quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

SILÊNCIO




: : : : : : : :

Escuto, na solidão,
crescer as relvas da infância
nos vales do coração.

Anderson Braga Horta
Cronoscópio (1983)



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

TALVEZ



Sim, dizias tu, mas em seguida
corrigiste:
talvez.
Esta é a única palavra
que não tem casa.
Que mora
no intervalo
entre o som e o silêncio…

- Albano Martins -
in Palinódias, palimpsestos

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

ONDE A POESIA SE EXIBE



Onde a poesia se exibe como um espectáculo espectacular
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia
onde a poesia não é poesia
não é poesia

António Ramos Rosa










OS PÁSSAROS E AS ÁRVORES


Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
... Os pássaros começam onde as árvores acabam
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
Deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
Quando o Outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
Mas deixo essa forma de dizer ao romancista
É complicada e não se da bem na poesia
Não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo,
in "Todos os Poemas"









quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

ANDA O TEMPO



Olha o tempo, caído nessas pétalas
e evaporado nessas vagas nuvens,
olha-o no olhar e no sorriso
em que os belos rostos se desfolham.

Anda o tempo, anda o tempo, o sem-cessar
abrindo flores e fechando pálpebras;
com pés de névoa e de silêncio anda
frutas e corações amadurecendo.

Ouve o passo do tempo como pisa
meu coração, as uvas e os sonhos;
ouve o rio do tempo como cruza
terras floridas, jovens comarcas...

Vem, senta-te à direita de minha alma,
à margem do rio do crepúsculo,
e oponhamos ao tempo, ao inimigo,
a doçura de sermos dois na tarde.


Eduardo Carranza
In: Antologia Poética






AFINIDADE




A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil,
delicado e penetrante dos sentimentos.
É o mais independente.

Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos,
as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade,
qualquer reencontro retoma a relação,
o diálogo, a conversa,
o afeto no exato ponto em que foi interrompido.

Afinidade é não haver tempo mediando a vida.
É uma vitória do adivinhado sobre o real.
Do subjetivo para o objetivo.
Do permanente sobre o passageiro.
Do básico sobre o superficial.

Ter afinidade é muito raro.
Mas quando existe,
não precisa de códigos verbais para se manifestar.
Existia antes do conhecimento,
irradia durante e permanece
depois que as pessoas deixaram de estar juntas.
O que você tem dificuldade de expressar a um não afim,
sai simples e claro diante de alguém com quem você tem afinidade.

Afinidade é ficar longe pensando parecido
a respeito dos mesmos fatos que impressionam,
comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavras.
É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.

Afinidade é sentir com, nem sentir contra,
nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo.
Quanta gente ama loucamente,
mas sente contra o ser amado.
Quantos amam e sentem para o ser amado,
não para eles próprios.

Sentir com, é não ter necessidade de explicar
o que está sentindo.
É olhar e perceber.
É mais calar do que falar, ou, quando é falar,
jamais explicar: apenas afirmar.

Afinidade é jamais sentir por.
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo.
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar.
Compreende sem ocupar o lugar do outro.
Aceita para poder questionar.
Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças.
É conversar no silêncio, tanto nas possibilidades exercidas
quanto das impossibilidades vividas.

Afinidade é retomar a relação no ponto em que parou
sem lamentar o tempo de separação.
Porque tempo e separação nunca existiram.
Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida,
para que a maturação comum pudesse se dar.
E para que cada pessoa pudesse e possa ser,
cada vez mais a expressão do outro
sob a forma ampliada do eu individual aprimorado.


Artur da Távola


MIA COUTO




“Todos os dias somos confrontados com o apelo exaltante de
combater a pobreza.E todos nós, de modo generoso e
patriótico, queremos participar nessa batalha.
Existem, no entanto, várias formas de pobreza.
E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos
indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão
sobre nós mesmos. Falo da dificuldade de nos pensarmos
como sujeitos históricos,como lugar de partida e como
destino de um sonho.“

(Mia Couto)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O TEMPO EXISTE




Existe um tempo que sequer sentimos,
existe um tempo que sequer pensou-se,
existe um tempo que o tempo não trouxe,
existe um tempo que sequer medimos.

