sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A UM AUSENTE



Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,

enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
In Farewell, 1996

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

AO SONO



Rebanho de ovelhas que lentamente passa
Uma de cada vez, o som da chuva e o farfalhar
Das folhas ao vento, abelhas, cascatas e o mar,
Prados, lenços d’água e o céu que esvoaça;
Sobre eles divaguei, um por um e ainda estou
Desperto! Logo os pássaros cantando
Nas árvores do pomar estarei escutando,
E o primeiro trinado do cuco que lá pousou.
Ontem e nas duas outras noites foi assim
Sono! Com todos os ardis não te pude receber:
Poupes-me nesta noite, vem a mim
Sem ti, que seria do encanto do alvorecer?
Vem, barreira entre o dia e a noite, enfim,
Pai do fresco pensar e do saudável viver!


William Wordsworth
in O olho Imóvel Pela Força da Harmonia

domingo, 27 de outubro de 2013

AQUELE FINO TRAÇO DE COLINA...




VII

Aquele fino traço de colina
Quero trancar na cancela
Da alma. Alimento e medida
Para as muitas vidas do depois.

Curva de um devaneio inatingido
Um todo estendido adolescente
Aquele fino traço da colina
Há de viver na paisagem da mente

Como a distância habita em certos pássaros
Como o poeta habita nas ardências.


Hilda Hilst
In Amavisse, 1989


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O CAMINHO



Vou me inspirar na teia dessa aranha
Para tecer também o meu caminho
Bailando no ar suspenso em desafio
Ao abismo de todos os quadrantes.

Horroriza-me a sina sertaneja
De quem encosta a enxada e se recolhe
À cisma de uma rede contemplando
A estrada deserta e o ar parado.

Mas, não! Rejeito teu modelo, aranha,
Não quero tua trama destinada
A caminhos que levam para nada.

E depois? Ó, depois, o coração,
Ave noturna, encontrará seu ninho
Na igualdade de todos os caminhos.

Miguel Reale

in 'Sonetos da verdade'

ECÚMENO




As humanas colmeias
ergueram-se no seio da pura distância.
E os caminhos multiplicaram-se.
E os homens fizeram-se irmãos dos ventos,
vagando no seio da pura distância.
E a melancolia profunda
e a paciência infinita
e os ritmos inesperados
nasceram do seio da pura distância.


Tasso da Silveira
Poemas de Antes – l.966 –

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

AMIGO



"Um amigo é uma pessoa com quem
nos atrevemos a sermos nós próprios."

Pam Brown




quarta-feira, 23 de outubro de 2013

LIÇÕES



Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.
Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.
Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.
Trémula, a haste
me pede
o adiar da noite.
Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.
Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.
Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?

MIA COUTO
In Idades Cidades Divindades, 2007 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

SANGUE



Versos
escrevem-se
depois de ter sofrido.
O coração
dita-os apressadamente.
E a mão tremente
quer fixar no papel os sons dispersos...

É só com sangue que se escrevem versos.

Saúl Dias
In ‘Sangue’ (1952)

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

VOZ ACTIVA



Canta, poeta, canta!
Violenta o silêncio
conformado
Cega com outra luz a luz
do dia
Desassossega o mundo
sossegado.
Ensina a cada alma a sua
rebeldia.

Miguel Torga,
in "Diário XIII






TRIBUNAL



Somos nós os culpados do que somos.
E é de mim que me queixo.
Tão intensa foi sempre a minha voz,
Que ninguém a entendeu.
Por isso, quanto mais água pedi,
Mais distante me vi
De cada fonte que me apeteceu.

E agora é tarde, já nem sede tenho.
Ou tenho-a como os cactos:
Eriçada de espinhos.
Olho de longe a bica tentadora,
Adivinho-lhe o gosto e a frescura,
E é de borco na areia abrasadora
Que refresco a secura.

Miguel Torga
in Obra Completa

COTIDIANO



Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha de ser, neste renovo
Cotidiano,
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.

É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida”.

Miguel Torga,
in Orfeu Rebelde


SOTAQUE DA TERRA




Estas pedras
sonham ser casa

sei
porque falo
a língua do chão

nascida
na véspera de mim
minha voz
ficou cativa do mundo,
pegada nas areias do Índico

agora,
ouço em mim
o sotaque da terra

e choro
com as pedras
a demora de subirem ao sol


Mia Couto
in Raiz de Orvalho e Outros Poemas









domingo, 20 de outubro de 2013

SONETO DO AMIGO



Enfim, depois de tanto erro passado 
Tantas retaliações, tanto perigo 
Eis que ressurge noutro o velho amigo 
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado 
Com olhos que contêm o olhar antigo 
Sempre comigo um pouco atribulado 
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano 
Sabendo se mover e comover 
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...


