quinta-feira, 5 de junho de 2014

NÉVOA...



"Névoa... A manhã é névoa e o dia é este...
Que quero eu dele ou ele quer de mim?
Quero que a minha angústia nada ateste
De si, nem de quem quer um fim...

Quero que a manhã seja como é,
Porque o seria sem o eu querer;
E que eu tenha esse resto vil de fé
Que é ainda querer viver..."

Fernando Pessoa
in Poesia


quarta-feira, 4 de junho de 2014

A RUA



A rua é um rio de pessoas e de vozes,
um rio terrível que me vai levando,
mas estou só, como se está na infância...
ou quando a morte vai se aproximando...

No ar, agora, que distante aroma?
Decerto eu sem saber pensei em ti...
E um vôo de andorinha na distância
é a minha saudade que eu te mando.

Mas tu, nesses tumultuoso rio,
não fica nunca ao fundo da lembrança
como no seio azul de um redoma...

Tudo se afasta nessa correnteza
onde uma flor,às vezes, fica presa
e um claro riso sobre as águas dança!

Mario Quintana -
In Baú de Espantos

terça-feira, 3 de junho de 2014

ENTRE O LUAR E A FOLHAGEM...


Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Tênue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade,
Atrai e doi.
Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Não é nem faz,
Só de segui-lo me perdi.

Fernando Pessoa
In Cancioneiro


DIZES-ME



Dizes-me: tu és mais alguma cousa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?
Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.
Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.
Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.


Fernando Pessoa
In Poemas Inconjuntos

segunda-feira, 2 de junho de 2014

CONSELHO



Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Eugénio de Andrade,
in  Primeiros poemas





domingo, 1 de junho de 2014

A BALADA DAS FOLHAS



No crepúsculo de gaze
E ouro, anda alguém a cantar
Uma cantiga que é quase
Um choro humano, pelo ar...
Pensativo, os olhos ponho
Nas folhas, - vida que vai
A extinguir-se, sonho a sonho, 
Em cada folha que cai...

A primeira é verde e é linda.
Porque o vento a desprendeu ?
Não tinha vivido ainda,
Não tinha amado e morreu.
Vento do Destino avança,
E num soluço, num ai,
Cai um mundo de esperança
Na folha humilde que cai.

A segunda é a folha morta, 
Passado... Desilusão...
Mal o vento os ramos corta, 
Ela adormece no chão...
É a saudade, - folha da alma –
Que no tormento se abstrai
E vive da morte calma
De cada sonho que cai.

OFERENDA:

No crepúsculo indeciso
Da vida, me martirizo
Por um sonho que se esvai...
Caem folhas... Chorei !...
Há uma lágrima, um sorriso...
Em cada folha que cai.


Olegário Mariano
in 'Poemas de amor e de saudade'
1.932.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

GOSTARIAS DE DECIDIR...




Gostarias de decidir por ti.
O sol nunca se atrasa.
A noite chega sempre a horas certas.
Tu adiantaste o relógio com receio de adormecer mais
cedo ou de não chegar a tempo à festa do dia seguinte.
Não te perguntaram se querias vir e alguém marcou, sem
teu consentimento, a hora da chegada.
 Gostarias de ser tu a marcar a partida.
Precisas de inventar um relógio onde o tempo não
decline e um leito onde o sol não adormeça.
Um firmamento onde tu e ele sejam as únicas estrelas.


Albano Martins,
de Escrito a Vermelho


quarta-feira, 28 de maio de 2014

RETORNO




Um dia voltarei a ser terra
e de meu seio brotarão
flores agrestes.

Um dia voltarei a ser húmus
e nutrirei velhas árvores
de rubros frutos.

Um dia voltarei a ser pó
e água
e seiva.
E viverei em rochas,
raízes vegetais,
vagas do oceano.

Um dia eu serei
o que já fui.

Renato Castelo Branco 
in A Janela do Céu
(1914 - 1995)

terça-feira, 27 de maio de 2014

O EFÊMERO



Da árvore da vida cai
Folha em folha sobre mim.
Oh! vertiginoso mundo colorido,
Como você cansa e entedia.
Como é forte essa embriaguez!
O que hoje ainda brilha
Breve desaparecerá.
Sobre o meu sepulcro marrom
Breve o vento rangerá.
Sobre a criancinha a mãe reclina
Seus olhos eu gostaria de rever,
Seu olhar é minha estrela,
Tudo mais pode ir, desaparecer,
Tudo morre, tudo gosta de morrer.
Só a mãe eterna permanece,
Donde viemos,
Seu dedo leve escreve
Nosso nome ao vento.

