terça-feira, 13 de maio de 2014

NÃO SÃO APENAS OS RELÓGIOS



Também se pode regressar
sem partir. Não são apenas
os relógios que se atrasam, às vezes é
o próprio tempo. E todos
os cuidados são
então necessários. Há sempre
um comboio que rola
a nosso lado sem luzes
e sem freios. E pode
faltar-nos o estribo ou já
não haver lugar
na carruagem da frente.

Albano Martins
em Escrito a Vermelho,


sábado, 10 de maio de 2014

SÓ NA MEMÓRIA DO TEU ROSTO


(minha mãe Olivia Diva, in memorian)


Só na memória do teu rosto, mãe
posso encontrar agora as paredes
da casa onde nasci.
Como se fosse possível voltar
àquele tempo em que a felicidade
residia nas tuas mãos
entretidas a encaracolar os meus cabelos.


Graça Pires

quarta-feira, 7 de maio de 2014

EM SEDA



Por esta luz que me alumia
e me inventa em seda a estrada

entre a arte, alívio da memória,
e o mais trêmulo aceno do nada

- se com o mundo me acertei/me desavim,
já nem sei - 

sou o que perdidamente
tomou rumo de mim.

(Fernando Campanella, 2010)

segunda-feira, 5 de maio de 2014

ÀS VEZES



Às vezes, quando um pássaro chama
ou entre os ramos algum vento sopra
ou nalgum pátio longe ladra um cão,
por longo tempo eu escuto e me calo.

Minha alma voa para o passado,
para onde, há mil esquecidos anos,
o pássaro e o vento que soprava
mais pareciam meus irmãos e eu.

Minha alma faz-se uma árvore,
um animal, um tecido de nuvens...
Transfigurada e estranha, volta a mim
e me interroga. Que resposta lhe darei?

Hermann Hesse
in: Andares
(Tradução de Geir Campos)


FRUTESCÊNCIA




Em solidão amadurece
a fruta arrebatada ao galho
antes que o sol amanhecesse.

Antes que os ventos a embalassem
ao murmurinho do arvoredo.
Antes que a lua a visitasse
de seus mundos altos e quedos.
Antes que as chuvas lhe tocassem
a tênue cútis a desejo.
Antes que o pássaro libasse
do palpitar de sua seiva
o sumo, no primeiro enlace.

Na solidão se experimenta
a fruta de ácido premida.

Mas ao longo de sua essência
já sem raiz e cerne e caule
perdura, por milagre, a senha.

Então na sombra ela adivinha
o sol que a transfigura em sol
a suaves pinceladas lentas.
E ouve o segredo desses bosques
em que se calaram os ventos.
E sonha invisíveis orvalhos
junto à epiderme calcinada.
E concebe a imagem da lua
dentro de sua própria alvura.
E aceita o pássaro sem pouso
que a ensina, doce, a ser mais doce.


Henriqueta Lisboa
in Além da Imagem

quinta-feira, 1 de maio de 2014

NÓS SOMOS FEITOS DE TEMPO



"Nós somos feitos de tempo; somos amassados da argila 
do tempo; somos feitos de idades, de estações, de horas,
de dias, somos feitos de cronometrias, isto é,
de medições de tempo, visíveis e invisíveis.
De facto, tudo o que é humano é feito de tempo; somos 
um reservatório de tempo; lençóis de tempo que se vão
acumulando. Para dizer uma palavra - somos duração...

José Tolentino Mendonça,
in Nenhum Caminho será Longo


NEM SEMPRE SOU IGUAL AO QUE DIGO E ESCREVO...



Nem sempre sou igual ao que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem em mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma ...

Alberto Caeiro
(in O Guardador de Rebanhos)


segunda-feira, 28 de abril de 2014

ETERNIDADE



Conheci-te de noite: por isso te chamo estrela.
Conheci-te de dia: por isso te chamo claridade.
Conheci-te em todas as horas: por isso
te chamo eternidade.

Albano Martins,
in “Vocação do Silêncio”

O SINO E A SINA



Percorreras de novo
estas veredas.
Ouvirás de novo o sino (e a sina)
nas asas da calhandra.
Deixaras finalmente à sombra
adulta dos salgueiros
teu pálido rebanho.
Então,podes volver os passos,
subir a escada erma
e plantar uma flor no vazio.