Existe mais: um tempo em que sorrimos,
diferente do tempo em que chorou-se,
e um tempo neutro: nem amaro ou doce.
Tempos alheios, nem sequer são primos!

Existe um tempo pior do que ruim
e um tempo amado e um tempo de canção,
existe um tempo de pensar que é o fim.

Tempo é o que bate em nosso coração:
um tempo acumulado em tempo-sim,
e um tempo esvaziado em tempo-não.



Francisco Miguel de Moura


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

CITAÇÃO


"Até onde posso vou deixando o melhor de mim...
Se alguém não viu,foi porque não me
sentiu com o coração."

- Clarice Lispector -

domingo, 26 de janeiro de 2014

A FORMA JUSTA




Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo


Sophia de Mello Breyner Andresen
in O Nome das Coisas

JORGE AMADO


O Tempo é um ser difícil. Quando queremos que ele se prolongue,
seja demorado e lento, ele foge às pressas, nem se sente o
correr das horas. Quando queremos que ele voe mais depressa que
o pensamento, porque sofremos, porque vivemos um tempo mau,
ele escoa moroso, longo é o desfilar das horas.


Jorge Amado,
in O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá


COISAS , PEQUENAS COISAS




Fazer das coisas fracas um poema.

Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.


Ferrnando Namora
in «Mar de Sargaços»

NÓS SOMOS




Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.

Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos

Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.

António Ramos Rosa
in Sobre o Rosto da Terra

domingo, 19 de janeiro de 2014

JOSÉ SARAMAGO



A solidão não é viver só, a solidão é não sermos
capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma
coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma
árvore no meio duma planície onde só ela esteja,
é a distância entre a seiva profunda e a casca,
entre a folha e a raiz.

José Saramago,
in O Ano da Morte de Ricardo Reis

domingo, 5 de janeiro de 2014

FERNANDO PESSOA




"Tudo se me evapora. A minha vida inteira,
as minhas recordações,a minha imaginação e o que
contém, a minha personalidade, tudo se me evapora.
Continuamente sinto que fui outro, que senti outro,
que pensei outro. Aquilo a que assisto é um
espectáculo com outro cenário.
E aquilo a que assisto sou eu."

Fernando Pessoa






ALBERTO CAEIRO


"Procuro despir-me do que aprendi
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu..."

Alberto Caeiro

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

CITAÇÃO



"Semeei meus sonhos onde você está pisando agora.
Pise suavemente, porque você está pisando nos
meus sonhos."


William Butler Yeats



terça-feira, 31 de dezembro de 2013

RECEITA DE ANO NOVO



Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade
Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.

sábado, 21 de dezembro de 2013

NATAL



Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.

Miguel Torga
In: Diário X, 24 Dez. 1966

 

domingo, 15 de dezembro de 2013

NELSON MANDELA


“Há pouca coisa favorável para se dizer a respeito da pobreza,
mas muitas vezes ela serve para incubar uma verdadeira amizade.
Muita gente faz amizade connosco quando somos ricos, mas são
muito poucos e preciosos os que se tornam nossos amigos quando
somos pobres. Se a riqueza é um ímã, a pobreza é uma espécie
de repelente. Mesmo assim a pobreza costuma revelar a verdadeira
generosidade nos outros.”

Nelson Mandela,
in "Longo Caminho para a Liberdade"

O POETA BEIJA TUDO



O poeta beija tudo, graças a Deus...
E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade...
E diz assim: "É preciso saber olhar..."
E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças,
entusiasta como os adolescentes e profundo como 

os homens feitos...
E levanta uma pedra escura e áspera
para mostrar uma flor que está por detrás...
E perde tempo (ganha tempo...) a namorar uma ovelha...
E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta,
uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu,
um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino,
um bocadinho de sol depois de um dia chuvoso...
E acha que tudo é importante...
E pega no braço dos homens que estavam tristes
e vai passear com eles para o jardim...
E reparou que os homens estavam tristes...
E escreveu uns versos que começam desta maneira:
“O segredo é amar...”