- Hermann Hesse
In Caminhada


segunda-feira, 26 de maio de 2014

FRAGMENTO VIDA



Postais,
envelopes,
letras,
capítulo
de história
vivida,

amigos
à distância...
A vida
se compõe
de pedacinhos

de saudade...

Delores Pires
In A Estrela e a Busca



VIAGEM


Estive longe,
bem longe...
Tornei-me 
pequeno...
Empinei 
papagaio...
Apanhei.
(Vara 
de marmelo
dói.Puxão
de orelha
também!...)
Deixei pegadas
miúdas
no chão frio
e branco
de geada...
Senti 
a carícia
da água
cristalina
do rio 
amigo...
Persegui
borboletas
amarelas...
Colhi 
a rosa
perfumada
do jardim...
Ouvi 
o bimbalhar
do sino...
- Dona Saudade
visitou-me...

Delores Pires
In A Estrela e a Busca

domingo, 25 de maio de 2014

ESTA É A GRAÇA



Esta é a graça dos pássaros:
cantam enquanto esperam.
E nem ao menos sabem o que esperam.

Será porventura a morte, o amor?
Talvez a noite com nova estrela,
a pátina de ouro do tempo,
alguma cousa de precário 
assim como para o soldado a paz?

Com grave mistério de reposteiros
um augúrio dimana, incessante,
do marulho das fontes sob pedras,
do bulício das samambaias no horto.

No ladrido dos cães à vista da lua,
acima do desejo e da fome,
pervaga um longo desespero
em busca de tangente inefável.

O mesmo silencio da madrugada
prenuncia, sem duvida, um evento
que já não é o grito da aurora
ao macular de sangue a túnica.

E minha voz perdura neste concerto
com a vibração e o temor de um violino
pronto a estalar em holocausto
as próprias cordas demasiado tensas. 


Henriqueta Lisboa
In:'A Flor da Morte' (1945-1949)


sábado, 24 de maio de 2014

QUANDO TE DÓI A ALMA



Quando estás descontente,
quando perdes a calma
e odeias toda a gente,
quando te dói a alma,
 
quando sentes, cruel,
o prazer da vingança,
quando um sabor a fel
te proíbe a esperança,
 
quando as larvas do tédio
te embotam os sentidos,
e o mal é sem remédio
e a ninguém dás ouvidos,
 
nega, recusa a dor,
abandona o deserto
das almas sem amor
e mergulha o olhar
em tudo o que está certo,
o mar, a fonte, a flor. "
 
Fernanda de Castro
in, Poesia II

sexta-feira, 23 de maio de 2014

CEDO OU TARDE



Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.

Albano Martins
Escrito a vermelho

terça-feira, 20 de maio de 2014

A PANTERA


 
De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.
A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos descresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.
De vez em quando a fecha da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
 
- Rainer Maria Rilke
(tradução de Augusto de Campos)

segunda-feira, 19 de maio de 2014

FUGA



Vento que passas, leva-me contigo
Sou poeira também, folha de outono.
Rês tresmalhada que não quer abrigo
No calor do redil de nenhum dono.

Leva-me, e livre deixa-me cair
No deserto de todas as lembranças,
Onde eu possa dormir
Como no limbo dormem as crianças.


Miguel Torga
In: Antologia Poética

sexta-feira, 16 de maio de 2014

EM LOUVOR AO FOGO




Um dia chega
de uma extrema doçura:
tudo arde.

Arde a luz
nos vidros da ternura.

As aves,
no branco
labirinto da cal.

As palavras ardem
e a púrpura das naves.

O vento,

onde tenho casa
à beira do outono.

O limoeiro, as colinas.

Tudo arde

Na extrema e lenta
doçura da tarde.


Eugenio de Andrade
in Obscuro Domínio


FOGUEIRAS DE OUTONO



Veja nos outros jardins
e através do vale todo
a fumaça, que é uma trilha
dessas fogueiras de outono!