Albano Martins
In: Antologia Poética

RETRATO



Os passos
sobre a erva.
A imagem
dum tempo
de pequenas
e graves
inflexões.

Memória
de eucaliptos
florindo
facilmente
ao vento.

Retrato
dum menino
brincando
com os dias.

Albano Martins
De «Em Tempo e Memória"


sábado, 26 de abril de 2014

''MEU NOME É ESTA CANÇÃO''



Sou uma criança perdida
na imaginação dum bosque.
O vento solta-me o coração,
mas prende-me os braços e o tronco
e nunca mudo de posição.

Os espanejadores do medo
levantam o pó das lágrimas.
O tempo empoeira-se de lendas
e a água da vida vai-se congelando,
enquanto os sonhos ressonam
e eu vou crescendo e minguando.

Queimem o bosque e procurem
o dicionário dos meus anos.
Não sei que idade tenho,
perdi a imaginação
e deixei a memória em casa.
Meu nome é esta canção.


Albano Martins
de «Outros Poemas»

SE O TEMPO...




Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.

Albano Martins,
in Antologia Poética


quinta-feira, 24 de abril de 2014

DO SUPÉRFLUO


Também as cousas participam
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.
Um trecho musical que nos devolve
a horas inaugurais. O crepúsculo
acaso visto num país
que não sendo da terra
evoca apenas a lembrança
de outra lembrança mais longínqua.

O esboço tão-somente de um gesto
de ferina intenção. A graça
de um retalho de lua
a pervagar num reposteiro
A mesa sobre a qual me debruço
cada dia mais temerosa
de meus próprios dizeres.
Tais cousas de íntimo domínio
talvez sejam supérfluas.

No entanto
que tenho a ver contigo
se não leste o livro que li
não viste a rosa que plantei
nem contemplaste o pôr-do-sol
à hora em que o amor se foi?

Que tens a ver comigo
se dentro em ti não prevalecem
as cousas — todavia supérfluas —
do meu intransferível patrimônio.


Henriqueta Lisboa,
in Pousada do Ser (1982)





quarta-feira, 23 de abril de 2014

VIAJAR É MAIS QUE PRECISO*



 Preparou-se para aquela
 que não sabia ser sua pequena,
 grande ou maior viagem.
 
 Preparou-se para aquela
 que não sabia ser sua amena,
 áspera ou derradeira viagem.
 
 Preparou-se para aquela
 que não sabia ser penúltima,
 ou mais uma daquelas passagens.
 
 E o fez com o mais cuidadoso
 e lúcido, ácido e ávido pensar.
 
 Sabia que devia; que havia 
 de assim melhor ser: para ele
 um singular e sobreviver:
 
 Fosse na Luz aguda e infinita
 Ou na Treva arguta e maldita.
 
 Mas, sem rancor ou medo,
 ímpar Fé ou maior descrer,
 sabia que já estava pronto.
 
 Mãos e olhos fixos; o corpo
 disposto, as mãos desatadas:
 nos lábios as últimas palavras.
 
 Por entre os dedos, o Tempo,
 em horizonte perto ou distante,
 não mais lhe ditava as regras!
 
 Ele, nem vítima, herói ou rei, 
 não mais construía verdes pontes. 
 Agora, só admirava o abismo.
 
 Assim, ciente de que o coração;
 da sua, nem árdua, original, difícil 
 e inversa decisão, sem medos 
 ou oração, já não vinha tão cedo. 

 
 *Jairo De Britto,
 em "Dunas de Marfim"
 

terça-feira, 22 de abril de 2014

LEMBRANÇA


Hoje a infância voltou com a chuva.
Rosto colado à vidraça, vi pequenos rios
arrastando folhas e formigas
rumo ao desconhecido de sempre.

