terça-feira, 10 de setembro de 2013

CANÇÃO EM ROTA DE VÔO



" Antes os dias eram apenas dias :
perdas e ganhos , tarefas cumpridas ,
solidão e algumas alegrias .
Agora , objetos familiares
ganham contornos de sonho ,
palavras são aves do paraíso ,
o cotidiano virou do avesso
e se tornou milagre .

Quero um novo amor , tão leve
como se dançasse numa praia uma menina ."

Lya Luft ,"in
Secreta Mirada

O CONVITE


 
Não sou areia
onde se desenha um para de asas
ou grades diante de uma janela.
não sou apenas a pedra que rola
na marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou mistério.
A quatro mãos escrevemos o roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos a sério.
 
 
Lya Luft
IN "Perdas & Ganhos"

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

AFERIDOR



"Tenho um aferidor de Encantamentos.
A uma açucena encostada no rosto de uma criança
o meu aferidor deu nota dez.
A uma fuga de Bach que vi nos olhos de uma criatura
o aferidor deu nota vinte.
Mas a um homem sozinho no fim de uma estrada
sentado nas pedras de suas próprias ruínas
o meu aferidor deu
d - e - s - e - n - c - a - n - t - o

(O mundo é sortido, Senhor, como dizia meu pai.)"

Manoel de Barros






CATILINA



Eu sou o solitário e nunca minto.
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.

De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu - coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.

Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.

E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pra além do nó de angústia mais convulso.


 Sophia de Mello Breyner Andresen
In Poemas escolhidos













A DOR TEM UM ELEMENTO DE VAZIO


 
A Dor - tem um Elemento de Vazio - 
Não se consegue lembrar 
De quando começou - ou se houve 
Um tempo em que não existiu - 
 
Não tem Futuro - para lá de si própria - 
O seu Infinito contém 
O seu Passado - iluminado para aperceber 
Novas Épocas - de Dor. 
 
Emily Dickinson,
in "Poemas e Cartas" 
Tradução de Nuno Júdice












MANOEL DE BARROS



E, aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.

Manoel de Barros
in Poesia Completa






domingo, 8 de setembro de 2013

OUTRO LUGAR



A verdade que pertence aos gestos
Ao menor dos gestos
Antes de chegarem palavras que nos socorram
Às vezes é a verdade de um amor

Escassos propósitos as palavras
Para o abalo de terra
Em que se tornou de repente
A nossa vida

Um sofrimento não nos larga
A manhã parece-se estranhamente
Com outro lugar
Saberemos então que significam
Os intervalos do silêncio
Onde o silêncio é maior


José Tolentino de Mendonça
in A noite abre meus olhos, 2006

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

OS TEMPOS SÃO TRÊS...


.
Os tempos são três: 
presente do passado, 
presente do presente 
e presente do futuro.
Esses três tempos estão na minha alma
e não os vejo em outro lugar. 
O presente do passado é a memória;
o presente do presente, a percepção imediata;
o presente do futuro, a espera.

Santo Agostinho
IN As Confissões



quinta-feira, 5 de setembro de 2013

MELHORIA



Roubaram-me o medo.
Pintaram-no de cor-de-rosa
e purpurina.
Deram-lhe cetins de bailarina
e babado carmim de melindrosa.

Perfumada a essência em alecrim,
diluiu-se todo em transparência.
Entre sedas e doces rebuçados
evapora-se a tônica do medo
em irônica massa de brinquedo.


Flora Figueiredo,
in Florescência

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

CAIO FERNANDO ABREU



Fico pensando se viver não será sinônimo de perguntar.
A gente se debate, busca, segura o fato com duas mãos 
sedentas e pensa: Achei! Achei!
Mas ele escorrega se espatifa em mil pedaços, como um
 vaso de barro coberto apenas por uma leve camada de 
louça.A gente fica só, outra vez, e tem que começar 
do nada, correndo loucamente em busca dos outros vasos
 que vê. Cada um que surge parece o último, mas todos são de
 barro, quebram-se antes que possamos reformular as
 perguntas.E começamos de novo, mais uma vez, dia após
dia, ano após ano.Um dia a gente chega à frente do 
espelho e descobre: Envelheci!Então a busca termina.
As perguntas colam no fundo da garganta, e vem a morte.
Que talvez seja a grande resposta.
A única.