Se o ameno verão findou
e findaram as suas flores,
já ardem os rubros fogos,
e fumos cinzentos sobem.

Cantem então algo radioso,
a canção das estações:
flores em meio a verões,
fogueiras durante outonos!

Robert Louis Stevenson

terça-feira, 13 de maio de 2014

MANHÃ DE CHUVA



As pessoas 
vão caminhando...
Ares tristes...
Rostos
molhados...

O carro passa
e respinga
o pedestre.

O dia 
está sombrio
e sério...
com a solenidade
dos dias
de chuva!

Delores Pires
In A Estrela e a Busca

NÃO SÃO APENAS OS RELÓGIOS



Também se pode regressar
sem partir. Não são apenas
os relógios que se atrasam, às vezes é
o próprio tempo. E todos
os cuidados são
então necessários. Há sempre
um comboio que rola
a nosso lado sem luzes
e sem freios. E pode
faltar-nos o estribo ou já
não haver lugar
na carruagem da frente.

Albano Martins
em Escrito a Vermelho,


sábado, 10 de maio de 2014

SÓ NA MEMÓRIA DO TEU ROSTO


(minha mãe Olivia Diva, in memorian)


Só na memória do teu rosto, mãe
posso encontrar agora as paredes
da casa onde nasci.
Como se fosse possível voltar
àquele tempo em que a felicidade
residia nas tuas mãos
entretidas a encaracolar os meus cabelos.


Graça Pires

quarta-feira, 7 de maio de 2014

EM SEDA



Por esta luz que me alumia
e me inventa em seda a estrada

entre a arte, alívio da memória,
e o mais trêmulo aceno do nada

- se com o mundo me acertei/me desavim,
já nem sei - 

sou o que perdidamente
tomou rumo de mim.

(Fernando Campanella, 2010)

segunda-feira, 5 de maio de 2014

ÀS VEZES



Às vezes, quando um pássaro chama
ou entre os ramos algum vento sopra
ou nalgum pátio longe ladra um cão,
por longo tempo eu escuto e me calo.

Minha alma voa para o passado,
para onde, há mil esquecidos anos,
o pássaro e o vento que soprava
mais pareciam meus irmãos e eu.

Minha alma faz-se uma árvore,
um animal, um tecido de nuvens...
Transfigurada e estranha, volta a mim
e me interroga. Que resposta lhe darei?

Hermann Hesse
in: Andares
(Tradução de Geir Campos)


FRUTESCÊNCIA




Em solidão amadurece
a fruta arrebatada ao galho
antes que o sol amanhecesse.

Antes que os ventos a embalassem
ao murmurinho do arvoredo.
Antes que a lua a visitasse
de seus mundos altos e quedos.
Antes que as chuvas lhe tocassem
a tênue cútis a desejo.
Antes que o pássaro libasse
do palpitar de sua seiva
o sumo, no primeiro enlace.

Na solidão se experimenta
a fruta de ácido premida.

Mas ao longo de sua essência
já sem raiz e cerne e caule
perdura, por milagre, a senha.

Então na sombra ela adivinha
o sol que a transfigura em sol
a suaves pinceladas lentas.
E ouve o segredo desses bosques
em que se calaram os ventos.
E sonha invisíveis orvalhos
junto à epiderme calcinada.
E concebe a imagem da lua
dentro de sua própria alvura.
E aceita o pássaro sem pouso
que a ensina, doce, a ser mais doce.


Henriqueta Lisboa
in Além da Imagem

quinta-feira, 1 de maio de 2014

NÓS SOMOS FEITOS DE TEMPO



"Nós somos feitos de tempo; somos amassados da argila 
do tempo; somos feitos de idades, de estações, de horas,
de dias, somos feitos de cronometrias, isto é,
de medições de tempo, visíveis e invisíveis.
De facto, tudo o que é humano é feito de tempo; somos 
um reservatório de tempo; lençóis de tempo que se vão
acumulando. Para dizer uma palavra - somos duração...

José Tolentino Mendonça,
in Nenhum Caminho será Longo


NEM SEMPRE SOU IGUAL AO QUE DIGO E ESCREVO...



Nem sempre sou igual ao que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem em mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma ...

