segunda-feira, 12 de agosto de 2013

COEXISTÊNCIA



Desgastou as arestas pessoais,
rebaixou a cordilheira interior,
no esforço de conviver.
Tomou o denominador comum.
Incorporou-se à fórmula geral.

Que olhar tão cansado de existir!


Helena Kolody,
in Viagem no Espelho

sábado, 10 de agosto de 2013

AS MÃOS DE MEU PAI



As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
- como são belas as tuas mãos 
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre
cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza 
que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços 
da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los 
contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das 
tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura das tuas mãos
nodosas…
essa chama de vida – que transcende a própria vida
…e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.


- Mario Quintana, 
in: Esconderijos do tempo

SOLIDÃO



Quedamos sempre sozinhos
Em nossas horas maiores

A dor, veneno latente,
Corrói-nos a alma em segredo.

A mais gloriosa alegria
Floresce na solidão.


Helena Kolody
In: Correnteza

MINHA ALMA TEM O PESO DA LUZ...



"Minha alma tem o peso da luz. 
Tem o peso da música. 
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. 
Tem o peso de uma lembrança. 
Tem o peso de uma saudade. 
Tem o peso de um olhar. 
Pesa como pesa uma ausência. 
E a lágrima que não se chorou. 
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros." 

Clarice Lispector, 
in "O último bilhete escrito no hospital da Lagoa"
 Rio de Janeiro, 7/12/1977

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

SEMEIO SÓIS...



Semeio sóis
e sons
na terra viva

afundo os
pés
no chão: semeio e
passo.

Não me importa a colheita.


Orides Fontela,
in Trevo

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

ARTHUR RIMBAUD



Estendi cordas de campanário a campanário;
grinaldas de janela a janela;
correntes de ouro de estrela a estrela,
e danço.


Arthur Rimbaud

terça-feira, 6 de agosto de 2013

OS SONHOS DAS LAGARTAS



As lagartas não podem acreditar na lenda das borboletas 
-tão antiga entre o seu rastejante e esforçado povo...
mas sua felicidade consiste em relembrar, às vezes, 
o absurdo e maravilha desse velho sonho: 
o de se transformarem, um dia, em borboletas.

Mario Quintana , 
in Poemas para a Infância

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

NUNO JÚDICE



Todo o poema começa de manhã, com o sol. Mesmo
que o poema não esteja à vista (isto é, céu de chuva)
o poema é o que explica tudo, o que dá luz
à terra, ao céu, e com nuvens à mistura - a luz incomoda
quando é excessiva. Depois, o poema sobe
com as névoas que o dia arrasta; mete-se pelas copas das
árvores, canta com os pássaros e corre com os ribeiros
que vêm não se sabe de onde e vão para onde
não se sabe. O poema conta como tudo é feito:
menos ele próprio, que começa por um acaso cinzento,
como esta manhã, e acaba, também por acaso,
com o sol a querer romper.

Nuno Júdice,
in "Poesia Reunida"

sábado, 3 de agosto de 2013

WALT WHITMAN


"A pé e de coração leve enveredo pela estrada aberta
Saudável, livre, o mundo à minha frente 
À minha frente o longo atalho pardo levando-me aonde eu queira 
Daqui em diante, não peço boa-sorte.
Boa-sorte sou eu...”

Walt Whitman

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A ÚLTIMA PINCELADA




Viveu em tempos um pintor
que nunca conseguia acabar de pintar uma
ave, fosse ela uma cegonha ou uma garça.
Quando se preparava para dar
a última pincelada, ela levantava vôo.
E o pintor ficava muito tempo ainda a persegui-la
com o pincel no céu
azul...

Jorge de Sousa Braga,
 in O Poeta Nu

quarta-feira, 31 de julho de 2013

EUGENIO MONTALE



"Há quem goste de
beber a vida gota a gota ou a jorros;
mas a garrafa é a mesma, não se pode
enchê-la quando se esvazia." 

