domingo, 8 de abril de 2012

PAUTA



Ao amanhecer
nas pautas do fio de luz
notas de andorinhas...

Delores Pires,
in O Livro dos haicais



DA CERTIDÃO DE NASCER


Nasci onde?
Nasci onde a geografia se faz de sentimento
Ali nasço
Ali nasço ainda.
Cada manhã.
Em cada manhã de medo.
Arremedo.
Degredo a degredo.
Em cada impulso, incompetência.
Na eterna e suave ironia do destino
de mais sentir que saber.
De saber
apenas sei
de quantas palavras
se faz a canoa de afetos.
Embora caminhe torto
por sonhos retos.
Muito aprendi
da palavra engolida em seco.
E da palavra abatida
por palavras de equívoco
e sutis alvenarias de cinismo.
Permaneço aqui
mesmo assim.
Nasço onde a geografia se faz de sentimento.
Entre princípio e fim de mundo.
Aurora a aurora.
Segundo a segundo.

Lindolf Bell


quarta-feira, 4 de abril de 2012

SILÊNCIO E SOLIDÃO




No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.


Sophia de Mello Breyner Andresen






FRAGMENTO


"...Descobri a doçura de ter atrás de mim um longo passado.
Não tenho o tempo de me narrar, mas às vezes, de improviso,
eu o vejo em transparência ao fundo do momento presente:
ele lhe dá sua cor, sua luz,
como as rochas e as areias se refletem na cintilação do mar.
Antigamente, eu me embalava com projetos, com promessas.
Agora, a sombra dos dias mortos aveluda-me emoções e prazeres..."

Simone de Beauvoir
in “A mulher desiludida”

CANTO

O pássaro cantou
e os ramos vergaram
sob o peso do fruto
e o fruto cantou
sob o peso do pássaro
e o canto pousou
sobre o fruto
e os ramos
cantaram.

Dora Ferreira da Silva

POUSAS A CABEÇA...



Pousas a cabeça num travesseiro que ficou na infância.
Pedes a alguém que acenda a noite.

O ofegar de um paraíso onde caem uma por uma as lendas...

Houve ontem? haverá amanhã? - eis renascem de teus pés
rotos sapatos, desencantada música, um ou outro arrepio
de mão insensata colhendo flores que não desabrocham nunca.


Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do Tempo

terça-feira, 3 de abril de 2012

AQUI ESTÁ A MINHA VIDA


Aqui está minha vida - esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz - esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui está minha dor - este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança - este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro esquecimento.


Cecília Meireles,
in Retrato Natural

QUE É VOAR?




Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não-vivência.
E isso é voar?
Não.

Voar é humano
é transitório, momentâneo...
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.


Ana Hatherly

ATRASO PONTUAL




Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relógio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bençãos e desgraças
vem sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?

Paulo Leminski,
in Distraídos Venceremos 


PRESERVAÇÃO





Chama-se liberdade o bem que sentes,
Águia que pairas sobre as serranias;
Chamam-se tiranias
Os acenos que o mundo
Cá de baixo faz;
Não desças do teu céu de solidão,
Pomba da verdadeira paz,
Imagem de nenhuma servidão!

Miguel Torga,
In: Antologia Poética




FRAGMENTO



“Então, que seja doce. Repito todas as manhãs,
ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o
cinza dos dias, bem assim: que seja doce.
Quando há sol, e esse sol bate na minha cara
amassada do sono ou da insônia, contemplando
as partículas de poeira soltas no ar, feito um
pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte:
que seja doce que seja doce que seja doce e
assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse
o que deverá ser doce, talvez não saiba responder.
Tudo é tão vago como se fosse nada.”




Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 2 de abril de 2012

LIVROS


Todos os livros do mundo
felicidade alguma hão de trazer-te,
pois te remetem misteriosamente
em retorno a ti mesmo.

Aqui tens tudo de que necessitas:
sol,estrelas e lua
- pois a luz que querias
em ti mesmo reside.