Ricardo Augusto dos Anjos
de 'Agrolírica'

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O VÍCIO DE LER




 "O vício de ler tudo o que me caísse nas mãos ocupava o meu
 tempo  livre e quase todo o das aulas. Podia recitar poemas
 completos  do repertório popular que nessa altura eram de
 uso  corrente na  Colômbia, e os mais belos do Século de
 Ouro e do  romantismo  espanhóis, muitos deles aprendidos
 nos próprios  textos do  colégio. Estes conhecimentos
 extemporâneos na  minha idade  exasperavam os
 professores, pois cada vez que  me faziam na aula  qualquer
 pergunta difícil, respondia-lhes  com uma citação  literária
 ou com alguma ideia livresca que  eles não estavam em
  condições de avaliar. O padre Mejia  disse: «É um garoto
 afectado», para não dizer insuportável.
 Nunca tive que forçar a memória, pois os poemas e alguns
 trechos de boa prosa clássica ficavam-me  gravados em três
 ou quatro releituras.  Ganhei do padre prefeito a primeira
 caneta de tinta permanente  que tive porque lhe recitei sem
 erros as cinquenta e sete  décimas de «A vertigem», de
 Gaspar Núnez de Arce. 

 Lia nas aulas, com o livro aberto em cima dos joelhos e com 
 tal descaramento que a minha impunidade só parecia possível 
 devido à cumplicidade dos professores. A única coisa que não
 consegui com as minhas astúcias bem rimadas foi que me
 perdoassem a missa diária às sete da manhã. Além de escrever
 as minhas tolices, era solista no coro, desenhava 
 caricaturas cômicas, recitava poemas nas sessões solenes e
 tantas coisas mais foras de horas e de lugar que ninguém
 entendia a que horas estudava. A razão era a mais simples:
 não estudava.
 No meio de tanto dinamismo supérfluo, ainda não entendo
 porque razão os professores se interessavam tanto por 
 mim sem barafustar com a minha má ortografia. Ao contrário
 da minha mãe, que escondia do meu pai algumas das minhas
 cartas para o manter vivo e outras, mas devolvia 
 corrigidas e às vezes com os parabéns por certos
 progressos gramaticais e o bom uso das palavras.
 Mas ao fim de dois anos não houve melhorias à vista.
 Hoje o meu problema continua a ser o mesmo: nunca 
consegui entender porque se admitem letras mudas ou duas
 letras diferentes com o mesmo som e tantas outras normas
 sem razão. 

 Foi assim que descobri em mim uma vocação que me havia de
 acompanhar toda a vida: o prazer de conversar com alunos
 mais velhos do que eu. Ainda hoje, em reuniões de jovens
 que poderiam ser meus netos, tenho que fazer um esforço
 para não me sentir mais novo do que eles”.
 Gabriel García Márquez ,
 in Viver Para Contá-la.

terça-feira, 15 de abril de 2014

RESSALVA


Versos... não 
Poesia... não 
um modo diferente de contar velhas histórias 

Cora Coralina 
In ‘Poemas dos Becos de Goiás’ (1965)



"ESTREITO ESPAÇO PARA A ILUSÃO"


Antes, em voo ousado, a imaginação
Subia até aos céus, plena de alento:
Hoje basta um estreito espaço para a ilusão
Se afundar nos abismos do tempo.
Logo o cuidado se aninha bem dentro
Do peito e traz secreto sofrimento;
Balança inquieto, estorva prazer e paz,
São sempre novas as máscaras que traz:
É casa e bens, mulher, os filhos que tiverdes,
Água, fogo, punhal, veneno, eu sei lá;
E tu tremes com medo do que nunca virá,
E choras sem cessar aquilo que não perdes.


Johann Wolfgang von Goethe
in Fausto



SAUDADE


Saudade
Saudade de tudo!...
Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas,
que eu podia viver e não vivi!...
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de almas órfãs e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez até hoje ainda espere por mim...

Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!...

Pressa!...
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa da fusão de tudo
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
Como quem fecha numa gota
o Oceano
afogado no fundo de si mesmo...

- João Guimarães Rosa,
in 'Magma'.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

CANÇÃO



Quando a alta onda de poesia
veio do arcano profundo,
no pobre e efêmero mundo
o eterno pôs-se a pulsar.
Vidas se transfiguraram,
permutaram-se destinos.
O azul se fez mais etéreo,
estradas mais se alongaram,
silêncio cantou na aldeia
sino ficou a escutar,
moeu trigo a lua cheia,
lampião de rua deu luar,
a água mansa da lagoa
ergueu-se em repuxo límpido
e se esqueceu de tombar,
alvas estrelas em bando
desceram lentas pousando
sobre a terra e sobre o mar.


