Mostrando postagens com marcador Eugénio de Andrade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eugénio de Andrade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de junho de 2015

CERCO


Arte Giovani Strino 


O corpo começa a consentir,
ceder, abrir fendas
com as chuvas altas,
a mostrar, quase exibir
velhas raízes,rugas, mágoas,
a secura próxima dos galhos;
corpo, sim,ele que foi afável
e crédulo e solar - tão
indiferente agora às matinais
e despenteadas vozes:
distante e tão cercado
de apagadas águas.

Eugénio de Andrade
In "Rente ao Dizer"


segunda-feira, 11 de maio de 2015

EXCERTO LITERÁRIO




“Eis o que tenho a pedir-vos nos meus oitenta anos:
 plantem nesse lugar um plátano, onde o vento 
 enroladinho no sono possa dormir sem sobressaltos;
 ou uma oliveira, ou um chorão, e à sua roda ponham
 uma sebe da flor doce e musical de espinheiro branco.
 Embora tenha pouca ou nenhuma fé seja no que for,
 a terra ficará mais habitável.

 Um poema ou uma  árvore podem ainda salvar o mundo.”
 
 Eugénio de Andrade ,
 in Palavras em Serrúbia (2003)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O PEQUENO PERSA




É um pequeno persa
azul o gato deste poema.
Como qualquer outro, o meu
amor por esta alminha é materno:
uma carícia minha lambe-lhe o pêlo,
outra põe-lhe o sol entre as patas
ou uma flor à janela.
Com garras e dentes e obstinação
transforma em festa a minha vida.
Quer-se dizer, o que me resta dela.

Eugênio de Andrade

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

É NATAL




É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia


Eugénio de Andrade,
in: Rente ao Dizer

segunda-feira, 2 de junho de 2014

CONSELHO



Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Eugénio de Andrade,
in  Primeiros poemas





sexta-feira, 16 de maio de 2014

EM LOUVOR AO FOGO




Um dia chega
de uma extrema doçura:
tudo arde.

Arde a luz
nos vidros da ternura.

As aves,
no branco
labirinto da cal.

As palavras ardem
e a púrpura das naves.

O vento,

onde tenho casa
à beira do outono.

O limoeiro, as colinas.

Tudo arde

Na extrema e lenta
doçura da tarde.


Eugenio de Andrade
in Obscuro Domínio


terça-feira, 4 de março de 2014

MARÇO VOLTOU



Março voltou, esta
ácida loucura de pássaros
está outra vez à nossa porta,
o ar

de vidro vai direito ao coração.
Também elas cantam, as montanhas:
somente nenhum de nós
as ouve, distraídos

com o monótono silabar do vento
ou doutros peregrinos.
Já sabeis como temos ainda restos
de pudor.

e pelo mundo
uma enorme, enorme indiferença.


Eugénio de Andrade,
in Branco no branco (1984)

















terça-feira, 13 de agosto de 2013

SOBRE O CAMINHO



Nada

nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença

Não colecciones dejectos o teu destino és tu

Despe-te
não há outro caminho

Eugénio de Andrade,
in "Véspera da Água"

quarta-feira, 10 de julho de 2013

ESPERA



Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.


Eugénio de Andrade,
in As Mãos e os Frutos (1935)






segunda-feira, 8 de julho de 2013

AGORA AS AVES VOLTAM



Agora as aves voltam,
são nos ramos altos a matéria 
mais próxima dos anjos 
– ousarei eu tocar-lhes, 
fazer delas o poema? 

Eugénio de Andrade,
In O Peso da Sombra





domingo, 2 de junho de 2013

ADAGIO



O Outono é isto –
apodrecer de um fruto
entre folhas esquecido.
Água escorrendo,
quem sabe donde,
ocasional e fria
e sem sentido.

EUGÉNIO DE ANDRADE
In Primeiros Poemas

sexta-feira, 15 de março de 2013

O SILÊNCIO



" O silêncio é a minha maior tentação. As
palavras, esse vício ocidental, estão gastas
envelhecidas, envilecidas. Fatigadas, exasperam.
E mentem, separam, ferem, também apaziguam, é
certo, mas é tão raro! Por cada palavra que chega 
até nós,ainda quente das entranhas do ser, 
quanta baba nos escorre em cima a fingir de 
música suprema! A plenitude do silêncio
só os orientais a conhecem."

Eugénio de Andrade

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

HÁ DIAS



Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-se comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.

EUGÉNIO DE ANDRADE,
in Lugares do Lume 
 
 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

HAVIA UMA PALAVRA


Havia
uma palavra
no escuro.
Minúscula.Ignorada.

Martelava no escuro.
Martelava
no chão da água.

Do fundo do tempo,
martelava.
contra o muro.

Uma palavra.
No escuro
Que me chamava.


EUGÉNIO DE ANDRADE,
in CHUVA SOBRE O ROSTO

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

METAMORFOSES DA CASA




Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.


Eugénio de Andrade
in Poemas

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

FOLHAS BREVES



Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.


Eugénio de Andrade 

sexta-feira, 20 de abril de 2012

sexta-feira, 23 de março de 2012

O ESPIRITO DO OUTONO


Será
a embriaguez? O vento matinal
arrastando folhas
raparigas canções?
O sopro frio das estrelas?
Será a beleza,
o espírito do outono? Há um limite
para o homem, um limite
para suportar o peso do mundo.
Da beleza, da bárbara
orgulhosa beleza, quem sabe defender-se
sem medo do coração lhe rebentar?


Eugénio de Andrade,
In ‘O sal da língua’