Sabedoria, que tanto buscavas
em bibliotecas,
em cada uma destas folhas brilha agora:
e é tua, toda.

Hermann Hesse
In Andares

HÁ UM INSTANTE


Há um instante em que a memória é estreita
para conter o mar, o sal, os navios,
a penumbra branca das gaivotas.

Um instante de nudez perfeita.


Albano Martins
in 'Em tempo e memória'

SER CRIANÇA



...botões de rosa se abrindo
antes do amanhecer

um esboçar de sorrisos
num carrossel de risos!

...é dar as mãos
a outras mãos
aprendendo
a ser irmão!

...das bocas de fontes puras,
não descem águas escuras!

...pela esperança do amor
só pede beijos e abraços
para o seu mundo que é cor!

Alvina Nunes Tzovenos
In Sonhos e Vivência

DESEJO


Quero asas de borboleta azul
para que eu encontre
o caminho do vento,
o caminho da noite,
a janela do tempo,
o caminho de mim.

Roseana Murray

SOU LIVRE...



"Sou livre para o silêncio das formas e das cores."

Manoel de Barros

SCRIPT





Não gosto do papel que me foi destinado.
Respeito a seda e o brocado,
seu brilho,
sua textura,
seu fio dourado.
Subo nos saltos,
caminho nos mais altos cumes
da linhagem.
Visto a roupagem,
seguro o cetro
e arrasto os metros de nobreza pelo salão.
Só que prefiro o pé na terra,
o mar,
a selva,
a serra.
Os meus andrajos feitos de linho e algodão.

Flora Figueiredo

REQUIEM





Há mortos que demoram a morrer
é inútil sepultá-los eles voltam
demoram-se por vezes numa sombra
num braço de cadeira ou no rebordo partido
de uma chávena. Ou então escondem-se
em pequenas caixas sobre as mesas.
Há objectos que ficam cheios deles
são como o resto transmudado dos ausentes
sua marca na casa e no efémero.
Por isso custa tanto retirar o prato e o talher
arrumar os fatos desfazer
a cama. Há mortos
que nunca mais se vão embora.
Há mortos que não param de doer.

Manuel Alegre

HOJE À NOITE




Lua alta
Faltei
E ninguém sentiu
A minha falta

Paulo Leminski,
in Toda Poesia

domingo, 1 de abril de 2012

REMISSÃO


Naquele dia fazia um azul tão límpido, meu Deus,
que eu me sentia perdoado pra sempre não sei de quê.

Mario Quintana
in: Caderno H

sábado, 31 de março de 2012

BUGANVÍLIAS


Elas sobem paredes,
rondam portões,
derrubam cores aos borbotões.
Litigantes,
empurra-empurram-se
Buganvílias
em vicejante briga de família.


Flora Figueiredo

SÃO ESTAS AS CORES


Se a alguém tens
de agradecer, agradece
primeiro à vida.Por isto,
quanto mais não seja: por teres
nascido de pé e de pé
resistires aos temporais
como as árvores
de raízes fundas.Como a elas,
só te arrancarão à força.Podem,
então, encher-te a boca de terra e os olhos
de sal. São estas
as cores da vergonha.

Albano Martins
In Escrito a Vermelho

EXPLICAÇÃO DE POESIA SEM NINGUÉM PEDIR


Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.

Adélia Prado

sexta-feira, 30 de março de 2012

DA MÚSICA


A música derrama-se
no corpo terroso
da palavra.
Inclina-se
no mundo em mutação
do poema.

A música traz na bagagem
a memória do sangue;
o caminho do sol:
Lume e cume
de palavras polidas.

A música rompe um rio de lava
por si mesmo criado.
Lágrima endurecida
onde cabem o mar
e a morte.

