segunda-feira, 21 de novembro de 2016

SEM MEDO OU PIEDADE



Arte Victor Bregeda


A página 
em branco,
que a tantos 
assusta,
na verdade 
pouco custa:

Era aquilo, 
agora é isso!

Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

terça-feira, 1 de novembro de 2016

EXCERTO LITERÁRIO




"O menino então sorri e nem o inimigo mais
feroz resistirá a esse sorriso de quem se
oferece tão sem defesa."

Lygia Fagundes Telles ,
in Verão no Áquário

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

OLHA-ME RINDO UMA CRIANÇA


Olha-me rindo uma criança
E na minha alma madrugou.
Tenho razão, tenho esperança
Tenho o que nunca bastou.

Bem sei. Tudo isto é um sorriso
Que e nem sequer sorriso meu.
Mas para meu não o preciso
Basta-me ser de quem mo deu.

Breve momento em que um olhar
Sorriu ao certo para mim...
És a memória de um lugar,
Onde já fui feliz assim.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

LAR




Lar é onde se acende o lume e se partilha mesa
e onde se dorme à noite o sono da infância.
Lar é onde se encontra a luz acesa quando se chega tarde.
Lar é onde os pequenos ruídos nos confortam:
um estalar de madeiras, um ranger de degraus,
um sussurrar de cortinas.
Lar é onde não se discute a posição dos quadros,
como se eles estivessem ali desde o princípio dos tempos.
Lar é onde a ponta desfiada do tapete, a mancha de humidade no tecto,
o pequeno defeito do caixilho,
são imutáveis como uma assinatura reconhecida.
Lar é onde os objectos têm vida própria e as paredes
nos contam histórias.
Lar é onde cheira a bolos, a canela, a caramelo.
Lar é onde nos amam.

Rosa Lobato Faria ,
in "O Sétimo Véu"








domingo, 2 de outubro de 2016

APRENDENDO A VERBEJAR*




Engatinhar
sem rumo previsto.
Nunca aceitar imposto
diverso caminho.

Balbuciar, 
sem uso bem visto, 
em inverso e vário
mais atrevido abuso.

Até silabar,
de repente, a mesma
palavra frequente
como original avatar.

Repetir 
tudo aquilo, 
num grave grito aflito,
e num arguir tranquilo.

Dizer, 
diante da vida
e da morte, Tudo:

Antes do fim previsto!

Até um dia sentir
o saber, a dor, 
a alegria e gosto 
da frase inédita:

Todos os tempos do Verbo
inquieto – a dieta angélica,
a gramática rupreste, 
a tempestade que invade
a majestade da Língua!

(Essa, a glória profana;
a ousadia do bardo bárbaro Ser!)

Jairo de Britto,
em “Aquarela da Madrugada”
Vitória, Espírito Santo - Brasil

domingo, 18 de setembro de 2016

FIZ DO VERDE MEU CAMINHO...



Fiz do verde meu caminho,
fiz da vida plantação;
plantei flor e passarinho,
filhos, versos e oração.
Plantei pão e plantei vinho,
com o amor da minha mão.
Caminhei por verdes mares,
fiz sorrir verdes olhares,
verde foi o meu jardim.
Verde foi minha esperança
no verdor das minhas tranças...
Hoje restam só lembranças
com as quais brinco cantares
da ventura que há em mim.
O Senhor é meu pastor
e nas verdes pradarias
me regala paz sem fim!


Patricia Neme,
em Tempos

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Às vezes, não há nenhum aviso...




“Às vezes, não há nenhum aviso.
As coisas acontecem em segundos.
Tudo muda.
Você está vivo.
Você está morto.
E as coisas continuam. 
Somos finos como papel. 
Existimos por acaso entre as 
percentagens, temporariamente.
E esta é a melhor e a pior parte,
o fator temporal.
E não há nada que se possa fazer
sobre isso. Você pode sentar no 
topo de uma montanha e meditar
por décadas e nada vai mudar.
Você pode mudar a si mesmo 
para ser aceitável mas talvez 
isso também esteja errado.
Talvez pensemos demais.
Sinta mais, pense menos.”