Alberto Caeiro
(in O Guardador de Rebanhos)


segunda-feira, 28 de abril de 2014

ETERNIDADE



Conheci-te de noite: por isso te chamo estrela.
Conheci-te de dia: por isso te chamo claridade.
Conheci-te em todas as horas: por isso
te chamo eternidade.

Albano Martins,
in “Vocação do Silêncio”

O SINO E A SINA



Percorreras de novo
estas veredas.
Ouvirás de novo o sino (e a sina)
nas asas da calhandra.
Deixaras finalmente à sombra
adulta dos salgueiros
teu pálido rebanho.
Então,podes volver os passos,
subir a escada erma
e plantar uma flor no vazio.

Albano Martins
In: Antologia Poética

RETRATO



Os passos
sobre a erva.
A imagem
dum tempo
de pequenas
e graves
inflexões.

Memória
de eucaliptos
florindo
facilmente
ao vento.

Retrato
dum menino
brincando
com os dias.

Albano Martins
De «Em Tempo e Memória"


sábado, 26 de abril de 2014

''MEU NOME É ESTA CANÇÃO''



Sou uma criança perdida
na imaginação dum bosque.
O vento solta-me o coração,
mas prende-me os braços e o tronco
e nunca mudo de posição.

Os espanejadores do medo
levantam o pó das lágrimas.
O tempo empoeira-se de lendas
e a água da vida vai-se congelando,
enquanto os sonhos ressonam
e eu vou crescendo e minguando.

Queimem o bosque e procurem
o dicionário dos meus anos.
Não sei que idade tenho,
perdi a imaginação
e deixei a memória em casa.
Meu nome é esta canção.


Albano Martins
de «Outros Poemas»

SE O TEMPO...




Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.

Albano Martins,
in Antologia Poética


quinta-feira, 24 de abril de 2014

DO SUPÉRFLUO


Também as cousas participam
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.
Um trecho musical que nos devolve
a horas inaugurais. O crepúsculo
acaso visto num país
que não sendo da terra
evoca apenas a lembrança
de outra lembrança mais longínqua.

O esboço tão-somente de um gesto
de ferina intenção. A graça
de um retalho de lua
a pervagar num reposteiro
A mesa sobre a qual me debruço
cada dia mais temerosa
de meus próprios dizeres.
Tais cousas de íntimo domínio
talvez sejam supérfluas.

No entanto
que tenho a ver contigo
se não leste o livro que li
não viste a rosa que plantei
nem contemplaste o pôr-do-sol
à hora em que o amor se foi?

Que tens a ver comigo
se dentro em ti não prevalecem
as cousas — todavia supérfluas —
do meu intransferível patrimônio.


Henriqueta Lisboa,
in Pousada do Ser (1982)





quarta-feira, 23 de abril de 2014

VIAJAR É MAIS QUE PRECISO*



 Preparou-se para aquela
 que não sabia ser sua pequena,
 grande ou maior viagem.
 
 Preparou-se para aquela
 que não sabia ser sua amena,
 áspera ou derradeira viagem.
 
 Preparou-se para aquela
 que não sabia ser penúltima,
 ou mais uma daquelas passagens.
 
 E o fez com o mais cuidadoso
 e lúcido, ácido e ávido pensar.
 
 Sabia que devia; que havia 
 de assim melhor ser: para ele
 um singular e sobreviver:
 
 Fosse na Luz aguda e infinita
 Ou na Treva arguta e maldita.
 
 Mas, sem rancor ou medo,
 ímpar Fé ou maior descrer,
 sabia que já estava pronto.
 
 Mãos e olhos fixos; o corpo
 disposto, as mãos desatadas:
 nos lábios as últimas palavras.
 
 Por entre os dedos, o Tempo,
 em horizonte perto ou distante,
 não mais lhe ditava as regras!
 
 Ele, nem vítima, herói ou rei, 
 não mais construía verdes pontes. 
 Agora, só admirava o abismo.
 
 Assim, ciente de que o coração;
 da sua, nem árdua, original, difícil 
 e inversa decisão, sem medos 
 ou oração, já não vinha tão cedo. 

 
 *Jairo De Britto,
 em "Dunas de Marfim"
 

terça-feira, 22 de abril de 2014

LEMBRANÇA


Hoje a infância voltou com a chuva.
Rosto colado à vidraça, vi pequenos rios
arrastando folhas e formigas
rumo ao desconhecido de sempre.

