sábado, 16 de maio de 2015

FLOR AMARELA



Arte DonaldZolan

Atrás daquela montanha
tem uma flor amarela;
dentro da flor amarela,
o menino que você era.

Porém, se atrás daquela 
montanha não houver
a tal flor amarela,
o importante é acreditar
que atrás de outra montanha
tenha uma flor amarela
com o menino que você era
guardado dentro dela.


Ivan Junqueira,
in  Poesia reunida

sexta-feira, 15 de maio de 2015

NINFÉIAS




Eu vou aonde as nuvens
de impossíveis tons se embriagam,
eu nado onde aquáticos leques
se irisam em sonhos
e por arte do encanto se dissolvem.

Eu furto cores,
clico roxos que se miram
em espelhos que me expandem.

Bebo a luz, traço a alma,
eu sou o impressionista ambulante.

Então nem me perguntes
por quais cambiantes geografias me espalho:
meus olhos são câmeras mimadas
meus pincéis são artífices do instante.

Fernando Campanella

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A IMPLACÁVEL COLHEITA





Quando criança, roubaram-lhe
(em nome da cara boa conduta)...
o direito à Alegria. Ele resistiu.

Quando jovem, roubaram-lhe
(em nome da ordem e progresso)
o direito à Rebeldia. Ele revidou.

Quando adulto, roubaram-lhe
(em nome do mais querido Ter)
o direito de Ser. Ele assentiu.

À meia idade, roubaram-lhe
(em nome dos bons costumes)
o sagrado Querer. Ele aceitou.

Quando completou seus 80 anos,
(aniversariante obediente ao rito)
viu o quê permitiu! Ele perdeu.

Ele, atônito fantasma de si à deriva:
que nada a ninguém pediu e culpa.
Ele, dono do Tempo agora inútil.
Ele, só – diante do horror do não-Ser!


*Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”


terça-feira, 12 de maio de 2015

A CASA DA INFÂNCIA





"A casa da infância é como um rosto de mãe: 
contemplamo-lo como se já existisse antes 
de haver o Tempo."

Mia Couto 
in O outro pé da sereia.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

EXCERTO LITERÁRIO




“Eis o que tenho a pedir-vos nos meus oitenta anos:
 plantem nesse lugar um plátano, onde o vento 
 enroladinho no sono possa dormir sem sobressaltos;
 ou uma oliveira, ou um chorão, e à sua roda ponham
 uma sebe da flor doce e musical de espinheiro branco.
 Embora tenha pouca ou nenhuma fé seja no que for,
 a terra ficará mais habitável.

 Um poema ou uma  árvore podem ainda salvar o mundo.”
 
 Eugénio de Andrade ,
 in Palavras em Serrúbia (2003)

AS MULHERES ASPIRAM A CASA PARA DENTRO DOS PULMÕES




As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões 
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo, 
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados 
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram 
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas 
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens 
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram 
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem 
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro 
E geram continuamente. Transformam-se em pomares. 
Elas arrumam a casa 
Elas põem a mesa 
Ao redor do coração.

Daniel Faria
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados

sábado, 9 de maio de 2015

MÃE


Arte Emili Munie


São três letras apenas,
As desse nome bendito:
Três letrinhas,nada mais...
E nelas cabe o infinito
E palavra tão pequena
-confessam mesmo os ateus-
És do tamanho do céu!
E apenas menor do que Deus...

Mario Quintana 
in Lili Inventa o Mundo




sexta-feira, 8 de maio de 2015

NÓS





Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos...

E que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
- "Como se amaram esses coitadinhos!
Como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto...
Hão de falar os teus cabelos brancos...

Guilherme de Almeida (1860-1969)

quarta-feira, 6 de maio de 2015

CAMPO


Arte Reint Withaar

Voltamos sempre à casa de campo. 
Quando não estamos as plantas 
crescem de modo irregular e o pó 
acumula-se nos móveis e nos livros. 
Não importa. 
Nós voltamos apenas para regar a sede, 
beber a terra, colher a paisagem, 
mastigar o silêncio, partilhar a fome 
e tornar depois a ir embora 
com o corpo a doer da própria ausência.


Graça Pires
De Caderno de significados, 2013


terça-feira, 5 de maio de 2015

AO VENTO DE OUTONO




Vento de outono, vento solitário,
vento da noite,
força obscura que se desprende
do infinito e volta ao infinito,
rodopia dentro de mim, conjura
contra meu coração tua força,
arranca de um vez a casca
do fruto que não madura.


Joan Vinyoli
(1914-1984)
Tradução de João Cabral de Melo Neto.


sábado, 2 de maio de 2015

SÃO AS PESSOAS COMO TU...



"São as pessoas como tu que fazem com que o nada
 queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem
 coisas importantes e as preocupações maiores sejam
 de facto mais pequenas. São as pessoas como tu que 
 dão outra dimensão aos dias, transformando a chuva 
 em delirante orvalho e fazendo do inverno uma estação
 de rosas rubras. As pessoas como tu possuem não uma,
 mas todas as vidas. Pessoas que amam e se entregam
 porque amar é também partilhar as mãos e o corpo.
 Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem
 transformar o cansaço numa esperança aliciante,
 tocando-nos o rosto com dedos de água pura,
 soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a
 firmeza da flecha.

