domingo, 15 de setembro de 2013
'O AMOR'
O amor é frágil
O amor é humilde
O amor é claro
O amor é simples
O amor se vai
Foge e se perde
Subitamente
De repente
O amor é insólito
E inseguro
Surge e se esvai
É cinza
É ouro
É ardência, é fogo
E é nada
Augusto Frederico Schmidt
In Um século de poesia
'PRIMAVERA I'
VEREI A PRIMAVERA se encaminhar com o seu chapéu de
palha e o seu róseo vestido
Pelas ruas amigas, perto da casa em que mora.
Verei o teu rosto se tingir com a poeira dos ocasos
E tuas mãos morenas se balançarem tênues sob a água das cascatas
Longe das ingratidões, das lutas, dos equívocos de todo dia.
Os cisnes se confiarão como nos tempos calmos.
As violetas distantes sorrirão com as terras úmidas e grávidas.
Os pássaros, os ninhos vão cantar!
Verei chegar o teu vestido e te confundirei com a Primavera.
Seguirei com a Primavera pelas ruas.
Os circos vão pousar como pássaros enormes.
Primavera! Primavera!
O amor vai renascer nos campos
E as amadas dormirão cobertas pelos azuis sem fim.
Augusto Frederico Schmidt
In: UM SÉCULO DE POESIA
sábado, 14 de setembro de 2013
EU!
O homem de gênio diz: eu sou.
O poderoso afirma: eu posso.
O rico diz: eu tenho.
E o ambicioso: eu quero.
Eu ! Eu ! Eu !
E afinal
esses que vivem sós,
completamente sós,
quanto dariam para como tu,
ou como eu,
dizerem simplesmente: nós.
Fernanda de Castro
em Trinta e Nove Poemas
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
OS OLHOS DAS CRIANÇAS
Atrás dos muros altos com garrafas partidas
bem atrás das grades de silêncio imposto
as crianças de olhos de espanto e de medo transidas
as crianças vendidas alugadas perseguidas
olham os poetas com lágrimas no rosto.
Olham os poetas as crianças das vielas
mas não pedem cançonetas mas não pedem baladas
o que elas pedem é que gritemos por elas
as crianças sem livros sem ternura sem janelas
as crianças dos versos que são como pedradas.
Sidónio Muralha
In ‘Os Olhos das Crianças’
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
SOMOS INOCENTES
A parte dura desta humana lida
é dizer sim na hora do não,
escolher mal entre silêncio e grito,
entre a noite e a explosão
do dia.
Ceder quando devíamos negar, dizer
não em lugar de afirmar, partir
quando era bom amar, fechar-se
em vez de resgatar
a vida.
Sermos tão incertos e indecisos,
perdendo o trem, a hora,
o agora: mas a gente
não sabia.
Lya Luft
In Para não dizer adeus.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
MATURIDADE
Caminho entre as minhas perdas
que são insetos escuros,
e os meus ganhos: douradas borboletas.
A luz de uma paixão, o dedo da morte,
o grave pincel da solidão
desenharam meus contornos, firmaram
meu chão.
Que liberdade, não precisar pensar;
que alívio não ter de administrar
minha vida:
apenas andar, e olhar,
apenas ouvir essas vozes
que vêm de longe, passam por mim
e não me dão importância.
Porque no vasto oceano,
a minha eventual desarmonia
é só uma gota
desafinada.
Mais nada.
Lya Luft
In Para Não Dizer Adeus
CANÇÃO EM ROTA DE VÔO
" Antes os dias eram apenas dias :
perdas e ganhos , tarefas cumpridas ,
solidão e algumas alegrias .
Agora , objetos familiares
ganham contornos de sonho ,
palavras são aves do paraíso ,
o cotidiano virou do avesso
e se tornou milagre .
Quero um novo amor , tão leve
como se dançasse numa praia uma menina ."
Lya Luft ,"in
Secreta Mirada
O CONVITE
Não sou areia
onde se desenha um para de asas
ou grades diante de uma janela.
não sou apenas a pedra que rola
na marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou mistério.
A quatro mãos escrevemos o roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos a sério.
Lya Luft
IN "Perdas & Ganhos"
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
AFERIDOR
"Tenho um aferidor de Encantamentos.
