segunda-feira, 26 de novembro de 2012

NIRVANA



Paz das montanhas, meu alivio certo.
O girassol do mundo, aberto,
E o coração a vê-lo, sossegado.
Fresco e purificado,
O ar que se respira.
Os acordes da lira
Audíveis no silencio do cenário.
A bem-aventurança sem mentira:
Asas nos pés e o céu desnecessário.

Miguel Torga
In: Antologia Poética

sábado, 24 de novembro de 2012

INÂNIME AUSÊNCIA*



Eu sempre chego atrasado.
Não às reuniões com outros executivos;
não para dos médicos ouvir mais motivos:

Chego atrasado quando devia Presença
àqueles que na minha Vida
hoje são amarga e solene ausência!

*Jairo De Britto,
 em "Dunas de Marfim"

MIA COUTO

...
Os lugares não se comparam. 
Como as pessoas,
cada um deles acontece num momento único, 
numa única e irrepetível vida.

Mia Couto, 
in Pensageiro Frequente

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

ENTRADA DA PRIMAVERA



O vento quente zune toda a noite,
pesadamente rufla a sua asa molhada.
Aves pernaltas titubeiam no ar.
Nada mais dorme:
toda a terra está acordada,
a primavera chama.

Fica quieto coração, fica quieto!
Mesmo que densa e íntima no sangue
agite-se a paixão
e caminhos antigos te seduzam:
de volta à juventude
teus caminhos jamais te levarão.

Hermann Hesse
In Andares
Tradução de Geir Campos  

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

EM ALGUM LUGAR



EM ALGUM LUGAR

No deserto da vida eu erro e ardo
a gemer sob o peso do meu fardo,
mas em algum lugar quase esquecidos
sei de frescos jardins em sombra e em flor.
Em algum lugar, nos confins do sonho,
sei que um abrigo vela
onde a alma volta a ter pátria
e estão à espera o sono, a noite e as estrelas.

Hermann Hesse
In Andares
Tradução Geir Campos

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

VÃS CONFISSÕES*



Não quero ou pretendo mais nada.
Tive, na minha idade, o suficiente
de alegria, decepção, dor e perdas.

Só gostaria de mais árvores, flores 
e alvoradas.
E, se possível, um mundo menos 
inclemente.

*Jairo De Britto,
 em "Dunas de Marfim"

REFLEXÃO



Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.

Em seu vôo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detem-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.

Elas, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...

Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...

Gilka Machado
In ‘Estados da alma"

terça-feira, 20 de novembro de 2012

PEREGRINAÇÃO



Peregrino da Terra, espírito de lenda, 
Toma a sacola e o manto, arrima-te ao bordão, 
Vamos peregrinar os dois por esta senda, 
- Suave estrada de luz, por onde tantos vão… 

Sem ter nada que a terra as nossas almas prenda, 
Levando como um facho a luz da redenção, 
Iremos a cantar, armando a nossa tenda, 
Em cada uma Esperança, em cada uma Ilusão! 

E assim, ambos a sós, sombra despercebida, 
Iremos pelo mundo, iremos pela vida, 
Levando o mesmo Ideal, pisando a mesma estrada… 

E havermos de chegar bem cedo a essa país, 
Onde se canta sempre e sempre se é feliz, 
Sob a perpétua luz da eterna madrugada! 


 ALCEU WAMOSY ,
In Flâmulas

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

NUNCA MAIS



Passa um dia,
e outro a correr atrás dele
e outro e outro...
O tempo a todos impele,
tal o vento
levando, em doida correria,
revoadas de folhas outonais,
folhas de calendários sempre iguais,
uma a uma arrancadas,
perdidas nas estradas...

Nunca mais... Nunca mais...

Saúl Dias
in Essência

domingo, 18 de novembro de 2012

DE QUE SÃO FEITOS OS DIAS?


De que são feitos os
dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre magoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glorias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...


Cecília Meireles
In: Canções


terça-feira, 13 de novembro de 2012

MIA COUTO


...
"O que faz andar a estrada?
É o sonho.
Enquanto a gente sonhar a estrada
permanecerá viva.
É para isso que servem os caminhos,
para nos fazerem parentes do futuro."
...

Mia Couto
in "Terra sonâmbula"

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A FALA DE DEUS



Houve um tempo em que Deus falava hebraico.

Passou depois a falar latim
após um rápido estágio pelo grego.