Tasso da Silveira
in Regresso à Origem (1960).


CANÇÃO




Esse mar tanto sulcado
por meus avós navegantes,
fugindo das praias de antes
ficou dentro em mim guardado.
Pois quanto mais alto e fundo
e perdido é o sonho, vejo
que os barcos todos do mundo
navegam no meu desejo.


Tasso da Silveira
Poemas de Antes – l.966 –


CANÇÃO



Fonte, não beberei de tua água
(À sombra pura
tenho o meu cântaro fresco)
Não beberei de tua água,
mas ouvirei teu canto.
Ouvi-lo-ei com os ouvidos
do teu mistério eterno.
Teu canto é antigo e amanhecente.
É caos e gênese.
E é como o canto
do rouxinol que cantou cem anos,
e o monge ficou escutando em êxtase,
ficou escutando, escutando,
ficou escutando ...


Tasso da Silveira
in Poemas de Antes

CANÇÃO



Os ouvidos eternos
ficaram, atentos, escutando
o fundo rumor dos passos:

dos passos dos homens
pelos 
caminhos]
do mundo.


Tasso da Silveira
in Poemas de Antes

LUA DE SEMPRE



Ah, esta lua tão branca é a minha
..............Lua de sempre.
Não é verdade que se tenham escoado os
..............instantes inumeráveis.
Esta Lua alumia ainda a minha alma
..............de menino,
e seu puro clarão escorre sobre as frescas
..............madressilvas
da cerca de ripas do quintal antigo.
Esta Lua tão branca é a Lua do
..............mundo imenso
em que não havia nem sofrimento nem tumulto.
Do mundo de silência infinito,
de cujo seio surdia o canto misterioso
dos seres e dos destinos...


Tasso da Silveira
in Canções a Curitiba
& outros poemas

UM PASSARINHO CANTA



Um passarinho canta
para o canto perder-se.

Para o canto fundir-se
no éter puro e sereno,
no silêncio das coisas,
no mistério dos seres.

Um passarinho canta
apenas porque é vida:
a vida é apenas canto,
canto efêmero.


Tasso Da Silveira
In: Poemas De Antes


quinta-feira, 10 de abril de 2014

DA RELATIVA REALIZAÇÃO



Mover-se com a máxima amplitude
dentro dos próprios limites...

Mario Quintana,
in Caderno H





quarta-feira, 9 de abril de 2014

QUINTO POEMA DO PESCADOR



Eu não sei de oração senão perguntas
ou silêncios ou gestos ou ficar
de noite frente ao mar não de mãos juntas
mas a pescar.

Não pesco só nas águas mas nos céus
e a minha pesca é quase uma oração
porque dou graças sem saber se Deus
é sim ou não.

Manuel Alegre
In ‘A Praça Da Canção’ ( 1975)






MAS QUE SEI EU



Mas que sei eu das folhas no Outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra fogueira qualquer.

Mas eu que sei destas manhãs?
as coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha


Ruy Belo
(In «todos os poemas)




segunda-feira, 7 de abril de 2014

NASCIMENTO ÚLTIMO



Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.

António Ramos Rosa
No Calcanhar do Vento - 1987

NÃO SOU NINGUÉM



Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém — Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!

Que triste — ser — Alguém!
Que pública — a Fama —
Dizer seu nome — como a Rã —
Para as palmas da Lama!


Emily Dickinson
Tradução de Augusto de Campos.





domingo, 6 de abril de 2014

É VELHO O SOL DESTE MUNDO...



É velho o sol deste mundo; 
velha, a solidão da palavra, 
a solidão do objeto; 
e o chão - o chão onde os pés 
caminham. 
Donde o pássaro voa para a árvore. 
Ferreira Gullar 
In "A Luta Corporal e Outros Poemas"

ACTO DE CONTRIÇÃO



Pelo que não fiz, perdão!
Pelo tempo que vi, parado,
correr chamando por mim,
pelos enganos que talvez
poupando me empobreceram,
pelas esperanças que não tive
e os sonhos que somente
sonhando julguei viver,
pelos olhares amortalhados
na cinza de sóis que apaguei
com riscos de quem já sabe,
por todos os desvarios
que nem cheguei a conceber,
pelos risos, pelas lágrimas,
pelos beijos e mais coisas,
que sem dó de mim malogrei

— por tudo, vida, perdão!