Caio Fernando  Abreu 
em Limite Branco

terça-feira, 3 de setembro de 2013

OS NASCIMENTOS



Nunca nos recordaremos da nossa morte.

Tão pacientes famos
para sermos
que anotámos
os números, os dias,
os anos e os meses,
os cabelos ,as bocas que beijámos,
e aquele minuto antes de morrer
deixá-lo-emos sem anotação:
damo-lo a outros de lembrança
ou simplesmente à água,
à água, ao ar, ao tempo.
E de nascer tão-pouco
guardámos a memória,
ainda que importante e jovial
tenha sido a nossa vida:
e agora não te lembras sequer
do mais pequeno pormenor,
não guardaste sequer um ramo
da primeira luz.

Sabe-se apenas que nascemos.

Sabe-se que na sala
ou no bosque
ou no palheiro do bairro piscatório
ou nos canaviais rumorejantes
há um estranho e profundo silêncio,
um minuto solene de madeira
e uma mulher que vai parir.

Sabe-se apenas que nascemos

Mas da profunda agitação
de não ser para existir, para ter mãos,
para ver, para ter olhos,
para comer e chorar e despojar-se
e amar, amar, e sofrer, sofrer,
daquela transição ou calafrio
do conteúdo elétrico que um corpo
toma para si como se fora uma taça viva,
e daquela mulher desabitada,
a mãe que ali fica com seu sangue
e a sua dilacerada plenitude,
com o seu fim e princípio, e a desordem
que altera o pulso, o chão, os cobertores,
até que tudo se recolhe e mais

um nó é dado com o fio da vida,
nada, não ficou nada na tua memória
do mar bravio que ergueu uma onda
e derrubou da árvore uma maçã sombria.

Não tens mais recordações que a tua vida.


Pablo Neruda
In Pleno Poderes

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

BERNARDO SOARES



(…)
.
Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre,
pois, não sendo mais, nem querendo ser mais,
que um espectador de mim mesmo,
tenho que ter o melhor espectáculo que posso.
Assim me construo a ouro e sedas,
em salas supostas, palco falso, cenário antigo,
sonho criado entre jogos de luzes brandas
e músicas invisíveis.
.
(…)
.
Bernardo Soares
In Livro do Desassossego

domingo, 1 de setembro de 2013

O SEMPRE AMOR



Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
sou de pedra-sabão.
Alegre ou triste,
amor é coisa que mais quero.

Adélia Prado
In Bagagem

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

CITAÇÃO


Depois de estar cansado de procurar 
Aprendi a encontrar. 
Depois de um vento me ter feito frente 
Navego com todos os ventos. 

Friedrich Nietzsche 
in "A Gaia Ciência".




terça-feira, 27 de agosto de 2013

PERFEIÇÃO



Pende curvo o firmamento, 
compacto azul sobre o dia.
Eis o arredondamento
do esplendor: é meio-dia.
Tudo é cúpula. Central
sem querer, a rosa, feita
cativa do sol no zênite.
E dá-se tanto o presente
que o pé caminhante sente
a inteireza do planeta. 

Jorge Guillén
Trad.:Izacyl Guimarães Ferreira




segunda-feira, 26 de agosto de 2013

ORAÇÃO DA NOITE



Trabalhei, sem revoltas nem cansaços,
No infecundo amargor da solitude:
As dores, - embalei-as nos meus braços,
Como alguém que embalasse a juventude...

Acendi luzes, desdobrando espaços,
Aos olhos sem bondade ou sem virtude;
Consolei mágoas, tédios e fracassos
E fiz, a todos, todo o bem que pude!

Que o sonho deite bênçãos de ramagens
E névoas soltas de distância e ausência
Na minha alma, que nunca foi feliz.

Escondendo-me as tácitas voragens
De males que me deram, sem consciência.
Pelos míseros bens que sempre fiz!... 