Charles Bukowski 
in , " O capitão saiu para o almoço
e os marinheiros tomaram conta do navio "

FERNANDO PESSOA




" Nascemos sem saber falar e morremos 
sem ter sabido dizer .
Passa-se nossa vida entre o silêncio de quem
está calado e o silêncio de quem não foi
entendido , e em torno disto , como uma abelha
em torno de onde não há flores , paira incógnito
um inútil destino ."

Fernando Pessoa , 
in " No jardim de Epícteto "





HORA LILÁS...




Hora lilás, da cor desta saudade
Que não me deixa mais o coração,
Hora em que a alma toda se me invade
Só de tristeza e de desolação ...

Hora em que eu lembro a minha pouca idade
E a minha tão cruel desilusão ...
Tudo se esvai na bruma da saudade,
Essa tão doce e triste cerração ...

Hora lias, da cor que me entristece,
Desta saudade que jamais esquece
Meu coração cansado de sofrer;

Hora em que eu vivo a vida já vivida,
Hora lilás, da cor da minha vida,
Pois é saudade só o meu viver.

Anrique Paço D’Arcos
in Poesias Completas











sábado, 13 de agosto de 2016

A CASA


Arte Margarita Sikorskaia



Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.

A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.

Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.

Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…

E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.

Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam. 

- Mia Couto, 
em “Tradutor de chuvas”

segunda-feira, 25 de julho de 2016

RAÍZES




Quem me dera ter raízes,
que me prendessem ao chão
Que não me deixassem dar
um passo que fosse em vão.

Que me deixassem crescer
silencioso e erecto,
como um pinheiro-de-riga,
uma faia ou um abeto

Quem me dera ter raízes,
raízes em vez de pés.
Como o lódão, o aloendro,
o ácer e o aloés.

Sentir a copa vergar,
quando passasse um tufão.
E ficar bem agarrado,
pelas raízes, ao chão.

Jorge Sousa Braga, 
“Herbário”, Assírio e Alvim, 1999

DORMIR UM POUCO...





Dormir um pouco — um minuto,
um século. Acordar
na crista
duma onda, ser
o lastro de espuma
que há no sono
das algas. Ou
ser apenas
a maré, que sempre
volta
para dizer: eu não morri, eu sou
a borboleta
do vento, a flor
incandescente destas águas.

Albano Martins,
in "Castália e Outros Poemas"


quinta-feira, 7 de abril de 2016

DA CONDIÇÃO HUMANA


Todos sofremos. 
O mesmo ferro oculto 
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta 
O mesmo sal nos queima os olhos vivos. 
Em todos dorme 
A humanidade que nos foi imposta. 
Onde nos encontramos, divergimos. 
É por sermos iguais que nos esquecemos 
Que foi do mesmo sangue, 
Que foi do mesmo ventre que surgimos.



Ary dos Santos
in 'Liturgia do Sangue'

terça-feira, 5 de abril de 2016

A CALIGRAFIA DO SILÊNCIO


Fotografia Leo Flores

Ando pelas ruas desta incerta cidade.
Deixo que o meu olhar
se ajuste ao olhar dos outros.
Entre ruas e rostos há fragmentos de solidão
que denunciam a trágica expressão da vida.
Todos conhecem a oralidade da mudez,
a vigília da revolta, a senha do desdém,
a estranheza de golpes imolando os sonhos.
Eu, com uma fala colada na língua,
somente me consinto
a áspera caligrafia do silêncio.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

sábado, 12 de março de 2016

ELA VAI CRESCER VENDO POESIA....




Ela vai crescer vendo poesia no umbigo da lua,
enquanto ele amará os números embutidos nos
anéis de saturno. Ela será a rima que se atira
sem medida protetiva; ele calculará o próximo
passo, o gesto, a isca, com a maior segurança .
Desde sempre ela é o excesso e, passem décadas,
não medirá esforços em seu transbordamento.

Ele, daqui a mais de trinta outonos,
economizará palavras, exercendo seu direito
de represa.

