quarta-feira, 27 de março de 2013

PARA ESCREVER UM SIMPLES VERSO


Para escrever um simples verso, 
é preciso conhecer muitas cidades, homens, animais
é preciso ter a alma aberta
para o voo dos pássaros
e ser capaz de perceber os gestos das flores
que se abrem ao amanhecer

Para escrever um simples verso,
é preciso viajar por regiões desconhecidas.
Estar preparado para encontros e desencontros inesperados.
É Preciso saber voltar a momentos de nossa infância
que até hoje não conseguimos compreender.
É preciso lembrar do que sentimos
quando ferimos alguém
que sempre nos desejou o melhor possível.

Para escrever um simples verso,
é preciso passar muitas manhãs diante do mar,
muitas tardes diante o pôr-do-sol
muitas noites diante de quem amamos
tudo isso para escrever um simples verso.

Para escrever um simples verso,
não basta lembrar-se do passado
é preciso saber esquecer
e ter paciência para esperar
até que suas lembranças
retornem novamente.

Porque um verso não é feito de memórias
ele transforma-se em nosso sangue,
e se confunde com a própria existência.
Só então chega o momento mágico
quando nasce a primeira palavra.
e ela traz consigo o verdadeiro poema.

Rainer Maria Rilke








domingo, 24 de março de 2013

RAINER MARIA RILKE



"Aprendo isso diariamente,
 aprendo em meio às dores às 
quais sou grato:
 a paciência é tudo!"

Rainer Maria Rilke


sábado, 23 de março de 2013

PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO



Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen

PAULO LEMINSKI



Achar
a porta que esqueceram de fechar.
O beco com saída.
A porta sem chave.
A vida.

Paulo Leminski,
in Toda Poesia

sexta-feira, 22 de março de 2013

COMO SE DESENHA UMA CASA



Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.


MANUEL ANTÓNIO PINA.

quinta-feira, 21 de março de 2013

POEMA DO AFINAL



No mesmo instante em que eu, aqui e agora,
Limpo o suor e fujo ao Sol ardente,
Outros, outros como eu, além e agora,
Estremecem de frio e em roupas se agasalham.

Enquanto o Sol assoma, aqui, no horizonte,
E as aves cantam e as flores em cores se exaltam,
Além, no mesmo instante, o mesmo Sol se esconde,
As aves emudecem e as flores cerram as pétalas.
Enquanto eu me levanto e aqui começo o dia,
Outros, no mesmo instante, exactamente o acabam.
Eu trabalho, eles dormem; eu durmo, eles trabalham.
Sempre no mesmo instante.

Aqui é Primavera. Além é Verão.
Mais além é Outono. Além, Inverno.
E nos relógios igualmente certos,
Aqui e agora,
O meu marca meio-dia e o de além meia-noite.

Olho o céu e contemplo as estrelas que fulgem.
Busco as constelações, balbucio os seus nomes.
Nasci a olhá-las, conheço-as uma a uma.
São sempre as mesmas, aqui, agora e sempre.

Mas além, mais além, o céu é outro,
Outras são as estrelas, reunidas
Noutras constelações.

Eu nunca vi as deles;
Eles,
Nunca viram as minhas.

A Natureza separa-nos.
E as naturezas.
A cor da pele, a altura, a envergadura,
As mãos, os pés, as bocas, os narizes,
A maneira de olhar, o modo de sorrir,
Os tiques, as manias, as línguas, as certezas.

Tudo.

Afinal
Que haverá de comum entre nós?

Um ponto, no infinito.


António Gedeão

terça-feira, 19 de março de 2013

NO FUNDO DA GARGANTA



Na mata o silêncio
cobre as folhas:
todas as palavras
que não foram ditas,
as que ficaram presas
no fundo da garganta
aqui habitam,
metade terra-metade ar.
As que mudariam
o rumo de uma vida,
as que se perderam,
as que se desmancharam,
as que nem nasceram.