Cecília Meireles,
in Nunca Mais e Poemas dos Poemas

domingo, 25 de agosto de 2013

CITAÇÃO



“Quem Sai Sempre Chega. E quem foi, conta para quem ficou, 
que o importante é viajar, seja a bordo de uma jangada ou 
num sonho colorido.

Quem é mais feliz? Quem canta uma musica ou quem escuta?

Assim é viajar. Não importa se você viajou fisicamente ou 
apenas com sua mente.O importante é que você tenha
compartilhado desta louca e admirável emoção de sair do 
lugar comum e passear junto com os eternos viajantes que
ganharam asas, mas que realmente preferem viajar levando
consigo toda sua imaginação.”

(J.Ruy)



sábado, 24 de agosto de 2013

EU, NO TEMPO



Meu espírito caminha irreversivelmente para a irrealidade de tudo.
O universo para, de repente, à espera de minha infância.
Tudo repousa em seu lugar.
O tempo, no relógio.
O silencio, na pedra.
Jogo as máscaras fora e me identifico comigo
que me esperava há séculos.

Emílio Moura
In: Itinerário Poético

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

UM SORRISO



Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moutas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.

A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto…

Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos…
Depois o céu… e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos…

A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada…


Manuel Bandeira

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

VEM,PRIMAVERA



Vai embora ,inverno,
leva contigo o frio,
a solidão, a saudade
e deixa vir a primavera
vestir a terra de flores,
de verde, vida e cores.

Vem,primavera:
contigo renasce a vida,
brota de novo a poesia,
renova-se a esperança.

Vem,primavera:
lança sobre nós o sol,
raio de luz,força e cor,
essência de vida de nós,
pequenos filhos da terra.

Vem primavera:
abra sorrisos,corações,
botões e céu.
A festa da vida recomeça
e eu te festejo,
primavera.


Luiz Carlos Amorim
In Emoção não tem idioma

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

COMO SE O MAR SE APARTASSE



Como se o mar se apartasse
e revelasse outro mar,
e esse mar outro mar, e os três
fossem só a presunção
de mares consecutivos
despossuídos de praias...
E mares à margem de mares a vir...
Assim a Eternidade.


Emily Dickinson
Tradução de Paulo Mendes Campos

terça-feira, 20 de agosto de 2013

AGORA...


[...]
"Agora,
o remédio é partir discretamente,
sem palavras,
sem lágrimas,
sem gestos.
De que servem lamentos e protestos,
contra o destino?"...

Miguel Torga,

in "Diário XIII


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

FUGA



Vento que passas, leva-me contigo
Sou poeira também, folha de outono.
Rês tresmalhada que não quer abrigo
No calor do redil de nenhum dono.


Leva-me, e livre deixa-me cair
No deserto de todas as lembranças,
Onde eu possa dormir 
Como no limbo dormem as crianças.


Miguel Torga
In: Antologia Poética

sábado, 17 de agosto de 2013

ABANDONO



Marcados por todas as violências 
eles afiam as pontas dos dedos 
nos subúrbios da noite 
para que nenhum medo os surpreenda. 
Eles vagueiam por becos 
que cheiram a fogo e a sangue 
armados de raiva, 
privados de sonhos, 
cobertos de abandono. 
São meninos da rua, 
ou pássaros em fuga 
desafiando a própria solidão.

Graça Pires
De Caderno de Significados

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

CAIO FERNANDO ABREU



"Você lê e sofre. 
Você lê e ri.
Você lê e engasga.
Você lê e tem arrepios. 
Você lê , e sua vida vai se
misturando no que está sendo lido."

Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

TUDO ME É UMA DANÇA...


Tudo me é uma dança em que procuro
A posição ideal,
Seguindo o fio dum sonhar obscuro
Onde invento o real.
À minha volta sinto naufragar
Tantos gestos perdidos
Mas a alma, dispersa nos sentidos,
Sobe os degraus do ar…


Sophia de Mello Breyner Andresen
in POESIA,

terça-feira, 13 de agosto de 2013

SOBRE O CAMINHO



Nada

nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença

Não colecciones dejectos o teu destino és tu

Despe-te
não há outro caminho

Eugénio de Andrade,
in "Véspera da Água"

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

COEXISTÊNCIA



Desgastou as arestas pessoais,
rebaixou a cordilheira interior,
no esforço de conviver.
Tomou o denominador comum.
Incorporou-se à fórmula geral.