Ela sonhará com aquele amor criança e lhe
dará uma chance, caso ele "enloucresça".

valéria tarelho

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

AO SOL




Naufragas na noite
em pompas de luz e imensidade
todo germe palpita na semente
e da nova manhã ressurges
clara divindade

nua a carnação sob o manto escarlate.

- Dora Ferreira da Silva,
 em "Andanças". 






quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

BRINCA À BEIRA MAR




Recua no tempo.
Ajusta a areia aos teus dedos de criança.
Brinca à beira-mar, o teu espaço mais cúmplice.
Já sobre ti rolam as algas e tu, de olhos
fechados, reténs esse prazer apetecido.
As conchas vêm brincar contigo.
Falam do sussurro dos peixes escondidos
nas ervas marinhas, da ancoragem dos barcos
e da lisura das quilhas submersas.
Um bando de pássaros abre-te no peito
um estuário onde as marés se abraçam.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014

REGRESSO




Sem mais nem menos
surgiu o passado,
corpo intranquilo
feito de sons semelhantes
aos rostos que amei,
universo donde me excluí,
mar desprovido de cais
na obliquidade dos contrastes.

Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.

À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto.

Procuro, teimosamente,
o rasto da brisa
que me invade o corpo
e apenas sei que o sonho
é um risco inquietante,
quando a solidão tem rosto
e se conhece a posição das estrelas
no âmago das palavras.

Graça Pires
De Poemas, 1990



VAI CHOVER





Vai chover, e eu vou estar mais triste.
Chuva é distância: esfuma, apaga, esconde.
Doerei por não saber se ainda existe
o verde luar e sonha um quando e um onde.

(É talvez mais mortal haver sorrido
que ter chorado: talvez guarde a boca
sombras que os os olhos já terão perdido...)
Sinto distância em mim. A vida é oca,

e dentro dela chovo, transbordando,
minha cinza, meu longe, estes em que ando
restos de sons e faces de arrebol;

e vejo entre submissa névoa e vento
reabrir-se em curva de ouro o pensamento
das horas que moraram no teu sol.

Abgar Renault
in "Obra Poética" – l.990 –






BREVIDADE


Arte Leonid Afremov

É curto o caminho
largos são os passos
sombria é a travessia.
Longe, ao largo
passeia indiferente
a eternidade.

Miriam Portela



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

MONÓLOGO



Estar atento diante do ignorado,
reconhecer-se no desconhecido,
olhar o mundo, o espaço iluminado,
e compreender o que não tem sentido.

Guardar o que não pode ser guardado,
perder o que não pode ser perdido.
— É preciso ser puro, mas cuidado!
É preciso ser livre, mas sentido!

É preciso paciência, e que impaciência!
É preciso pensar, ou esquecer,
e conter a violência, com prudência,

qual desarmada vítima ao querer
vingar-se, sim, vingar-se da existência,
e, misteriosamente, não poder.

Dante Milano,
In melhores Poemas

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

EXCERTO LITERÁRIO



...
então, por favor, me dêem isso:
um pouco de silêncio bom, para que eu escute o
vento nas folhas, a chuva nas lajes, o mar que
quebra na areia, e tudo o que fala muito além
das palavras de todos os textos & muito além
da música dos sentimentos: o grito do silêncio.
sua voz inaudita, voz de vazio, voz oca, voz
que possibilita o diálogo entre tantas vozes
outras, vozes que surgem do (aparente) vazio 
dentro de nós, e que retumbam, e que ressoam,
vozes que se reafirmam satisfeitas, vozes
que pedem mudanças, vozes que precisam ser 
encaradas & resolvidas se necessário.

ouvir a voz do silêncio: a pedra, toda 
exterioridade, um silêncio absoluto defronte
para o mar: ouvir o que sua voz tem a nos ventar.
...


Lya Luft,
in Pensar é transgredir

sábado, 10 de outubro de 2015

TODOS OS DIAS




Todos os dias
nascem pequeninas nuvens,
róseas umas,
aniladas outras,
nacaradas espumas...

Todos os dias
nascem rosas,
também róseas
ou cor de chá, de veludo...