Roseana Murray
In Poemas para ler na escola

sábado, 16 de março de 2013

NUM DIA EM QUE EU FICAR SOZINHA



terei saudade
da manhã em discordância
da flor delirante
e da nudez da nuvem.

terei saudade
da claridade do outono
em esplendor que se despede.

terei saudade
da surpresa da flor singela
com passo choroso
a bater em minha alma
como pingo d’água.

terei saudade
da maciez da noite quieta e morna
com sede de lua falante.

terei saudade
de meu pensamento sonâmbulo
saudade do irreal.

Alvina Nunes Tzovenos
Palavras ao Tempo

sexta-feira, 15 de março de 2013

O SILÊNCIO



" O silêncio é a minha maior tentação. As
palavras, esse vício ocidental, estão gastas
envelhecidas, envilecidas. Fatigadas, exasperam.
E mentem, separam, ferem, também apaziguam, é
certo, mas é tão raro! Por cada palavra que chega 
até nós,ainda quente das entranhas do ser, 
quanta baba nos escorre em cima a fingir de 
música suprema! A plenitude do silêncio
só os orientais a conhecem."

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 14 de março de 2013

EMILY DICKINSON



A dor - tem um elemento de vazio -
Não se consegue lembrar
De quando começou - ou se houve
Um tempo em que não existiu -

Não tem futuro - para lá de si própria -
O seu infinito contém
O seu passado - iluminado para aperceber
Novas épocas - de dor.

Emily Dickinson

terça-feira, 12 de março de 2013

FIODOR DOSTOIEVSKI



Tenta fazer esta experiência, construindo um palácio.
 Equipa-o com mármore, quadros, ouro, pássaros do paraíso,
 jardins suspensos, todo o tipo de coisas... e entra lá
 para dentro. Bem, pode ser que nunca mais desejasses sair daí. 
Talvez, de facto, nunca mais saisses de lá. Está lá tudo! 
"Estou muito bem aqui sozinho!". 
Mas, de repente - uma ninharia! O teu castelo é rodeado por muros,
 e é-te dito: 
'Tudo isto é teu! Desfruta-o! Apenas não podes sair daqui!".
 Então, acredita-me, nesse mesmo instante quererás deixar 
esse teu paraíso e pular por cima do muro. 
Mais! Todo esse luxo, toda essa plenitude, aumentará o teu 
sofrimento. Sentir-te-ás insultado como resultado de todo esse luxo... 
Sim, apenas uma coisa te falta... um pouco de liberdade. 

Fiodor Dostoievski,
 in "O Movimento de Liberação"


domingo, 10 de março de 2013

ÉRICO VERÍSSIMO



"Se me pedissem para sugerir um símbolo gráfico para a idéia
de Tempo, eu indicaria sem hesitação a imagem duma oliveira.
Por quê?
Talvez por causa de suas conotações bíblicas,
pelo aspecto sofrido de seus troncos e galhos e por tudo quanto
o óleo que o fruto dessa árvore produz tem a ver com a vida
e a morte: o óleo do batismo, o óleo da extrema-unção, enfim,
o óleo que mantém acesas as lâmpadas, não só a dos templos,
mas todas as lâmpadas do mundo que iluminam a noite dos homens."

 Erico Verissimo,
in Solo de Clarineta 

sexta-feira, 8 de março de 2013

PERDÃO



Aqui me tens, meu Deus, em confissão.
Não roubei. Não matei. Não caluniei.
Mas nem sempre segui a tua lei,
nem sempre fui a irmã do meu irmão.

Não recusei aos outros o meu pão.
Amor, algumas vezes, recusei.
Mas por tudo o que dei e o que não dei,
eu te peço, meu Deus, o meu perdão.

Perdão para os meus pecados
e para os meus pecados inocentes,
para o mal que já fiz e ainda fizer ...

Perdão para esta culpa original,
para este longo e complicado mal:
o crime sem perdão de ser mulher.