Sebastião da Gama (1924-1952)

CESARE PAVESE



O ócio torna lentas as horas e velozes os anos.
A actividade torna rápida as horas e lentos os anos.
A infância é a actividade máxima, porque ocupada em
descobrir o mundo na sua diversidade.

Os anos tornam-se longos na recordação se, ao repensá-los,
encontramos numerosos factos a desenvolver pela fantasia.
Por isso, a infância parece longuíssima. Provavelmente,
cada época da vida é multiplicada pelas sucessivas
reflexões das que se lhe seguem: a mais curta é a velhice,
porque nunca será repensada.
Cada coisa que nos aconteceu é uma riqueza inesgotável:
todo o regresso a ela a aumenta e acresce, dota de
relações e aprofunda. A infãncia não é apenas a infância
vivida, mas a ideia que fazemos dela na juventude,
na maturidade, etc. Por isso, parece a época mais
importante, visto ser a mais enriquecida por considerações
sucessivas. Os anos são uma unidade da recordação;
as horas e os dias, uma unidade da experiência.

Cesare Pavese
in O Ofício de Viver


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

DÁ ROSAS, ROSAS, A QUEM SONHA ROSAS!



Dá rosas, rosas, a quem sonha rosas!
Ou não dês nada, que sonhar é tudo.
As flores naturais e preciosas
São as que eu sonho, transtornado e mudo.

Dá rosas, rosas, só em pensamento,
A quem não tem no mundo mais jardim
Que aquele que há entre o desejo e o intento
E onde haja as rosas que me dás a mim.


Fernando Pessoa,
in Poesia


domingo, 8 de dezembro de 2013

O BRANCO




Existir na realidade,
Crescer no invisível da voz imóvel,
Ouvir dentro de si gestos que cantam,
Forças que comandam movimentos,
Sentir o imponderável tombado sob os pés,
Ver a luz que dissolve todos os inícios
Intensamente iluminando o pensamento morto.
Existir na irrealidade,
No esquecimento de todas as coisas entendidas
Quebrando os ossos que nos fazem eretos,
Perscrutando todos os desejos que já são alheios.
No branco espesso da irrealidade
Permanecer no vácuo, depois altura,

 depois fogo e depois nada.

Adalgisa Nery
In Erosão (1973)


sábado, 7 de dezembro de 2013

REPETIÇÃO


No abrir de cada dia
Está presente a sombra de todas as noite.
Mãos em desespero esvoaçam
Tentando atingir a fímbria da vida.
Lâmpadas reabastecidas
Na esperança da vinda do Grande Esperado.
A carne é devolvida ao pó
Enquanto a memória da nossa infância
Se apaga aos poucos na memória da infância dos nossos filhos
Diluída na dos nossos netos.
Memórias sem dono
Substituídas pelos tentáculos do ventre materno
Para a lenta e angustiante viagem para o exílio.

Adalgisa Nery
In Erosão (1973)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

HÁ UM HOMEM À ENTRADA DOS MEUS SONHOS




Desato o sono e sento-me numa pedra, mais perto de mim.
E vi-o de novo.
Tão sereno como uma vereda para a nascente.
Digo, então, que há um homem à entrada dos meus sonhos.
Traz, nas mãos, promessas de trigo
e, no olhar, a alegria, presa por um fio.
Espanta-me a facilidade com que chora.
Deve ser por isso que existe um rio na minha insónia
e não posso ignorar a limpidez dos seus olhos.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A MANHÃ É DE TODOS


A Manhã é de todos -
A Noite - de alguns -
De poucos escolhidos -
A Auroreal luz.

Emily Dickinson,
in A branca voz da solidão.
Trad. José Lira.

domingo, 1 de dezembro de 2013

A SOLIDÃO



A solidão é como chuva.