Todos os dias
nascem violetas,
as eleitas
dos pobres corações...

Todos os dias
nascem risos, canções...

Todos os dias
os pássaros acordam
nos seus ninhos de lãs...

Todos os dias
nascem novos dias,
nascem novas manhãs...

Saúl Dias
In ‘Essência’ (1973)

SÓ PORQUE ME SORRISTE




Só porque me sorriste
nessa tarde
o sol inundou a cidade.

E no meio do asfalto,
entre o rumor dos táxis,
surgiram de repente
árvores agrestes cheias
de flores e pássaros.


Saul Dias




sábado, 3 de outubro de 2015

EXCERTO LITERÁRO




Cada pessoa brilha com luz própria,
entre todas as outras. 
Existem fogos grandes e fogos pequenos,
e fogos de todas as cores. Existe gente
de fogo sereno, que nem fica sabendo do 
vento, e existe gente de fogo louco, que
enche o ar de faíscas. Alguns fogos,
fogos bobos, não iluminam nem queimam. 

Mas outros, outros ardem a vida com tanta
vontade que não se pode olhá-los sem 
pestanejar, e quem se aproxima se incendeia.

Eduardo Galeano

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A ÁRVORE




Ó árvore, quantos séculos levaste 
a aprender a lição que hoje me dizes: 
o equilíbrio, das flores às raízes, 
sugerindo harmonia onde há contraste?

Como consegues evitar que uma haste 
e outra se batam, pondo cicatrizes 
inúteis sobre os membros infelizes? 
Quando as folhas e os frutos comungaste?

Quantos séculos, árvore, de estudos 
e experiências — que o vigor consomem 
entre vigílias e cismares mudos —

demoraste aprendendo o teu exemplo, 
no sossego da selva armada em templo? 
Dize: e não há esperança para o Homem?

Geir Campos
In Rosa dos rumos (1950).
21-9 - Dia da Árvore

domingo, 20 de setembro de 2015

HORA AZUL




Hora azul.No parque, o ocaso
tem sugestões de pintura.
Crescem as sombras e alvura
dos cisnes, no tanque raso.

O velho jardim de luxo
parece um vaso de aromas.
Harmonias policromas
sobem da água do repuxo.

A tarde cai dos espaços 
como uma flor, a um arranco
do vento, cai aos pedaços .

E a noite vem... No jardim,
o luar, como um pavão branco,
abre a cauda de marfim.

Onestaldo de Pennafort
 - In Poesia


sábado, 19 de setembro de 2015

NEBLINA DO TEMPO




Na neblina do tempo
O menino desapareceu,
Levando com ele
Todos meus sonhos e ilusões.
Hoje,resta apenas,
No homem que sou eu,
A sombra do menino,
Daquele menino sonhador
Que fui eu
E que na neblina do tempo
Certa vez se perdeu...


Olympiades Guimarães Corrêa
in Neblina do Tempo 1.996


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

AGUARDAMOS UMA LUZ


Arte Vladimir Kush

Aguardamos uma luz de seiva 
que reacenda a treva que nos cega.
Uma luz que não fira a brancura dos muros
nem as sombras dos alpendres
onde plantámos as giestas bravas.
Uma luz que devolva à terra
a farta lembrança das nascentes.
Uma luz para ficar como herança
quando as aves da morte se afastarem
para sempre deste caos
que, assustadoramente, nos acusa.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

ANOITECER


 
Homem, cantava eu como um pássaro
ao amanhecer. Em plena unanimidade
de um mundo só.
Como, porém, viver num mundo onde todas as coisas
tivessem um só nome?
 
Então, inventei as palavras.
E as palavras pousaram gorjeando sobre o rosto
dos objetos.
 
A realidade, assim, ficou com tantos rostos
quantas são as palavras.
 
E quando eu queria exprimir a tristeza e a alegria
as palavras pousavam em mim, obedientes
ao meu menor aceno lírico.
 
Agora devo ficar mudo.
Só sou sincero quando estou em silêncio.
 
Pois, só quando estou em silêncio
elas pousam em mim — as palavras —
como um bando de pássaros numa árvore
ao anoitecer.