Adolfo Casais Monteiro
(1908-1972)

sábado, 5 de abril de 2014

CONTRANARCISO



Em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando estamos sós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

Paulo Leminski, 
in Toda Poesia

quarta-feira, 2 de abril de 2014

JOGO DA VERDADE



A verdade é um labirinto.

Se digo a verdade inteira,
se digo tudo o que penso,
se digo com todas as letras,
com todos os pingos nos is,
seria um deus-nos-acuda,
entraria um sudoeste
pela janela da sala.
Então eu digo
a verdade possível,
e o resto guardo
a sete chaves
no meu cofre de silêncios.

Roseana Murray
In Pera,Uva ou Maça.












segunda-feira, 31 de março de 2014

TANTO



Para Lygia F. Telles

Nada entendo de signos: 
se digo flor é flor, se digo àgua 
é água. ( Mas pode ser disfarce de um segredo.) 
Se não podem sentir, não torçam 
a arvore-de-coral do meu silêncio: 
deixem que eu represente meu papel. 

Não me queiram prender como a um inseto 
no alfinete da interpretação: 
se não me podem amar, me esqueçam. 
Sou uma mulher sozinha num palco, 
e já me pesa demais todo esse ofício. 
Basta que a torturada vida das palavras 
deite seu fogo ou mel na folha quieta, 
num texto qualquer com o meu nome embaixo.

LYA LUFT
In Mulher no Palco, 1984



domingo, 30 de março de 2014

LEMBRETES




É importante acordar
a tempo

é importante penetrar
o tempo

é importante vigiar
o desabrochar do destino.


Orides Fontela ,
in Trevo

ESTAÇÕES



" Estão em mim as estações
como se fossem uma só
as quatro sempre estão em mim
são quatro faixas de um abismo
da aurora até o ocaso
a chuva o verde o sol o vento
sem me desvelar estão em mim
são a missão recém-nascida
e são os mortos do meu mundo
minhas ocultas estações
me fazem feliz / sofrem por mim
cada uma delas tem um céu
e cada céu é um espelho
que fala de todos e de mim
as estações se congregam
se reconhecem e se abraçam
as quatro sempre estão em mim
sou seu fervor suas folhas mortas
seu granizo suas colheitas
sua porta aberta seus cadeados
sua insolação seus aguaceiros
como um destino estão em mim
as estações se embaralham
para se mesclar com minha vida
para se juntar com minha morte
e então fugir de mim ."

Mario Benedetti
in , " Correio do tempo "

sexta-feira, 28 de março de 2014

HÁ OÁSIS




nos desertos
procuram-se oásis

ficam por lá as marcas
de viajantes…
… e de camelos

há vidas desertas
pés escaldados sonhando oásis

há vidas,
oásis em alguns desertos

… há viajantes


Joaquim do Carmo
in "Amanhecer pelo fim da tarde"

SOLEMNIA VERBA




Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.


Antero de Quental,
in "Sonetos"


quinta-feira, 27 de março de 2014

A MANHÃ É DE TODOS.


A Manhã é de todos-
A Noite - a alguns dada -
Para os poucos do império -
A luz da Madrugada.



Emily Dickinson
(1830-1886)
In "Cem Poemas"
Trad. de Ana Luísa Amaral.


domingo, 9 de março de 2014

PEDIDO DE DEMISSÃO



Por não saber fazer o bife perfeito,
por não pregar o botão na camisa,
por não manter o sapato engraxado,
por ser a companheira insuficiente,
impertinente, indecisa,
por não saber me comportar quando ao seu lado

eu me retiro.
E se confiro o saldo apurado,
só me entristeço:
por ver o acorde no violão estaganado,
o poema de amor interminado,
o romantismo que hoje já não se admite.
E no lugar que agora eu não mereço,
fica uma vaga a quem quer que se habilite.
Não fica mágoa,
não deixo sombras,
nem endereço.

Flora Figueiredo
in Florescência













sábado, 8 de março de 2014

A MULHER



Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!


