quinta-feira, 15 de outubro de 2015
EXCERTO LITERÁRIO
...
então, por favor, me dêem isso:
um pouco de silêncio bom, para que eu escute o
vento nas folhas, a chuva nas lajes, o mar que
quebra na areia, e tudo o que fala muito além
das palavras de todos os textos & muito além
da música dos sentimentos: o grito do silêncio.
sua voz inaudita, voz de vazio, voz oca, voz
que possibilita o diálogo entre tantas vozes
outras, vozes que surgem do (aparente) vazio
dentro de nós, e que retumbam, e que ressoam,
vozes que se reafirmam satisfeitas, vozes
que pedem mudanças, vozes que precisam ser
encaradas & resolvidas se necessário.
ouvir a voz do silêncio: a pedra, toda
exterioridade, um silêncio absoluto defronte
para o mar: ouvir o que sua voz tem a nos ventar.
...
Lya Luft,
in Pensar é transgredir
sábado, 10 de outubro de 2015
TODOS OS DIAS
Todos os dias
nascem pequeninas nuvens,
róseas umas,
aniladas outras,
nacaradas espumas...
Todos os dias
nascem rosas,
também róseas
ou cor de chá, de veludo...
Todos os dias
nascem violetas,
as eleitas
dos pobres corações...
Todos os dias
nascem risos, canções...
Todos os dias
os pássaros acordam
nos seus ninhos de lãs...
Todos os dias
nascem novos dias,
nascem novas manhãs...
Saúl Dias
In ‘Essência’ (1973)
SÓ PORQUE ME SORRISTE
Só porque me sorriste
nessa tarde
o sol inundou a cidade.
E no meio do asfalto,
entre o rumor dos táxis,
surgiram de repente
árvores agrestes cheias
de flores e pássaros.
Saul Dias
sábado, 3 de outubro de 2015
EXCERTO LITERÁRO
Cada pessoa brilha com luz própria,
entre todas as outras.
Existem fogos grandes e fogos pequenos,
e fogos de todas as cores. Existe gente
de fogo sereno, que nem fica sabendo do
vento, e existe gente de fogo louco, que
enche o ar de faíscas. Alguns fogos,
fogos bobos, não iluminam nem queimam.
Mas outros, outros ardem a vida com tanta
vontade que não se pode olhá-los sem
pestanejar, e quem se aproxima se incendeia.
Eduardo Galeano
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
A ÁRVORE
Ó árvore, quantos séculos levaste
a aprender a lição que hoje me dizes:
o equilíbrio, das flores às raízes,
sugerindo harmonia onde há contraste?
Como consegues evitar que uma haste
e outra se batam, pondo cicatrizes
inúteis sobre os membros infelizes?
Quando as folhas e os frutos comungaste?
Quantos séculos, árvore, de estudos
e experiências — que o vigor consomem
entre vigílias e cismares mudos —
demoraste aprendendo o teu exemplo,
no sossego da selva armada em templo?
Dize: e não há esperança para o Homem?
Geir Campos
In Rosa dos rumos (1950).
21-9 - Dia da Árvore
domingo, 20 de setembro de 2015
HORA AZUL
Hora azul.No parque, o ocaso
tem sugestões de pintura.
Crescem as sombras e alvura
dos cisnes, no tanque raso.
O velho jardim de luxo
parece um vaso de aromas.
Harmonias policromas
sobem da água do repuxo.
A tarde cai dos espaços
como uma flor, a um arranco
do vento, cai aos pedaços .
E a noite vem... No jardim,
o luar, como um pavão branco,
abre a cauda de marfim.
Onestaldo de Pennafort
- In Poesia
sábado, 19 de setembro de 2015
NEBLINA DO TEMPO
Na neblina do tempo
O menino desapareceu,
Levando com ele
Todos meus sonhos e ilusões.
Hoje,resta apenas,
No homem que sou eu,
A sombra do menino,
Daquele menino sonhador
Que fui eu
E que na neblina do tempo
Certa vez se perdeu...
Olympiades Guimarães Corrêa
in Neblina do Tempo 1.996
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
AGUARDAMOS UMA LUZ
Arte Vladimir Kush
Aguardamos uma luz de seiva
que reacenda a treva que nos cega.
Uma luz que não fira a brancura dos muros
nem as sombras dos alpendres
onde plantámos as giestas bravas.
Uma luz que devolva à terra
a farta lembrança das nascentes.
Uma luz para ficar como herança
quando as aves da morte se afastarem
para sempre deste caos
que, assustadoramente, nos acusa.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
ANOITECER
Homem, cantava eu como um pássaro
ao amanhecer. Em plena unanimidade
de um mundo só.
Como, porém, viver num mundo onde todas as coisas
tivessem um só nome?
Então, inventei as palavras.
E as palavras pousaram gorjeando sobre o rosto
dos objetos.
A realidade, assim, ficou com tantos rostos
quantas são as palavras.
E quando eu queria exprimir a tristeza e a alegria
as palavras pousavam em mim, obedientes
ao meu menor aceno lírico.
Agora devo ficar mudo.
Só sou sincero quando estou em silêncio.
Pois, só quando estou em silêncio
elas pousam em mim — as palavras —
como um bando de pássaros numa árvore
ao anoitecer.
