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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A UM ANCIÃO



Que te valeu viveres tantos anos,
A sofrer da existência os dissabores,
Enganado, a buscar novos enganos,
Trocando a velha dor por novas dores?

Falharam-te de glória os nobres planos;
Desejavas amor, tiveste... amores.
E, hoje, passas, cansado, entre os humanos,
Indiferente a ápodos e a louvores.

De nada te serviu quanto aprendeste
Do mundo; e tudo quanto viste e quanto
Em mil volumes, velho amigo, leste.

De nada. E a vida foi-se-te, entretanto.
Se para envelhecer é que viveste,
Que te valeu, ancião, viveres tanto?...


Bastos Tigre
Antologia Poética – 1.982 -




segunda-feira, 1 de setembro de 2014

OUVE O TEU CORAÇÃO



Não esperes achar compensações na terra:
Se fizeres o bem, prêmio nenhum terás.
Os que sobem contigo os aclives da serra
Não te virão valer, se ficares atrás.

Aconselha-te alguém? É aquele que mais erra
Ensina-te a verdade? É o mais falso e mendaz
E o que, violento e hostil, te excita e incita à guerra
É o mesmo que desfruta as delícias da paz.

Mas não culpes ninguém. É a vida. Aceita a vida...
Como sofres, também os outros sofrerão,
Que há na maior ventura uma dor escondida.

Teu cérebro consulta, ouve o teu coração,
E, em ti mesmo, acharás a energia perdida,
A censura, o aplauso, o castigo, o perdão.

Bastos Tigre
Antologia Poética – l.982 –

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

ENVELHECER...




Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glórias, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,
Apanha os frutos e recolhe as flores;
Mas lavra, ainda, e planta o teu eirado,
Que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade.
Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade.

Que a neve caia, o teu ardor não mude.
Mantém-te jovem, pouco importa a idade;
Tem cada idade a sua juventude!...


BASTOS TIGRE


DEUS HUMANO



Assusta-me este Deus de barba imensa,
Pai severo e tirano à moda antiga,
Que com o fogo do inferno os maus castiga
Porém, na terra, os bons não recompensa.

Este Deus que a adorá-lo nos obriga,
Mas que só ama a quem o adula e incensa
Nunca há de ser o Deus da minha crença
Que eu venere e entre cânticos bendiga.

O Jeová que no Antigo Testamento
Os profetas nos pintam, truculento,
É um velho Deus, motivo de pavor.

Moço é o meu Deus, de eterna juventude:
Perdoa. Todo o mal muda em virtude.
De tão humano, é quase um pecador.


BASTOS TIGRE

sexta-feira, 23 de março de 2012

ENTARDECER



Vem, com a velhice, esta serenidade
Que nos faz ver o mundo sem rancor,
Ter um suave sorriso de piedade
Para quem no ódio viva, odiando o amor.
A ceticismo torna-se a vontade
De ser bom, fazer bem seja a quem for;
Ao mau que não tem culpa da maldade,
Ao que é, por seu destino, sofredor.
Abençoada velhice! Os desenganos
Que nas lições da vida ela nos traz
Nos trazem lucros, não nos trazem danos;
Vemos que a luta que ficou atrás
Não vale, bem medida, os poucos anos
Que nos resta viver, vivendo em paz.



Bastos Tigre