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terça-feira, 5 de abril de 2016

A CALIGRAFIA DO SILÊNCIO


Fotografia Leo Flores

Ando pelas ruas desta incerta cidade.
Deixo que o meu olhar
se ajuste ao olhar dos outros.
Entre ruas e rostos há fragmentos de solidão
que denunciam a trágica expressão da vida.
Todos conhecem a oralidade da mudez,
a vigília da revolta, a senha do desdém,
a estranheza de golpes imolando os sonhos.
Eu, com uma fala colada na língua,
somente me consinto
a áspera caligrafia do silêncio.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

BRINCA À BEIRA MAR




Recua no tempo.
Ajusta a areia aos teus dedos de criança.
Brinca à beira-mar, o teu espaço mais cúmplice.
Já sobre ti rolam as algas e tu, de olhos
fechados, reténs esse prazer apetecido.
As conchas vêm brincar contigo.
Falam do sussurro dos peixes escondidos
nas ervas marinhas, da ancoragem dos barcos
e da lisura das quilhas submersas.
Um bando de pássaros abre-te no peito
um estuário onde as marés se abraçam.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014

REGRESSO




Sem mais nem menos
surgiu o passado,
corpo intranquilo
feito de sons semelhantes
aos rostos que amei,
universo donde me excluí,
mar desprovido de cais
na obliquidade dos contrastes.

Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.

À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto.

Procuro, teimosamente,
o rasto da brisa
que me invade o corpo
e apenas sei que o sonho
é um risco inquietante,
quando a solidão tem rosto
e se conhece a posição das estrelas
no âmago das palavras.

Graça Pires
De Poemas, 1990



quinta-feira, 17 de setembro de 2015

AGUARDAMOS UMA LUZ


Arte Vladimir Kush

Aguardamos uma luz de seiva 
que reacenda a treva que nos cega.
Uma luz que não fira a brancura dos muros
nem as sombras dos alpendres
onde plantámos as giestas bravas.
Uma luz que devolva à terra
a farta lembrança das nascentes.
Uma luz para ficar como herança
quando as aves da morte se afastarem
para sempre deste caos
que, assustadoramente, nos acusa.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012


quarta-feira, 22 de julho de 2015

DE SEDA




São pequenas as jarras de porcelana
onde deixámos os lírios brancos
que resistiram ao tempo da secura.
E quando os nossos olhos orvalhados
ficaram mais sensíveis à luz
do amanhecer juncámos o chão
que amamos com a brancura dos lírios.
De seda. Da sede: gota a gota.


Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

domingo, 7 de junho de 2015

ANTES DE ANTECIPARMOS O FUTURO




Antes de anteciparmos o futuro acrescentemos
à voz da terra o sobressalto das fontes
refugiando a sede.
Nenhuma nascente escapa à exigência,
tão vulnerável, da secura do barro
que nos separa das nuvens.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012










terça-feira, 2 de junho de 2015

LOGRO



Como se tivessem aves afogadas no olhar, 
os meninos desenham com cinza 
as flores do jardim. 
Cresceram. Os berlindes perderam a cor. 
As fadas que lhes embalavam o sono 
desapareceram dos livros. 
Os navios dos piratas seguiram outros rumos. 
Um fuso imaginário alterou certeiro 
o pulsar dos segundos no lastro dos dias.


Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

quarta-feira, 6 de maio de 2015

CAMPO


Arte Reint Withaar

Voltamos sempre à casa de campo. 
Quando não estamos as plantas 
crescem de modo irregular e o pó 
acumula-se nos móveis e nos livros. 
Não importa. 
Nós voltamos apenas para regar a sede, 
beber a terra, colher a paisagem, 
mastigar o silêncio, partilhar a fome 
e tornar depois a ir embora 
com o corpo a doer da própria ausência.


