Mostrando postagens com marcador Fernanda de Castro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fernanda de Castro. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

SONHO, VIGÍLIA, NOITE, MADRUGADA...






Sonho, vigília, noite, madrugada?
Um a um, desfolhei os sete véus,
e adormecido o corpo, a alma acordada,
um a um, escalei os sete céus.

Sem limites de tempo nem espaço,
quanto tempo durou minha viagem?
Andei mundos sem dor e sem cansaço,
ficou, em meu lugar, a minha imagem.

Agora, de regresso, cumpro a pena.
Tudo esqueci dessa abismal distância
mas algo é diferente: volto à arena
com uma nova inocência, um gosto a infância.

Serena, com uma paz desconhecida,
aceito, sem revolta, a humana sorte:
viver, da Vida, esta pequena vida,
morrer, da Morte, esta pequena morte.



Fernanda de Castro,
in Poesia II





quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

ASAS



Eu tenho asas!
Piso o chão como pisa toda a gente
mas tenho asas
de impalpável tecido transparente,
feitas de pó de estrelas e de flores.
Asas que ninguém vê, que ninguém sente,
asas de todas as cores.
Pequenas asas brancas que me afastam
das coisas triviais
e as tornam leves, fluídas, irreais
- polén, nuvem, luar, constelações,
irisados cristais.
Asa branca minha alma a palpitar,
bater de asas o doce ciciar
de pálpebras e cílios.
Ó minhas asas brancas de cetim!
Revoadas de pássaros meus sonhos,
Meus desejos sem fim!


Fernanda de Castro,
in Exílio




sábado, 24 de maio de 2014

QUANDO TE DÓI A ALMA



Quando estás descontente,
quando perdes a calma
e odeias toda a gente,
quando te dói a alma,
 
quando sentes, cruel,
o prazer da vingança,
quando um sabor a fel
te proíbe a esperança,
 
quando as larvas do tédio
te embotam os sentidos,
e o mal é sem remédio
e a ninguém dás ouvidos,
 
nega, recusa a dor,
abandona o deserto
das almas sem amor
e mergulha o olhar
em tudo o que está certo,
o mar, a fonte, a flor. "
 
Fernanda de Castro
in, Poesia II

sábado, 23 de novembro de 2013

MENINA PERDIDA




Menina perdida
no bosque da vida.

Os olhos desertos,
os gestos errados,
os passos incertos,
os sonhos cansados.

Menina perdida,
desaparecida
nos longos caminhos
de pedras e espinhos.
Cabelos molhados,
pés nús, alma exangue,
vestidos rasgados,
mãos frias, em sangue.

Menina encontrada
na berma da estrada.
Andava perdida
mas já foi achada,
de branco vestida,
de branco calçada.

Menina perdida
no bosque da vida.



Fernanda de Castro,
in Poesia I


terça-feira, 17 de setembro de 2013

DIFÍCIL ALQUIMIA



"Oitenta anos daqui a poucos dias.
Parece muito. É imenso, não é nada.
Ínfimo grão de pó no pó da estrada.
Raminho de Tristezas, de alegrias.

Crepusculares, doces alegrias.
Por vezes, dolorosa a caminhada,
mas sempre, após a noite, a madrugada.
Cantos de rouxinóis, de cotovias.

De tudo um pouco, assim é que é a vida
se a queremos inteira, bem vivida,
às vezes vendaval, outras bonança-

Bem e mal, noite e dia, riso e dor.
Difícil alquimia: espinho e flor,
mas sempre aberta a porta da esperança."


Fernanda de Castro
in, Poesia II

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

HÁ DIAS EM QUE TUDO É SEM REMÉDIO



"Há dias e que tudo é sem remédio,
em que tudo começa e acaba torto.
Uma folha caiu:
era um pássaro morto.

Neblina. Fim de tarde. Fim de Outono.
Nada nos fala, nos atrai, nos chama.
Choveu, parou a chuva,
ficou, porém, a lama.

Um banco no jardim. Árvores nuas,
um cisne velho, um tanque, água limosa,
nem a relva ficou,
quanto mais uma rosa.

Há barcos, há gaivotas sobre o rio,
e nas ruas há gente, há muitas casas.
Mais um dia perdido:
arrancaram-lhe as asas."


Fernanda de Castro,
In «Urgente»

sábado, 14 de setembro de 2013

EU!



O homem de gênio diz: eu sou.
O poderoso afirma: eu posso.
O rico diz: eu tenho.
E o ambicioso: eu quero.
Eu ! Eu ! Eu !
E afinal
esses que vivem sós,
completamente sós,
quanto dariam para como tu,
ou como eu,
dizerem simplesmente: nós.

Fernanda de Castro
em Trinta e Nove Poemas


domingo, 23 de junho de 2013

DIAS PERDIDOS




"Há dias e que tudo é sem remédio,
em que tudo começa e acaba torto.
Uma folha caiu:
era um pássaro morto.

Neblina. Fim de tarde. Fim de Outono.
Nada nos fala, nos atrai, nos chama.
Choveu, parou a chuva,
ficou, porém, a lama.

Um banco no jardim. Árvores nuas,
um cisne velho, um tanque, água limosa,
nem a relva ficou,
quanto mais uma rosa.

Há barcos, há gaivotas sobre o rio,
e nas ruas há gente, há muitas casas.
Mais um dia perdido:
arrancaram-lhe as asas."


Fernanda de Castro,
 In Urgente


sexta-feira, 8 de março de 2013

PERDÃO



Aqui me tens, meu Deus, em confissão.
Não roubei. Não matei. Não caluniei.
Mas nem sempre segui a tua lei,
nem sempre fui a irmã do meu irmão.

Não recusei aos outros o meu pão.
Amor, algumas vezes, recusei.
Mas por tudo o que dei e o que não dei,
eu te peço, meu Deus, o meu perdão.

Perdão para os meus pecados
e para os meus pecados inocentes,
para o mal que já fiz e ainda fizer ...

Perdão para esta culpa original,
para este longo e complicado mal:
o crime sem perdão de ser mulher.


Fernanda de Castro


quarta-feira, 28 de março de 2012

PERDÃO


Aqui me tens, meu Deus, em confissão.
Não roubei. Não matei. Não caluniei.
Mas nem sempre segui a tua lei,
nem sempre fui a irmã do meu irmão.

Não recusei aos outros o meu pão.
Amor, algumas vezes, recusei.
Mas por tudo o que dei e o que não dei,
eu te peço, meu Deus, o meu perdão.

Perdão para os meus pecados
e para os meus pecados inocentes,
para o mal que já fiz e ainda fizer ...

Perdão para esta culpa original,
para este longo e complicado mal:
o crime sem perdão de ser mulher.


Fernanda de Castro



terça-feira, 20 de março de 2012

SE OS POETAS DESSEM AS MÃOS



Se os poetas dessem as mãos
 
e fechassem o mundo
 
no grande abraço da poesia,
 
cairiam as grades das prisões
que nos tolhem os passos,
os arames farpados
que nos rasgam os sonhos,
os muros de silêncio,
as muralhas da cólera e do ódio,
as barreiras do medo,
e o dia, como um pássaro liberto,
desdobraria enfim as asas
sobre a noite dos homens.
 
Se os poetas dessem as mãos
e fechassem o mundo
no grande abraço da poesia.
 
Fernanda de Castro, in
"Ronda das Horas Lentas"