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segunda-feira, 25 de julho de 2016

DORMIR UM POUCO...





Dormir um pouco — um minuto,
um século. Acordar
na crista
duma onda, ser
o lastro de espuma
que há no sono
das algas. Ou
ser apenas
a maré, que sempre
volta
para dizer: eu não morri, eu sou
a borboleta
do vento, a flor
incandescente destas águas.

Albano Martins,
in "Castália e Outros Poemas"


segunda-feira, 9 de junho de 2014

SECURA VERDE



É verde esta secura, como é verde
a raiz duma planta que secou.
Posso ter o corpo aberto
e não mostrar o que sou.

Meus versos podem ser tristes
e eu ter profunda alegria.
Aves noturnas que buscam,
inquietas, a luz do dia.

Albano Martins
in Secura Verde e outros poemas
-1950-1953-

sábado, 7 de junho de 2014

ESCRITO A VERMELHO



Também ainda não disseste
(e é bom que o faças
antes que anoiteça)
que foi ao serviço
duma causa
que vieste. Não lhe dirás
o nome, nem é preciso,
julgo eu. Basta que se saiba
que foi com o sangue
que sempre o escreveste. E bastará
por isso que leiam
os teus versos. Porque
em todos eles
está escrito a vermelho.

Albano Martins

in Escrito a vermelho

FOLHAS



Repara: sem vento as folhas
são como o sono apenas.
Corpos ao relento,
que da morte se esquecem.

Albano Martins,
in Escrito a vermelho

sexta-feira, 6 de junho de 2014

DÊEM-ME



um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as tábuas.
Dêem-me
a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.

Albano Martins
in:Vertical

sexta-feira, 30 de maio de 2014

GOSTARIAS DE DECIDIR...




Gostarias de decidir por ti.
O sol nunca se atrasa.
A noite chega sempre a horas certas.
Tu adiantaste o relógio com receio de adormecer mais
cedo ou de não chegar a tempo à festa do dia seguinte.
Não te perguntaram se querias vir e alguém marcou, sem
teu consentimento, a hora da chegada.
 Gostarias de ser tu a marcar a partida.
Precisas de inventar um relógio onde o tempo não
decline e um leito onde o sol não adormeça.
Um firmamento onde tu e ele sejam as únicas estrelas.


Albano Martins,
de Escrito a Vermelho


sexta-feira, 23 de maio de 2014

CEDO OU TARDE



Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.

Albano Martins
Escrito a vermelho

terça-feira, 13 de maio de 2014

NÃO SÃO APENAS OS RELÓGIOS



Também se pode regressar
sem partir. Não são apenas
os relógios que se atrasam, às vezes é
o próprio tempo. E todos
os cuidados são
então necessários. Há sempre
um comboio que rola
a nosso lado sem luzes
e sem freios. E pode
faltar-nos o estribo ou já
não haver lugar
na carruagem da frente.

Albano Martins
em Escrito a Vermelho,


segunda-feira, 28 de abril de 2014

ETERNIDADE



Conheci-te de noite: por isso te chamo estrela.
Conheci-te de dia: por isso te chamo claridade.
Conheci-te em todas as horas: por isso
te chamo eternidade.

Albano Martins,
in “Vocação do Silêncio”

O SINO E A SINA



Percorreras de novo
estas veredas.
Ouvirás de novo o sino (e a sina)
nas asas da calhandra.
Deixaras finalmente à sombra
adulta dos salgueiros
teu pálido rebanho.
Então,podes volver os passos,
subir a escada erma
e plantar uma flor no vazio.

Albano Martins
In: Antologia Poética

RETRATO



Os passos
sobre a erva.
A imagem
dum tempo
de pequenas
e graves
inflexões.

Memória
de eucaliptos
florindo
facilmente
ao vento.

Retrato
dum menino
brincando
com os dias.

Albano Martins
De «Em Tempo e Memória"


sábado, 26 de abril de 2014

''MEU NOME É ESTA CANÇÃO''



Sou uma criança perdida
na imaginação dum bosque.
O vento solta-me o coração,
mas prende-me os braços e o tronco
e nunca mudo de posição.

Os espanejadores do medo
levantam o pó das lágrimas.
O tempo empoeira-se de lendas
e a água da vida vai-se congelando,
enquanto os sonhos ressonam
e eu vou crescendo e minguando.

Queimem o bosque e procurem
o dicionário dos meus anos.
Não sei que idade tenho,
perdi a imaginação
e deixei a memória em casa.
Meu nome é esta canção.


Albano Martins
de «Outros Poemas»

SE O TEMPO...




Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.

Albano Martins,
in Antologia Poética


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

TALVEZ



Sim, dizias tu, mas em seguida
corrigiste:
talvez.
Esta é a única palavra
que não tem casa.
Que mora
no intervalo
entre o som e o silêncio…

- Albano Martins -
in Palinódias, palimpsestos

quarta-feira, 22 de maio de 2013

LIMIAR



Somos ainda o limiar – espessa
nuvem embrionária. Verdes,
imaturos crustáceos
emergimos
à superfície grávida das ondas.
Somos
o medo ou sua
improvável renúncia. O que
sabemos do 
amor, da morte, e só
difusa,
opaca, 
luminosa fábula.


Albano Martins
in Antologia Poética

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

UM DIA VOLTAREI...


...


Um dia voltarei à morada das papoilas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.


Um dia o vento estará maduro.


Albano Martins
em 'Vocação do Silêncio'

terça-feira, 25 de setembro de 2012

BASTA UMA FLOR



Basta uma flor,
basta uma asa
para saber que a primavera
entrou em nossa casa.

Albano Martins

sábado, 15 de setembro de 2012

ALBANO MARTINS


...
Há em teus olhos, dados ao momento,
uma tristeza de água reprimida,
que é como o pressentimento
duma próxima despedida.
Tristeza que faz lembrar
dias perdidos de outono
com luz pálida a incidir
nas folhas mortas de sono.
Deixa que a esperança os molhe,
os inunde de alegria.
Cada noite passa e colhe
o gosto dum novo dia.



Albano Martins,
in SECURA VERDE E OUTROS POEMAS

segunda-feira, 2 de julho de 2012

POESIA




O amor também cansa.
Renova a tua vida, dia a dia.
Onde estiver esperança
põe teu sonho e tua fantasia.

Entrega-te a cada hora
e aceita sem reservas
tudo o que venha ao teu encontro.
Não sejas como as ervas.

Deixa em tudo o teu selo de postagem.
Bebe em todas as fontes, se puderes.
Só terás remorso
dó que possas fazer e o não fizeres.


Não forces a tua inspiração.
Deixa a poesia vir naturalmente
e não obrigues a mentir o coração.

Procura ser espontâneo.
A verdadeira beleza
está no que o homem tem de semelhante
com a natureza.




Albano Martins,
in Antologia Poética

quinta-feira, 26 de abril de 2012

CONJECTURA



 "Não tinhas
nome. Existias
como um eco
do silêncio. Eras
talvez
uma pergunta
do vento".

Albano Martins