 Cassiano Ricardo,
in POESIAS COMPLETAS

MADRIGAL



"A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:


'Era uma vez uma flor,
Nasceu à beira de um Poeta...'

Vês como é simples e linda? 


(O resto conto depois,
mas tão a sós, tão de manso
que só escutemos os dois)."




Sebastião da Gama ,
in 'Antologia Poética' 

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

EXCERTO LITERÁRIO



Parabéns, querido neto Felipe

O neto é a hora
do carinho ocioso e estocado, 
não exercido nos próprios filhos e que 
não pode morrer conosco.
Por isso, os avós são tão desmesurados e 
distribuem tão incontrolável afeição.
Os netos são a última oportunidade de
reeditar o nosso afeto.

Affonso Romano de Sant'Anna,
in Melhores Crônicas

GORJEIOS




Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.
 
Manoel de Barros  
In Poesia Completa

quinta-feira, 30 de julho de 2015

IMPROVISO


Arte Laszlo Koday

... Até que um dia,
quando menos se espera,
surge uma casa dentro do sertão
surge outra casa dentro do sertão
surge outra casa uma porção de telhas novas cor
de brasa uma porção de casas.

E uma cidade como caixa de surpresa
listou de branco e de vermelho o silêncio da grota.
Um trem de ferro passa cheio de imigrantes...
(Há em seu apito como um grito de alvorada e de tristeza:
há em toda terra um choro típico de criança,
gosto de lágrimas misturadas com esperança).

Cassiano Ricardo,
in POESIAS COMPLETAS

quarta-feira, 22 de julho de 2015

DE SEDA




São pequenas as jarras de porcelana
onde deixámos os lírios brancos
que resistiram ao tempo da secura.
E quando os nossos olhos orvalhados
ficaram mais sensíveis à luz
do amanhecer juncámos o chão
que amamos com a brancura dos lírios.
De seda. Da sede: gota a gota.


Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

terça-feira, 21 de julho de 2015

QUADRO ANTIGO



Por certo que amo as coisas, os objetos,
que me acompanham, neste fim de viagem.
São elas, coisas, minhas cúmplices, à hora
em que, ó lua, me contas teus segredos.

São eles, os objetos, os meus símbolos,
para uma última fotomontagem.
Mas, como são — coisas e objetos — tristes,
por já não serem mais os meus brinquedos.

Em vão o calor físico os dilata.
Em vão meu pensamento lhes dilui
o acre contorno, em proustiana sondagem.

Só, contra o sol, a sombra deles flui!
no chão, na mesa, ou — colorida imagem —
no cristal onde nunca sou quem fui.

Cassiano Ricardo,
in POESIAS COMPLETAS


segunda-feira, 20 de julho de 2015

NOMES



Nomes com cheiro de mato:
corticeira,
guajuvira,
aroeira,
manacá.

Helena Kolody
in ‘Sinfonia da Vida’









sexta-feira, 17 de julho de 2015

FLORES




As flores do inverno vão se abrindo
em arbustos sem folhas
candelabros de ramos
que se aquecem
na débil luz que emana das corolas.
Falam em surdina, veladas de aroma,
as pétalas, bailarinas do pudor,
confidenciando nos vórtices secretos
dentro da pálpebra do dia sem calor.


Dora Ferreira da Silva (1918-2006)




sábado, 11 de julho de 2015

O SÓSIA



 
Dificilmente, ó amigo,
você me encontrará presente, em casa.
Pois eu sofro de ausência,
como se houvesse, em mim, uma asa.
 
A esperança e a saudade
— o leste e o oeste do meu corpo obscuro —
são duas formas de eu nunca estar em casa,
quando me procuram, e eu mesmo me procuro.
 
Vivo continuamente longe
de mim, nas horas em que me decomponho
num sonho; estou no outro hemisfério,
que é um não sei onde, onde só ausência lavra.
 
Só me encontro comigo, ó amigo,
se me divido em dois, diante do espelho
Um em frente do outro,
sem nenhuma palavra.