Sobe do mar nas tardes em declínio;
das planícies perdidas na saudade
ela se eleva ao céu, que é seu domínio,
para cair do céu sobre a cidade.

Goteja na hora dúbia quando os becos
anseiam longamente pela aurora
quando os amantes se abandonam tristes
com a desilusão que a carne chora;
quando os homens, seus ódios sufocando,
num mesmo leito vão deitar-se: é quando
a solidão com os rios vai passando...


Rainer Maria Rilke,
in Poemas. Trad. Geir Campos


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

MATURIDADE




Caminho entre as minhas perdas
que são insetos escuros,
e os meus ganhos: douradas borboletas.

A luz de uma paixão, o dedo da morte,
o grave pincel da solidão
desenharam meus contornos, firmaram
meu chão.

Que liberdade, não precisar pensar;
que alívio não ter de administrar
minha vida:
apenas andar, e olhar,
apenas ouvir essas vozes
que vêm de longe, passam por mim
e não me dão importância.

Porque no vasto oceano,
a minha eventual desarmonia
é só uma gota
desafinada.
Mais nada.



- Lya Luft,
em "Para não dizer adeus", 2005.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

QUASE




Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão,
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase , dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos onde nunca puz um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além,
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Mário de Sá Carneiro
(Lisboa 1890/Paris 1916)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

AS VOZES



A infância vem
pé ante pé
sobe as escadas
e bate à porta
– Quem é?
– É a mãe morta
– São coisas passadas
– Não é ninguém
Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficámos sós?

Manuel António Pina,
in Nenhuma palavra e nenhuma lembrança

sábado, 23 de novembro de 2013

MENINA PERDIDA




Menina perdida
no bosque da vida.

Os olhos desertos,
os gestos errados,
os passos incertos,
os sonhos cansados.

Menina perdida,
desaparecida
nos longos caminhos
de pedras e espinhos.
Cabelos molhados,
pés nús, alma exangue,
vestidos rasgados,
mãos frias, em sangue.

Menina encontrada
na berma da estrada.
Andava perdida
mas já foi achada,
de branco vestida,
de branco calçada.

Menina perdida
no bosque da vida.



Fernanda de Castro,
in Poesia I


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

MANOEL DE BARROS



" Hoje eu completei oitenta e cinco anos .
O poeta nasceu de treze .
Naquela ocasião escrevi uma carta aos meus pais,
que moravam na fazenda , contando que eu já
decidira o que queria ser no meu futuro .
Que eu não queria ser doutor.
Nem doutor de curar nem doutor de fazer casa
nem doutor de medir terras .
Que eu queria ser fraseador .
Meu pai ficou meio vago depois de ler a carta.
Minha mãe inclinou a cabeça .
Eu queria ser fraseador e não doutor .
Então , meu irmão mais velho perguntou :
Mas esse tal de fraseador bota mantimento em casa?
Eu não queria ser doutor, eu só queria ser fraseador.
Meu irmão insistiu :
Mas se fraseador não bota mantimento em casa,
nós temos que botar uma enxada na mão
desse menino pra ele deixar de variar.
A mãe baixou a cabeça um pouco mais .
O pai continuou meio vago .
Mas não botou enxada ."


Manoel de Barros ,
in " Memórias Inventadas "

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

ESTOU SEMPRE NOS LIMIARES



Estou sempre nos limiares:
sou sempre esta pausa antes
do início de uma canção,
sou um momento de espera,
quase um fim de solidão.

Sou margem de caminho para a morte,
gesto que pressente atrás do véu:
promessa de chuvas sob o céu,
e vôo que antes de partir
repousa...

- Lya Luft,
em "Mulher no palco", 1984.











quarta-feira, 20 de novembro de 2013

EXPERIÊNCIA DA MORTE



Nada sabemos desta partida, que nada
tem conosco.Não devemos nem ódio
nem admiração, nem amor a esta morte,
que é apenas uma boca de máscara,trágica.

estranhamente deformada;No mundo ainda há
muitos papéis a serem interpretados.
Enquanto nos preocupamos em agradar, a morte
jogará seu jogo, embora não agrade.