Fernanda de Castro


quarta-feira, 6 de março de 2013

HARUKI MURAKAMI



“E quando a tempestade tiver passado, 
mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la,
de ter conseguido sobreviver. 
Nem sequer terás a certeza de a tormenta 
ter realmente chegado ao fim. 
Mas uma coisa é certa: 
Quando saíres da tempestade 
já não serás a mesma pessoa. 
Só assim as tempestades fazem sentido.” 

Haruki Murakami



terça-feira, 5 de março de 2013

POEMINHA AMOROSO



Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo..."

Cora Coralina

sexta-feira, 1 de março de 2013

IMPRESSIONISTA



Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

- Adélia Prado,
 em "Bagagem"

ERICO VERÍSSIMO



“Desde criança fui possuído pelo demônio das viagens.
Essa encantada curiosidade de conhecer alheias terras
e povos visitou-me repetidamente a mocidade e a idade
madura. Mesmo agora, quando já diviso a brumosa casa 
dos setenta, um convite à viagem tem ainda o poder de 
incendiar-me a fantasia. Na minha opinião, existem 
duas categorias principais de viajantes: 
os que viajam para fugir e 
os que viajam para buscar. 
Considero-me membro deste último grupo.”

- Erico Verissimo,
in Solo de Clarineta.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O ÚLTMO POEMA



Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

- Manuel Bandeira,
in "Libertinagem e Estrela da Manhã".

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

PRISCILA RÔDE



"Eu não estou triste.
Só estou fazendo silêncios.
Só estou me recolhendo.
Só estou amanhecendo, por dentro."

Priscila Rôde

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

MOTIVO



EU CANTO porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gôzo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Si desmorono ou si edifico,
si permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei si fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Cecília Meireles
de Viagem

domingo, 24 de fevereiro de 2013

MÁSCARAS



ah! o imenso da possibilidade.

quantas rotas em tormentas?
quantas máscaras desejadas?

sucumbes à pressão dos momentos.

nada se transfigura nos espelhos,
e todos os dias és
mais do que a soma das tuas partes.

às vezes, os mares da realidade assim obrigam.

é nessas águas que também somos humanos.



Vicente Ferreira da Silva

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

SABEDORIA



Era uma vez uma pessoa que procurava a sabedoria.

Tinham-lhe dito que para a atingir tinha sempre
de aceitar e recusar ao mesmo tempo tudo o que 
lhe fosse oferecido, dito ou mostrado.
Quando perguntava por onde era o melhor caminho
e lhe diziam «é por ali» ela devia seguir
imediatamente nesse sentido e depois no sentido
contrário.

Tendo assim percorrido todas as
direcções indicadas e as não indicadas, 
sem mais caminhos a percorrer, sentou-se no chão 
e começou a chorar.

 Sem saber, tinha chegado. 

Ana Hatherly,
 in 'Tisanas'

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

CRUZ E SOUZA


"...
Nada há que me domine e que me vença
Quando a minha alma mudamente acorda...
Ela rebenta em flor, ela transborda
Nos alvoroços da emoção imensa."

- Cruz e Sousa

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Lya Luft



" A vida não está aí apenas para ser suportada
ou vivida, mas elaborada. 
Eventualmente reprogramada. 
Conscientemente executada. 
Não é preciso realizar nada de espetacular.
Mas que o mínimo seja o máximo que a gente 
conseguiu fazer consigo mesmo." 

Lya Luft,
in Perdas & Ganhos

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

SENSAÇÃO


Nas tardes azuis de verão, irei pelos vergéis,
Picado pelo trigo, a pisar a erva miúda:,
A sonhar, sentirei um frescor sob os pés,
E o vento há de banhar-me a cabeça desnuda.

Em silêncio, eu não pensarei em nada:
Mas o amor infinito montará minh'alma,
E irei longe, muito longe, com o pé na estrada,
Pela natureza, feliz – na companhia da amada. 

Arthur Rimbaud

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

MIA COUTO


“... 
nós temos olhos que se abrem para dentro,
esses que usamos para ver os sonhos...”

Mia Couto,
in Estórias abensonhadas

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

FABRÍCIO CARPINEJAR



A felicidade é provisória. 
É um clarão.
Um relance.
Um lampejo. 
Dura o suficiente para virar
uma lembrança.
Assim que some temos que 
sair atrás dela de novo.


