sexta-feira, 13 de julho de 2012

A PALAVRA E O HOMEM



A palavra inventou-se
para que fosse a chave
do mistério, ou não fosse...
Na manhã do inefável

achou a paz perdida;
por onde viaje e aporte
-vê o mistério da vida,
vê o mistério da morte;

e eis a porta imantada
nos umbrais da lenda,
eis a nau ancorada
onde o que é se desvenda


Colombo de Sousa ,
In: Antologia Poética

quinta-feira, 12 de julho de 2012

POEMA DESENHADO



No meio da página escrevo ao acaso a palavra MENINA
e à sua magia, um caminho abre-se
para ela andar.
E como houvesse brotado aos seus pés um arroio espiador
uma ponte estendeu-se
para ela atravessar.

Mas a menina
agora parou
e do meio da ponte namora encantadamente nas águas
a graça inacabada de seu pequenino rosto feito às pressas

Às pressas...
(nem tive tempo de lhe dar um nome)

A vida é assim,
meninazinha sem nome...

A vida nem dá tempo para a vida!


MARIO QUINTANA
In Baú de espantos

CÂNTICO



Colho o inefável entre as mãos do vento
como quem colhe rosa em pensamento;

cresço no Tempo e o colorido lento
do vento apaga minha realidade;

pássaro livre nos jardins cifrados,
vôo em violino, em minhas mãos me invento.

Colombo de Sousa
In: Estágio

quarta-feira, 11 de julho de 2012

TODAS AS VIDAS



Vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho, olhando pro fogo.
benze quebranto, bota feitiço, ogum orixá.
macumba, terreiro, ogã, pai-de-santo.

Vive dentro de mim a lavadeira do rio vermelho,
seu cheiro gostoso d'água e sabão
rodilha de pano, trouxa de roupa, pedra de anil
sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim a mulhar cozinheira, pimenta e cebola
quitute bem feito, panela de barro, taipa de lenha
cozinha antiga, toda pretinha, bem cacheada de picumã
pedra pontuda, cumbuco de coco, pisando alho-sal.

Vive dentro de mim, a mulher do povo
bem proletária, bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa,
de chinelinha e filharada.

Vive dentro de mim a mulher roceira - enxerto da terra,
meio casmurra, trabalhadeira,
madrugadeira, analfabeta, de pé no chão
bem parideira, bem criadeira
seus doze filhos, seus vinte netos.

Vive dentro de mim a mulher da vida
minha irmãzinha, tão desprezada, tão murmurada
fingindo alegre seu triste fardo.
Todas as vidas dentro de mim:
na minha vida - a vida mera das obscuras.

Cora Coralina 

CONDENAÇÃO


Deixe a luz acesa, que eu estou com medo de mim.
Bati a porta errada,
disse a palavra inadequada,
queimei o filme,
rasguei o cetim.
Hoje eu tropecei na própria sombra,
errei a mira,
quebrei o cristal.
Se alguém me disser que não faz mal,
quem sabe eu me convença
e anule de vez essa sentença
que determina minha pena capital.

Flora Figueiredo,
In Chão de Vento 

terça-feira, 10 de julho de 2012

MEDITAÇÃO À BEIRA DE UM POEMA



Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela,vi-a,
como nunca a vira,
constelada,
os botões,
alguns já com o rosa-pálido
espiando entre as sépalas,
jóias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com o limite do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizaram-se
diante do recorrente milagre.
Maravilhosas faziam-se
as cíclicas perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro.

Adélia Prado
In Oráculo de Maio

À MESA



Faca oxidada contra a polpa verde,
é roxo o amor.
De amoras, não.
De dor.

Adélia Prado
In Oráculo de maio

sábado, 7 de julho de 2012

A VERDADE



A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E a sua segunda metade
Voltava igualmente com meios perfis
E os meios perfis não coincidiam verdade...
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual
a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho,
sua ilusão,
sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 6 de julho de 2012

TRADUZIR-SE



Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


Ferreira Gullar
In: Na Vertigem do Dia

FERNANDO SABINO



De tudo ficaram três coisas :
a certeza de que estamos sempre começando ,
a certeza de que é preciso continuar ,
a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar .
Portanto devemos :
fazer da interrupção um caminho novo ,
da queda um passo novo de dança ,
do medo uma escada ,
do sonho uma ponte e ,
da procura um encontro ".