Ricardo Augusto dos Anjos
de 'Agrolírica'

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O VÍCIO DE LER




 "O vício de ler tudo o que me caísse nas mãos ocupava o meu
 tempo  livre e quase todo o das aulas. Podia recitar poemas
 completos  do repertório popular que nessa altura eram de
 uso  corrente na  Colômbia, e os mais belos do Século de
 Ouro e do  romantismo  espanhóis, muitos deles aprendidos
 nos próprios  textos do  colégio. Estes conhecimentos
 extemporâneos na  minha idade  exasperavam os
 professores, pois cada vez que  me faziam na aula  qualquer
 pergunta difícil, respondia-lhes  com uma citação  literária
 ou com alguma ideia livresca que  eles não estavam em
  condições de avaliar. O padre Mejia  disse: «É um garoto
 afectado», para não dizer insuportável.
 Nunca tive que forçar a memória, pois os poemas e alguns
 trechos de boa prosa clássica ficavam-me  gravados em três
 ou quatro releituras.  Ganhei do padre prefeito a primeira
 caneta de tinta permanente  que tive porque lhe recitei sem
 erros as cinquenta e sete  décimas de «A vertigem», de
 Gaspar Núnez de Arce. 

 Lia nas aulas, com o livro aberto em cima dos joelhos e com 
 tal descaramento que a minha impunidade só parecia possível 
 devido à cumplicidade dos professores. A única coisa que não
 consegui com as minhas astúcias bem rimadas foi que me
 perdoassem a missa diária às sete da manhã. Além de escrever
 as minhas tolices, era solista no coro, desenhava 
 caricaturas cômicas, recitava poemas nas sessões solenes e
 tantas coisas mais foras de horas e de lugar que ninguém
 entendia a que horas estudava. A razão era a mais simples:
 não estudava.
 No meio de tanto dinamismo supérfluo, ainda não entendo
 porque razão os professores se interessavam tanto por 
 mim sem barafustar com a minha má ortografia. Ao contrário
 da minha mãe, que escondia do meu pai algumas das minhas
 cartas para o manter vivo e outras, mas devolvia 
 corrigidas e às vezes com os parabéns por certos
 progressos gramaticais e o bom uso das palavras.
 Mas ao fim de dois anos não houve melhorias à vista.
 Hoje o meu problema continua a ser o mesmo: nunca 
consegui entender porque se admitem letras mudas ou duas
 letras diferentes com o mesmo som e tantas outras normas
 sem razão. 

 Foi assim que descobri em mim uma vocação que me havia de
 acompanhar toda a vida: o prazer de conversar com alunos
 mais velhos do que eu. Ainda hoje, em reuniões de jovens
 que poderiam ser meus netos, tenho que fazer um esforço
 para não me sentir mais novo do que eles”.
 Gabriel García Márquez ,
 in Viver Para Contá-la.

terça-feira, 15 de abril de 2014

RESSALVA


Versos... não 
Poesia... não 
um modo diferente de contar velhas histórias 

Cora Coralina 
In ‘Poemas dos Becos de Goiás’ (1965)



"ESTREITO ESPAÇO PARA A ILUSÃO"


Antes, em voo ousado, a imaginação
Subia até aos céus, plena de alento:
Hoje basta um estreito espaço para a ilusão
Se afundar nos abismos do tempo.
Logo o cuidado se aninha bem dentro
Do peito e traz secreto sofrimento;
Balança inquieto, estorva prazer e paz,
São sempre novas as máscaras que traz:
É casa e bens, mulher, os filhos que tiverdes,
Água, fogo, punhal, veneno, eu sei lá;
E tu tremes com medo do que nunca virá,
E choras sem cessar aquilo que não perdes.


Johann Wolfgang von Goethe
in Fausto



SAUDADE


Saudade
Saudade de tudo!...
Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas,
que eu podia viver e não vivi!...
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de almas órfãs e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez até hoje ainda espere por mim...

Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!...

Pressa!...
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa da fusão de tudo
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
Como quem fecha numa gota
o Oceano
afogado no fundo de si mesmo...

