segunda-feira, 23 de junho de 2014

NO MEU JARDIM



No meu jardim aberto ao sol da vida,
Faltavas tu, humana flor da infância
Que não tive...

E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto!

O recuado Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino:

Este, de ser menino
Ao pé de ti...

MIGUEL TORGA, in DIÁRIO VIII
(Antologia Poética)

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A CASA DO TEMPO PERDIDO




Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.
Bati segunda vez e mais outra e mais outra.
Resposta nenhuma.
A casa do tempo perdido está coberta de hera
pela metade; a outra metade são cinzas.


Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando
pela dor de chamar e não ser escutado.


Simplesmente bater. O eco devolve
minha ânsia de entreabrir esses paços gelados.
A noite e o dia se confundem no esperar,
no bater e bater.

O tempo perdido certamente não existe.
É o casarão vazio e condenado.


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 16 de junho de 2014

POEMA INFINITIVO



A Dante Milano

Valorizar toda manhã de sol
como se a derradeira fosse.
Toda manhã de sol sobre a verdura
como se nunca mais houvesse.
Sentir que a vida é ainda boa e amiga
feito na antiga meninice.
E não temer a morte soberana
que se engalana para o enlace.


Fernando Py
in 70 Poemas Escolhidos

FUI EU



Fui eu esse menino que me espia
- melancólico olhar, sereno rosto,
postura fixa e o todo bem composto -
no retrato que o tempo desafia.

Fui eu na minha infância fugidia
de prazeres ingênuos, e o desgosto
de sentir tão efêmera a alegria
bem depressa trocada em seu oposto.

Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa
e tudo altera nem sequer deixou
um grão de infância feito esmola escassa.

Fui eu: e na figura só ficou
o olhar desenganado, na fumaça
em que a criança inteira se mudou.

__Fernando Py, 
Poema da Antologia"Fui Eu".







domingo, 15 de junho de 2014

ÁRVORE



Árvore

Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus
seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul
E descobriu que uma casa vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve pra poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as 
árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se 
transformara,envaidecia-se quando era nomeada para o
entardecer dos pássaros e tinha ciúmes da brancura que
os lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com muitas borboletas.

Manoel de Barros,
in Ensaios Fotográficos








sexta-feira, 13 de junho de 2014

A VIAGEM



Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a
 
chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será – porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes – por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha
 
sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa –
se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.
 
Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 12 de junho de 2014

FORMATAÇÃO DA AMIGA REGINA HELENA


SONETO DA FIDELIDADE



De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes,
in "Antologia Poética"

quarta-feira, 11 de junho de 2014

CANÇÃO



Deslumbra-te, agora,
com essa luz. é tua!
Tua ausente embora
numa ausente rua.

Nunca te atormente
sabê-la perdida.
Renasce fremente
como a própria vida.

Como a vida feita
de noite e de espera,
canção imperfeita
de anjo e de fera.

Deslumbra-te, eia!
com esta luz que mais se alteia
quando tudo rui.


Alphonsus de Guimaraens Filho
Discurso no Deserto (1975-1981)



SONETO DA ESPERA INÚTIL



No outro lado de mim mora a criança,
neste lado onde estou é noite fria:
- lancei mão dos pincéis da fantasia
para tornar real minha esperança,

pintar meu ser com as cores da alegria;
então achei a minha semelhança
no menino que fui, não na lembrança
do mundo que perdi e onde vivia.

Se o sonho andei, cruzei meu labirinto
na modelagem abstrata do poema,
virgens manhãs bebi no extinto lago;

e a dor que não senti agora sinto
na amarga solidão, no amargo tema
em que ontem naveguei e hoje naufrago.


Colombo de Souza
in: O Anúncio do Acontecido

segunda-feira, 9 de junho de 2014

SECURA VERDE



É verde esta secura, como é verde
a raiz duma planta que secou.
Posso ter o corpo aberto
e não mostrar o que sou.

Meus versos podem ser tristes
e eu ter profunda alegria.
Aves noturnas que buscam,
inquietas, a luz do dia.

Albano Martins
in Secura Verde e outros poemas
-1950-1953-

sábado, 7 de junho de 2014

ESCRITO A VERMELHO



Também ainda não disseste
(e é bom que o faças
antes que anoiteça)
que foi ao serviço
duma causa
que vieste. Não lhe dirás
o nome, nem é preciso,
julgo eu. Basta que se saiba
que foi com o sangue
que sempre o escreveste. E bastará
por isso que leiam
os teus versos. Porque
em todos eles
está escrito a vermelho.