Cassiano Ricardo,
in A Face Perdida)

quinta-feira, 2 de julho de 2015

FADOS CONTRÁRIOS


Fotografia de Nelci Kaaletka


Diz à flor a borboleta:
‘Vamos, irmã, tudo é luz!
Há muito prisma doirado
Que pelos ares transluz…

Tuas pétalas são asas,
Das nuvens nas tênues gazas,
D’aurora nos seios nus
Tens um ninho entre perfumes…

Vamos boiar, entre os lumes
Desses páramos azuis’.
À linda fada dos ares
Responde a silvestre flor:

‘Eu amo o gemer das auras
E o beijo do beija-flor…
Se és do céu a violeta,
Sou da terra a borboleta...

Sigo um destino menor.
Buscas o céu – eu a alfombra,
Queres a luz – eu quero a sombra,
Pedes glória – eu peço amor’...”

Castro Alves
Em “Poesias Completas”, 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

CERCO


Arte Giovani Strino 


O corpo começa a consentir,
ceder, abrir fendas
com as chuvas altas,
a mostrar, quase exibir
velhas raízes,rugas, mágoas,
a secura próxima dos galhos;
corpo, sim,ele que foi afável
e crédulo e solar - tão
indiferente agora às matinais
e despenteadas vozes:
distante e tão cercado
de apagadas águas.

Eugénio de Andrade
In "Rente ao Dizer"


quinta-feira, 25 de junho de 2015

PAIRA À TONA DE ÁGUA




Paira à tona de água 
Uma vibração, 
Há uma vaga mágoa 
No meu coração.

Não é porque a brisa 
Ou o que quer que seja 
Faça esta indecisa 
Vibração que adeja, 

Nem é porque eu sinta 
Uma dor qualquer. 
Minha alma é indistinta, 
Não sabe o que quer. 

É uma dor serena, 
Sofre porque vê. 
Tenho tanta pena! 
Soubesse eu de quê!...”

*Fernando Pessoa*
Em “Poesias”, Lisboa, Ed. Ática, 1942.


segunda-feira, 22 de junho de 2015

POEMA DUM FUNCIONÁRIO CANSADO



                  
 
A noite trocou-me os sonhos e as mãos  
dispersou-me os amigos  
tenho o coração confundido e a rua é estreita  
estreita em cada passo  
as casas engolem-nos  
sumimo-nos 
estou num quarto só num quarto só  
com os sonhos trocados  
com toda a vida às avessas a arder num quarto só  
Sou um funcionário apagado  
um funcionário triste  
a minha alma não acompanha a minha mão  
Débito e Crédito Débito e Crédito  
a minha alma não dança com os números  
tento escondê-la envergonhado 
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente 
e debitou-me na minha conta de empregado 
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar 
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever? 
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço 
Soletro velhas palavras generosas 
Flor rapariga amigo menino  
irmão beijo namorada  
mãe estrela música 
São as palavras cruzadas do meu sonho  
palavras soterradas na prisão da minha vida  
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só. 
     
António Ramos Rosa,
in "Viagem através duma nebulosa", 

domingo, 21 de junho de 2015

SENTIMENTO DA NOITE




Com o fundo poder azul da noite,
que me clareia o coração,
por uma súbita nesga entre as nuvens
reluz o mundo das estrelas e da lua.


Em seu jazigo, lampeja minha alma
com redivivo ardor;
ao pálido perfume das esferas,
a noite dedilha a harpa.


A essa convocação, míngua a penúria
e a preocupação foge.
Mesmo que eu amanhã já não esteja
aqui – aqui estou hoje!

Hermann Hesse
In: Andares

sexta-feira, 19 de junho de 2015

SONETO DA PORTA




Quem bate à minha porta não me busca.
Procura sempre aquele que não sou
e, vulto imóvel atrás de qualquer muro,
é meu sósia ou meu clone, em mim oculto.

Que saiba quem me busca e não me encontra:
sou aquele que está além de mim,
sombra que bebe o sol, angra e laguna
unidos na quimera do horizonte.

