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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

EXCERTO LITERÁRIO



Parabéns, querido neto Felipe

O neto é a hora
do carinho ocioso e estocado, 
não exercido nos próprios filhos e que 
não pode morrer conosco.
Por isso, os avós são tão desmesurados e 
distribuem tão incontrolável afeição.
Os netos são a última oportunidade de
reeditar o nosso afeto.

Affonso Romano de Sant'Anna,
in Melhores Crônicas

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

DECEPÇÃO





Ando muito decepcionado com os homens
e comigo. 
Com minha geração, em especial. 
Íamos salvar o mundo
e falhamos. 
Alguns ainda tentam,
Não me iludem. 
Sem dúvida, merecíamos melhor sorte.
Nós –-- os ilustres fracassados
--- e o povo
que nem se dá conta
que tínhamos projetos ótimos para redimi-lo.


Affonso Romano de Sant'Anna


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

VAI, ANO VELHO





1

Vai, ano velho, vai de vez
vai com tuas dívidas
e dúvidas, vai, dobra a ex-
quina da sorte, e no trinta e um
à meia-noite, esgota o copo
e a culpa do que nem me lembro
e me cravou entre janeiro e dezembro.

Vai, leva tudo: destroços,
ossos, fotos de presidentes,
beijos de atrizes, enchentes,
secas, suspiros, jornais.
Vade retrum , prá trás,
leva pra escuridão
quem me assaltou o carro,,
a casa e o coração.

Não quero te ver mais,
só daqui a anos, nos anais,
nas fotos do nunca-mais.


2

Vem Ano Novo, vem veloz
vem em quadrigas, aladas, antigas
ou jatos de luz, moderna, vem,
paira, desce, habita em nós,
vem com cavalhadas, folias, reisados,
fitas multicores, rebecas,
vem com uva e mel e desperta
em nosso corpo a alegria,
escancara a alma, a poesia,
e, por um instante, estanca
o verso real, perverso
e sacia em nós a fome
-de utopia.

Vem na areia da ampulheta como a
semente que contivesse outra se-
mente que contivesse ou-
tra semente ou pérola
na casca da ostra
como se

se
outra se-
mente pudesse
nascer do corpo e mente
ou do umbigo da gente como o ovo
o Sol da gema no Ano Novo que rompesse
a placenta da noite em viva flor luminescente.

3

Adeus, tristeza: a vida
é uma caixa chinesa
de onde brota a manhã.

Agora
é recomeçar.
A utopia é urgente.

Entre flores de urânio
é permitido sonhar.


Affonso  Romano de Sant’Anna





quinta-feira, 6 de novembro de 2014

NO LABIRINTO




As perguntas que, criança,
eu me fazia
                     continuam
                     na idade adulta
a prosperar.

O labirinto agora me é mais familiar
tenho conversado com o Minotauro
e Ariadne 
                  tem infindáveis novelos 
para me emprestar .
Sou capaz de guiar um cego
por algumas quadras
e alguns sinais abstratos
chego a decifrar.

Habito o mistério que me habita
e isto 
                          -é caminhar.

Affonso Romano  de Sant'Anna
In Sísifo desce a montanha


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

RUGAS



Estou amando tuas rugas, mulher. 
Algumas vi surgir, outras aprofundei.

Olho tuas rugas. 
Compartilho-as, narciso exposto
no teu rosto.

Ponho os óculos
para melhor ver tua pele
as minhas/ tuas marcas.

Sei que também me lês
quando nas manhãs percebes
em minha face o estranho texto
que restou do sonho.

O que gastou, somou. 
Essas rugas são sulcos
onde aramos a messe do possível amor.


Affonso Romano de Sant'Anna,
In Intervalo Amoroso & Outros Poemas Escolhidos




domingo, 19 de outubro de 2014

FLORAL




É isso.É primavera.
estou feliz, em febre.
Outros
politizam suas dores.
Eu
me polenizo
ou polemizo
- com as flores.


Affonso Romano de Sant'Anna,
in Poesia Reunida






terça-feira, 30 de setembro de 2014

ASSOMBROS




Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.

Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.