 São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem
 inspirar com elas o azul que há no dorso das manhãs,
 e nos estendem os braços e nos apertam até sentirmos
 o coração transformar o peito numa música infinita.

 São as pessoas como tu que não nos pedem nada mas têm
 sempre tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros 
 nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura
 da vida,capazes da beleza e da justiça, do sofrimento
 e do amor.

 São as pessoas como tu que, interrogando-nos, se 
 interrogam, e encontram a resposta para todas as
 perguntas nos nossos olhos e no nosso coração.

 As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para 
 que ela possa levar beleza e ternura a outras
 mãos. Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado 
 para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer
 momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, 
 a escutar um violino.

 São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo!..."
 
Joaquim Pessoa,
in 'Ano Comum' 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

MIA COUTO



Olhei o poente e vi as aves carregando o sol,
empurrando o dia para outros aléns.

MIA COUTO
in "O último voo do flamingo" 

terça-feira, 28 de abril de 2015

A ESTRELA




Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.


Manuel Bandeira,
in  Estrela da vida inteira


segunda-feira, 27 de abril de 2015

CAIS


Arte de Yuri Obukhovski

Ténue é o cais 
no Inverno frio. 
Ténue é o voo 
do pássaro cinzento. 
Ténue é o sono 
que adormece o navio. 
No vago cais 
do balouço da bruma 
ténue é a estrela 
que um peixe morde. 
Ténue é o porto 
nos olhos do casario. 
Mas o que em fora nos dilui 
faz-nos exactos por dentro. 

Fernando Namora,
 in 'Marketing'

sábado, 25 de abril de 2015

POEMA 16



Arte de Leonid Afremov


Sono sobre a chuva
que, entre o céu e a terra,
tece a noite fina.

Tece-a com desenhos
de amigos que falam,
de ruas que voam,
de amor que se inclina,

de livros que se abrem,
de face incompleta
que, inerme, deplora
com palavras mudas
e não raciocina...

Sobre a chuva, o sono:
tão leve, que mira
todas as imagens
e ouve, ao mesmo tempo,
longa, paralela,
a canção divina

dos fios imensos
que, nos teares de água,
entre o céu e a terra,
o tempo separa 
e a noite combina.


Cecília Meireles
In Metal Rosicler





quinta-feira, 23 de abril de 2015

NATUREZA HUMANA


Arte de Graham Gercken

Cheguei. Sinto de novo a natureza
Longe do pandemônio da cidade
Aqui tudo tem mais felicidade
Tudo é cheio de santa singeleza

Vagueio pela múrmura leveza
Que deslumbra de verde e claridade
Mas nada. Resta vívida a saudade
Da cidade em bulício e febre acesa

Ante a perspectiva da partida
Sinto que me arranca algo da vida
Mas quero ir. E ponho-me a pensar

Que a vida é esta incerteza que em mim mora
A vontade tremenda de ir embora
E a tremenda vontade de ficar.


Vinícius de Moraes
In Jardim Noturno


A FLOR DO SONHO




A Flor do Sonho, alvíssima, divina, 
Miraculosamente abriu em mim, 
Como se uma magnólia de cetim 
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina 
E não posso entender como é que, enfim, 
Essa tão rara flor abriu assim!... 
Milagre... fantasia... ou, talvez, sina...

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos, 
Que tem que sejam tristes os meus olhos 
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...

Desde que em mim nasceste em noite calma, 
Voou ao longe a asa de minh'alma 
E nunca, nunca mais eu me entendi...



 FLORBELA ESPANCA 
In Livro de Mágoas, 1919 


quarta-feira, 22 de abril de 2015

RUÍNAS




Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino de Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!... Deixa-os tombar... deixa-os tombar...


Florbela Espanca

domingo, 19 de abril de 2015

FELICIDADE





A felicidade sentava-se todos os dias
no peitoril da janela.

Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas
faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu
próprio nome.


Jorge de Sena, 
in cadernos de poesia








sábado, 18 de abril de 2015

ORAÇÃO DE INVERNO*





Quero viver
a puros e plenos pulmões.
Respirar sem temer
apuros nem desilusões.
 
Quero viver
savanas de caro inverno.
Aspirar ao impossível
tudo que sabe a eterno.
 
Quero viver
viúvo de más astúcias.
Abarcar aldeia e mundo
salva-vidas de alegrias!
 
Quero viver
avesso ao labirinto.
Alvejar roupas, seios e rio
com poemas em claro cio.
 
Quero viver
a Tudo derramar profundo.
Sempre alerta - em fértil
e vasto campo minado.
 
Quero reler
tudo que alheio à sorte
escrevo e ofereço à morte.
Tarefa rica em pretensão:
 
Talvez somente brinquedo;
talvez apenas vã Oração.
 
 
 
*Jairo De Britto, 
em “Dunas de Marfim”