Fabrício Carpinejar

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

EXALTAÇÃO


Venha!
Venha uma pura alegria
Que não tenha
Nem a senha
Nem o dia!

Abra-se a porta da vida
Sem se perguntar quem é!
E cada qual que decida
Se quer a alma aquecida
No lume da nova fé.

Venha!
Venha um sol que ninguém tenha
No seu coração gelado!
Venha
Uma fogueira de lenha
De todo o tempo passado!


Miguel Torga
in Libertação de "Poemas Completos

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

ALBERT CAMUS


O homem não é nada em si mesmo. 
Não passa de uma probabilidade infinita. 
Mas ele é o responsável infinito dessa probabilidade. 

Albert Camus


sábado, 9 de fevereiro de 2013

OSCAR WILDE


Por detrás da alegria e do riso, 
pode haver uma natureza vulgar, 
dura e insensível.
Mas, por detrás do sofrimento,
há sempre sofrimento.
Ao contrário do prazer, 
a dor não tem máscara.

Oscar Wilde

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

LUZ...


“Há uma luz
que vem de fora
e penetra a alma.
Há uma luz
que vem de dentro
e ilumina
o mundo.”

Leopoldo Scherner

HERBERTO HELDER


As palavras não fazem
o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender
as palavras.

Herberto Helder

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

PASSEIO NO JARDIM



Quem aspira o perfume
deste longo jardim
de palavras cortadas
como se fossem caules
vê no chão espalhadas
as pétalas da rosa:
estilhaços de mim.

Nunca me completei
e sonho o que seria 
se a mim me reunisse
a mim mesmo somado
como um ramo de flores
ou a gota de orvalho
na manhã condenada.

Sempre me procurei 
dentro de mim perdido
em meus próprios domínios.
E no nunca me achar
é que me encontro e sou.
Só parto ao regressar.
Só venho quando vou.

Lêdo Ivo
In Crepúsculo Cívil

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

LYA LUFT



” O olho do outro está grudado em mim e me sinto 
permanentemente avaliado, nem sempre aprovado: 
se eu não for como sugerem ou exigem meu grupo,
família, sociedade, se não atender às propagandas,
aos modelos e ideais sugeridos, serei considerado 
diferente. Como adolescentes queremos ser iguais à 
turma, como adultos queremos ser aceitos pela tribo:
a pressão social é um fato inegável.

Não controlada, ela nos anulará”.


Lya Luft, 
in Múltipla Escolha 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O SILÊNCIO



Há um grande silêncio que está à escuta...

E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa,
qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje
até a tua dúvida metafísica, Hamleto!

E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala
o silêncio escuta...
e cala.


Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo


sábado, 2 de fevereiro de 2013

A ALMA



Às vezes eu sinto – minha alma
Bem viva.
Outras vezes porém ando erradio,
Perdido na bruma, atraído por todas as distâncias.

Às vezes entro na posse absoluta de mim mesmo
E a minha essência é alguma coisa de palpável
E de real.
Outras vezes porém ouço vozes chamando por mim,
Vozes vindas de longe, vozes distantes que o vento traz nas tardes mansas.

Sou o que fui ...
Sou o que serei ...

Às vezes me abandono inteiramente a saudades estranhas
E viajo por terras incríveis, incríveis.
Outras vezes porém qualquer coisa à-toa –
O uivo de um cão na noite morta,
O apito de um trem cortando o silêncio,
Uma paisagem matinal,
Uma canção qualquer surpreendida na rua – 
Qualquer coisa acorda em mim coisas perdidas no tempo
E há no meu ser uma unidade tão perfeita
Que perco a noção da hora presente, e então

Sou o que fui.
E sou o que serei.

Augusto Frederico Schmidt
in Poesias Completas

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

ESTRADA


Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo o mundo é igual. todo o mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única.
Até os cães.
Estes cães da roça parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho
manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,
Que a vida passa! que a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.