Vinícius de Moraes,
In Poesia completa e prosa, 1998 
Poesias Coligidas













sexta-feira, 18 de outubro de 2013

CESARE PAVESE


A única alegria neste mundo é a de começar.
É belo viver, porque viver é começar, sempre,
a cada instante.
Quando esta sensação desaparece -
prisão, doença, hábito, estupidez 
- deseja-se morrer. "

Cesare Pavese
in O Ofício de Viver











quinta-feira, 17 de outubro de 2013

ESTREITO ESPAÇO PARA A ILUSÃO



Antes, em voo ousado, a imaginação
Subia até aos céus, plena de alento:
Hoje basta um estreito espaço para a ilusão
Se afundar nos abismos do tempo.
Logo o cuidado se aninha bem dentro
Do peito e traz secreto sofrimento;
Balança inquieto, estorva prazer e paz,
São sempre novas as máscaras que traz:
É casa e bens, mulher, os filhos que tiverdes,
Água, fogo, punhal, veneno, eu sei lá;
E tu tremes com medo do que nunca virá,
E choras sem cessar aquilo que não perdes.


Goethe,
in Fausto

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

DE REPENTE OS SINOS!



De repente os sinos!

Inesperadamente
No meio da noite
Sinos tocando!
De todas as direções
Estão chegando vozes de sinos!
Sinos do sul
Sinos da noite,
Sinos das cidades
Surgindo das brumas,
Molhados das chuvas.
Sinos roucos
Cobertos de neve.
Sinos abafados,
Vozes sufocadas.
Sinos quentes,
Sinos juvenis,
Sinos claros,
Trazendo nas vozes
Os tons dos lilases,
Sinos que parecem 
De tão delicados
Feitos para as rosas
Despertar do sono.
Sinos das montanhas,
Sinos da agonia,
Sinos das tormentas
Sinos das tragédias.
Pungentes tangentes
Sinos tão alegres,
Vibrando e cantando,
Sinos me acordando,

De repente, os sinos!

Augusto Frederico Schmidt





VAZIO



A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, 
que é preciso contentar.


Augusto Frederico Schmidt, 
in Pássaro cego (1930).

JOGO


 
Há os que buscam continentes,
eu fico,
é bem menos sólida
a terra de que me sustento.
(Ah, a densidade dos anjos,
os imprecisos firmamentos.)
 
Há os que apostam em veleiros
e desafiam os ventos,
eu passo.
 
Eu do mar vou abrindo os búzios
que a fúria cega às vezes consente.
 
Meu lance
é a configuração do silêncio.
 

Fernando Campanella
 











terça-feira, 15 de outubro de 2013

A FALA DE DEUS



Houve um tempo em que Deus falava hebraico.

Passou depois a falar latim
após um rápido estágio pelo grego.

Atualmente há quem afirme
que optou pelo inglês
embora em algumas tribos
xamãs se comuniquem com os seus
em incompreensíveis dialetos.

Isto apenas prova
que Deus é poliglota.
Se não 
por que inventaria a Torre de Babel?

Só não entendo por que alguns se apresentam
como seus tradutores e intérpretes
quando ele claramente fala
pela voz dos pássaros e das flores

ou quando pela boca das bactérias 
destrói (silencioso)
- nossa empáfia verbal.


Affonso Romano de Sant Anna
In Sísifo desce a montanha

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

LITANIA DAS HORAS MORTAS



Por estas horas de silêncio e solidão,
Eu gosto de ficar só com o meu coração.

É nestas horas de prazer quase divino 
Que eu me sinto feliz com o meu próprio destino.

Por estas horas é que a cisma me conduz
Por estradas de treva e caminhos de luz.

É nestas horas, quando em êxtase medito,
Que sinto em mim a nostalgia do infinito.

Por estas horas, quando a sombra estende os véus,
A fé me leva além dos mais remotos céus.

É nestas horas de tristeza e de saudade
Que desperta em meu ser a ânsia da Eternidade.

Por estas horas, minhas naus ousam partir
Para Istambul, para Golconda, para Ofir...

É nestas horas, Noite amiga, em teu regaço,
Que eu me difundo pelo Tempo e pelo Espaço.

Por estas horas eu somente aspiro ao Bem,
Que em vida se tornou minha Jerusalém.