Eugenio Montale

terça-feira, 30 de julho de 2013

TUDO O QUE FAZEMOS É MARCADO PELA FRAGILIDADE



 "Tudo o que fazemos é marcado pela fragilidade da nossa condição.
Somos esta coisa humana, 
provisória,
incerta,
inacabada, 
imperfeita.
Mas somos também poeira enamorada. 
Há em nós alguma coisa de maior.
Mesmo no erro. 
No erro podemos encontrar um caminho."

José Tolentino de Mendonça

segunda-feira, 29 de julho de 2013

PEDAÇOS DE MIM



Trago lembranças 
de coisas que não voltam: 
um sorriso, um abraço, um carinho 
- a cura que sorriu meu caminho. 

O pássaro que canta 
e meu cão que passa 
não são mais os mesmos 
- por onde andas ó meu esplendor? 
- o sino da capela, onde eu acertava as horas, 
já não me toca mais...!

Warllem Silva
In: Infinitude da Graça

domingo, 28 de julho de 2013

IRMÃO, IRMÃOS



Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros sozinhos.
A linguagem sobe escadas, do mais moço,
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
ao mísero caçula.
São seis ou são seiscentas
distâncias que se cruzam, se dilatam
no gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
os mesmos copos,
o mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?
São estranhos próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objectos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.
Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?

Carlos Drummond de Andrade,
in 'Boitempo'

sábado, 27 de julho de 2013

NUNO JÚDICE



"Inverno
a estação que ocupa
o centro do espírito.
Árvores ...que o outono despiu."

Nuno Júdice

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A ARTE DE SER AVÓ



(...)
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias
da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino.
Completamente grátis - nisso é que está a maravilha. Sem dores,
sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de
saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida.

Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que
se lhe é "devolvido". E o espantoso é que todos lhe reconhecem o
seu direito sobre ele, ou pelo menos o seu direito de o amar com
extravagância; ao contrário, causaria escândalo ou decepção, se você
não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor que há anos se
acumulava, desdenhado, no seu coração.

Sim, tenho a certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar
de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos,
profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico,
deixado pelos arroubos juvenis.

Rachel de Queiroz

quinta-feira, 25 de julho de 2013

HAICAI


 Nada me pertence -
só a paz interior
e a frescura do ar

Kobayashi Issa,
Verão

quarta-feira, 24 de julho de 2013

HAICAI



Anda
Vamos ver a neve
até que ela nos tape os olhos.

Matsuo Bashô, 
Inverno*

terça-feira, 23 de julho de 2013

CITAÇÃO


"Eu quero desaprender, para aprender de novo. 
Raspar as tintas com que me pintaram. 
Desencaixotar minhas emoções, 
recuperar meus sentidos." 

Rubem Alves


segunda-feira, 22 de julho de 2013

OS CAVALOS DA NOITE



Os cavalos da noite galopando
de crinas soltas contra a luz da lua
eram fantasmas breves dominando
os sonhos de um menino solitário.

Um menino sem forças contra a noite
sonhava os seus cavalos assustados
e se inventava cavaleiro andante
dono dos seus caminhos pela vida.

Campeava as distâncias descuidado
e armado pelo sono ia amansando
no coração da treva os seus temores.

E revivia a noite no mistério
dos árdegos cavalos renovando
o seu campo de sonho solitário.


H. Dobal

CITAÇÃO


"A amizade não se busca,
não se sonha, não se deseja; 
ela exerce-se: 
é uma virtude". 

Simone Weil


sábado, 20 de julho de 2013

MIA COUTO



“[…]Falamos em ler e pensamos apenas nos livros.
 Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo.
 Nós lemos emoção nos rostos,
 lemos os sinais climáticos nas nuvens,
 lemos o chão, 
 lemos o Mundo,
 lemos a Vida. 
 Tudo pode ser página.
 Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar.”

Mia Couto

domingo, 14 de julho de 2013

CLARICE LISPECTOR



“…Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia
por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir - nos
interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.”