Manuel Bandeira,
in "Estrela da Vida Inteira - O ritmo dissoluto"

domingo, 27 de janeiro de 2013

PASSAGEM DAS HORAS


"Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero..."

Fernando Pessoa

sábado, 26 de janeiro de 2013

RUMI



"Em cada coração há uma
janela para outros corações.
Eles não estão separados,
como dois corpos.
Mas, assim como duas lâmpadas
que não estão juntas,
Sua luz se une num só feixe."

Jalaluddin Rumi

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

ALLEGRO



Nuvens esgarçam-se; do céu em brasa
errante luz bruxuleia sobre vales ofuscados.
Pando com o vento quente procela
fujo a passo incansável
Atravessando uma vida nublada.
Ah, se por um instante
ao menos, entre mim e a luz eterna
uma propícia borrasca soprasse o cinzento nevoeiro!
Estrangeira é a terra que me cerca:
leva-me longe, arrancado da pátria,
de um lado para outro o poderoso vagalhão do destino.
Vamos, vento: corre com essas nuvens,
rasga esses véus
para que a luz me possa cair sobre os incertos atalhos!

Hermann Hesse
in Andares 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

MIA COUTO



“[…]Falamos em ler e pensamos apenas nos livros.
Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. 
Nós lemos emoção nos rostos, 
lemos os sinais climáticos nas nuvens, 
lemos o chão, lemos o Mundo, 
lemos a Vida.
Tudo pode ser página. 
Depende apenas da intenção de descoberta 
do nosso olhar.”

— Mia Couto

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

GABRIEL GARCIA MARQUEZ


"...se deixou levar por sua convicção de que
os seres humanos não nascem para sempre no dia
em que as mães os dão à luz, e sim que a
vida os obriga outra vez e muitas vezes a
se parirem a si mesmos."

Gabriel García Márquez
In: O amor nos tempos do cólera

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

HÁ DIAS



Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-se comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.

EUGÉNIO DE ANDRADE,
in Lugares do Lume 
 
 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

VIVER É...



Viver é uma peripécia. Um dever, um afazer, um prazer,
 um susto, uma cambalhota. Entre o ânimo e o desânimo,
 um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo.

Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado
 ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus,
 que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de 
tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração
 de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros.

 Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar 
ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. 
A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar
a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda,
 muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem
 sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos 
nem sentiremos mais tarde.

Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças.
 E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre.
 A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, 
onde todos somos alunos. 

Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós 
para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre
 uma impressão digital. A vida é um espaço e um tempo
 maravilhosos mas não se contenta com a contemplação.
 Ela exige reflexão. E exige soluções.

A vida é exigente porque é generosa. 
É dura porque é terna. 
É amarga porque é doce. 
É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós 
encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo. 
A vida é a mais séria das coisas divertidas.

Joaquim Pessoa, 
in 'Ano Comum'

domingo, 13 de janeiro de 2013

ÁRVORE DE INVERNO



Abandono de aves e de folhas
Ninguém já descansa à tua sombra.
só te resta a nua arquitetura
de ramos como braços de náufragos

Assim me enternecem
o teu frio, ausência de cor,
a tua penosa hibernação

Resignados, mas confiantes
ambos aguardamos
a ressurreição na primavera.

FERNANDO COUTO

sábado, 12 de janeiro de 2013

LABIRINTO



Não haverá nunca uma porta. Estás dentro
E o alcácer abarca o universo
E não tem nem anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor de teu caminho
Que teimosamente se bifurca em outro,
Que teimosamente se bifurca em outro,
Tenha fim. É de ferro teu destino
Como teu juiz. Não aguardes a investida
Do touro que é um homem e cuja estranha
Forma plural dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida.
Não existe. Nada esperes. Nem sequer
A fera, no negro entardecer.


Jorge Luis Borges
In Elogio da sombra (1969)
Tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

ÍMPAR



Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.

- Como quereis o equilíbrio?