É nestas horas, quando o espírito descansa,
Que me depões na fronte o teu beijo, Esperança!

Por estas horas é que eu sinto florescer,
Como os astros no céu, o jardim do meu ser,

É nestas horas de quietude que deponho,
Ó Noite! em teu altar, minha lâmpada — o Sonho.

Por estas horas é que eu gosto de sonhar, 
Para ter ilusões brancas como o luar.

É nestas horas de mistério e beatitude
Que a Glória me fascina e a Poesia me ilude.

Por estas horas de tranqüila e doce paz,
Quanta serenidade o espírito me traz!

É nestas horas, quando a treva se constela,
Que ouço o teu canto nas estrelas, Filomela!

Por estas horas, a minh'alma anseia por
Teu encanto, Ventura! e teu engano, Amor!

É nestas horas de tristeza e esquecimento
Que eu gosto de ficar só com o meu pensamento.

Por estas horas eu me julgo Parsifal
Para ir pela renúncia à conquista do Graal.

É nestas horas que, como um eco profundo,
Repercute no meu o coração do mundo.

Por estas horas transitórias e imortais
Se desvanecem minhas dúvidas fatais.

É nestas horas de harmonia indefinida
Que eu tento decifrar o teu enigma, Vida!

Por estas horas, meu instinto morre, com
A intenção de ser justo, o anseio de ser bom.

É nestas horas de fantástico transporte
Que eu busco interrogar a tua esfinge, Morte!

Por estas horas, eu me enlevo assim, porque
Vela no lodo humano a luz que tudo vê...

Por tuas horas silenciosas, benfazejas,
Deusa da Solidão, Noite! bendita sejas!


Da costa e Silva
Poesias Completas

sábado, 12 de outubro de 2013

CRIANÇA




Cabecinha boa de menino triste, 
de menino triste que sofre sozinho, 
que sozinho sofre, — e resiste, 

Cabecinha boa de menino ausente, 
que de sofrer tanto se fez pensativo, 
e não sabe mais o que sente... 

Cabecinha boa de menino mudo 
que não teve nada, que não pediu nada, 
pelo medo de perder tudo. 

Cabecinha boa de menino santo 
que do alto se inclina sobre a água do mundo 
para mirar seu desencanto. 

Para ver passar numa onda lenta e fria 
a estrela perdida da felicidade 
que soube que não possuiria. 

Cecília Meireles,
 in 'Viagem'

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

PENSAR É ENCHER-SE DE TRISTEZA




Pensar é encher-se de tristeza
e quando penso
não em ti
mas em tudo
sofro

Dantes eu vivia só
agora vivo rodeada de palavras
que eu cultivo
no meu jardim de penas

Eu sigo-as
e elas seguem-me:
são o exigente cortejo
que me persegue

Em toda a parte
ouço seu imenso clamor


Ana Hatherly, 
in "O pavão negro"

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

PRIMAVERA




Setembro entrou pela janela adentro,
com um puro frescor de primavera.
Inunda-se de luz toda a paisagem
e o meu canto transborda à tua espera.

A doçura da tarde é uma carícia.
Entreabrem-se flores docemente.
As nuvens estão nítidas e imóveis
no céu azul aberto à minha frente.

Há murmúrios e vozes pela rua.
Frescos risos distraem meus ouvidos
e ficam borbulhando como fonte
ou como choque de cristais partidos.

A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde.
como um rio fugindo de seu leito.

Minha pobre ternura ignorada,
minha heróica ternura impressentida,
teima em mostrar-se como a primavera,
pensa em tocar de leve a tua vida.

É difícil ser poeta e ser mulher.
É difícil cantar sem revelar.
Pode o poeta contar o seu segredo,
mas a mulher o seu deve guardar.

A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde,
como um rio fugindo de seu leito.

Fecharei a janela à primavera
e calarei o poeta nesta tarde,
para que o sonho em nada me perturbe,
nem meu canto transborde à tua espera.

Lila Ripoll
in Poemas e Canções.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

SIM, TU ÉS O PORVIR ...




Sim, tu és o porvir, a grande aurora,
que desponta das planícies da eternidade.
Tu és o canto do galo após a noite do tempo,
tu és orvalho, albas, menina,
tu és o viajante, a morte, a mãe ...

Tu és a forma que incessantemente muda,
que, solitária, emerge do destino,
que não se comemora nem lamenta,
pois ninguém te dirigiu, floresta selvagem.