Quando tu partiste, um raio de realidade
penetrou nosso palco, pela fresta
por onde saíste: verde verdadeiro,
verdadeiro bosque, verdadeiro sol.

Continuamos a interpretar.Recitando, inquietos,
coisas apreendidas penosamente,
colhendo gestos aqui e acolá; mas tua presença
longínqua, afastada da nossa peça,

nas toca, às vezes, como se soubéssemos
algo daquela realidade.Então,
por um instante,embevecidos,
interpretamos a vida, sem pensar nos aplausos.



Rainer Maria Rilke
In Senhor, é Tempo/Poemas Selecionados
















domingo, 17 de novembro de 2013

O QUE FARÁS...



O que farás, Deus, se eu morrer?
Sou tua jarra ( e se eu quebrar?)
Sou tua poção( e se eu estragar?)
Sou tua veste e tua missão.
Sem mim perdes o teu sentido.

Sem mim não terás casa, onde
palavras, íntimas e quentes, te abriguem.
Cairá dos teus pés cansados
a sandália aveludada que eu sou.

Teu grande manto te desnudará.
Teu olhar, que minha face acolhe,
quente como um travesseiro,
virá me procurar por muito tempo
e se aninhará entre pedras,
ao pôr-do-sol.

O que farás,Deus?Tenho medo.

Rainer Maria Rilke
In Senhor, é tempo
Tradução de Karlos Rischbieter
















TÃO CEDO PASSA...


"Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Fernando Pessoa/Ricardo Reis,
in "Odes"








quarta-feira, 13 de novembro de 2013

POEMA DO TEMPO



O tempo é implacável ,
Assim dizem os filósofos...

Os anos passam
Ou nós passamos pela vida...

Envelhecemos e as ilusões fenecem.
A juventude como por encanto
Fica para trás,
Ficando também com ela
Tudo que é sorridente e belo...

Quem me dera que pudesse
Voltar atrás num sentido breve
Abraçar por segundos apenas,
Num doce afago,
Aqueles desejos irrealizados
Que, muitas vezes, permanecem
Numa vivência constante...
Nem que fôssemos como as flores
Que, arrancadas de sua existência fugaz,
Permanecem nos jarros,
Enquanto possuem um resto de vida
Para morrer dias depois...


Olympiades Guimarães Corrêa
em Neblina do Tempo 1.996

terça-feira, 12 de novembro de 2013

POESIA



“Para mim, o importante em poesia
é a qualidade da eternidade que um
poema poderá deixar em quem o lê,
sem a ideia de tempo.”

Juan Ramón Jiménez

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

SABE QUE SE PODE MORRER DE SOLIDÃO?



Que mais acrescentar
sem que, nos gestos,
se tornem contraditórias as palavras?
Morrer de solidão.
Ficar exilado neste tempo cercado pelo medo.
As mãos mergulhando o vazio.
As vozes enrouquecendo de cansaço.
Um logro à medida do silêncio,
com nomes adiados sem aviso
e rostos marcados pela angústia :
fisionomias em sangue vivo,
exibindo o solitário instante da morte.
Saber que se pode morrer de solidão
e ficar de luto pela humanidade,
tão frágil e tão desprotegida.

Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

NÃO FALO DA IMPORTÂNCIA DO BRILHO



Nem sempre as janelas oferecem às casas
todas as possibilidades da luz.
Não falo da importância do brilho coado
nas traves, ou do vento espreitando as frestas.
Refiro a transparência consentida às aves
na pressa das cidades onde o voo se faz fuga.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O CHAMADO DAS PEDRAS



A estrada está deserta.
Vou caminhando sozinha.
Ninguém me espera no caminho.
Ninguém acende a luz.
A velha candeia de azeite
de lá muito se apagou.