Atualmente há quem afirme
que optou pelo inglês
embora em algumas tribos
xamãs se comuniquem com os seus
em incompreensíveis dialetos.

Isto apenas prova
que Deus é poliglota.
Se não 
por que inventaria a Torre de Babel?

Só não entendo por que alguns se apresentam
como seus tradutores e intérpretes
quando ele claramente fala
pela voz dos pássaros e das flores

ou quando pela boca das bactérias 
destrói (silencioso)
- nossa empáfia verbal.

Affonso Romano de Sant"Anna
In Sísifo desce a montanha

domingo, 11 de novembro de 2012

CANÇÃO DO AMOR



Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca, a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.


Rainer Maria Rilke

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

INFÂNCIA



Levaram as grades da varanda
Por onde a casa se avistava.
As grades de prata.

Levaram a sombra dos limoeiros
Por onde rodavam arcos de música
E formigas ruivas.

Levaram a casa de telhado verde
Com suas grutas de conchas
E vidraças de flores foscas.

Levaram a dama e o seu velho piano
Que tocava, tocava, tocava
A pálida sonata.

Levaram as pálpebras dos antigos sonhos,
Deixaram somente a memória
E as lágrimas de agora.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

CAIO FERNANDO ABREU



"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas
ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim,
pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que
não existe, pelo muito que amei e não me amaram,
pelo que tentei ser correto e não foram comigo.
Meu coração sangra com uma dor que não consigo
comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro
todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de
gritar que esta dor é só minha, de pedir que me
deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.
A única magia que existe é estarmos vivos e não
entendermos nada disso. A única magia que existe
é a nossa incompreensão."

Caio Fernando Abreu,
in Ovelha Negra

CAIO FERNANDO ABREU



"Vai passar,tu sabes que vai passar.Talvez não amanhã,
mas dentro de uma semana, um mês ou dois,quem sabe?
O verão está aí, haverá sol quase todos os dias,e sempre
resta essa coisa chamada¨impulso vital. Pois esse impulso
às vezes cruel,porque não permite que nenhuma dor
insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol,
para o mar, para uma nova estrada qualquer e,de repente,
no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás
pensando algo assim como "estou contente outra vez"..."

Caio Fernando Abreu,
in Ovelha Negra

terça-feira, 6 de novembro de 2012

ETERNA MÁGOA



O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do mundo, o homem que é triste,
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois nada há que traga
Consolo à mágoa a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

Augusto dos Anjos

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A SUAVE MÃO DA TUA AUSÊNCIA



A casa está cheia de ti
... Não apenas os retratos os recantos
Os quadros
Não apenas os objectos onde
Roça ao de leve
A suave mão da tua ausência.
Mas aquela luz que trazias dentro
E deixavas de passagem
Nos seres e nas coisas.
Talvez agora mores entre as estrelas
Mas brilhas
Intensamente brilhas dentro de casa.

MANUEL ALEGRE,
in DISPERSOS E INÉDITOS -POESIA-VOL. II

domingo, 4 de novembro de 2012

VII



Fechei o livro que falava
de essências, de existências, de substâncias
de acidentes e modos,
de causas e efeitos,
de matéria e de forma,
de conceitos e ideias
de númenos, fenómenos,
coisas em si e noutras, opiniões,
hipóteses, teorias...
Fechei o livro e abriu-se
a meus olhos o mundo.
Transposto tinha o sol já a colina;
no céu esmaltavam-se os álamos
e nasciam entre eles as estrelas;
a lua branqueava o firmamento,
cujo fulgor difuso
nas águas do rio se banhava.
E observando a lua, a colina,
as estrelas, os álamos,
o rio e o fulgor do firmamento
senti a grande mentira
de essências, de existências, de substâncias,
de acidentes e modos,
de causas e efeitos,
de matéria e de forma,
de conceitos e ideias
de númenos, fenómenos,
coisas em si e noutras, opiniões,
hipóteses, teorias;
isto é: palavras.

Sobre o livro fechado
que jazia sobre a erva
pela lua a sua capa iluminada,
mas seu interior às escuras,
descansava uma rã
que ia rondando na sua nocturna ronda.
Oh, Kant, quanto te admiro!



Miguel de Unamuno,
in Rimas de Dentro
Tradução Rui de Almeida

sábado, 3 de novembro de 2012

PONTA SECA



Remendo o coração, como a andorinha
Remenda o ninho onde foi feliz.
Artes que o instinto sabe ou adivinha...
Mas fico a olhar depois a cicatriz.