Tu és o fundo essencial das coisas
que cala a última de sua essência
e que mostra aos outros sempre outro:
terra ao barco, e navio à costa.


Rainer Maria Rilke
in Antologia Poética

domingo, 6 de outubro de 2013

ENTÃO ALGO MUDOU



Então algo mudou: o tom de voz, o olhar que se 
esquiva, a mão que se afasta. 
A porta precisa ser fechada, a ponte levantada, 
queimados os navios. Levaremos meses, anos esten- 
dendo as mãos para um vazio, interrogando uma 
ausência. 
Encarar a realidade é um modo de morrer. Mas sem 
isso, não haverá renascimento.

 LYA LUFT
In Secreta Mirada, 1997


ESTOU SEMPRE NOS LIMIARES



Estou sempre nos limiares: 
sou sempre esta pausa antes 
do início de uma canção, 
sou um momento de espera, 
quase um fim de solidão. 

Sou margem de caminho para a morte, 
gesto que pressente atrás do véu: 
promessa de chuvas sob o céu, 
e vôo que antes de partir 
repousa...

 LYA LUFT
In Mulher no Palco, 1984


INFÂNCIA



"A infância é o chão sobre o qual caminharemos
 o resto dos nossos dias.
 Se for esburacado demais vamos tropeçar mais,
 cair com mais facilidade e quebrar a cara -
 o que pode até ser saudável, pois nos dará 
 chance de  reconstruirmos nosso rosto."
 
- Lya Luft, 
em “Perdas & Ganhos”







sábado, 5 de outubro de 2013

Michel de Montaigne



"Ninguém determina do princípio ao fim o caminho que pretende 
seguir na vida; só nos decidimos por trechos, na medida em 
que vamos avançando."


Michel de Montaigne, 
in "Da incoerência de nossas ações"

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

“LIBERTAÇÃO”



...Até que um dia, por astúcia ou acaso, depois
De quase todos os enganos, ele descobriu a por-
ta do labirinto.
...nada de ir tateando os muros como um cego.
Nada de muros.
Seus passos tinham – enfim! – a liberdade de
Traçar seus próprios labirintos.


Mario Quintana
In “A vaca e o hipogrifo”

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

CONVITE



Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.


- Lya Luft,
 em "Perdas e Ganhos", 2003, pág. 12.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

DUALISMO



Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas das virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora. 


Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

FLORIR É CHEGAR. VER A FLOR




Florir é chegar.Ver a flor
contemplá-la ao passar,
só dá para suspeitar
a circunstância menor
da empresa fulgurante,
intrincamente feita
da borboleta perfeita
ofertada à luz do dia.

Alimentar o botão,
pagar direito ao relento,
regular calor e vento,
esconder-se do zangão,
não falhar à natureza,
esperar por esse dia...
Ser flor é muita
responsabilidade!

Emily Dickinson
Tradução de Paulo Mendes Campos

sábado, 28 de setembro de 2013

GERMINAL



Passou. A vida é assim: é o temporal que chega,
Ruge, esbraveja e passa, ecoando, serra a serra,
No furioso raivar da indômita refrega
Que as montanhas abala e os troncos desenterra.

Mas o pranto, afinal, que essa cólera encerra
Tomba: é a chuva que cai e que a planície rega;
E a cada gota, ali, cada gérmen se apega
Fecundando, a minar, toda a alagada terra.

Também o coração do convulsivo aperto
Da dor e das paixões, das angústias supremas,
Sente-se livre, após, a um grande choro aberto.

Alma! já que não é mister que ansiosa gemas,
Alma! fecunda enfim nas lágrimas que verto,
Possas tu germinar e florescer em Poemas!


Emílio de Menezes






IMAGEM



Uma pobre velhinha franzida e amarelada
sentou-se num banco, em Paris.
A tarde cinzenta andava atrás dela
como um triste gato de feltro e flanela,
igualmente exausta e infeliz.
Entretanto, aquela cidade, aquela
é a maior do mundo, segundo se diz.
E não só maior – mas alegre e bela:
é a cidade chamada Paris.

Por que há uma velhinha tão triste e amarela
sentada num banco em forma de X?
Nunca vi ninguém mais triste do que ela,
em tarde nenhuma de nenhum país.

