terça-feira, 21 de julho de 2015

QUADRO ANTIGO



Por certo que amo as coisas, os objetos,
que me acompanham, neste fim de viagem.
São elas, coisas, minhas cúmplices, à hora
em que, ó lua, me contas teus segredos.

São eles, os objetos, os meus símbolos,
para uma última fotomontagem.
Mas, como são — coisas e objetos — tristes,
por já não serem mais os meus brinquedos.

Em vão o calor físico os dilata.
Em vão meu pensamento lhes dilui
o acre contorno, em proustiana sondagem.

Só, contra o sol, a sombra deles flui!
no chão, na mesa, ou — colorida imagem —
no cristal onde nunca sou quem fui.

Cassiano Ricardo,
in POESIAS COMPLETAS


2 comentários:

  1. Bela escolha!
    Dizem que nada levamos daqui, mas acho que levamos sim: a essência do que foi nosso.

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