Casimiro de Brito,

in "Canto Adolescente"

A HÓSPEDE

(foto by Simone W. Grande)

Não precisas bater quando chegares.
Toma a chave de ferro que encontrares
sobre o pilar, ao lado da cancela,
e abre com ela
a porta baixa, antiga e silenciosa.
Entra. Aí tens a poltrona, o livro, a rosa,
o cântaro de barro e o pão de trigo.
O cão amigo
pousará nos teus joelhos a cabeça.
Deixa que a noite, vagarosa, desça.
Cheiram à relva e sol, na arca e nos quartos,
os linhos fartos,
e cheira a lar o azeite da candeia.
Dorme. Sonha. Desperta. Da colméia
nasce a manhã de mel contra a janela.
Fecha a cancela
e vai. Há sol nos frutos dos pomares.
Não olhes para trás quando tomares
o caminho sonâmbulo que desce.
Caminha - e esquece.

Guilherme de Almeida

ARAUCÁRIA


Nasci forte e altiva,
Solitária.
Ascendo em linha reta
- Uma coluna verde-escura
No verde cambiante da campina.
Estendo braços hirtos e serenos

Não há na minha fronte
Nem veludos quentes de folhas
Nem risos vermelhos de flores,
Nem vinhos estoantes de perfumes.
Só há o odor agreste da resina
E o sabor primitivo dos frutos.

Espalmo a taça verde no infinito.
Embalo o sono dos ninhos
Ocultos em meus espinhos,
Na silente nudez do meu isolamento

Helena Kolody

CITAÇÃO


"Se depender de mim, nunca ficarei
plenamente maduro nem nas idéias,
nem no estilo,mas sempre verde,
incompleto, experimental".

Gilberto Freyre

O QUE ME DÓI...


O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão ...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

Fernando Pessoa
in Cancioneiro

quinta-feira, 29 de março de 2012

ALBA


Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não tem pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
de leste - o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.


Geir Campos

E AO ANOITECER



e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele de uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto

ANIVERSÁRIO DE CURITIBA - 319 anos

foto by Daniel Caron

"Curitiba é prosa em forma de poesia.

Aqui não há mar nem montanhas.

A beleza concreta de suas esquinas é mais sutil,

cor viva que brota de seu povo"


Daniel Caron

CURITIBA



Cidade, sorriso.
Em cada esquina uma rima.
Canção, paraìso...

Delores Pires

CURITIBA


Atrás do lençol de nuvens
Curitiba
meu exercício de sonhos.


Edival Perrini
in armazém de ecos e achados


INVERNO



Chegou junho...

E Curitiba vestiu-se toda de branco
e apertou o seio túmido,
que cheira a malva, em rendas alvas,
e pôs no cabelo a estrela da manhã
pensando que o sol claro
era um príncipe louro e jovem
que vinha
todo coberto de ouro,
para pedir-lhe a mão...
Oh, logo à noite, ela porá, sem dúvida,
o seu colar de fogueira de São João...

Tasso da Silveira,
in Canções a Curitiba
& outros poemas

GEADA





Nas manhãs de frio
a paisagem, tiritando,
se veste de branco.

Delores Pires,
in O Livro dos Haicais

quarta-feira, 28 de março de 2012

MAGNIFICAT




Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará comoJosué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri dormindo minha alma!
Sorri , minha alma, será dia!

Álvaro de Campos

ENTRE PARTIR E FICAR



Entre partir e ficar hesita o dia,
enamorado de sua transparência.

A tarde circular é uma baía:
em seu quieto vai e vem se move o mundo.

Tudo é visível e tudo é ilusório,
tudo está perto e tudo é intocável.

Os papéis, o livro, o vaso, o lápis
repousam à sombra de seus nomes.

Pulsar do tempo que em minha têmpora repete
a mesma e insistente sílaba de sangue.

A luz faz do muro indiferente
Um espectral teatro de reflexos.

No centro de um olho me descubro;
Não me vê, não me vejo em seu olhar.

Dissipa-se o instante. Sem mover-me,
eu permaneço e parto: sou uma pausa.

Octavio Paz

PERDÃO


Aqui me tens, meu Deus, em confissão.
Não roubei. Não matei. Não caluniei.
Mas nem sempre segui a tua lei,
nem sempre fui a irmã do meu irmão.

Não recusei aos outros o meu pão.
Amor, algumas vezes, recusei.
Mas por tudo o que dei e o que não dei,
eu te peço, meu Deus, o meu perdão.

Perdão para os meus pecados
e para os meus pecados inocentes,
para o mal que já fiz e ainda fizer ...

Perdão para esta culpa original,
para este longo e complicado mal:
o crime sem perdão de ser mulher.


Fernanda de Castro



segunda-feira, 26 de março de 2012

PLATEIA


Não sei quantos seremos, mas que importa?!
um só que fosse e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.


Miguel Torga
in Câmara Ardente

A VERDADEIRA ARTE DE VIAJAR



A gente sempre deve sair à rua como quem foge
de casa,
como se estivessem abertos diante de nós todos
os caminhos do mundo...
Não importa que os compromissos,as obrigações,
estejam logo ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o
coração cantando!

Mario Quintana,
in a Cor do Invisível

MEUS AMIGOS...


meus amigos
quando me dão a mão
sempre deixam
outra coisa
presença
olhar
lembrança calor
meus amigos
quando me dão
deixam na minha
a sua mão

Paulo Leminski
in Melhores Poemas

PÉTALAS



Violetas derramam luz roxa
no parapeito branco da janela.
Toco em suas folhas de veludo escuro
e por um momento
minhas mãos se tornam pétalas

Roseana Murray,
in Todas as Cores Dentro do Branco

domingo, 25 de março de 2012

MOMENTO



O vôo dos pássaros prolonga
a beleza das tardes.
E há, em nosso olhar,
um vasto dealbar.
Tudo, em grandeza, torna-se possível.
O visível nasce do invisível.
As nuvens acenam, de repente.
A aquilo que emergiu
é o emergente.

Artur Eduardo Benevides

sábado, 24 de março de 2012

XXVII


Vive-se uma só vez.
Por cem anos, um mês
ou apenas um dia...
No insípido entremez,
com mágoa ou alegria,
vive-se uma só vez.

Onestaldo de Pennafort,
in Poesia

EXPLICAÇÃO DA ETERNIDADE




devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgávamos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
e idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.


José Luís Peixoto,
in "Uma Casa na Escuridão"

sexta-feira, 23 de março de 2012

FRAGMENTO


"...era ainda jovem demais para saber que
a memória do coração elimina as más lembranças
e enaltece as boas e que graças a este artifício
conseguimos suportar o passado” .

Gabriel Garcia Marquez
in Amor nos tempos do Cólera

GATO QUE BRINCAS NA RUA


Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Tu tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.


Fernando Pessoa

FRAGMENTO


"A gente já espera ficar triste no outono
Uma parte da gente morre a cada ano,
quando as folhas caem das árvores e seus
galhos ficam nus, batidos pelo vento e a
luz torna-se fria, invernal.
Mas sabíamos que haveria sempre outra
primavera..."

Ernest Hemingway
in Paris é uma Festa

O ESPIRITO DO OUTONO


Será
a embriaguez? O vento matinal
arrastando folhas
raparigas canções?
O sopro frio das estrelas?
Será a beleza,
o espírito do outono? Há um limite
para o homem, um limite
para suportar o peso do mundo.
Da beleza, da bárbara
orgulhosa beleza, quem sabe defender-se
sem medo do coração lhe rebentar?


Eugénio de Andrade,
In ‘O sal da língua’

CECÍLIA MEIRELES



"...Hoje eu quereria ler uns livros que não falam de gente, mas só de bichos,
de plantas, de pedras: um livro que me levasse por essas solidões da Natureza,
sem vozes humanas, sem discursos, boatos, mentiras, calúnias, falsidades,
elogios, celebrações... "


Cecília Meireles
in Compensação