Nas mãos, uma chave – de que bairro, viela,
porta, corredor, mansarda, canela? –
com um desenho de flor-de-lis.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O BRANCO



Existir na realidade,
Crescer no invisível da voz imóvel,
Ouvir dentro de si gestos que cantam,
Forças que comandam movimentos,
Sentir o imponderável tombado sob os pés,
Ver a luz que dissolve todos os inícios
Intensamente iluminando o pensamento morto.
Existir na irrealidade,
No esquecimento de todas as coisas entendidas
Quebrando os ossos que nos fazem eretos,
Perscrutando todos os desejos que já são alheios.
No branco espesso da irrealidade
Permanecer no vácuo, depois altura, depois fogo e depois nada.

Adalgisa Nery
In Erosão (1973)

SIMPLICIDADE



Vida no vento,
Vida na rosa,
Vida no fogo,
Vida na pedra,
Vida na água,
Vida na luz,
Vida no pranto,
Vida no húmus,
Vida na vida do amigo,
Vida no silêncio,
Vida na angústia,
Vida no mistério da criança,
Vida na vida
Cantando, cantando sempre
Na infinita vida da morte.

Adalgisa Nery
In Erosão (1973)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

VIA-LÁCTEA SONETO XXVIII



Pinta-me a curva destes céus... Agora, 
Erecta, ao fundo, a cordilheira apruma: 
Pinta as nuvens de fogo de uma em uma, 
E alto, entre as nuvens, o raiar da aurora. 

Solta, ondulando, os véus de espessa bruma, 
E o vale pinta, e, pelo vale em fora, 
A correnteza túrbida e sonora 
Do Paraíba, em torvelins de espuma. 

Pinta; mas vê de que maneira pintas... 
Antes busques as cores da tristeza, 
Poupando o escrínio das alegres tintas: 

— Tristeza singular, estranha mágoa 
De que vejo coberta a natureza, 
Porque a vejo com os olhos rasos d′água. 


OLAVO BILAC 
In Poesias

terça-feira, 24 de setembro de 2013

49



Quando as crianças brincam
E eu oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.
 
E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda da alegria
Que não foi de ninguém.
 
Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Que ao menos quem sou sinta
Isto no coração.

 
Fernando Pessoa
In Antologia Poética

SE EU PUDESSE...




Se eu pudesse
Ser como as gaivotas,
Transpor ares e mares,
Libertar-me dos antolhos,
De míseros preconceitos
Que os homens cheios de malícia,
Explorando a sua inteligência,
Resolveram criar...

Se eu pudesse,
Voar como os pássaros ligeiros,
Livres de gaiolas,
Em busca da liberdade,
Descobrir novos lugares,
Longe deste mundo bitolado,
Deste velho mundo transtornado,
Minado pelo egoísmo e arestas,
Mundo de falsos profetas,
Crenças e promessas,
Encontrar o reino da fantasia,
Da paz eterna e duradoura,
Livre das lutas e do ódio...
Se eu pudesse.
Voar e encontrar o reino da Poesia,
Que feliz seria eu,
Mas se eu pudesse,
Talvez a alegria e a felicidade
Seriam as minhas companheiras
E eu me tornaria o mais feliz
De todos os homens sobre a terra...


Olympiades G. Corrêa
- In Eterna Procura

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

MINIATURA



Pois eu gosto de crianças!
Já fui criança, também...
Não me lembro de o ter sido;
Mas só ver reproduzido
O que fui, sabe-me bem.

É como se de repente
A minha imagem mudasse
No cristal duma nascente,
E tudo o que sou voltasse
À pureza da semente.

Miguel Torga
In: Antologia Poética

domingo, 22 de setembro de 2013

FARRA DAS CORES



A Primavera se avizinha:
raízes e letras
exigem sua hora e tempo.

Caminho pelo jardim.

Espinhos do alfabeto,
Azaléias da alma insone.

Caminho entre seixos.

Busco o perfeito aquário,
Onze-horas e algas
orientam os peixes.

Pedras, nuvens e letras noir.
Tudo anuncia a Primavera:
discreta, Almíscar, esperta.

Em torno dos homens
entorna suas flores, perfume,
brisa, maresia e malícia.

Palavras azuis sobre o mar.
Sobre o marfim, música,
frases, orquídeas raras.

II

A Primavera caminha anônima
como homens e mulheres na rua,
afoita com tantas luas.

A Primavera espraia
graça entre samambaias,
escala buganvílias, assanha roseiras.

Espio, solene, sapos e flores;
espreito folhagens, livros antigos.

Refaço e traço veredas,
espelho versos contra o sol.

Entre seios de nuas mulheres,
abrigo meus olhos úmidos:

Vermelhos antúrios
em fins de madrugada.

Calculo frações primas e veras;
pernas, seios, trepadeiras e lírios.