Clarice Lispector
in "Dá-me a Tua Mão"

RUMI



Comece a caminhar...
suas pernas vão pesar e cansar...
Até o momento de sentir
que as asas que você criou
estão se erguendo...

Rumi

SUPÉRFLUO



A chuva coloca no bico dos pássaros
um guizo d’água.

A tarde levanta da verde folhagem
uma espuma de aroma.

Uma vida, quase a teus pés, dirige-te
um terno pensamento.

Oh, as pequenas coisas supérfluas
extraviadas no mundo.

Quem ouve? quem vê? quem entende?

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos 

sábado, 13 de julho de 2013

EM PAZ



Perto do meu ocaso, eu te bendigo, ó Vida,
porque nunca me deste esperança falida
nem trabalhos injustos, nem pena imerecida.

Porque vejo no fim de meu rude caminho
que fui eu o arquiteto de meu próprio destino;
que se os méis ou o fel eu extraí das cousas
foi que nelas pus mel ou biles amargosas:
quando plantei roseiras, não colhi senão rosas.

Às minhas louçanias vai suceder o inverno;
mas tu não me disseste que maio fosse eterno!
Julguei sem fim as longas noites de minhas penas;
mas não me prometeste noites boas apenas,
e, afinal, tive algumas santamente serenas...

Amei e fui amado, o sol beijou-me a face.
Vida, nada me deves! Vida, estamos em paz!


Amado Nervo
Tradução de Anderson Braga Horta

sexta-feira, 12 de julho de 2013

ENTÃO ALGO MUDOU



Então algo mudou: o tom de voz, o olhar que se 
esquiva, a mão que se afasta. 
A porta precisa ser fechada, a ponte levantada, 
queimados os navios. Levaremos meses, anos esten- 
dendo as mãos para um vazio, interrogando uma 
ausência. 
Encarar a realidade é um modo de morrer. Mas sem 
isso, não haverá renascimento.

LYA LUFT
In Secreta Mirada

quinta-feira, 11 de julho de 2013

JARDINS DE MIM



"Quando descobri teu amor pelas borboletas, 
me tornei um jardim, 
plantei-me de flores, 
só para trazê-la para bem perto de mim. "

Warllem Silva 
In: Infinitude da Graça

quarta-feira, 10 de julho de 2013

ESPERA



Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.


Eugénio de Andrade,
in As Mãos e os Frutos (1935)






SONHO



Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele
já estivesse escrito, mas que fosse brotando, 
no mesmo instante, de teu próprio coração.
 
- Mario Quintana, 
in: Caderno H
 

terça-feira, 9 de julho de 2013

LIBERDADE


O poema é
liberdade

Um poema não se programa

Porém a disciplina
- Sílaba por sílaba -
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
- Como se os deuses o dessem
O fazemos


Sophia de Mello Breyner Andresen
In Poemas Escolhidos


segunda-feira, 8 de julho de 2013

AGORA AS AVES VOLTAM



Agora as aves voltam,
são nos ramos altos a matéria 
mais próxima dos anjos 
– ousarei eu tocar-lhes, 
fazer delas o poema? 

Eugénio de Andrade,
In O Peso da Sombra





domingo, 7 de julho de 2013

AS PALAVRAS




As palavras
As palavras são boas.
As palavras são más.
As palavras ofendem.
As palavras pedem desculpa.
As palavras queimam.
As palavras acariciam.
As palavras são dadas, trocadas,
oferecidas, vendidas e inventadas.
As palavras estão ausentes.
Algumas palavras sugam-nos, não nos largam:
são como carraças: vêm nos livros, nos jornais,
nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes,
nas cartas e nos cartazes.
As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam,
impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas.
O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo
de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras
que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas.
Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam,
julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras. (...)
(...)

Daí que seja urgente moldar
as palavras para que a sementeira se mude em
seara. Daí que as palavras sejam instrumento
de morte - ou de salvação. Daí que a palavra só valha
o que valer o silêncio do ato.
Há também o silêncio. O silêncio, por definição,
é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina,
observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo.
O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser,
a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele
as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as
más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão."