A uma açucena encostada no rosto de uma criança
o meu aferidor deu nota dez.
A uma fuga de Bach que vi nos olhos de uma criatura
o aferidor deu nota vinte.
Mas a um homem sozinho no fim de uma estrada
sentado nas pedras de suas próprias ruínas
o meu aferidor deu
d - e - s - e - n - c - a - n - t - o
(O mundo é sortido, Senhor, como dizia meu pai.)"
Manoel de Barros
CATILINA
Eu sou o solitário e nunca minto.
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.
De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu - coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.
Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.
E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pra além do nó de angústia mais convulso.
Sophia de Mello Breyner Andresen
In Poemas escolhidos
A DOR TEM UM ELEMENTO DE VAZIO
A Dor - tem um Elemento de Vazio -
Não se consegue lembrar
De quando começou - ou se houve
Um tempo em que não existiu -
Não tem Futuro - para lá de si própria -
O seu Infinito contém
O seu Passado - iluminado para aperceber
Novas Épocas - de Dor.
Emily Dickinson,
in "Poemas e Cartas"
Tradução de Nuno Júdice
MANOEL DE BARROS
E, aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.
Manoel de Barros
in Poesia Completa
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.
Manoel de Barros
in Poesia Completa
domingo, 8 de setembro de 2013
OUTRO LUGAR
A verdade que pertence aos gestos
Ao menor dos gestos
Antes de chegarem palavras que nos socorram
Às vezes é a verdade de um amor
Escassos propósitos as palavras
Para o abalo de terra
Em que se tornou de repente
A nossa vida
Um sofrimento não nos larga
A manhã parece-se estranhamente
Com outro lugar
Saberemos então que significam
Os intervalos do silêncio
Onde o silêncio é maior
José Tolentino de Mendonça
in A noite abre meus olhos, 2006
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
OS TEMPOS SÃO TRÊS...
.
Os tempos são três:
presente do passado,
presente do presente
e presente do futuro.
Esses três tempos estão na minha alma
e não os vejo em outro lugar.
O presente do passado é a memória;
o presente do presente, a percepção imediata;
o presente do futuro, a espera.
Santo Agostinho
IN As Confissões
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
MELHORIA
Roubaram-me o medo.
Pintaram-no de cor-de-rosa
e purpurina.
Deram-lhe cetins de bailarina
e babado carmim de melindrosa.
Perfumada a essência em alecrim,
diluiu-se todo em transparência.
Entre sedas e doces rebuçados
evapora-se a tônica do medo
em irônica massa de brinquedo.
Flora Figueiredo,
in Florescência
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
CAIO FERNANDO ABREU
Fico pensando se viver não será sinônimo de perguntar.
A gente se debate, busca, segura o fato com duas mãos
sedentas e pensa: Achei! Achei!
Mas ele escorrega se espatifa em mil pedaços, como um
vaso de barro coberto apenas por uma leve camada de
louça.A gente fica só, outra vez, e tem que começar
do nada, correndo loucamente em busca dos outros vasos
que vê. Cada um que surge parece o último, mas todos são de
barro, quebram-se antes que possamos reformular as
perguntas.E começamos de novo, mais uma vez, dia após
dia, ano após ano.Um dia a gente chega à frente do
espelho e descobre: Envelheci!Então a busca termina.
As perguntas colam no fundo da garganta, e vem a morte.
Que talvez seja a grande resposta.
A única.
Caio Fernando Abreu
em Limite Branco
terça-feira, 3 de setembro de 2013
OS NASCIMENTOS
Nunca nos recordaremos da nossa morte.
Tão pacientes famos
para sermos
que anotámos
os números, os dias,
os anos e os meses,
os cabelos ,as bocas que beijámos,
e aquele minuto antes de morrer
deixá-lo-emos sem anotação:
damo-lo a outros de lembrança
ou simplesmente à água,
à água, ao ar, ao tempo.
E de nascer tão-pouco
guardámos a memória,
ainda que importante e jovial
tenha sido a nossa vida:
e agora não te lembras sequer
do mais pequeno pormenor,
não guardaste sequer um ramo
da primeira luz.
Sabe-se apenas que nascemos.
Sabe-se que na sala
ou no bosque
ou no palheiro do bairro piscatório
ou nos canaviais rumorejantes
há um estranho e profundo silêncio,
um minuto solene de madeira
e uma mulher que vai parir.