Affonso Romano de Sant'Anna 
em ‘Lado Esquerdo do Meu Peito’

domingo, 2 de março de 2014

CERTA FERIDA




Como a árvore a que cortam um galho
e permanece (aparentemente) intacta
-suportar em silêncio certos afrontamentos.


Foi profundo o talho
embora o tronco se ostente sólido
impassível.


Uma flor brotava errante
na parte decepada.


Eu a mereci.
E isto basta
na sucessão das possíveis primaveras.


Affonso Romano de Sant’Anna,
in Vestígios


REPASSANDO


Interessado no passado, estou.
O passado, impaciente, me acena
me habita, me ordena.

O presente é uma vaga aliança
da aparência com a esperança.

O futuro pode esperar:
ele é uma fruta
que ao invés de ser colhida, me habita
e me impele a madurar.



Affonso Romano de Sant’Anna
In “POESIA REUNIDA”


terça-feira, 15 de outubro de 2013

A FALA DE DEUS



Houve um tempo em que Deus falava hebraico.

Passou depois a falar latim
após um rápido estágio pelo grego.

Atualmente há quem afirme
que optou pelo inglês
embora em algumas tribos
xamãs se comuniquem com os seus
em incompreensíveis dialetos.

Isto apenas prova
que Deus é poliglota.
Se não 
por que inventaria a Torre de Babel?

Só não entendo por que alguns se apresentam
como seus tradutores e intérpretes
quando ele claramente fala
pela voz dos pássaros e das flores

ou quando pela boca das bactérias 
destrói (silencioso)
- nossa empáfia verbal.


Affonso Romano de Sant Anna
In Sísifo desce a montanha

segunda-feira, 27 de maio de 2013

JOGANDO COM O TEMPO



O presente ameaça
o futuro não chega
o passado não passa

o passado não passa
o futuro não chega
e o presente ameaça

o passado trespassa
o futuro não chega
o presente escorraça.

O tempo é trapaça?

tempo:
fogo-fátuo
na veia e na praça
floresta
onde o caçador é caça
labirinto
onde mais se perde
quanto mais se acha.


Affonso Romano de Sant'Anna
In Sísifo desce a montanha

quinta-feira, 4 de abril de 2013

LEITURA NATURAL



Tendo lido os jornais
- infectado a mente, enauseado os olhos -
descubro, lá fora, o azul do mar
e o verde repousante que começa nas samambaias da sala
e recrudesce nas montanhas.

Para que perco tantas horas do dia
nessas leituras necessárias e escarninhas?
Mais valeria, talvez, nas verdes folhas, ler
o que a vida anuncia.

Mas vivo numa época informada e pervertida.
Leio a vida que me imprimem
e só depois
o verde texto que me exprime.

Affonso Romano de Sant’Anna

segunda-feira, 25 de junho de 2012

NA BOCA DO DESERTO



Estava indo, há muito, pra o deserto
e não sabia.

Antes, ao revés, julgava caminhar
das pedras para o bosque
lugar de onde o mel e o vinho jorrariam.

Bastava fazer a travessia.

Em alguma parte passei por algum oásis
mas era para este destino de pedra
silêncio e pasmo
que me dirigia.

Os beduínos há muito compreenderam
o que eu não compreendia:
apenas nos movemos entre pedras, cabras e camelos
olhando ternamente o fim do dia.

A tenda é provisória.

Eterno
só o áspero horizonte de pedra
e a poesia.


Affonso Romano de Sant’Anna,
in Sísifo desce a montanha

quarta-feira, 23 de maio de 2012

ESTÁ SE CUMPRINDO O RITUAL



Está se cumprindo o ritual.

Depois dos avós
foram-se os pais
os tios, alguns primos.

Os amigos, uns distantes
outros próximos
apagam-se no horizonte.

É lento (e progressivo) o ritual.

Que os filhos não partam antes.
Deve haver uma certa ordem nessas coisas.

Consentimos.
Mas nem por isso deixamos de estremecer
antes do instante final.


Affonso Romano de Sant’Anna,
in Sísifo desce a montanha

terça-feira, 20 de março de 2012

DESPEDIDAS




Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.

Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas

Nada mais é gratuito, tudo é ritual.
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam
já não mentem.


Affonso Romano de Sant’Anna
In Epitáfio para o Séc.XX