sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

COMEÇAR HOJE O ANO




Nada começa.Tudo continua.
Onde ‘stamos, que vemos só passar?
O dia muda, lento, no amplo ar;
Múrmura, em sombras, flui a água nua.

Vem de longe,
Só nosso vê-las teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
È abismo o começo e ausência.

Nenhum ano começa. É Eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna Idade,
Precipício de Deus sobre o momento,

Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo: e verbo o pensamento.

Fernando Pessoa, Poesia
In Poemário - Assírio e Alvim - 2007

3 comentários:

  1. Adoro Fernando Pessoa!!! Não conhecia este poema. Gratíssima surpresa!!!

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