Miguel Torga
In: Antologia Poética

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O TEATRO DAS CIDADES



Qualquer tempo é um tempo duvidoso 
assim o meu cercado de cidades 
plataformas instáveis 
praticáveis cobertos de infinita gente náufraga 
que se inclina nas águas como um palco 

Paro na convergência dos estrados 
chove já sobre a raça ameaçada 
Incertas multidões em volta passam 
contemporâneas falam interpretam 
a duvidosa língua das imagens 

Assim no teatro abstracto das cidades 
morrem palavras sobre um palco náufrago 

O tempo cobre o céu que se enche de água 

Gastão Cruz,
 in "O Pianista"

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

VIVER



Mas era apenas isso, 
era isso, mais nada? 
Era só a batida 
numa porta fechada? 

E ninguém respondendo, 
nenhum gesto de abrir: 
era, sem fechadura, 
uma chave perdida? 

Isso, ou menos que isso 
uma noção de porta, 
o projecto de abri-la 
sem haver outro lado? 

O projecto de escuta 
à procura de som? 
O responder que oferta 
o dom de uma recusa? 

Como viver o mundo 
em termos de esperança? 
E que palavra é essa 
que a vida não alcança? 

Carlos Drummond de Andrade,
 in 'As Impurezas do Branco' 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

SONETO DE PAZ



‘Cismando, o campo em flor, eu vi que a terra
Pode ser outra terra, de outra gente,
Para o prazer armada e competente
E desarmada para a voz da guerra.

No chão, olhando o céu que nos desterra,
Sem terminar falei, presente, ausente,
Ó vento desatado da vertente,
Ó doce laranjal sem fim da serra!

Mais tarde me esqueci, mas esse instante
De muito antiga perfeição campestre
Fez-me constante um pensamento errante:

Era o sem tempo, a paz da eternidade
Unindo a luz celeste à luz terrestre
Sem solução de amor e de unidade’.

Paulo Mendes Campos
In: O Domingo Azul do Mar

terça-feira, 30 de outubro de 2012

POEMA À BOCA FECHADA



Não direi: 
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago
In ‘Os Poemas Possíveis’

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

UM DIA VOLTAREI...


...


Um dia voltarei à morada das papoilas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.


Um dia o vento estará maduro.


Albano Martins
em 'Vocação do Silêncio'

ÉTICA


Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.

Luís Quintais,
in “Lamento”

domingo, 28 de outubro de 2012

sábado, 27 de outubro de 2012

NÃO ÉS OS OUTROS


Não há-de te salvar o que deixaram
Escrito aqueles que o teu medo implora;
Não és os outros e encontras-te agora
No meio do labirinto que tramaram
Teus passos. Não te salva a agonia
De Jesus ou de Sócrates ou o forte
Siddharta de ouro que aceitou a morte
Naquele jardim, ao declinar o dia.
Também é pó cada palavra escrita
Por tua mão ou o verbo pronunciado
Pela boca. Não há pena no Fado
E a noite de Deus é infinita.
Tua matéria é o tempo, o incessante
Tempo. E és cada solitário instante.

Jorge Luis Borges,
in "A Moeda de Ferro" 

AS COISAS



A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a ofendida
Violeta, monumento de uma tarde,
De certo inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas e taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão muito além de nosso olvido:
E nunca saberão que havemos ido.

Jorge Luis Borges
Tradução de Ferreira Gullar

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

FRAGMENTOS



Tem no ar 
um perfume
de gente
Tem no ar
um perfume
de árvores
Tem no ar
um perfume
de folhas
Tem no ar
um perfume
de flores
Tem no ar
um perfume
de primavera
Tem no ar
um perfume

de vida...

Delores Pires
In A Estrela e a Busca

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

MIA COUTO



Sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança
contra um destino que é sempre tardio e pouco."

Mia Couto

terça-feira, 23 de outubro de 2012

FRAGMENTO LITERÁRIO



"Lembrou-se bruscamente de que num café da rua Brasil (…) 
havia um gato que se deixava acarinhar pelas pessoas,
como uma divindade desdenhosa. Entrou.
Aí estava o gato, adormecido. 
Pediu uma xícara de café, adoçou-o lentamente,
experimentou-o (…)
e pensou, enquanto alisava a negra pelagem, que aquele
contato era ilusório e que estavam como separados por
uma vidraça, porque o homem vive no tempo, na sucessão,
e o mágico animal, na atualidade, na eternidade do instante."