Fernando Sabino,
in Encontro Marcado

quinta-feira, 5 de julho de 2012

SONO COLOQUIAL



Da velhice
sempre invejei
o adormecer
no meio da conversa.

Esse descer de pálpebra
não é nem idade nem cansaço.

Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia.

Mia Couto,

in Idades/ cidades/ divindade

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O SILÊNCIO



Ouve, meu filho, o silencio.
É um silencio ondulado,
um silencio
onde resvalam vales e ecos
e que inclina as frontes
para o chão.


Federico Garcia Lorca

terça-feira, 3 de julho de 2012

NO SEU JARDIM FEITO DE TINTA...



No seu jardim feito de tinta...
com insólita serenidade
o poeta percorre as áleas da memória
e caminhando por entre signos
contempla a distração nula do tempo
o paradoxo incrível do ser
a ferida íntima da alma


Ana Hatherly

segunda-feira, 2 de julho de 2012

POESIA




O amor também cansa.
Renova a tua vida, dia a dia.
Onde estiver esperança
põe teu sonho e tua fantasia.

Entrega-te a cada hora
e aceita sem reservas
tudo o que venha ao teu encontro.
Não sejas como as ervas.

Deixa em tudo o teu selo de postagem.
Bebe em todas as fontes, se puderes.
Só terás remorso
dó que possas fazer e o não fizeres.


Não forces a tua inspiração.
Deixa a poesia vir naturalmente
e não obrigues a mentir o coração.

Procura ser espontâneo.
A verdadeira beleza
está no que o homem tem de semelhante
com a natureza.




Albano Martins,
in Antologia Poética

domingo, 1 de julho de 2012

A LIBERDADE



A liberdade que dos deuses eu esperava
Quebrou-se. As rosas que eu colhia,
Transparentes no tempo luminoso,
Morreram com o tempo que as abria.

Sophia de Mello Breyner Andresen
In Tempo Dividido

sábado, 30 de junho de 2012

NÃO ME PEÇAM RAZÕES



Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Nâo me peçam razões por que se entenda
A força da maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei;
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir;
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago

DAS PEDRAS



Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos

Cora Coralina

quinta-feira, 28 de junho de 2012

ENTARDECER NA PRAIA



O horizonte arde.
O mar, em chama, se inflama
ao cair da tarde!

Delores Pires,
in O Livro dos Haicais

quarta-feira, 27 de junho de 2012

QUANDO EU MORRER



Quando eu morrer o mundo continuará o mesmo,
A doçura das tardes continuará a envolver as coisas todas.
Como as envolve agora neste instante.
O vento fresco dobrará as árvores esguias
E levantará as nuvens de poesia nas estradas...

Quando eu morrer as águas claras dos rios rolarão ainda,
Rolarão sempre, alvas de espuma
Quando eu morrer as estrelas não cessarão de acender-se
no lindo céu noturno,
E nos vergéis onde os pássaros cantam as frutas
continuarão a ser doces e boas.

Quando eu morrer os homens continuarão sempre os mesmos.
E hão de esquecer-se do meu caminho silencioso entre eles,
Quando eu morrer os prantos e as alegrias permanecerão
Todas as ânsias e inquietudes do mundo não se modificarão.
Quando eu morrer os prantos e as alegrias permanecerão.
Todas as ânsias e inquietudes do mundo não se modificarão.
Quando eu morrer a humanidade continuará a mesma.
Porque nada sou, nada conto e nada tenho.
Porque sou um grão de poeira perdido no infinito.

Sinto porém, agora, que o mundo sou eu mesmo
E que a sombra descerá por sobre o universo vazio de mim
“Quando eu morrer...”


Augusto Frederico Schmidt

In "Nova Antologia Poética"

terça-feira, 26 de junho de 2012

AS LIÇÕES



"Ensinaram-me a falar
aprendi a escrever.
Ensinaram-me a escrever
aprendi a falar.
Ensinaram-me a ler
aprendi a ver.
Ensinaram-me a ouvir
aprendi a calar.
Ensinaram-me a pedir
aprendi a dar.
Ensinaram-me a comprar
aprendi a ter.
Ensinaram-me a beber
aprendi a rir.
Ensinaram-me a fugir
aprendi a ficar.
Ensinaram-me a aprender
aprendi a ignorar.
Ensinaram-me a amar
aprendi a criar.
Ensinaram-me a viver
aprendi a morrer.
Ensinaram-me a estar só
aprendi a estar.
Ensinaram-me a ser livre
aprendi a ser."


Ana Hatherly,


in Antologia da poesia portuguesa

segunda-feira, 25 de junho de 2012

NA BOCA DO DESERTO



Estava indo, há muito, pra o deserto
e não sabia.

Antes, ao revés, julgava caminhar
das pedras para o bosque
lugar de onde o mel e o vinho jorrariam.

Bastava fazer a travessia.

Em alguma parte passei por algum oásis
mas era para este destino de pedra
silêncio e pasmo
que me dirigia.

Os beduínos há muito compreenderam
o que eu não compreendia:
apenas nos movemos entre pedras, cabras e camelos
olhando ternamente o fim do dia.

A tenda é provisória.

Eterno
só o áspero horizonte de pedra
e a poesia.


Affonso Romano de Sant’Anna,
in Sísifo desce a montanha

HENRY DAVID THOREAU



“...Talvez os fatos mais estarrecedores e verdadeiros nunca
sejam comunicados de homem a homem.
A verdadeira colheita do meu dia-a-dia é algo de tão intangível
e indescritível como os matizes da aurora e do crepúsculo.
O que tenho nas mãos é um pouco de poeira de estrelas
e um fragmento de arco-íris.”

Henry David Thoreau,
in Walden ou a Vida Nos Bosques

domingo, 24 de junho de 2012

O VOO




Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento,
desabam no abismo.

Que sabes tu do fim?

Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o de estrelas.
conserva a ilusão de que teu vôo te leva sempre para o mais alto.

No deslumbramento da ascensão
se pressentires que amanhã estarás mudo
esgota, como um pássaro, as canções que tens na garganta.

Canta. Canta para conservar a ilusão de festa e de vitória.

Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.


Menotti Del Pichia

sábado, 23 de junho de 2012

JOSÉ SARAMAGO



“Vivi, olhei, li, senti...
Terás então de ler de outra maneira,
Como, Não serve a mesma para todos,
cada um inventa a sua, a que lhe for própria,
há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir
mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem
que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a
corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar
à outra margem, a outra margem é que importa,
A não ser, A não ser , quê, A não ser que esses rios não tenham
duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela,
a sua própria margem,e que seja sua, e apenas sua,
a margem a que terá de chegar.”

José Saramago,
in A Caverna

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O CISNE



Este cansaço de passar como que atado
a coisas que ainda não foram feitas,
parece o caminho incriado do cisne.

E o morrer, esse desapegar-se
do fundo em que diariamente estamos,
seu tímido abandonar-se às águas

que mansamente o acolhem e por serem
felizes e já passadas, onda a onda,
sob seu corpo se retraem;

então, firme e tranqüilo,
com realeza e crescente segurança,
abandona-se o cisne ao deslizar.


Rainer Maria Rilke
Trad. Dora Ferreira da Silva

quinta-feira, 21 de junho de 2012

ZOOLOGIA: O GATO



Um gato, em casa, sozinho, sobe
à janela para que, da rua, o
vejam.

O sol bate nos vidros e
aquece o gato que, imóvel,
parece um objecto.

Fica assim para que o
invejem - indiferente
mesmo que o chamem.

Por não sei que privilégio,
os gatos conhecem
a eternidade.


Nuno Júdice
em Assinando a Pele

quarta-feira, 20 de junho de 2012

CANTO 81


(fragmento)

O que amas de verdade permanece,
o resto é escória
O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
Mundo de quem, meu ou deles
ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elíseo, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado


Ezra Pound
Trad.: Augusto de Campos

BEM-AVENTURADOS


Bem-aventurados os pintores escorrendo luz
Que se expressam em verde
Azul
Ocre
Cinza
Zarcão!
Bem-aventurados os músicos...
E os bailarinos
E os mímicos
E os matemáticos...
Cada qual na sua expressão!

Só o poeta é que tem de lidar com a ingrata linguagem alheia...
A impura linguagem dos homens!

MÁRIO QUINTANA,
in PROSA E VERSO

terça-feira, 19 de junho de 2012

CARL GUSTAV JUNG



Em todo adulto espreita uma criança - uma criança eterna,
algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo,
e que solicita cuidado, atenção e educação incessantes.
Essa é a parte da personalidade humana que quer
desenvolver-se e tornar-se completa.

Carl Gustav Jung


segunda-feira, 18 de junho de 2012

EU LUMINOSO NÃO SOU



Eu luminoso não sou.Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se no fundo do poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas.O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar,as aves se recolhem.

José Saramago
In Provavelmente Alegria

PAULO LEMINSKI



existe um planeta
perdido numa dobra
do sistema solar

aí é fácil confundir
sorrir com chorar

difícil é distinguir
esse planeta de sonhar


Paulo leminski

in Caprichos & Relaxos

sábado, 16 de junho de 2012

A ROSA



A rosa,
a imarcescível rosa que não canto,
a que é peso e fragrância,
a do negro jardim na alta noite,
a de qualquer jardim e qualquer tarde,
a rosa que ressurge da tênue
cinza pela arte da alquimia,
a rosa dos persas e de Ariosto,
a que sempre está só,
a que sempre é a rosa das rosas,
a jovem flor platônica,
a ardente e cega rosa que não canto,
a rosa inalcançável.


Jorge Luis Borges,
in Obras Completas 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

AULA DE MÚSICA



O violino principiante
arranha a pele do dia.
Ó dura, lenta porfia
da mão, soletrando o arco.
Ó marinheiro hesitante
— difícil carpintaria —
na construção do teu barco.


Hélio Pellegrino ,
IN Minérios Domados

quinta-feira, 14 de junho de 2012

SIMONE DE BEAUVOIR



“...Cada um deve passar por suas próprias experiências,
e o que há talvez de mais duro é pensar que todos os
nossos sofrimentos não nos permitem poupar, aos
que vem depois de nós, um único sofrimento sequer...”


Simone de Beauvoir,
in Quando o Espiritual Domina

terça-feira, 12 de junho de 2012

OS DEGRAUS



Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

Mario Quintana
In Baú de Espantos

HINO AO AMOR



Sempre que haja um vácuo na tua vida, 
enche-o de Amor. 
Adolescente, jovem, velho:
Sempre que haja um vácuo na tua vida,
Enche-o de Amor.
Logo que saibas
De um tempo livre à tua frente,
vai buscar o Amor.
Não penses: sofrerei.
Não penses: vão enganar-me.
Não penses: duvidarei.
Vai simplesmente, transparente,
Regozijando, em busca do Amor.
Que espécie de Amor?
Não importa.
Todo o amor
Está cheio de excelência, e de nobreza.Ama como puderes,
Ama a quem puderes tudo o que puderes...
Mas ama sempre
Não te preocupes com a felicidade do teu amor.
Ele tem em si mesmo a sua felicidade.
Não te julges incompleto
Porque não correspondem à tua ternura:
O amor tem em si mesmo a sua própria plenitude.
Sempre que haja um vácuo na tua vida,
Enche-o de AMOR."


Amado Nervo

segunda-feira, 11 de junho de 2012

BLADE RUNNER WALTZ



Em mil novecentos e oitenta e sempre,
ah, que tempos aqueles,
dançamos ao luar, ao sol da valsa
A Perfeição do Amor Através da Dor e da Renúncia,
nome, confesso, um pouco longo,
mas os tempos, aquele tempo,
ah, não se faz mais tempo
como antigamente.