Florbela Espanca,
in “Trocando olhares”











SER MULHER



Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

- Gilka Machado,
in “Cristais Partidos” 1915.


 

sexta-feira, 7 de março de 2014

BALADA DE SEMPRE



Espero a tua vinda,
a tua vinda,
em dia de lua cheia.
Debruço-me sobre a noite
inventando crescentes e luares.
Espero o momento da chegada
com o cansaço e o ardor de todas as chegadas.
Rasgarás nuvens, estradas,
abrindo clareiras
nas vielas de ciladas.
Saltarás por cima de mares,
de planícies e relevos
— ânsia alada
no meu desejo imaginada.

Mas…
enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí, além,
lambe-me os braços hirtos, braços verdes,
algas de sonho,
…e desenha ironias na areia molhada.



Fernando Namora,
de As Frias Madrugadas,
Editora Arcádia, Lisboa





quinta-feira, 6 de março de 2014

PLENITUDE



Vai alto o dia. O sol a pino ofusca e vibra.
O ar é como de forja. A força nova e pura
Da vida embriaga e exalta. E eu sinto. fibra a fibra,
Avassalar-me o ser a vontade da cura.

A energia vital que no ventre profundo
Da Terra estuante ofega e penetra as raízes,
Sobe no caule, faz todo galho fecundo
E estala na amplidão das ramadas felizes,

Entra-me como um vinho acre pelas narinas…
Arde-me na garganta… E nas artérias sinto
O bálsamo aromado e quente das resinas
Que vem na exalação de cada terebinto.

O furor de criação dionisíaco estua
No fundo das rechãs, no flanco das montanhas,
E eu absorvo-o nos sons, na glória da luz crua
E ouço-o ardente bater dentro em minhas entranhas

Tenho êxtase de santo… Ânsias para a virtude…
Canta em minh´alma absorta um mundo de harmonias.
Vêm-me audácias de heroi… Sonho o que jamais pude
- Belo como Davi, forte como Golias…

E neste curto instante em que todo me exalto
De tudo o que não sou, gozo tudo o que invejo,
E nunca o sonho humano assim subiu tão alto
Nem flamejou mais bela a chama do desejo.

E tudo isso me vem de vós, Mãe Natureza!
Vós que cicatrizais minha velha ferida…
Vós que me dais o grande exemplo de beleza
E me dais o divino apetite da vida!


Manuel Bandeira


quarta-feira, 5 de março de 2014

terça-feira, 4 de março de 2014

MARÇO VOLTOU



Março voltou, esta
ácida loucura de pássaros
está outra vez à nossa porta,
o ar

de vidro vai direito ao coração.
Também elas cantam, as montanhas:
somente nenhum de nós
as ouve, distraídos

com o monótono silabar do vento
ou doutros peregrinos.
Já sabeis como temos ainda restos
de pudor.

e pelo mundo
uma enorme, enorme indiferença.


Eugénio de Andrade,
in Branco no branco (1984)

















domingo, 2 de março de 2014

CERTA FERIDA




Como a árvore a que cortam um galho
e permanece (aparentemente) intacta
-suportar em silêncio certos afrontamentos.


Foi profundo o talho
embora o tronco se ostente sólido
impassível.


Uma flor brotava errante
na parte decepada.


Eu a mereci.
E isto basta
na sucessão das possíveis primaveras.


Affonso Romano de Sant’Anna,
in Vestígios


REPASSANDO


Interessado no passado, estou.
O passado, impaciente, me acena
me habita, me ordena.

O presente é uma vaga aliança
da aparência com a esperança.

O futuro pode esperar:
ele é uma fruta
que ao invés de ser colhida, me habita
e me impele a madurar.



Affonso Romano de Sant’Anna
In “POESIA REUNIDA”


sábado, 1 de março de 2014

UM CAMINHO DE PALAVRAS




Tudo o que sei, já lá está, mas não estão os meus passos
 nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque
 há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho
 e descubro o meu caminho.

Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também:

 então invento os meus passos e o meu próprio caminho. 
E com as palavras de vento e de pedras, invento o vento e
 as pedras, caminho um caminho de palavras.

Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim

E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe

Mas a noite existe
e a palavra sabe-o.



António Ramos Rosa,
in "Sobre o Rosto da Terra"