Sabe-se apenas que nascemos
Mas da profunda agitação
de não ser para existir, para ter mãos,
para ver, para ter olhos,
para comer e chorar e despojar-se
e amar, amar, e sofrer, sofrer,
daquela transição ou calafrio
do conteúdo elétrico que um corpo
toma para si como se fora uma taça viva,
e daquela mulher desabitada,
a mãe que ali fica com seu sangue
e a sua dilacerada plenitude,
com o seu fim e princípio, e a desordem
que altera o pulso, o chão, os cobertores,
até que tudo se recolhe e mais
um nó é dado com o fio da vida,
nada, não ficou nada na tua memória
do mar bravio que ergueu uma onda
e derrubou da árvore uma maçã sombria.
Não tens mais recordações que a tua vida.
Pablo Neruda
In Pleno Poderes
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
BERNARDO SOARES
(…)
.
Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre,
pois, não sendo mais, nem querendo ser mais,
que um espectador de mim mesmo,
tenho que ter o melhor espectáculo que posso.
Assim me construo a ouro e sedas,
em salas supostas, palco falso, cenário antigo,
sonho criado entre jogos de luzes brandas
e músicas invisíveis.
.
(…)
.
Bernardo Soares
In Livro do Desassossego
domingo, 1 de setembro de 2013
O SEMPRE AMOR
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
sou de pedra-sabão.
Alegre ou triste,
amor é coisa que mais quero.
Adélia Prado
In Bagagem
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
CITAÇÃO
Depois de estar cansado de procurar
Aprendi a encontrar.
Depois de um vento me ter feito frente
Navego com todos os ventos.
Friedrich Nietzsche
in "A Gaia Ciência".
terça-feira, 27 de agosto de 2013
PERFEIÇÃO
Pende curvo o firmamento,
compacto azul sobre o dia.
Eis o arredondamento
do esplendor: é meio-dia.
Tudo é cúpula. Central
sem querer, a rosa, feita
cativa do sol no zênite.
E dá-se tanto o presente
que o pé caminhante sente
a inteireza do planeta.
Jorge Guillén
Trad.:Izacyl Guimarães Ferreira
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
ORAÇÃO DA NOITE
Trabalhei, sem revoltas nem cansaços,
No infecundo amargor da solitude:
As dores, - embalei-as nos meus braços,
Como alguém que embalasse a juventude...
Acendi luzes, desdobrando espaços,
Aos olhos sem bondade ou sem virtude;
Consolei mágoas, tédios e fracassos
E fiz, a todos, todo o bem que pude!
Que o sonho deite bênçãos de ramagens
E névoas soltas de distância e ausência
Na minha alma, que nunca foi feliz.
Escondendo-me as tácitas voragens
De males que me deram, sem consciência.
Pelos míseros bens que sempre fiz!...
Cecília Meireles,
in Nunca Mais e Poemas dos Poemas
domingo, 25 de agosto de 2013
CITAÇÃO
“Quem Sai Sempre Chega. E quem foi, conta para quem ficou,
que o importante é viajar, seja a bordo de uma jangada ou
num sonho colorido.
Quem é mais feliz? Quem canta uma musica ou quem escuta?
Assim é viajar. Não importa se você viajou fisicamente ou
apenas com sua mente.O importante é que você tenha
compartilhado desta louca e admirável emoção de sair do
lugar comum e passear junto com os eternos viajantes que
ganharam asas, mas que realmente preferem viajar levando
consigo toda sua imaginação.”
(J.Ruy)
sábado, 24 de agosto de 2013
EU, NO TEMPO
Meu espírito caminha irreversivelmente para a irrealidade de tudo.
O universo para, de repente, à espera de minha infância.
Tudo repousa em seu lugar.
O tempo, no relógio.
O silencio, na pedra.
Jogo as máscaras fora e me identifico comigo
que me esperava há séculos.
Emílio Moura
In: Itinerário Poético
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
UM SORRISO
Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moutas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.
A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto…
Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos…
Depois o céu… e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos…
A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada…
Manuel Bandeira
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
VEM,PRIMAVERA
Vai embora ,inverno,
leva contigo o frio,
a solidão, a saudade
e deixa vir a primavera
vestir a terra de flores,
de verde, vida e cores.