Que olhar tão cansado de existir!


Helena Kolody,
in Viagem no Espelho

sábado, 10 de agosto de 2013

AS MÃOS DE MEU PAI



As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
- como são belas as tuas mãos 
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre
cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza 
que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços 
da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los 
contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das 
tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura das tuas mãos
nodosas…
essa chama de vida – que transcende a própria vida
…e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.


- Mario Quintana, 
in: Esconderijos do tempo

SOLIDÃO



Quedamos sempre sozinhos
Em nossas horas maiores

A dor, veneno latente,
Corrói-nos a alma em segredo.

A mais gloriosa alegria
Floresce na solidão.


Helena Kolody
In: Correnteza

MINHA ALMA TEM O PESO DA LUZ...



"Minha alma tem o peso da luz. 
Tem o peso da música. 
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. 
Tem o peso de uma lembrança. 
Tem o peso de uma saudade. 
Tem o peso de um olhar. 
Pesa como pesa uma ausência. 
E a lágrima que não se chorou. 
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros." 

Clarice Lispector, 
in "O último bilhete escrito no hospital da Lagoa"
 Rio de Janeiro, 7/12/1977

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

SEMEIO SÓIS...



Semeio sóis
e sons
na terra viva

afundo os
pés
no chão: semeio e
passo.

Não me importa a colheita.


Orides Fontela,
in Trevo

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

ARTHUR RIMBAUD



Estendi cordas de campanário a campanário;
grinaldas de janela a janela;
correntes de ouro de estrela a estrela,
e danço.


Arthur Rimbaud

terça-feira, 6 de agosto de 2013

OS SONHOS DAS LAGARTAS



As lagartas não podem acreditar na lenda das borboletas 
-tão antiga entre o seu rastejante e esforçado povo...
mas sua felicidade consiste em relembrar, às vezes, 
o absurdo e maravilha desse velho sonho: 
o de se transformarem, um dia, em borboletas.

Mario Quintana , 
in Poemas para a Infância

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

NUNO JÚDICE



Todo o poema começa de manhã, com o sol. Mesmo
que o poema não esteja à vista (isto é, céu de chuva)
o poema é o que explica tudo, o que dá luz
à terra, ao céu, e com nuvens à mistura - a luz incomoda
quando é excessiva. Depois, o poema sobe
com as névoas que o dia arrasta; mete-se pelas copas das
árvores, canta com os pássaros e corre com os ribeiros
que vêm não se sabe de onde e vão para onde
não se sabe. O poema conta como tudo é feito:
menos ele próprio, que começa por um acaso cinzento,
como esta manhã, e acaba, também por acaso,
com o sol a querer romper.

Nuno Júdice,
in "Poesia Reunida"

sábado, 3 de agosto de 2013

WALT WHITMAN


"A pé e de coração leve enveredo pela estrada aberta
Saudável, livre, o mundo à minha frente 
À minha frente o longo atalho pardo levando-me aonde eu queira 
Daqui em diante, não peço boa-sorte.
Boa-sorte sou eu...”

Walt Whitman

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A ÚLTIMA PINCELADA




Viveu em tempos um pintor
que nunca conseguia acabar de pintar uma
ave, fosse ela uma cegonha ou uma garça.
Quando se preparava para dar
a última pincelada, ela levantava vôo.
E o pintor ficava muito tempo ainda a persegui-la
com o pincel no céu
azul...

Jorge de Sousa Braga,
 in O Poeta Nu

quarta-feira, 31 de julho de 2013

EUGENIO MONTALE



"Há quem goste de
beber a vida gota a gota ou a jorros;
mas a garrafa é a mesma, não se pode
enchê-la quando se esvazia." 