Albano Martins

in Escrito a vermelho

FOLHAS



Repara: sem vento as folhas
são como o sono apenas.
Corpos ao relento,
que da morte se esquecem.

Albano Martins,
in Escrito a vermelho

sexta-feira, 6 de junho de 2014

DÊEM-ME



um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as tábuas.
Dêem-me
a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.

Albano Martins
in:Vertical

quinta-feira, 5 de junho de 2014

GUARDADOR DE REBANHOS


"...

Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr do sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria o fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

..."

Fernando Pessoa -
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos

O GUARDADOR DE REBANHOS


"Se às vezes digo que as flores sorriem
Se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque sou só essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.
É a Natureza a despertar!"

Fernando Pessoa -
(Alberto Caeiro) in O Guardador de Rebanhos


NÉVOA...



"Névoa... A manhã é névoa e o dia é este...
Que quero eu dele ou ele quer de mim?
Quero que a minha angústia nada ateste
De si, nem de quem quer um fim...

Quero que a manhã seja como é,
Porque o seria sem o eu querer;
E que eu tenha esse resto vil de fé
Que é ainda querer viver..."

Fernando Pessoa
in Poesia


quarta-feira, 4 de junho de 2014

A RUA



A rua é um rio de pessoas e de vozes,
um rio terrível que me vai levando,
mas estou só, como se está na infância...
ou quando a morte vai se aproximando...

No ar, agora, que distante aroma?
Decerto eu sem saber pensei em ti...
E um vôo de andorinha na distância
é a minha saudade que eu te mando.

Mas tu, nesses tumultuoso rio,
não fica nunca ao fundo da lembrança
como no seio azul de um redoma...

Tudo se afasta nessa correnteza
onde uma flor,às vezes, fica presa
e um claro riso sobre as águas dança!

Mario Quintana -
In Baú de Espantos

terça-feira, 3 de junho de 2014

ENTRE O LUAR E A FOLHAGEM...


Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Tênue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade,
Atrai e doi.
Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Não é nem faz,
Só de segui-lo me perdi.

Fernando Pessoa
In Cancioneiro


DIZES-ME



Dizes-me: tu és mais alguma cousa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?
Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.
Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.
Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.


Fernando Pessoa
In Poemas Inconjuntos

segunda-feira, 2 de junho de 2014

CONSELHO



Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Eugénio de Andrade,
in  Primeiros poemas





domingo, 1 de junho de 2014

A BALADA DAS FOLHAS



No crepúsculo de gaze
E ouro, anda alguém a cantar
Uma cantiga que é quase
Um choro humano, pelo ar...
Pensativo, os olhos ponho
Nas folhas, - vida que vai
A extinguir-se, sonho a sonho, 
Em cada folha que cai...

A primeira é verde e é linda.
Porque o vento a desprendeu ?
Não tinha vivido ainda,
Não tinha amado e morreu.
Vento do Destino avança,
E num soluço, num ai,
Cai um mundo de esperança
Na folha humilde que cai.

A segunda é a folha morta, 
Passado... Desilusão...
Mal o vento os ramos corta, 
Ela adormece no chão...
É a saudade, - folha da alma –
Que no tormento se abstrai
E vive da morte calma
De cada sonho que cai.

OFERENDA:

No crepúsculo indeciso
Da vida, me martirizo
Por um sonho que se esvai...
Caem folhas... Chorei !...
Há uma lágrima, um sorriso...
Em cada folha que cai.


Olegário Mariano
in 'Poemas de amor e de saudade'
1.932.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

GOSTARIAS DE DECIDIR...




Gostarias de decidir por ti.
O sol nunca se atrasa.
A noite chega sempre a horas certas.
Tu adiantaste o relógio com receio de adormecer mais
cedo ou de não chegar a tempo à festa do dia seguinte.
Não te perguntaram se querias vir e alguém marcou, sem
teu consentimento, a hora da chegada.
 Gostarias de ser tu a marcar a partida.
Precisas de inventar um relógio onde o tempo não
decline e um leito onde o sol não adormeça.
Um firmamento onde tu e ele sejam as únicas estrelas.


Albano Martins,
de Escrito a Vermelho


quarta-feira, 28 de maio de 2014

RETORNO




Um dia voltarei a ser terra
e de meu seio brotarão
flores agrestes.

Um dia voltarei a ser húmus
e nutrirei velhas árvores
de rubros frutos.