Vem,primavera:
contigo renasce a vida,
brota de novo a poesia,
renova-se a esperança.
Vem,primavera:
lança sobre nós o sol,
raio de luz,força e cor,
essência de vida de nós,
pequenos filhos da terra.
Vem primavera:
abra sorrisos,corações,
botões e céu.
A festa da vida recomeça
e eu te festejo,
primavera.
Luiz Carlos Amorim
In Emoção não tem idioma
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
COMO SE O MAR SE APARTASSE
Como se o mar se apartasse
e revelasse outro mar,
e esse mar outro mar, e os três
fossem só a presunção
de mares consecutivos
despossuídos de praias...
E mares à margem de mares a vir...
Assim a Eternidade.
Emily Dickinson
Tradução de Paulo Mendes Campos
terça-feira, 20 de agosto de 2013
AGORA...
[...]
"Agora,
o remédio é partir discretamente,
sem palavras,
sem lágrimas,
sem gestos.
De que servem lamentos e protestos,
contra o destino?"...
Miguel Torga,
in "Diário XIII
in "Diário XIII
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
FUGA
Vento que passas, leva-me contigo
Sou poeira também, folha de outono.
Rês tresmalhada que não quer abrigo
No calor do redil de nenhum dono.
Leva-me, e livre deixa-me cair
No deserto de todas as lembranças,
Onde eu possa dormir
Como no limbo dormem as crianças.
Miguel Torga
In: Antologia Poética
sábado, 17 de agosto de 2013
ABANDONO
Marcados por todas as violências
eles afiam as pontas dos dedos
nos subúrbios da noite
para que nenhum medo os surpreenda.
Eles vagueiam por becos
que cheiram a fogo e a sangue
armados de raiva,
privados de sonhos,
cobertos de abandono.
São meninos da rua,
ou pássaros em fuga
desafiando a própria solidão.
Graça Pires
De Caderno de Significados
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
CAIO FERNANDO ABREU
"Você lê e sofre.
Você lê e ri.
Você lê e engasga.
Você lê e tem arrepios.
Você lê , e sua vida vai se
misturando no que está sendo lido."
Caio Fernando Abreu
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
TUDO ME É UMA DANÇA...
Tudo me é uma dança em que procuro
A posição ideal,
Seguindo o fio dum sonhar obscuro
Onde invento o real.
À minha volta sinto naufragar
Tantos gestos perdidos
Mas a alma, dispersa nos sentidos,
Sobe os degraus do ar…
Sophia de Mello Breyner Andresen
in POESIA,
terça-feira, 13 de agosto de 2013
SOBRE O CAMINHO
Nada
nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra
Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença
Não colecciones dejectos o teu destino és tu
Despe-te
não há outro caminho
Eugénio de Andrade,
in "Véspera da Água"
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
COEXISTÊNCIA
Desgastou as arestas pessoais,
rebaixou a cordilheira interior,
no esforço de conviver.
Tomou o denominador comum.
Incorporou-se à fórmula geral.
Que olhar tão cansado de existir!
Helena Kolody,
in Viagem no Espelho
sábado, 10 de agosto de 2013
AS MÃOS DE MEU PAI
As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
- como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre
cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza
que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços
da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los
contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das
tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura das tuas mãos
nodosas…
essa chama de vida – que transcende a própria vida
…e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.
- Mario Quintana,
in: Esconderijos do tempo
SOLIDÃO
Quedamos sempre sozinhos
Em nossas horas maiores
A dor, veneno latente,
Corrói-nos a alma em segredo.
A mais gloriosa alegria
Floresce na solidão.
Helena Kolody
In: Correnteza
MINHA ALMA TEM O PESO DA LUZ...
"Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita.
Tem o peso de uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar.
Pesa como pesa uma ausência.
E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."
Clarice Lispector,
in "O último bilhete escrito no hospital da Lagoa"
Rio de Janeiro, 7/12/1977
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
SEMEIO SÓIS...
Semeio sóis
e sons
na terra viva
afundo os
pés
no chão: semeio e
passo.
Não me importa a colheita.
Orides Fontela,
in Trevo
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
ARTHUR RIMBAUD
Estendi cordas de campanário a campanário;
grinaldas de janela a janela;
correntes de ouro de estrela a estrela,
e danço.