Eugenio Montale

terça-feira, 30 de julho de 2013

TUDO O QUE FAZEMOS É MARCADO PELA FRAGILIDADE



 "Tudo o que fazemos é marcado pela fragilidade da nossa condição.
Somos esta coisa humana, 
provisória,
incerta,
inacabada, 
imperfeita.
Mas somos também poeira enamorada. 
Há em nós alguma coisa de maior.
Mesmo no erro. 
No erro podemos encontrar um caminho."

José Tolentino de Mendonça

segunda-feira, 29 de julho de 2013

PEDAÇOS DE MIM



Trago lembranças 
de coisas que não voltam: 
um sorriso, um abraço, um carinho 
- a cura que sorriu meu caminho. 

O pássaro que canta 
e meu cão que passa 
não são mais os mesmos 
- por onde andas ó meu esplendor? 
- o sino da capela, onde eu acertava as horas, 
já não me toca mais...!

Warllem Silva
In: Infinitude da Graça

domingo, 28 de julho de 2013

IRMÃO, IRMÃOS



Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros sozinhos.
A linguagem sobe escadas, do mais moço,
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
ao mísero caçula.
São seis ou são seiscentas
distâncias que se cruzam, se dilatam
no gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
os mesmos copos,
o mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?
São estranhos próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objectos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.
Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?

Carlos Drummond de Andrade,
in 'Boitempo'

sábado, 27 de julho de 2013

NUNO JÚDICE



"Inverno
a estação que ocupa
o centro do espírito.
Árvores ...que o outono despiu."

Nuno Júdice

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A ARTE DE SER AVÓ



(...)
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias
da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino.
Completamente grátis - nisso é que está a maravilha. Sem dores,
sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de
saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida.

Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que
se lhe é "devolvido". E o espantoso é que todos lhe reconhecem o
seu direito sobre ele, ou pelo menos o seu direito de o amar com
extravagância; ao contrário, causaria escândalo ou decepção, se você
não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor que há anos se
acumulava, desdenhado, no seu coração.

Sim, tenho a certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar
de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos,
profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico,
deixado pelos arroubos juvenis.

Rachel de Queiroz

quinta-feira, 25 de julho de 2013

HAICAI


 Nada me pertence -
só a paz interior
e a frescura do ar

Kobayashi Issa,
Verão

quarta-feira, 24 de julho de 2013

HAICAI



Anda
Vamos ver a neve
até que ela nos tape os olhos.

Matsuo Bashô, 
Inverno*

terça-feira, 23 de julho de 2013

CITAÇÃO


"Eu quero desaprender, para aprender de novo. 
Raspar as tintas com que me pintaram. 
Desencaixotar minhas emoções, 
recuperar meus sentidos." 

Rubem Alves


segunda-feira, 22 de julho de 2013

OS CAVALOS DA NOITE



Os cavalos da noite galopando
de crinas soltas contra a luz da lua
eram fantasmas breves dominando
os sonhos de um menino solitário.

Um menino sem forças contra a noite
sonhava os seus cavalos assustados
e se inventava cavaleiro andante
dono dos seus caminhos pela vida.

Campeava as distâncias descuidado
e armado pelo sono ia amansando
no coração da treva os seus temores.

E revivia a noite no mistério
dos árdegos cavalos renovando
o seu campo de sonho solitário.


H. Dobal

CITAÇÃO


"A amizade não se busca,
não se sonha, não se deseja; 
ela exerce-se: 
é uma virtude". 

Simone Weil


sábado, 20 de julho de 2013

MIA COUTO



“[…]Falamos em ler e pensamos apenas nos livros.
 Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo.
 Nós lemos emoção nos rostos,
 lemos os sinais climáticos nas nuvens,
 lemos o chão, 
 lemos o Mundo,
 lemos a Vida. 
 Tudo pode ser página.
 Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar.”

Mia Couto

domingo, 14 de julho de 2013

CLARICE LISPECTOR



“…Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia
por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir - nos
interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.”

Clarice Lispector
in "Dá-me a Tua Mão"