Cassiano Ricardo,
in POESIAS COMPLETAS
MADRIGAL
"A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:
'Era uma vez uma flor,
Nasceu à beira de um Poeta...'
Vês como é simples e linda?
(O resto conto depois,
mas tão a sós, tão de manso
que só escutemos os dois)."
Sebastião da Gama ,
in 'Antologia Poética'
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
EXCERTO LITERÁRIO
Parabéns, querido neto Felipe
O neto é a hora
do carinho ocioso e estocado,
não exercido nos próprios filhos e que
não pode morrer conosco.
Por isso, os avós são tão desmesurados e
distribuem tão incontrolável afeição.
Os netos são a última oportunidade de
reeditar o nosso afeto.
Affonso Romano de Sant'Anna,
in Melhores Crônicas
GORJEIOS
Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.
Manoel de Barros
In Poesia Completa
quinta-feira, 30 de julho de 2015
IMPROVISO
Arte Laszlo Koday
... Até que um dia,
quando menos se espera,
surge uma casa dentro do sertão
surge outra casa dentro do sertão
surge outra casa uma porção de telhas novas cor
de brasa uma porção de casas.
E uma cidade como caixa de surpresa
listou de branco e de vermelho o silêncio da grota.
Um trem de ferro passa cheio de imigrantes...
(Há em seu apito como um grito de alvorada e de tristeza:
há em toda terra um choro típico de criança,
gosto de lágrimas misturadas com esperança).
Cassiano Ricardo,
in POESIAS COMPLETAS
quarta-feira, 22 de julho de 2015
DE SEDA
São pequenas as jarras de porcelana
onde deixámos os lírios brancos
que resistiram ao tempo da secura.
E quando os nossos olhos orvalhados
ficaram mais sensíveis à luz
do amanhecer juncámos o chão
que amamos com a brancura dos lírios.
De seda. Da sede: gota a gota.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
terça-feira, 21 de julho de 2015
QUADRO ANTIGO
Por certo que amo as coisas, os objetos,
que me acompanham, neste fim de viagem.
São elas, coisas, minhas cúmplices, à hora
em que, ó lua, me contas teus segredos.
São eles, os objetos, os meus símbolos,
para uma última fotomontagem.
Mas, como são — coisas e objetos — tristes,
por já não serem mais os meus brinquedos.
Em vão o calor físico os dilata.
Em vão meu pensamento lhes dilui
o acre contorno, em proustiana sondagem.
Só, contra o sol, a sombra deles flui!
no chão, na mesa, ou — colorida imagem —
no cristal onde nunca sou quem fui.
Cassiano Ricardo,
in POESIAS COMPLETAS
segunda-feira, 20 de julho de 2015
NOMES
Nomes com cheiro de mato:
corticeira,
guajuvira,
aroeira,
manacá.
Helena Kolody
in ‘Sinfonia da Vida’
sexta-feira, 17 de julho de 2015
FLORES
As flores do inverno vão se abrindo
em arbustos sem folhas
candelabros de ramos
que se aquecem
na débil luz que emana das corolas.
Falam em surdina, veladas de aroma,
as pétalas, bailarinas do pudor,
confidenciando nos vórtices secretos
dentro da pálpebra do dia sem calor.
Dora Ferreira da Silva (1918-2006)
sábado, 11 de julho de 2015
O SÓSIA
Dificilmente, ó amigo,
você me encontrará presente, em casa.
Pois eu sofro de ausência,
como se houvesse, em mim, uma asa.
A esperança e a saudade
— o leste e o oeste do meu corpo obscuro —
são duas formas de eu nunca estar em casa,
quando me procuram, e eu mesmo me procuro.
Vivo continuamente longe
de mim, nas horas em que me decomponho
num sonho; estou no outro hemisfério,
que é um não sei onde, onde só ausência lavra.
Só me encontro comigo, ó amigo,
se me divido em dois, diante do espelho
Um em frente do outro,
sem nenhuma palavra.
Cassiano Ricardo,
in A Face Perdida)
quinta-feira, 2 de julho de 2015
FADOS CONTRÁRIOS
Fotografia de Nelci Kaaletka
Diz à flor a borboleta:
‘Vamos, irmã, tudo é luz!
Há muito prisma doirado
Que pelos ares transluz…
Tuas pétalas são asas,
Das nuvens nas tênues gazas,
D’aurora nos seios nus
Tens um ninho entre perfumes…
Vamos boiar, entre os lumes
Desses páramos azuis’.
À linda fada dos ares
Responde a silvestre flor:
‘Eu amo o gemer das auras
E o beijo do beija-flor…
Se és do céu a violeta,
Sou da terra a borboleta...
Sigo um destino menor.
Buscas o céu – eu a alfombra,
Queres a luz – eu quero a sombra,
Pedes glória – eu peço amor’...”
Castro Alves
Em “Poesias Completas”,
segunda-feira, 29 de junho de 2015
CERCO
Arte Giovani Strino
O corpo começa a consentir,
ceder, abrir fendas
com as chuvas altas,
a mostrar, quase exibir
velhas raízes,rugas, mágoas,
a secura próxima dos galhos;
corpo, sim,ele que foi afável
e crédulo e solar - tão
indiferente agora às matinais
e despenteadas vozes:
distante e tão cercado
de apagadas águas.
Eugénio de Andrade
In "Rente ao Dizer"
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