Um dia voltarei a ser pó
e água
e seiva.
E viverei em rochas,
raízes vegetais,
vagas do oceano.

Um dia eu serei
o que já fui.

Renato Castelo Branco 
in A Janela do Céu
(1914 - 1995)

terça-feira, 27 de maio de 2014

O EFÊMERO



Da árvore da vida cai
Folha em folha sobre mim.
Oh! vertiginoso mundo colorido,
Como você cansa e entedia.
Como é forte essa embriaguez!
O que hoje ainda brilha
Breve desaparecerá.
Sobre o meu sepulcro marrom
Breve o vento rangerá.
Sobre a criancinha a mãe reclina
Seus olhos eu gostaria de rever,
Seu olhar é minha estrela,
Tudo mais pode ir, desaparecer,
Tudo morre, tudo gosta de morrer.
Só a mãe eterna permanece,
Donde viemos,
Seu dedo leve escreve
Nosso nome ao vento.

- Hermann Hesse
In Caminhada


segunda-feira, 26 de maio de 2014

FRAGMENTO VIDA



Postais,
envelopes,
letras,
capítulo
de história
vivida,

amigos
à distância...
A vida
se compõe
de pedacinhos

de saudade...

Delores Pires
In A Estrela e a Busca



VIAGEM


Estive longe,
bem longe...
Tornei-me 
pequeno...
Empinei 
papagaio...
Apanhei.
(Vara 
de marmelo
dói.Puxão
de orelha
também!...)
Deixei pegadas
miúdas
no chão frio
e branco
de geada...
Senti 
a carícia
da água
cristalina
do rio 
amigo...
Persegui
borboletas
amarelas...
Colhi 
a rosa
perfumada
do jardim...
Ouvi 
o bimbalhar
do sino...
- Dona Saudade
visitou-me...

Delores Pires
In A Estrela e a Busca

domingo, 25 de maio de 2014

ESTA É A GRAÇA



Esta é a graça dos pássaros:
cantam enquanto esperam.
E nem ao menos sabem o que esperam.

Será porventura a morte, o amor?
Talvez a noite com nova estrela,
a pátina de ouro do tempo,
alguma cousa de precário 
assim como para o soldado a paz?

Com grave mistério de reposteiros
um augúrio dimana, incessante,
do marulho das fontes sob pedras,
do bulício das samambaias no horto.

No ladrido dos cães à vista da lua,
acima do desejo e da fome,
pervaga um longo desespero
em busca de tangente inefável.

O mesmo silencio da madrugada
prenuncia, sem duvida, um evento
que já não é o grito da aurora
ao macular de sangue a túnica.

E minha voz perdura neste concerto
com a vibração e o temor de um violino
pronto a estalar em holocausto
as próprias cordas demasiado tensas. 


Henriqueta Lisboa
In:'A Flor da Morte' (1945-1949)


sábado, 24 de maio de 2014

QUANDO TE DÓI A ALMA



Quando estás descontente,
quando perdes a calma
e odeias toda a gente,
quando te dói a alma,
 
quando sentes, cruel,
o prazer da vingança,
quando um sabor a fel
te proíbe a esperança,
 
quando as larvas do tédio
te embotam os sentidos,
e o mal é sem remédio
e a ninguém dás ouvidos,
 
nega, recusa a dor,
abandona o deserto
das almas sem amor
e mergulha o olhar
em tudo o que está certo,
o mar, a fonte, a flor. "
 
Fernanda de Castro
in, Poesia II

sexta-feira, 23 de maio de 2014

CEDO OU TARDE



Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.

Albano Martins
Escrito a vermelho

terça-feira, 20 de maio de 2014

A PANTERA


 
De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.
A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos descresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.
De vez em quando a fecha da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
 
- Rainer Maria Rilke
(tradução de Augusto de Campos)

segunda-feira, 19 de maio de 2014

FUGA



Vento que passas, leva-me contigo
Sou poeira também, folha de outono.
Rês tresmalhada que não quer abrigo
No calor do redil de nenhum dono.

Leva-me, e livre deixa-me cair
No deserto de todas as lembranças,
Onde eu possa dormir
Como no limbo dormem as crianças.


Miguel Torga
In: Antologia Poética

sexta-feira, 16 de maio de 2014

EM LOUVOR AO FOGO




Um dia chega
de uma extrema doçura:
tudo arde.

Arde a luz
nos vidros da ternura.

As aves,
no branco
labirinto da cal.

As palavras ardem
e a púrpura das naves.

O vento,

onde tenho casa
à beira do outono.