Arthur Rimbaud
terça-feira, 6 de agosto de 2013
OS SONHOS DAS LAGARTAS
As lagartas não podem acreditar na lenda das borboletas
-tão antiga entre o seu rastejante e esforçado povo...
mas sua felicidade consiste em relembrar, às vezes,
o absurdo e maravilha desse velho sonho:
o de se transformarem, um dia, em borboletas.
Mario Quintana ,
in Poemas para a Infância
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
NUNO JÚDICE
Todo o poema começa de manhã, com o sol. Mesmo
que o poema não esteja à vista (isto é, céu de chuva)
o poema é o que explica tudo, o que dá luz
à terra, ao céu, e com nuvens à mistura - a luz incomoda
quando é excessiva. Depois, o poema sobe
com as névoas que o dia arrasta; mete-se pelas copas das
árvores, canta com os pássaros e corre com os ribeiros
que vêm não se sabe de onde e vão para onde
não se sabe. O poema conta como tudo é feito:
menos ele próprio, que começa por um acaso cinzento,
como esta manhã, e acaba, também por acaso,
com o sol a querer romper.
Nuno Júdice,
in "Poesia Reunida"
sábado, 3 de agosto de 2013
WALT WHITMAN
"A pé e de coração leve enveredo pela estrada aberta
Saudável, livre, o mundo à minha frente
À minha frente o longo atalho pardo levando-me aonde eu queira
Daqui em diante, não peço boa-sorte.
Boa-sorte sou eu...”
Walt Whitman
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
A ÚLTIMA PINCELADA
Viveu em tempos um pintor
que nunca conseguia acabar de pintar uma
ave, fosse ela uma cegonha ou uma garça.
Quando se preparava para dar
a última pincelada, ela levantava vôo.
E o pintor ficava muito tempo ainda a persegui-la
com o pincel no céu
azul...
Jorge de Sousa Braga,
in O Poeta Nu
in O Poeta Nu
quarta-feira, 31 de julho de 2013
EUGENIO MONTALE
"Há quem goste de
beber a vida gota a gota ou a jorros;
mas a garrafa é a mesma, não se pode
enchê-la quando se esvazia."
Eugenio Montale
terça-feira, 30 de julho de 2013
TUDO O QUE FAZEMOS É MARCADO PELA FRAGILIDADE
"Tudo o que fazemos é marcado pela fragilidade da nossa condição.
Somos esta coisa humana,
provisória,
incerta,
inacabada,
imperfeita.
Mas somos também poeira enamorada.
Há em nós alguma coisa de maior.
Mesmo no erro.
No erro podemos encontrar um caminho."
José Tolentino de Mendonça
segunda-feira, 29 de julho de 2013
PEDAÇOS DE MIM
Trago lembranças
de coisas que não voltam:
um sorriso, um abraço, um carinho
- a cura que sorriu meu caminho.
O pássaro que canta
e meu cão que passa
não são mais os mesmos
- por onde andas ó meu esplendor?
- o sino da capela, onde eu acertava as horas,
já não me toca mais...!
Warllem Silva
In: Infinitude da Graça
domingo, 28 de julho de 2013
IRMÃO, IRMÃOS
Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros sozinhos.
A linguagem sobe escadas, do mais moço,
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
ao mísero caçula.
São seis ou são seiscentas
distâncias que se cruzam, se dilatam
no gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
os mesmos copos,
o mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?
São estranhos próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objectos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.
Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?
Carlos Drummond de Andrade,
in 'Boitempo'
sábado, 27 de julho de 2013
sexta-feira, 26 de julho de 2013
A ARTE DE SER AVÓ
(...)
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias
da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino.
Completamente grátis - nisso é que está a maravilha. Sem dores,
sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de
saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida.
Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que
se lhe é "devolvido". E o espantoso é que todos lhe reconhecem o
seu direito sobre ele, ou pelo menos o seu direito de o amar com
extravagância; ao contrário, causaria escândalo ou decepção, se você
não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor que há anos se
acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho a certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar
de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos,
profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico,
deixado pelos arroubos juvenis.
Rachel de Queiroz
quinta-feira, 25 de julho de 2013
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