José Saramago
in "As palavras"

sábado, 6 de julho de 2013

FABRICIO CARPINEJAR



"Os amigos são próprios de fases:
da rua, do Ensino Fundamental, do Ensino Médio,
da faculdade, do futebol, da poesia, do emprego,
da dança, dos cursos de inglês, da capoeira,
da academia, do blog. Significativos em cada etapa
de formação. Não estão em nossa frente diariamente,
mas estão em nossa personalidade, determinando,
de modo imperceptível, as nossas atitudes.

Fabrício Carpinejar


A CARÊNCIA




Não sei sobre pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.

Alejandra Pizarnik
In "De Las Aventuras Perdidas


sexta-feira, 5 de julho de 2013

CITAÇÃO



 " A literatura, porque se dirige ao coração, 
à inteligência, à imaginação e até aos sentidos,
toma o homem por todos os lados; toca por isso
em todos os interesses, todas as ideias, todos
os sentimentos; influi no indivíduo como na 
sociedade, na família como na praça pública;
dispõe os espíritos; determina certas correntes
de opinião; combate ou abre caminho a certas
tendências; e não é muito dizer que é ela quem
prepara o berço aonde se há-de receber esse
misterioso filho do tempo- o futuro. "

Antero de Quental,
in Prosas da Época de Coimbra

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O MAR DOS MEUS OLHOS



Há mulheres que trazem o mar nos olhos 
Não pela cor 
Mas pela vastidão da alma 
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos 
Ficam para além do tempo 
Como se a maré nunca as levasse 
Da praia onde foram felizes 
Há mulheres que trazem o mar nos olhos 
pela grandeza da imensidão da alma 
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens... 
Há mulheres que são maré em noites de tardes 
e calma.


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in Obra Poética

terça-feira, 2 de julho de 2013

JOÃO GUIMARÃES ROSA



Fiz o caminho. 
Sem tomar direção, sem saber do caminho. 
Pé por pé, pé por si. 
Deixei que o caminho me escolha. 
Na travessia, só silêncio. 
O nenhuns-nada. 
O alegre, mesmo, era a gente viver
devagarinho, miudinho, não se 
importando demais com coisa nenhuma. 
Nessa estrada, salvou-me a palavra. 

João Guimarães Rosa

sábado, 29 de junho de 2013

SAUDADES



Esta é a saudade: viver no afeto
E não ter morada no tempo
Estes são os desejos:conversa silenciosa
Horas diárias com a eternidade.

Esta é a vida.Até que de um ontem
suba a mais solitária de todas as Horas
Tão sorridente,diferente das irmãs
que se calam eternamente.

Rainer Maria Rilke
Trad. Augusto de Campos

quinta-feira, 27 de junho de 2013

CORAGEM




É preciso arranjar outros
motivos
outras flores e astros

Outras abertas

Entre a chuva cansada de um Outono
que não sabe já
qual é a terra certa

É preciso pensar outras imagens
outras fissuras, sítios
e cidades

Pôr fim ao lamento deste vento
tentar tirar ao anjo
a túnica e o sabre

É preciso inventar outras paisagens
outros montes e águas
outras margens

Abrir e expor o coração
e finalmente deixar
correr as lágrimas


Maria Teresa Horta,
In ‘ Destino'

quarta-feira, 26 de junho de 2013

OS DANÇARINOS DO ARAME



Dentro das atuais coordenadas do espaço e do tempo,
aqui nos vamos equilibrando sobre este fio de vida...
Que rede de segurança, pensamos nós, cheios de 
esperança e medo, que rede de segurança nos aparará?"


Mario Quintana,
in  Caderno H

terça-feira, 25 de junho de 2013

RECEITA DE CASA



Uma casa deve ter varandas
para sonhar, cantos para chorar,
quartos para os segredos
e a ambivalência.

Um amor precisa de espaço para voar,
liberdade para querer ficar,
alegria, e algum desassossego
contra o tédio.