Graça Pires
De Caderno de significados, 2013


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

É POSSÍVEL




É possível que já não haja pássaros
a esvoaçar em torno das palavras
com que calei
o desespero das manhãs
quando tinha do cosmos
uma visão romântica.
Hoje nasce-me no olhar
uma luz quase cruel
com que ilumino
a linha de sombra
que me cerca as mãos.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

sábado, 31 de janeiro de 2015

A CIDADE




A cidade designa-se pelo desassossego
impregnado de histórias errantes.
Multidão anónima, individual, insondável.
Geografia de uma orfandade interior.
Paradoxal labirinto de aves migratórias.
Nenhum caminhante se esquiva à nitidez
da noite sitiada pela própria sombra.
Pé ante pé, a intimidade refugia-se
nos olhares povoados de afeição
e desdiz o rumor do medo
com um gesto de aconchegar palavras.
A cidade é o epicentro de uma confidência
partilhada por quem sabe manipular o silêncio.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

APESAR DA SEDE



Tudo podia ser mais simples.
Mas a infância fica tão longe
e os espelhos começaram
a gritar-me uma inocência
que deixou de ser minha
para sempre.
O que quero dizer
acompanha, devagar,
o movimento do sol.
E são cada vez mais lentos
os passos que me levam
na direcção das nascentes.
Apesar da sede.

Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

FORAM EMBORA OS PÁSSAROS




Foram embora os pássaros.
Foram embora,
procurando um tempo
onde a luz deflagre em suas asas.
O seu inevitável regresso
há-de acompanhar
a rotação dos ventos.
E quando, nos meus ombros,
nenhum excesso de solidão
me mutilar os braços,
eles hão-de chegar, de novo,
como um incêndio.
Os pássaros.

Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

EU TE BAPTIZO EM NOME DO MAR



Eu te baptizo em nome do mar,
disse minha mãe com barcos na voz.
E as ondas enlearam nas águas o meu nome,
abrindo nas fendas do corpo um impulso
salgado que me brandiu o sangue.
Sei agora que há âncoras afogadas
nos meus olhos: nítido eco de todas as demandas.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A COR DA LUA NOVA




Com crisântemos entre as mãos,
manuseio ideias fixas
e pinto, de vermelho, todos os segredos
que guardo pouco à vontade.
Depois, ao comprido das horas,
escolho um lugar estratégico para esperar a alegria
e dou, ao coração, nomes contraditórios.
A passagem do tempo, traça em meus pés
um futuro peregrino.
Nenhum prodígio me está destinado.
Só a brisa, entrando pelo avesso dos sonhos,
infatigável e lenta, me deixa no olhar
a cor da lua nova.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

NAS CASAS ABANDONADAS




Nas casas abandonadas, as silvas
vão tecendo as rédeas do tempo.
A terra inquieta fende o cimento
afagado, desfaz a cal das paredes,
contamina alvenarias.
Um declínio de pássaros na poeira
da tarde, desfoca as mãos
dos que morreram com as árvores.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

domingo, 7 de setembro de 2014

OS VELHOS



Não é simples envelhecer.
Já um poeta o disse.
Peregrinos do tempo,
aprenderam, pelo olhar,
o caminho do trigo maduro,
o perfil dos navios
que partem sem regresso,
a mudança das estações do ano,
a curta duração das emoções.
Mas, quem se lembra da fadiga
dos seus braços, agora,
que é outono em suas mãos?
Quem fez do banco do jardim
um referente da morte,
o lugar onde a sua solidão se acoita?
Quem esqueceu, nas suas rugas,
a sábia maturidade da vida,
ou antes, um modo diverso
de olhar na direcção da noite?


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

JARDIM




Quando os ventos da primavera 
fustigam os jardins e as rosas 
se desfolham por terem a fragilidade 
do silêncio fica na terra um perfume 
tão inquietante que entontece 
o cetim das palavras.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

RENTE À INOCÊNCIA



As primeiras mimosas marcaram a fronte
da menina saída do livro de aventuras,
que foi largado a um canto da inocência :
graciosa personagem a crescer para a memória
como um feitiço ; íman sagrado que resgata
a fantasia e desenha um berço nas mãos
dos que são da mesma estirpe dos poetas.
A morada dos gnomos situa-se na estrofe
da cantiga que fala dos moinhos de vento,
ou ao rés da magia do mais minucioso gesto
com que se adornam os cabelos e as mágoas.

Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

ALEGRIA



Volta de novo, idade 
da inocência que foi minha. 
Traz-me nas tranças 
a cristalina alegria dos dias 
em que no fundo do coração 
nenhum nome me doía.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

sábado, 26 de julho de 2014

PLANTEI UMA HERA


Plantei na janela uma hera inclinada para dentro
para acolher o cheiro das manhãs em que as aves
se fazem aragem nas cortinas de cores vagas.
Encurvei os pulsos para que as mãos
se acrescentassem às sombras do beirais
sem a dor das palavras mutiladas.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol