domingo, 6 de abril de 2014

ACTO DE CONTRIÇÃO



Pelo que não fiz, perdão!
Pelo tempo que vi, parado,
correr chamando por mim,
pelos enganos que talvez
poupando me empobreceram,
pelas esperanças que não tive
e os sonhos que somente
sonhando julguei viver,
pelos olhares amortalhados
na cinza de sóis que apaguei
com riscos de quem já sabe,
por todos os desvarios
que nem cheguei a conceber,
pelos risos, pelas lágrimas,
pelos beijos e mais coisas,
que sem dó de mim malogrei

— por tudo, vida, perdão!

Adolfo Casais Monteiro
(1908-1972)

sábado, 5 de abril de 2014

CONTRANARCISO



Em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando estamos sós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

Paulo Leminski, 
in Toda Poesia

quarta-feira, 2 de abril de 2014

JOGO DA VERDADE



A verdade é um labirinto.

Se digo a verdade inteira,
se digo tudo o que penso,
se digo com todas as letras,
com todos os pingos nos is,
seria um deus-nos-acuda,
entraria um sudoeste
pela janela da sala.
Então eu digo
a verdade possível,
e o resto guardo
a sete chaves
no meu cofre de silêncios.

Roseana Murray
In Pera,Uva ou Maça.












segunda-feira, 31 de março de 2014

TANTO



Para Lygia F. Telles

Nada entendo de signos: 
se digo flor é flor, se digo àgua 
é água. ( Mas pode ser disfarce de um segredo.) 
Se não podem sentir, não torçam 
a arvore-de-coral do meu silêncio: 
deixem que eu represente meu papel. 

Não me queiram prender como a um inseto 
no alfinete da interpretação: 
se não me podem amar, me esqueçam. 
Sou uma mulher sozinha num palco, 
e já me pesa demais todo esse ofício. 
Basta que a torturada vida das palavras 
deite seu fogo ou mel na folha quieta, 
num texto qualquer com o meu nome embaixo.

LYA LUFT
In Mulher no Palco, 1984



domingo, 30 de março de 2014

LEMBRETES




É importante acordar
a tempo

é importante penetrar
o tempo

é importante vigiar
o desabrochar do destino.


Orides Fontela ,
in Trevo

ESTAÇÕES



" Estão em mim as estações
como se fossem uma só
as quatro sempre estão em mim
são quatro faixas de um abismo
da aurora até o ocaso
a chuva o verde o sol o vento
sem me desvelar estão em mim
são a missão recém-nascida
e são os mortos do meu mundo
minhas ocultas estações
me fazem feliz / sofrem por mim
cada uma delas tem um céu
e cada céu é um espelho
que fala de todos e de mim
as estações se congregam
se reconhecem e se abraçam
as quatro sempre estão em mim
sou seu fervor suas folhas mortas
seu granizo suas colheitas
sua porta aberta seus cadeados
sua insolação seus aguaceiros
como um destino estão em mim
as estações se embaralham
para se mesclar com minha vida
para se juntar com minha morte
e então fugir de mim ."

Mario Benedetti
in , " Correio do tempo "

sexta-feira, 28 de março de 2014

HÁ OÁSIS




nos desertos
procuram-se oásis

ficam por lá as marcas
de viajantes…
… e de camelos

há vidas desertas
pés escaldados sonhando oásis

há vidas,
oásis em alguns desertos

… há viajantes


Joaquim do Carmo
in "Amanhecer pelo fim da tarde"

SOLEMNIA VERBA




Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.


Antero de Quental,
in "Sonetos"


quinta-feira, 27 de março de 2014

A MANHÃ É DE TODOS.


A Manhã é de todos-
A Noite - a alguns dada -
Para os poucos do império -
A luz da Madrugada.



Emily Dickinson
(1830-1886)
In "Cem Poemas"
Trad. de Ana Luísa Amaral.


domingo, 9 de março de 2014

PEDIDO DE DEMISSÃO



Por não saber fazer o bife perfeito,
por não pregar o botão na camisa,
por não manter o sapato engraxado,
por ser a companheira insuficiente,
impertinente, indecisa,
por não saber me comportar quando ao seu lado

eu me retiro.
E se confiro o saldo apurado,
só me entristeço:
por ver o acorde no violão estaganado,
o poema de amor interminado,
o romantismo que hoje já não se admite.
E no lugar que agora eu não mereço,
fica uma vaga a quem quer que se habilite.
Não fica mágoa,
não deixo sombras,
nem endereço.

Flora Figueiredo
in Florescência













sábado, 8 de março de 2014

A MULHER



Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!


Florbela Espanca,
in “Trocando olhares”











SER MULHER



Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

- Gilka Machado,
in “Cristais Partidos” 1915.


 

sexta-feira, 7 de março de 2014

BALADA DE SEMPRE



Espero a tua vinda,
a tua vinda,
em dia de lua cheia.
Debruço-me sobre a noite
inventando crescentes e luares.
Espero o momento da chegada
com o cansaço e o ardor de todas as chegadas.
Rasgarás nuvens, estradas,
abrindo clareiras
nas vielas de ciladas.
Saltarás por cima de mares,
de planícies e relevos
— ânsia alada
no meu desejo imaginada.

Mas…
enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí, além,
lambe-me os braços hirtos, braços verdes,
algas de sonho,
…e desenha ironias na areia molhada.



Fernando Namora,
de As Frias Madrugadas,
Editora Arcádia, Lisboa





quinta-feira, 6 de março de 2014

PLENITUDE



Vai alto o dia. O sol a pino ofusca e vibra.
O ar é como de forja. A força nova e pura
Da vida embriaga e exalta. E eu sinto. fibra a fibra,
Avassalar-me o ser a vontade da cura.

A energia vital que no ventre profundo
Da Terra estuante ofega e penetra as raízes,
Sobe no caule, faz todo galho fecundo
E estala na amplidão das ramadas felizes,

Entra-me como um vinho acre pelas narinas…
Arde-me na garganta… E nas artérias sinto
O bálsamo aromado e quente das resinas
Que vem na exalação de cada terebinto.

O furor de criação dionisíaco estua
No fundo das rechãs, no flanco das montanhas,
E eu absorvo-o nos sons, na glória da luz crua
E ouço-o ardente bater dentro em minhas entranhas

Tenho êxtase de santo… Ânsias para a virtude…
Canta em minh´alma absorta um mundo de harmonias.
Vêm-me audácias de heroi… Sonho o que jamais pude
- Belo como Davi, forte como Golias…

E neste curto instante em que todo me exalto
De tudo o que não sou, gozo tudo o que invejo,
E nunca o sonho humano assim subiu tão alto
Nem flamejou mais bela a chama do desejo.

E tudo isso me vem de vós, Mãe Natureza!
Vós que cicatrizais minha velha ferida…
Vós que me dais o grande exemplo de beleza
E me dais o divino apetite da vida!


Manuel Bandeira


quarta-feira, 5 de março de 2014

terça-feira, 4 de março de 2014

MARÇO VOLTOU



Março voltou, esta
ácida loucura de pássaros
está outra vez à nossa porta,
o ar

de vidro vai direito ao coração.
Também elas cantam, as montanhas:
somente nenhum de nós
as ouve, distraídos

com o monótono silabar do vento
ou doutros peregrinos.
Já sabeis como temos ainda restos
de pudor.

e pelo mundo
uma enorme, enorme indiferença.


Eugénio de Andrade,
in Branco no branco (1984)

















domingo, 2 de março de 2014

CERTA FERIDA




Como a árvore a que cortam um galho
e permanece (aparentemente) intacta
-suportar em silêncio certos afrontamentos.


Foi profundo o talho
embora o tronco se ostente sólido
impassível.


Uma flor brotava errante
na parte decepada.


Eu a mereci.
E isto basta
na sucessão das possíveis primaveras.


Affonso Romano de Sant’Anna,
in Vestígios


REPASSANDO


Interessado no passado, estou.
O passado, impaciente, me acena
me habita, me ordena.

O presente é uma vaga aliança
da aparência com a esperança.

O futuro pode esperar:
ele é uma fruta
que ao invés de ser colhida, me habita
e me impele a madurar.



Affonso Romano de Sant’Anna
In “POESIA REUNIDA”


sábado, 1 de março de 2014

UM CAMINHO DE PALAVRAS




Tudo o que sei, já lá está, mas não estão os meus passos
 nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque
 há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho
 e descubro o meu caminho.

Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também:

 então invento os meus passos e o meu próprio caminho. 
E com as palavras de vento e de pedras, invento o vento e
 as pedras, caminho um caminho de palavras.

Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim

E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe

Mas a noite existe
e a palavra sabe-o.



António Ramos Rosa,
in "Sobre o Rosto da Terra"





quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

TEUS OLHOS




Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária.

Octavio Paz
(1914-1998)
in "Liberdade sob Palavra"
Tradução de Luis Pignatelli




terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

AI DAQUELES...



ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a mágoa nova
virasse chaga antiga

ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa.


Paulo Leminski
In Toda Poesia

PARA UMAS NOITES QUE ANDAM FAZENDO



deixe eu abrir a porta
quero ver se a noite vai bem

quem sabe a lua lua 
ou nos sonhos crianças
sombras murmuram amém

deixe ver quem some antes
a nuvem a estrela ou ninguém

Paulo Leminski
In O Ex-estranho

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O QUE RENASCE


- Que vais colher, plantar acaso?
- Há um sopro
de noite murcha nos quintais. É a hora.
- Hora de semear?
- De ter. De ir
buscando o que renasce.
- O que renasce?
- O que, incessante, de si mesmo flui.
- Vamos regar as flores desoladas,
semear luzes pelas ruas mudas
onde ninguém mais vela?
- O que renasce.
- Vamos levar ás árvores o sangue
das madrugadas, seiva aos caules, canto,
sol aos que choram, longe?
- O que renasce.
- Levar a vida , a vida que renasce,
aos que mortos se vão sem estar mortos?
- O que renasce.
- A vida?
- O que renasce.
- A morte?
- A vida.A morte. O que renasce.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Discurso no Deserto


DO AZUL, NUM SONETO



Verificar o azul nem sempre é puro.
Melhor será revê-lo entre as ramadas
e os altos frutos de um pomar escuro
- azul de tênues bocas desoladas.

Melhor será sonhá-lo em madrugadas,
fresco inconstante azul sempre imaturo,
azul de claridades sufocadas
latejando nas pedras - nascituro.

Não este azul, mas outro e dolorido,
evanescente azul que na orvalhada
ficou, pétala ingênua, torturada.

Recupero-o, sem ter, e ei-lo perdido,
azul de voz, de sombra envenenada,
que em nós se esvai sem nunca ter vivido.


Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do tempo











domingo, 23 de fevereiro de 2014

CREIO NAS PALAVRAS...



Creio nas palavras
transparentes
que pertencem ao vento
ao sal
à latitude pura

Aqui
no meu reduto
entre ramos de ar
entre a cintilante indolência da água
creio no que nos une
em ondas vagas
apaixonadamente lentas

Aqui
eu pertenço
ao centro da nudez
como uma gota de água
ao rés do solo
na sua imediata e nua felicidade

António Ramos Rosa,
in "Numa Folha, leve e livre"

sábado, 22 de fevereiro de 2014

LYA LUFT



 No instrumento de nossa orquestração
somos - junto com fatalidades,genética
e acaso - os afinadores e os artistas.
Somos, antes disso, construtores de
nosso instrumento. O que torna a lida
mais difícil, porém muito mais
instigante.

Lya Luft,
in Perdas & Ganhos

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A MEIO DO CAMINHO



Fico entre o céu e a terra,
Choro só para dentro.
Sou como a árvore nua
que ao alto os ramos indica:
ergue as asas, mas não voa,
tem raízes, mas não desce.

Alberto de Lacerda
in Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa










quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

VIAGEM




O beijo da quilha
na boca da água
me vai trocando entre o céu e mar,
o azul de outro azul,
enquanto
na funda transparência
sinto a vertigem
de minha própria origem
e nem sequer já sei
que olhos são os meus
e em que água
se naufraga minha alma

Se chorasse, agora,
o mar inteiro
me entraria pelos olhos

Mia Couto,
In Raiz de Orvalho e outros poemas








quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

VELHA CASA



Fomos ver a casa anunciada.
E nos demos conta
de que as casas, como as pessoas,
morrem.
Logo à entrada,
a cerâmica, arcaica,
mostrava como uns poucos anos
podem acumular o pó dos séculos.
Dentro, tapetes bordados a mão,
tipo casa-grande,
talvez portugueses,
bronzes antigos,
faianças,
vasos de plantas,
peças avulsas
de mobiliário nobre.
Tudo com a pátina,
a ronha,
a ferrugem,
o fungo,
o cuspo,
o vômito do tempo.
E, contudo,
podia-se sentir
—ainda! ainda!—
o amor que presidira
à feitura, à escolha,
à disposição
de tudo aquilo
em composições plásticas
de que emanava calor.
E no conjunto se multiplicava
da soma das peças o valor,
mercê da mais-valia
da poesia
e do amor.
Na parede da sala um retrato
lindo de mulher,
no escritório fotografias
de juventude,
contrastantes
com o bafio e o bolor.
Na casa abandonada
fizeram ninho vespas,
aranhas, mofo, enfim
a fauniflora do esquecimento,
solfejando morte, inferno e dor.
Ah! melancolia
de ver que nada somos,
nada valemos,
nada! Mas a lição
de que,
de tudo,
sobrevive,
só,
o que a alma tocou.

Anderson Braga Horta
In Pulso (2000)




CANTO NEGRO



Sou negro.
A cor da noite adensa a minha pele
e estrela a minha alma.

Sou negro.
Absorvo toda a luz.
Sou amigo do Sol e da Lua.
São meus irmãos todos os seres da Terra.

Sou negro.
Meu sangue é ardente.
Meu pensamento é ardente.
O mundo é para mim o Verbo emocionado.

Sou negro.
E, como a natureza ama o contraste,
amo as mulheres de pele branca e cabelo macio.
Mas, como o coração é um sol
consumindo-se em fogo,
amo as mulheres de pele noturna e sexo forte.
E com todas vou forjando o dia, a tarde e a noite.

Sou negro.
Com meu suor e meu sangue,
meu desespero e minha revolta,
minha dedicação e minha brandura,
minha força e meu sonho,
modelo em bronze e nuvem
o quinhão de humanidade que me coube.

Sou negro.
Meu coração não é incolor,
minha alma não é pálida.
Caminho com meus irmãos de todos os tons.
Juntos, numa ciranda ainda feroz de semelhantes e contrários
mas que do alto Deus vê de mãos entrelaçadas,
vamos fazendo de matéria nobre
—este barro pobre,
esta liga impura—
a luz comum futura.

Sou negro.
E sou branco e amarelo e vermelho e moreno.
E verde.
E azul.

Sou todo o espectro da alma.

Sou homem.


Anderson Braga Horta
In Pulso (2000)
















DESGOVERNO



Por um momento,
deixar que as emoções tomem o leme
e experimentar o sabor da tempestade.

Anderson Braga Horta
In Pulso (2000)










SILÊNCIO




: : : : : : : :

Escuto, na solidão,
crescer as relvas da infância
nos vales do coração.

Anderson Braga Horta
Cronoscópio (1983)



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

TALVEZ



Sim, dizias tu, mas em seguida
corrigiste:
talvez.
Esta é a única palavra
que não tem casa.
Que mora
no intervalo
entre o som e o silêncio…

- Albano Martins -
in Palinódias, palimpsestos

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

ONDE A POESIA SE EXIBE



Onde a poesia se exibe como um espectáculo espectacular
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia
onde a poesia não é poesia
não é poesia

António Ramos Rosa










OS PÁSSAROS E AS ÁRVORES


Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
... Os pássaros começam onde as árvores acabam
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
Deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
Quando o Outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
Mas deixo essa forma de dizer ao romancista
É complicada e não se da bem na poesia
Não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo,
in "Todos os Poemas"









quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

ANDA O TEMPO



Olha o tempo, caído nessas pétalas
e evaporado nessas vagas nuvens,
olha-o no olhar e no sorriso
em que os belos rostos se desfolham.

Anda o tempo, anda o tempo, o sem-cessar
abrindo flores e fechando pálpebras;
com pés de névoa e de silêncio anda
frutas e corações amadurecendo.

Ouve o passo do tempo como pisa
meu coração, as uvas e os sonhos;
ouve o rio do tempo como cruza
terras floridas, jovens comarcas...

Vem, senta-te à direita de minha alma,
à margem do rio do crepúsculo,
e oponhamos ao tempo, ao inimigo,
a doçura de sermos dois na tarde.


Eduardo Carranza
In: Antologia Poética






AFINIDADE




A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil,
delicado e penetrante dos sentimentos.
É o mais independente.

Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos,
as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade,
qualquer reencontro retoma a relação,
o diálogo, a conversa,
o afeto no exato ponto em que foi interrompido.

Afinidade é não haver tempo mediando a vida.
É uma vitória do adivinhado sobre o real.
Do subjetivo para o objetivo.
Do permanente sobre o passageiro.
Do básico sobre o superficial.

Ter afinidade é muito raro.
Mas quando existe,
não precisa de códigos verbais para se manifestar.
Existia antes do conhecimento,
irradia durante e permanece
depois que as pessoas deixaram de estar juntas.
O que você tem dificuldade de expressar a um não afim,
sai simples e claro diante de alguém com quem você tem afinidade.