Não se esqueçam os danos a cobrir,
o medo de partir, e o dom de surpreender
que é a sua essência.

Lya Luft,
In:"Exílio"

segunda-feira, 24 de junho de 2013

BRASIL



Pátria de imigração.
É num poema que te posso ter...
A terra - possessiva inspiração;
E os rios - como versos a correr.

Achada na longínqua meninice,
Perdida na perdida juventude,
Guardei-te como podia:
na doce quietude
Da força represada da poesia.

E assim consigo ver-te
Como te sinto:
Na doirada moldura de lembrança,
O retrato da pura imensidade
A que dei a possível semelhança
Com palavras e rimas de saudade.


Miguel Torga

domingo, 23 de junho de 2013

DIAS PERDIDOS




"Há dias e que tudo é sem remédio,
em que tudo começa e acaba torto.
Uma folha caiu:
era um pássaro morto.

Neblina. Fim de tarde. Fim de Outono.
Nada nos fala, nos atrai, nos chama.
Choveu, parou a chuva,
ficou, porém, a lama.

Um banco no jardim. Árvores nuas,
um cisne velho, um tanque, água limosa,
nem a relva ficou,
quanto mais uma rosa.

Há barcos, há gaivotas sobre o rio,
e nas ruas há gente, há muitas casas.
Mais um dia perdido:
arrancaram-lhe as asas."


Fernanda de Castro,
 In Urgente


sábado, 22 de junho de 2013

XIV



Dentro da noite alguém cantou.
Abri minhas pupilas assustadas
De ave noturna... E as minhas mãos pelas paradas,
Não sei que frêmito as agitou!
 
Depois, de novo, o coração parou.
E quando a lua, enorme, nas estradas
Surgem... dançam as minhas lâmpadas quebradas
Ao vento mau que as apagou...
 
Não foi nenhuma voz amada
Que preludiando a canção sonâmbula,
No meu silêncio me procurou...
 
Foi minha própria voz, fantástica e sonâmbula!
Foi, na noite alucinada,
A voz do morto que cantou.

 
Mario Quintana,
in A Rua dos Cataventos
 
 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

SURDINA



Quem toca piano sob a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
recebo a lembrança apagada?

Minha vida, numa poltrona
jaz, diante da janela aberta.
Vejo árvores, nuvens, - e a longa
rota do tempo, descoberto.

Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som, descoloridos.

A chuva interfere na música.
Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de melancolia ...


Cecília Meireles
In Mar Absoluto e Outros Poemas

terça-feira, 18 de junho de 2013

ITINERÁRIO DAS URZES



Quando eu me sentir triste,
triste de doer, da dor barroca,
ou imemorial, inominável,
sem fundo, sem alças,
triste das coisas cridas,
dos impérios que inventei
ou do que nem senti nascer -
triste da palavra em mortal ferida -
serás meu fiel retorno,
capelinha das urzes, à beira da estrada,
meu cavalo sem peias, minha jornada de ossos -
minha Ítaca, minha Pasárgada.

Fernando Campanella

segunda-feira, 17 de junho de 2013

PAULO FREIRE



" Eu sou um intelectual que não tem medo
 de ser amoroso, eu amo as gentes e amo 
o mundo. E é porque amo as pessoas e amo 
o mundo, que eu brigo para que a justiça
 social se implante antes da caridade"


PAULO FREIRE

domingo, 16 de junho de 2013

NA VÉSPERA



Na véspera de nada ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via, ninguém aqui chegou.

Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.


Fernando Pessoa

sábado, 15 de junho de 2013

FLORES



Minhas mãos tão antigas
e mortais
que já tocaram
a harpa do horror
e do mel
já tatearam a madrugada
suas sombras na parede
até o fundo do abismo
arrumam essas flores

elas traduzem a casa
indicam o caminho
parecem dizer é por aqui
por aqui o sol e a lua
o amor

em cima da mesa flutuam
e com o seu voo
tiram a casa do chão.


Roseana Murray
In Poesia Essencial