Aquilo sim é que eram horas,
dias enormes, semanas anos, minutos milênios,
e toda aquela fortuna em tempo
a gente gastava em bobagens,
amar, sonhar, dançar ao som da valsa,
aquelas falsas valsas de tão imenso nome lento
que a gente dançava em algum setembro
daqueles mil novecentos e oitenta e sempre.


Paulo Leminski
in La vie en close

O SENTIDO SECRETO DA VIDA



Há um sentido profundo
Na superficialidade das coisas,
Uma ordem inalterável
No caos aparente dos mundos.

Vibra um trabalho silencioso e incessante
Dentro da imobilidade das plantas:
No crescer das raízes,
No desabrochar das flores,
No sazonar das frutas.

Há um aperfeiçoamento invisível
Dentro do silêncio de nosso Eu:
Nos sentimentos que florescem,
Nas idéias que voam,
Nas mágoas que sangram.

Uma folha morta
Não cai inutilmente.
A lágrima não rola em vão.
Uma invisível mão misericordiosa
Suaviza a queda da folha,
Enxuga o pranto da face.

Helena Kolody
in Correnteza

domingo, 10 de junho de 2012

JOSÉ SARAMAGO



"Um som quase inaudível, como só pode ser o de umas lágrimas
que vão deslizando lentamente até às comissuras da boca e aí
se somem para recomeçarem o ciclo eterno das
inexplicáveis dores e alegrias humanas."

José Saramago
in “Ensaio sobre a Cegueira”

sábado, 9 de junho de 2012

MARIO QUINTANA



"Há uma cor que não vem nos dicionários.
É essa indefinível cor que têm todos os retratos,
os figurinos da última estação, a voz das velhas damas,
os primeiros sapatos, certas tabuletas,
certas ruazinhas laterais : a cor do tempo …''

Mario Quintana,
in Sapato Florido

sexta-feira, 8 de junho de 2012

ROTEIRO




Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se fôr claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.

Sidónio Muralha

quinta-feira, 7 de junho de 2012

HAVIA UM TEMPO



Havia um tempo de cadeiras
na calçada.
Era um tempo em que
havia mais estrelas.
Tempo em que as crianças
brincavam sob
a claraboia da lua.
E o cachorro da casa era
um grande personagem.
E também o relógio de parede!
Ele não media o tempo,
simplesmente:
ele meditava o tempo.


Mário Quintana,
in Na Volta da Esquina

quarta-feira, 6 de junho de 2012

ODE AO GATO



Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.


José Jorge Letria
In Animália Odes aos Bichos

terça-feira, 5 de junho de 2012

O VENTO



Queria transformar o vento.
Dar ao vento uma forma concreta e apta a foto.
Eu precisava pelo menos de enxergar uma parte física
do vento: uma costela, o olho…
Mas a forma do vento me fugia que nem as formas
de uma voz.
Quando se disse que o vento empurrava a canoa do
índio para o barranco
Imaginei um vento pintado de urucum a empurrar a
canoa do índio para o barranco.
Mas essa imagem me pareceu imprecisa ainda.
Estava quase a desistir quando me lembrei do menino
montado no cavalo do vento – que lera em
Shakespeare.
Imaginei as crinas soltas do vento a disparar pelos
prados com o menino.
Fotografei aquele vento de crinas soltas.


Manoel de Barros

LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS



Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade

O tempo fora de mim
é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
_dura eternamente
enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)


Ferreira Gullar
in Muitas Vozes

segunda-feira, 4 de junho de 2012

UMA SIMPLES ELEGIA


Caminhozinho por onde eu ia andando
E de repente te sumiste,
- o que seria que te aconteceu?
Eu sei ... o tempo... as ervas más... a vida...
Não, não foi a morte que acabou contigo:
Foi a vida.

Ah! nunca a vida fez uma história mais triste
Que a de um caminho que se perdeu...


Mario Quintana
In Nariz de Vidro

domingo, 3 de junho de 2012

SILHUETAS




Ao entardecer
são as pessoas e o mundo
meras silhuetas.

Delores Pires
In: O livro dos Haicais