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sábado, 20 de dezembro de 2014

NÃO SEI





Não sei onde começa o céu e nem acaba.
O infinito se dissolve como números na névoa.
Vou-me, porque a voz que chama é a mesma que chamava.
Será a mesma, acaso, a mão que ainda me leva?



Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece

domingo, 14 de dezembro de 2014

COMO UM EMBALO




Fosse uma chama, crepitaria
sob meus dedos, na solidão.
Nada mais quero, nada queria.
As noites chegam, os dias vão.

Fosse uma chama, breve arderia,
brasa de sonho, na escuridão.
Já nada quero da luz do dia...
Queima uma estrela na minha mão.

Mas nada quero da luz da estrela...
(Chegam as noites, os dias vão.)
Por que sonhá-la, se vais perdê-la,
alma perdida na solidão?


Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do Tempo, 1976

quarta-feira, 11 de junho de 2014

CANÇÃO



Deslumbra-te, agora,
com essa luz. é tua!
Tua ausente embora
numa ausente rua.

Nunca te atormente
sabê-la perdida.
Renasce fremente
como a própria vida.

Como a vida feita
de noite e de espera,
canção imperfeita
de anjo e de fera.

Deslumbra-te, eia!
com esta luz que mais se alteia
quando tudo rui.


Alphonsus de Guimaraens Filho
Discurso no Deserto (1975-1981)



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O QUE RENASCE


- Que vais colher, plantar acaso?
- Há um sopro
de noite murcha nos quintais. É a hora.
- Hora de semear?
- De ter. De ir
buscando o que renasce.
- O que renasce?
- O que, incessante, de si mesmo flui.
- Vamos regar as flores desoladas,
semear luzes pelas ruas mudas
onde ninguém mais vela?
- O que renasce.
- Vamos levar ás árvores o sangue
das madrugadas, seiva aos caules, canto,
sol aos que choram, longe?
- O que renasce.
- Levar a vida , a vida que renasce,
aos que mortos se vão sem estar mortos?
- O que renasce.
- A vida?
- O que renasce.
- A morte?
- A vida.A morte. O que renasce.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Discurso no Deserto


DO AZUL, NUM SONETO



Verificar o azul nem sempre é puro.
Melhor será revê-lo entre as ramadas
e os altos frutos de um pomar escuro
- azul de tênues bocas desoladas.

Melhor será sonhá-lo em madrugadas,
fresco inconstante azul sempre imaturo,
azul de claridades sufocadas
latejando nas pedras - nascituro.

Não este azul, mas outro e dolorido,
evanescente azul que na orvalhada
ficou, pétala ingênua, torturada.

Recupero-o, sem ter, e ei-lo perdido,
azul de voz, de sombra envenenada,
que em nós se esvai sem nunca ter vivido.


Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do tempo











sexta-feira, 31 de maio de 2013

DE REPENTE



De repente, do bolso,
caiu-me o poema.
Um poema não escrito.
Que me lembrava um pássaro em vôo
para o azul mais inocente.
Um poema simples.
O poema mais puro.
Penoso era vê-lo assim,
pássaro branco, e cego,
sequioso de azul.


Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece

quinta-feira, 30 de maio de 2013

LUZ ACESA


Além, a luz acesa
sugere a família 
em torno à grande mesa;
sugere a vigília
do fazendeiro, agora
com os seus reunido;
sugere a grave hora
em que um comovido 
silencio se projeta
em torno à grande mesa,
como essa luz quieta
no descampado acesa.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece


terça-feira, 24 de abril de 2012

POEMA SONHADO




Se não for pela poesia, como crer na eternidade?
Os ossos da noite doem nos mortos.
A chuva molha cidades que não existem.
O silêncio punge em cada ser acordado pelos cães invisíveis
do assombro.
Os ossos da noite doem nos vivos.
A escuridão lateja como um seio.
E uma voz (de onde vem?) repete incessante, incessantemente:
Se não for pela poesia, como crer na eternidade.

Alphonsus de Guimaraens Filho







quarta-feira, 4 de abril de 2012

POUSAS A CABEÇA...



Pousas a cabeça num travesseiro que ficou na infância.
Pedes a alguém que acenda a noite.

O ofegar de um paraíso onde caem uma por uma as lendas...

Houve ontem? haverá amanhã? - eis renascem de teus pés
rotos sapatos, desencantada música, um ou outro arrepio
de mão insensata colhendo flores que não desabrocham nunca.


Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do Tempo

quarta-feira, 21 de março de 2012

OLHAS O AMANHECER


Olhas o amanhecer,
vives o amanhecer como o único instante
em que o céu é entreaberto segredo de um deus mudo.

Espera: algo vai se revelar e deves estar pronto
para mergulhar teu sonho num poço de luz casta.

O intocado te espera. E amanhece. E te iluminas
como se trincasses com os dentes a polpa do absoluto.


Alphonsus de Guimaraens Filho,
in Luz de Agora