O limoeiro, as colinas.

Tudo arde

Na extrema e lenta
doçura da tarde.


Eugenio de Andrade
in Obscuro Domínio


FOGUEIRAS DE OUTONO



Veja nos outros jardins
e através do vale todo
a fumaça, que é uma trilha
dessas fogueiras de outono!

Se o ameno verão findou
e findaram as suas flores,
já ardem os rubros fogos,
e fumos cinzentos sobem.

Cantem então algo radioso,
a canção das estações:
flores em meio a verões,
fogueiras durante outonos!

Robert Louis Stevenson

terça-feira, 13 de maio de 2014

MANHÃ DE CHUVA



As pessoas 
vão caminhando...
Ares tristes...
Rostos
molhados...

O carro passa
e respinga
o pedestre.

O dia 
está sombrio
e sério...
com a solenidade
dos dias
de chuva!

Delores Pires
In A Estrela e a Busca

NÃO SÃO APENAS OS RELÓGIOS



Também se pode regressar
sem partir. Não são apenas
os relógios que se atrasam, às vezes é
o próprio tempo. E todos
os cuidados são
então necessários. Há sempre
um comboio que rola
a nosso lado sem luzes
e sem freios. E pode
faltar-nos o estribo ou já
não haver lugar
na carruagem da frente.

Albano Martins
em Escrito a Vermelho,


sábado, 10 de maio de 2014

SÓ NA MEMÓRIA DO TEU ROSTO


(minha mãe Olivia Diva, in memorian)


Só na memória do teu rosto, mãe
posso encontrar agora as paredes
da casa onde nasci.
Como se fosse possível voltar
àquele tempo em que a felicidade
residia nas tuas mãos
entretidas a encaracolar os meus cabelos.


Graça Pires

quarta-feira, 7 de maio de 2014

EM SEDA



Por esta luz que me alumia
e me inventa em seda a estrada

entre a arte, alívio da memória,
e o mais trêmulo aceno do nada

- se com o mundo me acertei/me desavim,
já nem sei - 

sou o que perdidamente
tomou rumo de mim.

(Fernando Campanella, 2010)

segunda-feira, 5 de maio de 2014

ÀS VEZES



Às vezes, quando um pássaro chama
ou entre os ramos algum vento sopra
ou nalgum pátio longe ladra um cão,
por longo tempo eu escuto e me calo.

Minha alma voa para o passado,
para onde, há mil esquecidos anos,
o pássaro e o vento que soprava
mais pareciam meus irmãos e eu.

Minha alma faz-se uma árvore,
um animal, um tecido de nuvens...
Transfigurada e estranha, volta a mim
e me interroga. Que resposta lhe darei?

Hermann Hesse
in: Andares
(Tradução de Geir Campos)


FRUTESCÊNCIA




Em solidão amadurece
a fruta arrebatada ao galho
antes que o sol amanhecesse.

Antes que os ventos a embalassem
ao murmurinho do arvoredo.
Antes que a lua a visitasse
de seus mundos altos e quedos.
Antes que as chuvas lhe tocassem
a tênue cútis a desejo.
Antes que o pássaro libasse
do palpitar de sua seiva
o sumo, no primeiro enlace.

Na solidão se experimenta
a fruta de ácido premida.

Mas ao longo de sua essência
já sem raiz e cerne e caule
perdura, por milagre, a senha.

Então na sombra ela adivinha
o sol que a transfigura em sol
a suaves pinceladas lentas.
E ouve o segredo desses bosques
em que se calaram os ventos.
E sonha invisíveis orvalhos
junto à epiderme calcinada.
E concebe a imagem da lua
dentro de sua própria alvura.
E aceita o pássaro sem pouso
que a ensina, doce, a ser mais doce.


Henriqueta Lisboa
in Além da Imagem

quinta-feira, 1 de maio de 2014

NÓS SOMOS FEITOS DE TEMPO



"Nós somos feitos de tempo; somos amassados da argila 
do tempo; somos feitos de idades, de estações, de horas,
de dias, somos feitos de cronometrias, isto é,
de medições de tempo, visíveis e invisíveis.
De facto, tudo o que é humano é feito de tempo; somos 
um reservatório de tempo; lençóis de tempo que se vão
acumulando. Para dizer uma palavra - somos duração...

José Tolentino Mendonça,
in Nenhum Caminho será Longo


NEM SEMPRE SOU IGUAL AO QUE DIGO E ESCREVO...



Nem sempre sou igual ao que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem em mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma ...