Jorge Luis Borges 
em “Ficções: O Sul”

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

RECORDAÇÃO



E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.

Rainer Maria Rilke,
in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

domingo, 21 de outubro de 2012

SOFISMAS



Às vezes
eu sou chuva
e escorro pelas valas
da desilusão.

Às vezes
sou vento
e percorro alamedas
inutilmente.

Por que sou chuva?
Por que sou vento?
Por que reclamo poemas?
cânticos tão verdes?
se já sou inverno
a entoar hinos de hosana
entre folhas secas
pisadas
machucadas demais
para inventarmos outra igual.


Alvina Nunes Tzovenos
Palavras ao Tempo

sábado, 20 de outubro de 2012

NOCTURNO


 Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental,
in Sonetos

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

WILLIAM WORDSWORTH



Apesar de a luminosidade
outrora tão brilhante
Estar agora para sempre afastada do meu olhar,
Ainda que nada possa devolver o momento
Do esplendor na relva,
da glória na flor,
Não nos lamentaremos, inspirados
no que fica para trás;
Na empatia primordial
que tendo sido sempre será;
Nos suaves pensamentos que nascem
do sofrimento humano;
Na fé que supera a morte,
Nos tempos que anunciam o espírito filosófico.

William Wordsworth,
 "Esplendor na Relva" 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

SOL DE MARÇO



Embriagada de ardor matinal,
tonteia uma borboleta amarela.
Encolhido e com sono, um homem velho
descansa sentado junto à janela.

Entre as folhas da primavera, um dia
de viagem cantando partiu ele:
de uma porção de ruas a poeira
passou voando sobre os seus cabelos.

Naturalmente as árvores em flor
e as borboletas voando amarelas
parecem hoje as mesmas de outros tempos:
como se o tempo não tocasse nelas.

Os perfumes e as cores, entretanto,
tornaram-se mais finos e mais raros:
fez-se mais fria a luz, e o próprio ar
parece mais difícil respirar.

Como abelha a zumbir, a primavera
baixinho entoa os seus graciosos cantos:
a borboleta adeja em amarelo,
e o céu vibra em cristal de azul e branco.

Hermann Hesse
In Andares

terça-feira, 16 de outubro de 2012

RECONHEÇO-ME



Reconheço-me em todas as paisagens
anunciadas pelos profetas, ou pelos mágicos,
fascinada com o impulso que me faz arriscar
uma paixão sem aviso prévio.
Plagio sem restrições
a vida de heróis fantasiosos.
Procuro em todas as definições
acerca da vida e da morte
a síntese perfeita
e transcrevo-a nas cordas vocais
para a citar a propósito das coisas que acontecem.
Ninguém me diga o caminho onde se equivalem
os dias e as noites de um roteiro de verão.

Graça Pires
In Conjugar afectos

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

METAMORFOSES DA CASA




Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.


Eugénio de Andrade
in Poemas

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

ALEGRIAS



As alegrias passam por mim
Qual um sonoro bando de aves brancas
Por sobre o espelho do mar.

A superfície vibra de inquietas imagens.
Mas a profundeza é sempre a mesma,
Sempre a mesma,
E é eternamente a mesma a direção das vagas.

Helena Kolody

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A VOCÊ



A minha dor é um convento ideal
Cheio de  claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm sombras d´agonia
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...

A minha dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro!
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...

Florbela Espanca
In A Mensageira das Violetas

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

DA OBSERVAÇÃO



Não te irrites, por mais que te fizerem. . .
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio. . .


Mário Quintana
In: Espelho Mágico

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

SERENIDADE



Serenidade.Encantamento.
A alma é um parque sob o luar.
Passa de leve a onda do vento,
fica a ilusão no seu lugar.

Vem feito flor o pensamento,
como quem vem para sonhar.
Gotas de orvalho.Sentimento.
Névoas tenuíssimas no olhar.

Tombam as horas, lento e lento,
como quem não nos quer deixar.
Extase.Vésperas.Advento.

Ouve! O silêncio vai falar!
Mas não falou...Foi-se o momento...
E não me canso de esperar.

Henriqueta Lisboa
In Enternecimento

terça-feira, 2 de outubro de 2012

PRESENÇA




É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

Mario Quintana
In: Apontamentos de História Sobrenatural