David Mourão-Ferreira


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A ESTAÇÃO DAS LÁGRIMAS*



Quando a Estação das Lágrimas chegar;

Quando, diante do sal sobre seu rosto pairar
e a exata hora do terrível dia vier arder;

Quando, atrás ou adiante seu coração doído,
vir o cortinado de trevas a esconder a luz
dos seus olhos castanhos, verdes ou azuis;

Quando, sob o par de óculos de sol de Paris,
ou de esquinas do mais ermo pueril lugarejo,
não for capaz de esconder seu Luto e Pavor;

Quando tal Tempo – sempre cruel, fatal
e inesperado, tornar seu rosto disforme,
toldando-o de dores infames e sem cor;

Quando seu mais caro e próximo parente
ou amigo, aquele do peito, na Primavera
da Juventude ou Inverno da Velhice se for;

Quando a Estação das Lágrimas invadir
seus olhos vivos, tornando-se senhora voraz
do seu infante ou vetusto completo Ser:

Não adianta conselheiros sair a procurar.
Não perca seu tanto ou escasso tempo
a lhes escutar; a maior atenção lhes dar...

Não dê, alma e ouvidos, às suas tantas e tontas
palavras. Não àqueles esmerados fanáticos
(e não são poucos), no tão solícito consolar!

Antes, busque aqueles (e são poucos) que,
com discreta, sóbria e solene humildade,
lhe sussurram a clara Harmonia do Silêncio.

Aqueles que, com simples e suficientes frases,
sem nada querer, ou tanto se fazer escutar,
antes do Abraço Silente dizem carinhosamente:
“Não sei o quê falar!”

Estes são aqueles capazes de lhe ofertar alento;
de dar-lhe o primo, mais caro; necessário Silêncio,
enquanto, e sempre, que a Estação das Lágrimas
cobrir seu rosto com a ausência do calor franco.

Estes são aqueles que hão de ajudá-lo a curar
suas feridas sem Sal – até que seus olhos tornem
a suportar o Sol – que para nem todos se levanta;
para aqueles que nem sempre os sinos dobram!

Estes são aqueles que, na Estação das Lágrimas,
saberão a exata medida do Abraço à Dor Alheia
sem jamais esperar ou aventar qualquer Gratidão.

Então, enquanto o rio recebe o quê lhe cabe
da Estação das Lágrimas, em conduta a oceanos
vários, lembre-se que “Não sei o quê falar!”
diz Tudo que precisa ouvir durante o Abraço:

Tudo e Mais que irá aliviar seu cansaço; o peso
da sua Dor e Desespero – que, por anos, saberão
a fel e Amargo Desterro n’A Terra dos Homens.

Nada é mais necessário e sublime que isso; nada
melhor que, perdido no Tempo Efêmero da Vida,
lhe soará como acalanto capaz de a todos conceder
a Alforria da Terra!

Foi o quê aprendi da Estação das Lágrimas:
Tudo Preciso: na hora fatal da Lavoura Arcaica;
quando à Terra devolvi meus Pais e Filho!

Além de, à distância, ‘dizer’ adeus à Senhora:
Aquela – última guardiã, cúmplice e escrivã
das minhas Memórias de Infância, Juventude
e Velhice: Madrinha e Operária da Luz...

*Jairo De Britto - São Paulo, Capital.
(25 de Outubro - 15 de Novembro de 2012)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

II



A flor abriu nos caminhos do abismo.
 
Mãos desfeitas colheram-na
nos caminhos do abismo,
e as pétalas inocentes não murcharam.
 
A flor azul abriu no deserto silente.
 
Mãos crispadas colheram-na
no deserto silente
e as pétalas virginais não se crestaram.
 
A flor azul abriu no píncaro alto e puro.
 
Mãos sagradas colheram-na
no píncaro alto e puro,
e as pétalas miraculosas não tombaram.
 
E nos caminhos tristes,
no deserto,
no píncaro,
 
os Poetas cantaram. . . 
 
 
Tasso da Silveira
In: Puro Canto

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

RETRATO DE MULHER TRISTE



Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles,
in 'Poemas'