Afinidade é ficar longe pensando parecido
a respeito dos mesmos fatos que impressionam,
comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavras.
É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.

Afinidade é sentir com, nem sentir contra,
nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo.
Quanta gente ama loucamente,
mas sente contra o ser amado.
Quantos amam e sentem para o ser amado,
não para eles próprios.

Sentir com, é não ter necessidade de explicar
o que está sentindo.
É olhar e perceber.
É mais calar do que falar, ou, quando é falar,
jamais explicar: apenas afirmar.

Afinidade é jamais sentir por.
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo.
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar.
Compreende sem ocupar o lugar do outro.
Aceita para poder questionar.
Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças.
É conversar no silêncio, tanto nas possibilidades exercidas
quanto das impossibilidades vividas.

Afinidade é retomar a relação no ponto em que parou
sem lamentar o tempo de separação.
Porque tempo e separação nunca existiram.
Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida,
para que a maturação comum pudesse se dar.
E para que cada pessoa pudesse e possa ser,
cada vez mais a expressão do outro
sob a forma ampliada do eu individual aprimorado.


Artur da Távola


MIA COUTO




“Todos os dias somos confrontados com o apelo exaltante de
combater a pobreza.E todos nós, de modo generoso e
patriótico, queremos participar nessa batalha.
Existem, no entanto, várias formas de pobreza.
E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos
indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão
sobre nós mesmos. Falo da dificuldade de nos pensarmos
como sujeitos históricos,como lugar de partida e como
destino de um sonho.“

(Mia Couto)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O TEMPO EXISTE




Existe um tempo que sequer sentimos,
existe um tempo que sequer pensou-se,
existe um tempo que o tempo não trouxe,
existe um tempo que sequer medimos.

Existe mais: um tempo em que sorrimos,
diferente do tempo em que chorou-se,
e um tempo neutro: nem amaro ou doce.
Tempos alheios, nem sequer são primos!

Existe um tempo pior do que ruim
e um tempo amado e um tempo de canção,
existe um tempo de pensar que é o fim.

Tempo é o que bate em nosso coração:
um tempo acumulado em tempo-sim,
e um tempo esvaziado em tempo-não.



Francisco Miguel de Moura


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

CITAÇÃO


"Até onde posso vou deixando o melhor de mim...
Se alguém não viu,foi porque não me
sentiu com o coração."

- Clarice Lispector -

domingo, 26 de janeiro de 2014

A FORMA JUSTA




Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo


Sophia de Mello Breyner Andresen
in O Nome das Coisas

JORGE AMADO


O Tempo é um ser difícil. Quando queremos que ele se prolongue,
seja demorado e lento, ele foge às pressas, nem se sente o
correr das horas. Quando queremos que ele voe mais depressa que
o pensamento, porque sofremos, porque vivemos um tempo mau,
ele escoa moroso, longo é o desfilar das horas.


Jorge Amado,
in O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá


COISAS , PEQUENAS COISAS




Fazer das coisas fracas um poema.

Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.


Ferrnando Namora
in «Mar de Sargaços»

NÓS SOMOS




Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.

Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos

Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.

António Ramos Rosa
in Sobre o Rosto da Terra

domingo, 19 de janeiro de 2014

JOSÉ SARAMAGO



A solidão não é viver só, a solidão é não sermos
capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma
coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma
árvore no meio duma planície onde só ela esteja,
é a distância entre a seiva profunda e a casca,
entre a folha e a raiz.

José Saramago,
in O Ano da Morte de Ricardo Reis

domingo, 5 de janeiro de 2014

FERNANDO PESSOA




"Tudo se me evapora. A minha vida inteira,
as minhas recordações,a minha imaginação e o que
contém, a minha personalidade, tudo se me evapora.
Continuamente sinto que fui outro, que senti outro,
que pensei outro. Aquilo a que assisto é um
espectáculo com outro cenário.
E aquilo a que assisto sou eu."

Fernando Pessoa






ALBERTO CAEIRO


"Procuro despir-me do que aprendi
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu..."

Alberto Caeiro

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

CITAÇÃO



"Semeei meus sonhos onde você está pisando agora.
Pise suavemente, porque você está pisando nos
meus sonhos."


William Butler Yeats



terça-feira, 31 de dezembro de 2013

RECEITA DE ANO NOVO



Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade
Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.

sábado, 21 de dezembro de 2013

NATAL



Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.

Miguel Torga
In: Diário X, 24 Dez. 1966