essas pedras...
e deitava-me sobre o mar, sobre as florestas,
deitava-me assim – aldeias? cidades?
O sono é um límpido deserto – deitava-me nos ares,
onde quer que estivesse deitada.

Deitava-me nessas asas. Ia para outras solidões.

Se me chamares, responderei, mas serei solidão.
Serei solidão, se me esqueceres ou lembrares.
Qualquer coisa que sintas por mim, eu te retribuirei:
como o eco.
Mas és tu que vens e voltas:
a tua solidão e a minha solidão.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa

OU ISTO OU AQUILO




Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.



Cecília Meireles.
De 'Isto ou aquilo'
pag.72 - 1964 -







quarta-feira, 2 de julho de 2014

POEMA DO NOME PERDIDO




Como é teu nome, ó amiga estrangeira,
como é teu nome, ó rosto branco,
madona de tranças tristes, rio de ouro que um vento frisa?

Onde está o teu nome, dentro de mim, que não o encontro?
Acho tuas mãos tão finas, teus olhos verdes,
teu silencio delicado...
Mas teu nome onde está?

Deves começar por A, tão clara tão nítida,
tão perdida...
água...Oh!... Ar... Dize, como te chamas?

Quero escrever-te, e conheço-te,
e não me lembro do teu nome...
Alba... Aurora... Asa... Aragem...

Como te chamas? E por que não me lembro,
lembrando-te tanto, querendo-te tanto?
Decerto, o que estimo em ti não tem nome nenhum.
Nem mesmo o teu.

Mas o teu qual é, ó amiga que assim te escondes?

Cigarra na folhagem, sussurra para que te encontre!

Amália! Amália!

Ó exata, ó fiel, ó geométrica,
é dona das cores matutinas, dos barcos brancos,
das janelas fechadas ao crepusculo!...

Quem separa dentro de mim teu rosto do teu nome?

E procurei-o letra por letra,
como em noite escura se adivinha uma flor,
tocando pétala por pétala.

E eras inúmera! Amália, Amália...

Dália . 


Cecília Meireles
Poesia Completa
In: Dispersos (1918 – 1964)

segunda-feira, 30 de junho de 2014

DE QUE SÃO FEITOS OS DIAS?



De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...


Cecília Meireles
In Canções

sábado, 12 de outubro de 2013

CRIANÇA




Cabecinha boa de menino triste, 
de menino triste que sofre sozinho, 
que sozinho sofre, — e resiste, 

Cabecinha boa de menino ausente, 
que de sofrer tanto se fez pensativo, 
e não sabe mais o que sente... 

Cabecinha boa de menino mudo 
que não teve nada, que não pediu nada, 
pelo medo de perder tudo. 

Cabecinha boa de menino santo 
que do alto se inclina sobre a água do mundo 
para mirar seu desencanto. 

Para ver passar numa onda lenta e fria 
a estrela perdida da felicidade 
que soube que não possuiria. 

Cecília Meireles,
 in 'Viagem'

sábado, 28 de setembro de 2013

IMAGEM



Uma pobre velhinha franzida e amarelada
sentou-se num banco, em Paris.
A tarde cinzenta andava atrás dela
como um triste gato de feltro e flanela,
igualmente exausta e infeliz.
Entretanto, aquela cidade, aquela
é a maior do mundo, segundo se diz.
E não só maior – mas alegre e bela:
é a cidade chamada Paris.

Por que há uma velhinha tão triste e amarela
sentada num banco em forma de X?
Nunca vi ninguém mais triste do que ela,
em tarde nenhuma de nenhum país.

Nas mãos, uma chave – de que bairro, viela,
porta, corredor, mansarda, canela? –
com um desenho de flor-de-lis.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

PRIMAVERA



A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu
 nome,nem acredite no calendário, nem possua jardim 
para recebê-la.
A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os 
habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda 
circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua
 vida para a primavera que chega.
 
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da 
terra,nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos
 sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de
 nascer,no espírito das flores.
 
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos
cor-de-rosa,como os palácios de Jeipur. Vozes novas de 
passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua
nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se
pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que
não se entende.
 
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno,
quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente,
e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
 
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as
árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os
humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores,
com vestidos bordados de flores,com os braços carregados de
flores, e vem dançar neste mundo cálido,de incessante luz.
 
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não
se esquece,e a terra maternalmente se enfeita para as
festas da sua perpetuação.
 
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia,
talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no
momento que quiserem,independentes deste ritmo, desta 
ordem, deste movimento do céu.E os pássaros serão outros,
com outros cantos e outros hábitos,— e os ouvidos que por
acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que,
outrora se entendeu e amou.
 
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos
atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão
beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam
nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda 
conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo
tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai
tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. 
Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo 
enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam
com suas roupas de chita multicor.
 
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser 
lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente,
ao que vem, na rotação da eternidade. 
Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
 
 
 
"Cecília Meireles,
in Obra em Prosa - Volume 1",

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

ORAÇÃO DA NOITE



Trabalhei, sem revoltas nem cansaços,
No infecundo amargor da solitude:
As dores, - embalei-as nos meus braços,
Como alguém que embalasse a juventude...

Acendi luzes, desdobrando espaços,
Aos olhos sem bondade ou sem virtude;
Consolei mágoas, tédios e fracassos
E fiz, a todos, todo o bem que pude!

Que o sonho deite bênçãos de ramagens
E névoas soltas de distância e ausência
Na minha alma, que nunca foi feliz.

Escondendo-me as tácitas voragens
De males que me deram, sem consciência.
Pelos míseros bens que sempre fiz!... 


Cecília Meireles,
in Nunca Mais e Poemas dos Poemas