Alberto Caeiro
(in O Guardador de Rebanhos)


segunda-feira, 28 de abril de 2014

ETERNIDADE



Conheci-te de noite: por isso te chamo estrela.
Conheci-te de dia: por isso te chamo claridade.
Conheci-te em todas as horas: por isso
te chamo eternidade.

Albano Martins,
in “Vocação do Silêncio”

O SINO E A SINA



Percorreras de novo
estas veredas.
Ouvirás de novo o sino (e a sina)
nas asas da calhandra.
Deixaras finalmente à sombra
adulta dos salgueiros
teu pálido rebanho.
Então,podes volver os passos,
subir a escada erma
e plantar uma flor no vazio.

Albano Martins
In: Antologia Poética

RETRATO



Os passos
sobre a erva.
A imagem
dum tempo
de pequenas
e graves
inflexões.

Memória
de eucaliptos
florindo
facilmente
ao vento.

Retrato
dum menino
brincando
com os dias.

Albano Martins
De «Em Tempo e Memória"


sábado, 26 de abril de 2014

''MEU NOME É ESTA CANÇÃO''



Sou uma criança perdida
na imaginação dum bosque.
O vento solta-me o coração,
mas prende-me os braços e o tronco
e nunca mudo de posição.

Os espanejadores do medo
levantam o pó das lágrimas.
O tempo empoeira-se de lendas
e a água da vida vai-se congelando,
enquanto os sonhos ressonam
e eu vou crescendo e minguando.

Queimem o bosque e procurem
o dicionário dos meus anos.
Não sei que idade tenho,
perdi a imaginação
e deixei a memória em casa.
Meu nome é esta canção.


Albano Martins
de «Outros Poemas»

SE O TEMPO...




Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.

Albano Martins,
in Antologia Poética


quinta-feira, 24 de abril de 2014

DO SUPÉRFLUO


Também as cousas participam
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.
Um trecho musical que nos devolve
a horas inaugurais. O crepúsculo
acaso visto num país
que não sendo da terra
evoca apenas a lembrança
de outra lembrança mais longínqua.

O esboço tão-somente de um gesto
de ferina intenção. A graça
de um retalho de lua
a pervagar num reposteiro
A mesa sobre a qual me debruço
cada dia mais temerosa
de meus próprios dizeres.
Tais cousas de íntimo domínio
talvez sejam supérfluas.

No entanto
que tenho a ver contigo
se não leste o livro que li
não viste a rosa que plantei
nem contemplaste o pôr-do-sol
à hora em que o amor se foi?

Que tens a ver comigo
se dentro em ti não prevalecem
as cousas — todavia supérfluas —
do meu intransferível patrimônio.


Henriqueta Lisboa,
in Pousada do Ser (1982)





quarta-feira, 23 de abril de 2014

VIAJAR É MAIS QUE PRECISO*



 Preparou-se para aquela
 que não sabia ser sua pequena,
 grande ou maior viagem.
 
 Preparou-se para aquela
 que não sabia ser sua amena,
 áspera ou derradeira viagem.
 
 Preparou-se para aquela
 que não sabia ser penúltima,
 ou mais uma daquelas passagens.
 
 E o fez com o mais cuidadoso
 e lúcido, ácido e ávido pensar.
 
 Sabia que devia; que havia 
 de assim melhor ser: para ele
 um singular e sobreviver:
 
 Fosse na Luz aguda e infinita
 Ou na Treva arguta e maldita.
 
 Mas, sem rancor ou medo,
 ímpar Fé ou maior descrer,
 sabia que já estava pronto.
 
 Mãos e olhos fixos; o corpo
 disposto, as mãos desatadas:
 nos lábios as últimas palavras.
 
 Por entre os dedos, o Tempo,
 em horizonte perto ou distante,
 não mais lhe ditava as regras!
 
 Ele, nem vítima, herói ou rei, 
 não mais construía verdes pontes. 
 Agora, só admirava o abismo.
 
 Assim, ciente de que o coração;
 da sua, nem árdua, original, difícil 
 e inversa decisão, sem medos 
 ou oração, já não vinha tão cedo. 

 
 *Jairo De Britto,
 em "Dunas de Marfim"
 

terça-feira, 22 de abril de 2014

LEMBRANÇA


Hoje a infância voltou com a chuva.
Rosto colado à vidraça, vi pequenos rios
arrastando folhas e formigas
rumo ao desconhecido de sempre.

Ricardo Augusto dos Anjos
de 'Agrolírica'