Sempre andei me buscando e não me achei:
E ao pôr-do-sol, enquanto espero a vinda
da luz perdida de uma estrela morta,

sinto saudades do que nunca fui,
do que deixei de ser, do que sonhei
e se escondeu de mim atrás da porta.



Lêdo Ivo
in "Plenilúnio".

terça-feira, 16 de junho de 2015

LÁ FORA, O FRIO PREPARA A SUA GEADA...




Lá fora, o frio prepara a sua geada,
a noite clara, os pássaros dormindo.
A lenha rubra em fogo se esvaindo,
um poema tecendo a sua meada.
Algo se foi. A casa está vazia.
As tábuas gastas de tantos andares
têm a memória plena de cantares
a desfiar o tempo que se adia.
Tudo é silêncio. Salvo a melodia
do fogo afugentando com urgência
a nota surda da melancolia.
Tudo é fugaz. Apenas permanece
a brasa em sua adiada despedida –
e o poema, agora cálido, se tece.
 
Renato Tapado
In Palavras na Penumbra

segunda-feira, 15 de junho de 2015

UM DIA JUNTEI TODAS AS PALAVRAS



Um dia juntei todas as palavras
que já aprendera e
busquei para elas novos sentidos,
novas maneiras de soar e de voar
até ao coração dos homens.
Censuraram-me por tê-lo feito
e houve até quem dissesse:
“As palavras são o que são
e procurar para elas novos significados
é pura perda de tempo e ofensa dos deuses.”
Eu não lhes dei ouvidos
e continuei a escrever, aprendendo
O sabor de casar a palavra ”água”
com a palavra ”vento” e a palavra
“corpo” com a palavra “terra”
e a palavra “homem” com “sonho”
e a palavra “natureza” com “vida”.
Foi, assim um pouco sem o querer,
um pouco sem o esperar, que usei
pela primeira vez a palavra”poesia”,
que viaja comigo, companheira eterna,
para todos os lugares onde vou,
desde a memória do homem
até aos últimos esconderijos da noite,
até ao fundo da claridade dos dias(…)

José Jorge Letria
In “No Voo de uma palavra”


quarta-feira, 10 de junho de 2015

SONETO 73



Soneto (73)


Esta estação do ano podes vê-la 
em mim: folhas caindo ou já caídas; 
ramos que o frémito do frio gela; 
árvore em ruína, aves despedidas. 
E podes ver em mim, crepuscular, 
o dia que se extingue sobre o poente, 
com a noite sem astros a anunciar 
o repouso da morte, gradualmente. 
Ou podes ver o lume extraordinário, 
morrendo do que vive: a claridade, 
deitado sobre o leito mortuário 
que é a cinza da sua mocidade. 
      Eis o que torna o amor mais forte: 
      amar quem está tão próximo da morte. 


William Shakespeare, in "Sonetos" 
Tradução de Carlos de Oliveira 


segunda-feira, 8 de junho de 2015

CREPÚSCULO DE OUTONO



O crepúsculo cai, manso como uma benção. 
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito… 
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam 
As feridas que a vida abriu em cada peito.

O outono amarelece e despoja os lariços. 
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar 
O terror augural de encantos e feitiços. 
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.

Os pinheiros porém viçam, e serão breve 
Todo o verde que a vista espairecendo vejas, 
Mais negros sobre a alvura unânime da neve, 
Altos e espirituais como flechas de igrejas.

Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio 
Do rio, e isso parece a voz da solidão. 
E essa voz enche o vale…o horizonte purpúreo… 
Consoladora como um divino perdão.

O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha 
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos, 
Flocos, que a luz do poente extática semelha 
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.

A sombra casa os sons numa grave harmonia. 
E tamanha esperança e uma tão grande paz 
Avultam do clarão que cinge a serrania, 
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.


Manuel Bandeira 
De A cinza das Horas 

domingo, 7 de junho de 2015

ANTES DE ANTECIPARMOS O FUTURO




Antes de anteciparmos o futuro acrescentemos
à voz da terra o sobressalto das fontes
refugiando a sede.
Nenhuma nascente escapa à exigência,
tão vulnerável, da secura do barro
que nos separa das nuvens.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012