Estrelas avessas da manhã,
casuarinas de sonhos.


III

A Primavera se avizinha:
enlouquece românticos e céticos,
com sua farra de cores;
seu derrame de felicidade.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"




sábado, 21 de setembro de 2013

JOSÉ SARAMAGO



"Não sei como o perceberão as crianças de agora, mas, naquelas 
épocas remotas, para as infâncias que fomos, o tempo aparecia-nos
como feito de uma espécie particular de horas, todas lentas,
arrastadas, intermináveis. Tiveram de passar alguns anos para
que começássemos a compreender, já sem remédio, que cada uma 
tinha apenas sessenta minutos, e, mais tarde ainda, teríamos
a certeza de que todos estes, sem excepção, acabavam ao fim 
de sessenta segundos..." 

José Saramago, 
in "As Pequenas Memórias"







sexta-feira, 20 de setembro de 2013

HAICAI



Nos ramos das árvores
a primavera passeia.
Desabrocha a vida.


Delores Pires,
in Estações

PRIMAVERA



A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu
 nome,nem acredite no calendário, nem possua jardim 
para recebê-la.
A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os 
habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda 
circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua
 vida para a primavera que chega.
 
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da 
terra,nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos
 sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de
 nascer,no espírito das flores.
 
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos
cor-de-rosa,como os palácios de Jeipur. Vozes novas de 
passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua
nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se
pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que
não se entende.
 
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno,
quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente,
e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
 
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as
árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os
humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores,
com vestidos bordados de flores,com os braços carregados de
flores, e vem dançar neste mundo cálido,de incessante luz.
 
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não
se esquece,e a terra maternalmente se enfeita para as
festas da sua perpetuação.
 
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia,
talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no
momento que quiserem,independentes deste ritmo, desta 
ordem, deste movimento do céu.E os pássaros serão outros,
com outros cantos e outros hábitos,— e os ouvidos que por
acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que,
outrora se entendeu e amou.
 
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos
atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão
beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam
nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda 
conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo
tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai
tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. 
Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo 
enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam
com suas roupas de chita multicor.
 
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser 
lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente,
ao que vem, na rotação da eternidade. 
Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
 
 
 
"Cecília Meireles,
in Obra em Prosa - Volume 1",

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

IMAGEM



És como um lírio alvo e franzino,
Nascido ao pôr-do-sol, à beira d'água,
Numa paisagem erma onde cantava um sino
A de nascer inconsolável mágoa...

A vida é amarga. O amor, um pobre gozo...
Hás de amar e sofrer incompreendido,
Triste lírio franzino, inquieto, ansioso,
Frágil e dolorido...


Manuel Bandeira
In A Cinza das Horas 


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

UM BRILHO QUASE FATIGADO



Anda uma claridade esquiva
a rondar-nos a casa.
De encontro às vidraças,
um brilho quase fatigado
vai abrindo a noite
à transparência do olhar.

Graça Pires
De A incidência da luz

HORÁRIO DO FIM



morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento


Mia Couto

terça-feira, 17 de setembro de 2013

DIFÍCIL ALQUIMIA



"Oitenta anos daqui a poucos dias.
Parece muito. É imenso, não é nada.
Ínfimo grão de pó no pó da estrada.
Raminho de Tristezas, de alegrias.

Crepusculares, doces alegrias.
Por vezes, dolorosa a caminhada,
mas sempre, após a noite, a madrugada.
Cantos de rouxinóis, de cotovias.

De tudo um pouco, assim é que é a vida
se a queremos inteira, bem vivida,
às vezes vendaval, outras bonança-

Bem e mal, noite e dia, riso e dor.
Difícil alquimia: espinho e flor,
mas sempre aberta a porta da esperança."


Fernanda de Castro
in, Poesia II

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

HÁ DIAS EM QUE TUDO É SEM REMÉDIO



"Há dias e que tudo é sem remédio,
em que tudo começa e acaba torto.
Uma folha caiu:
era um pássaro morto.

Neblina. Fim de tarde. Fim de Outono.
Nada nos fala, nos atrai, nos chama.
Choveu, parou a chuva,
ficou, porém, a lama.

Um banco no jardim. Árvores nuas,
um cisne velho, um tanque, água limosa,
nem a relva ficou,
quanto mais uma rosa.

Há barcos, há gaivotas sobre o rio,
e nas ruas há gente, há muitas casas.
Mais um dia perdido:
arrancaram-lhe as asas."


Fernanda de Castro,
In «Urgente»