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sábado, 13 de agosto de 2016

A CASA


Arte Margarita Sikorskaia



Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.

A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.

Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.

Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…

E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.

Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam. 

- Mia Couto, 
em “Tradutor de chuvas”

terça-feira, 12 de maio de 2015

A CASA DA INFÂNCIA





"A casa da infância é como um rosto de mãe: 
contemplamo-lo como se já existisse antes 
de haver o Tempo."

Mia Couto 
in O outro pé da sereia.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

MIA COUTO



Olhei o poente e vi as aves carregando o sol,
empurrando o dia para outros aléns.

MIA COUTO
in "O último voo do flamingo" 

domingo, 29 de junho de 2014

AS RUAS



No tempo 
em que havia ruas, 
ao fim da tarde 
minha mãe nos convocava: 
era a hora do regresso. 
E a rua entrava 
connosco em casa. 
Tanto o Tempo 
morava em nós 
que dispensávamos futuro. 
Recolhida em meu quarto, 
a cidade adormecia 
no mesmo embalo da nossa mãe. 
À entrada da cama, 
eu sacudia a areia dos sonhos 
e despertava vidas além. 
Entre casa e mundo 
nenhuma porta cabia: 
que fechadura encerra 
os dois lados do infinito? 

MIA COUTO 
In Tradutor de chuvas, 2011



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

VIAGEM




O beijo da quilha
na boca da água
me vai trocando entre o céu e mar,
o azul de outro azul,
enquanto
na funda transparência
sinto a vertigem
de minha própria origem
e nem sequer já sei
que olhos são os meus
e em que água
se naufraga minha alma

Se chorasse, agora,
o mar inteiro
me entraria pelos olhos

Mia Couto,
In Raiz de Orvalho e outros poemas








quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

MIA COUTO




“Todos os dias somos confrontados com o apelo exaltante de
combater a pobreza.E todos nós, de modo generoso e
patriótico, queremos participar nessa batalha.
Existem, no entanto, várias formas de pobreza.
E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos
indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão
sobre nós mesmos. Falo da dificuldade de nos pensarmos
como sujeitos históricos,como lugar de partida e como
destino de um sonho.“

(Mia Couto)

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

LIÇÕES



Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.
Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.
Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.
Trémula, a haste
me pede
o adiar da noite.
Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.
Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.
Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?

MIA COUTO
In Idades Cidades Divindades, 2007 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

SOTAQUE DA TERRA




Estas pedras
sonham ser casa

sei
porque falo
a língua do chão

nascida
na véspera de mim
minha voz
ficou cativa do mundo,
pegada nas areias do Índico

agora,
ouço em mim
o sotaque da terra

e choro
com as pedras
a demora de subirem ao sol


Mia Couto
in Raiz de Orvalho e Outros Poemas









terça-feira, 8 de outubro de 2013

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

HORÁRIO DO FIM



morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento


Mia Couto

sábado, 20 de julho de 2013

MIA COUTO



“[…]Falamos em ler e pensamos apenas nos livros.
 Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo.
 Nós lemos emoção nos rostos,
 lemos os sinais climáticos nas nuvens,
 lemos o chão, 
 lemos o Mundo,
 lemos a Vida. 
 Tudo pode ser página.
 Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar.”

Mia Couto

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

MIA COUTO


“... 
nós temos olhos que se abrem para dentro,
esses que usamos para ver os sonhos...”

Mia Couto,
in Estórias abensonhadas

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

MIA COUTO



“[…]Falamos em ler e pensamos apenas nos livros.
Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. 
Nós lemos emoção nos rostos, 
lemos os sinais climáticos nas nuvens, 
lemos o chão, lemos o Mundo, 
lemos a Vida.
Tudo pode ser página. 
Depende apenas da intenção de descoberta 
do nosso olhar.”

— Mia Couto

sábado, 24 de novembro de 2012

MIA COUTO

...
Os lugares não se comparam. 
Como as pessoas,
cada um deles acontece num momento único, 
numa única e irrepetível vida.

Mia Couto, 
in Pensageiro Frequente

terça-feira, 13 de novembro de 2012

MIA COUTO


...
"O que faz andar a estrada?
É o sonho.
Enquanto a gente sonhar a estrada
permanecerá viva.
É para isso que servem os caminhos,
para nos fazerem parentes do futuro."
...

Mia Couto
in "Terra sonâmbula"

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

MIA COUTO



Sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança
contra um destino que é sempre tardio e pouco."

Mia Couto

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

MIA COUTO



Eis o que aprendi
nesses vales
onde se afundam os poentes :
afinal , tudo são luzes
e a gente se acende é nos outros.
A vida é um fogo ,
nós somos suas breves incandescências . "

Mia Couto
in " Um rio chamado tempo , uma casa chamada terra"

segunda-feira, 16 de julho de 2012

ANTE O FRIO


Ante o frio,

faz com o coração
o contrário do que fazes com o corpo:
despe-o.
Quanto mais nu,
mais ele encontrará
o único agasalho possível:
um outro coração.


Mia Couto,
in A Chuva Pasmada

quinta-feira, 5 de julho de 2012

SONO COLOQUIAL



Da velhice
sempre invejei
o adormecer
no meio da conversa.

Esse descer de pálpebra
não é nem idade nem cansaço.

Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia.

Mia Couto,

in Idades/ cidades/ divindade

terça-feira, 29 de maio de 2012

MIA COUTO




" Hoje sei : nenhuma rua é pequena .
Todas escondem infinitas histórias ,
todas ocultam incontáveis segredos ."

Mia Couto ,


in " Antes de nascer o mundo"