Tudo deserto.
A longa caminhada.
A longa noite escura.
Ninguém me estende a mão.
E as mãos atiram pedras.
Sozinha...
Errada a estrada.
No frio, no escuro, no abandono.
Tateio em volta e procuro a luz.
Meus olhos estão fechados.
Meus olhos estão cegos.
Vêm do passado.

Num bramido de dor.
Num espasmo de agonia
Ouço um vagido de criança.
É meu filho que acaba de nascer.

Sozinha...
Na estrada deserta,
Sempre a procurar
o perdido tempo que ficou pra trás.

Do perdido tempo.
Do passado tempo
escuto a voz das pedras:

Volta...Volta...Volta...
E os morros abriam para mim
Imensos braços vegetais.

E os sinos das igrejas
Que ouvia na distância
Diziam: Vem... Vem... Vem...

E as rolinhas fogo-pagou
Das velhas cumeeiras:
Porque não voltou...
Porque não voltou...
E a água do rio que corria
Chamava...chamava...

Vestida de cabelos brancos
Voltei sozinha à velha casa deserta.


CORA CORALINA
In Meu Livro de Cordel, 1998







 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

OBSTINAÇÃO



Vou em silêncio
plantando minhas sementes
nas pedras rubras da estrada
nos ventos ocres do outono
nos olhos céu da manhã.

Sei que alguém me ouvirá

Álvaro Pacheco
In Balada & Outros Poemas

domingo, 3 de novembro de 2013

MANOEL DE BARROS



"Com as palavras se podem multiplicar os silêncios."

- Manoel de Barros,
em "O fazedor de amanhecer", 2001.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A UM AUSENTE



Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,

enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
In Farewell, 1996

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

AO SONO



Rebanho de ovelhas que lentamente passa
Uma de cada vez, o som da chuva e o farfalhar
Das folhas ao vento, abelhas, cascatas e o mar,
Prados, lenços d’água e o céu que esvoaça;
Sobre eles divaguei, um por um e ainda estou
Desperto! Logo os pássaros cantando
Nas árvores do pomar estarei escutando,
E o primeiro trinado do cuco que lá pousou.
Ontem e nas duas outras noites foi assim
Sono! Com todos os ardis não te pude receber:
Poupes-me nesta noite, vem a mim
Sem ti, que seria do encanto do alvorecer?
Vem, barreira entre o dia e a noite, enfim,
Pai do fresco pensar e do saudável viver!


William Wordsworth
in O olho Imóvel Pela Força da Harmonia

domingo, 27 de outubro de 2013

AQUELE FINO TRAÇO DE COLINA...




VII

Aquele fino traço de colina
Quero trancar na cancela
Da alma. Alimento e medida
Para as muitas vidas do depois.

Curva de um devaneio inatingido
Um todo estendido adolescente
Aquele fino traço da colina
Há de viver na paisagem da mente

Como a distância habita em certos pássaros
Como o poeta habita nas ardências.


Hilda Hilst
In Amavisse, 1989


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O CAMINHO



Vou me inspirar na teia dessa aranha
Para tecer também o meu caminho
Bailando no ar suspenso em desafio
Ao abismo de todos os quadrantes.

Horroriza-me a sina sertaneja
De quem encosta a enxada e se recolhe
À cisma de uma rede contemplando
A estrada deserta e o ar parado.

Mas, não! Rejeito teu modelo, aranha,
Não quero tua trama destinada
A caminhos que levam para nada.

E depois? Ó, depois, o coração,
Ave noturna, encontrará seu ninho
Na igualdade de todos os caminhos.

Miguel Reale

in 'Sonetos da verdade'

ECÚMENO




As humanas colmeias
ergueram-se no seio da pura distância.
E os caminhos multiplicaram-se.
E os homens fizeram-se irmãos dos ventos,
vagando no seio da pura distância.
E a melancolia profunda
e a paciência infinita
e os ritmos inesperados
nasceram do seio da pura distância.


Tasso da Silveira
Poemas de Antes – l.966 –