- João Guimarães Rosa,
in 'Magma'.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

CANÇÃO



Quando a alta onda de poesia
veio do arcano profundo,
no pobre e efêmero mundo
o eterno pôs-se a pulsar.
Vidas se transfiguraram,
permutaram-se destinos.
O azul se fez mais etéreo,
estradas mais se alongaram,
silêncio cantou na aldeia
sino ficou a escutar,
moeu trigo a lua cheia,
lampião de rua deu luar,
a água mansa da lagoa
ergueu-se em repuxo límpido
e se esqueceu de tombar,
alvas estrelas em bando
desceram lentas pousando
sobre a terra e sobre o mar.


Tasso da Silveira
in Regresso à Origem (1960).


CANÇÃO




Esse mar tanto sulcado
por meus avós navegantes,
fugindo das praias de antes
ficou dentro em mim guardado.
Pois quanto mais alto e fundo
e perdido é o sonho, vejo
que os barcos todos do mundo
navegam no meu desejo.


Tasso da Silveira
Poemas de Antes – l.966 –


CANÇÃO



Fonte, não beberei de tua água
(À sombra pura
tenho o meu cântaro fresco)
Não beberei de tua água,
mas ouvirei teu canto.
Ouvi-lo-ei com os ouvidos
do teu mistério eterno.
Teu canto é antigo e amanhecente.
É caos e gênese.
E é como o canto
do rouxinol que cantou cem anos,
e o monge ficou escutando em êxtase,
ficou escutando, escutando,
ficou escutando ...


Tasso da Silveira
in Poemas de Antes

CANÇÃO



Os ouvidos eternos
ficaram, atentos, escutando
o fundo rumor dos passos:

dos passos dos homens
pelos 
caminhos]
do mundo.


Tasso da Silveira
in Poemas de Antes

LUA DE SEMPRE



Ah, esta lua tão branca é a minha
..............Lua de sempre.
Não é verdade que se tenham escoado os
..............instantes inumeráveis.
Esta Lua alumia ainda a minha alma
..............de menino,
e seu puro clarão escorre sobre as frescas
..............madressilvas
da cerca de ripas do quintal antigo.
Esta Lua tão branca é a Lua do
..............mundo imenso
em que não havia nem sofrimento nem tumulto.
Do mundo de silência infinito,
de cujo seio surdia o canto misterioso
dos seres e dos destinos...


Tasso da Silveira
in Canções a Curitiba
& outros poemas

UM PASSARINHO CANTA



Um passarinho canta
para o canto perder-se.

Para o canto fundir-se
no éter puro e sereno,
no silêncio das coisas,
no mistério dos seres.

Um passarinho canta
apenas porque é vida:
a vida é apenas canto,
canto efêmero.


Tasso Da Silveira
In: Poemas De Antes


quinta-feira, 10 de abril de 2014

DA RELATIVA REALIZAÇÃO



Mover-se com a máxima amplitude
dentro dos próprios limites...

Mario Quintana,
in Caderno H





quarta-feira, 9 de abril de 2014

QUINTO POEMA DO PESCADOR



Eu não sei de oração senão perguntas
ou silêncios ou gestos ou ficar
de noite frente ao mar não de mãos juntas
mas a pescar.

Não pesco só nas águas mas nos céus
e a minha pesca é quase uma oração
porque dou graças sem saber se Deus
é sim ou não.

Manuel Alegre
In ‘A Praça Da Canção’ ( 1975)






MAS QUE SEI EU



Mas que sei eu das folhas no Outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra fogueira qualquer.

Mas eu que sei destas manhãs?
as coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha


Ruy Belo
(In «todos os poemas)




segunda-feira, 7 de abril de 2014

NASCIMENTO ÚLTIMO



Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.

António Ramos Rosa
No Calcanhar do Vento - 1987

NÃO SOU NINGUÉM



Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém — Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!

Que triste — ser — Alguém!
Que pública — a Fama —
Dizer seu nome — como a Rã —
Para as palmas da Lama!


Emily Dickinson
Tradução de Augusto de Campos.





domingo, 6 de abril de 2014

É VELHO O SOL DESTE MUNDO...



É velho o sol deste mundo; 
velha, a solidão da palavra, 
a solidão do objeto; 
e o chão - o chão onde os pés 
caminham. 
Donde o pássaro voa para a árvore. 
Ferreira Gullar 
In "A Luta Corporal e Outros Poemas"