segunda-feira, 8 de julho de 2013

AGORA AS AVES VOLTAM



Agora as aves voltam,
são nos ramos altos a matéria 
mais próxima dos anjos 
– ousarei eu tocar-lhes, 
fazer delas o poema? 

Eugénio de Andrade,
In O Peso da Sombra





domingo, 7 de julho de 2013

AS PALAVRAS




As palavras
As palavras são boas.
As palavras são más.
As palavras ofendem.
As palavras pedem desculpa.
As palavras queimam.
As palavras acariciam.
As palavras são dadas, trocadas,
oferecidas, vendidas e inventadas.
As palavras estão ausentes.
Algumas palavras sugam-nos, não nos largam:
são como carraças: vêm nos livros, nos jornais,
nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes,
nas cartas e nos cartazes.
As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam,
impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas.
O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo
de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras
que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas.
Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam,
julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras. (...)
(...)

Daí que seja urgente moldar
as palavras para que a sementeira se mude em
seara. Daí que as palavras sejam instrumento
de morte - ou de salvação. Daí que a palavra só valha
o que valer o silêncio do ato.
Há também o silêncio. O silêncio, por definição,
é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina,
observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo.
O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser,
a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele
as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as
más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão."

José Saramago
in "As palavras"

sábado, 6 de julho de 2013

FABRICIO CARPINEJAR



"Os amigos são próprios de fases:
da rua, do Ensino Fundamental, do Ensino Médio,
da faculdade, do futebol, da poesia, do emprego,
da dança, dos cursos de inglês, da capoeira,
da academia, do blog. Significativos em cada etapa
de formação. Não estão em nossa frente diariamente,
mas estão em nossa personalidade, determinando,
de modo imperceptível, as nossas atitudes.

Fabrício Carpinejar


A CARÊNCIA




Não sei sobre pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.

Alejandra Pizarnik
In "De Las Aventuras Perdidas


sexta-feira, 5 de julho de 2013

CITAÇÃO



 " A literatura, porque se dirige ao coração, 
à inteligência, à imaginação e até aos sentidos,
toma o homem por todos os lados; toca por isso
em todos os interesses, todas as ideias, todos
os sentimentos; influi no indivíduo como na 
sociedade, na família como na praça pública;
dispõe os espíritos; determina certas correntes
de opinião; combate ou abre caminho a certas
tendências; e não é muito dizer que é ela quem
prepara o berço aonde se há-de receber esse
misterioso filho do tempo- o futuro. "

Antero de Quental,
in Prosas da Época de Coimbra

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O MAR DOS MEUS OLHOS



Há mulheres que trazem o mar nos olhos 
Não pela cor 
Mas pela vastidão da alma 
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos 
Ficam para além do tempo 
Como se a maré nunca as levasse 
Da praia onde foram felizes 
Há mulheres que trazem o mar nos olhos 
pela grandeza da imensidão da alma 
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens... 
Há mulheres que são maré em noites de tardes 
e calma.


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in Obra Poética

terça-feira, 2 de julho de 2013

JOÃO GUIMARÃES ROSA



Fiz o caminho. 
Sem tomar direção, sem saber do caminho. 
Pé por pé, pé por si. 
Deixei que o caminho me escolha. 
Na travessia, só silêncio. 
O nenhuns-nada. 
O alegre, mesmo, era a gente viver
devagarinho, miudinho, não se 
importando demais com coisa nenhuma. 
Nessa estrada, salvou-me a palavra. 

João Guimarães Rosa

sábado, 29 de junho de 2013

SAUDADES



Esta é a saudade: viver no afeto
E não ter morada no tempo
Estes são os desejos:conversa silenciosa
Horas diárias com a eternidade.

Esta é a vida.Até que de um ontem
suba a mais solitária de todas as Horas
Tão sorridente,diferente das irmãs
que se calam eternamente.

Rainer Maria Rilke
Trad. Augusto de Campos

quinta-feira, 27 de junho de 2013

CORAGEM




É preciso arranjar outros
motivos
outras flores e astros

Outras abertas

Entre a chuva cansada de um Outono
que não sabe já
qual é a terra certa

É preciso pensar outras imagens
outras fissuras, sítios
e cidades

Pôr fim ao lamento deste vento
tentar tirar ao anjo
a túnica e o sabre

É preciso inventar outras paisagens
outros montes e águas
outras margens

Abrir e expor o coração
e finalmente deixar
correr as lágrimas


Maria Teresa Horta,
In ‘ Destino'

quarta-feira, 26 de junho de 2013

OS DANÇARINOS DO ARAME



Dentro das atuais coordenadas do espaço e do tempo,
aqui nos vamos equilibrando sobre este fio de vida...
Que rede de segurança, pensamos nós, cheios de 
esperança e medo, que rede de segurança nos aparará?"


Mario Quintana,
in  Caderno H

terça-feira, 25 de junho de 2013

RECEITA DE CASA



Uma casa deve ter varandas
para sonhar, cantos para chorar,
quartos para os segredos
e a ambivalência.

Um amor precisa de espaço para voar,
liberdade para querer ficar,
alegria, e algum desassossego
contra o tédio.

Não se esqueçam os danos a cobrir,
o medo de partir, e o dom de surpreender
que é a sua essência.

Lya Luft,
In:"Exílio"

segunda-feira, 24 de junho de 2013

BRASIL



Pátria de imigração.
É num poema que te posso ter...
A terra - possessiva inspiração;
E os rios - como versos a correr.

Achada na longínqua meninice,
Perdida na perdida juventude,
Guardei-te como podia:
na doce quietude
Da força represada da poesia.

E assim consigo ver-te
Como te sinto:
Na doirada moldura de lembrança,
O retrato da pura imensidade
A que dei a possível semelhança
Com palavras e rimas de saudade.


Miguel Torga

domingo, 23 de junho de 2013

DIAS PERDIDOS




"Há dias e que tudo é sem remédio,
em que tudo começa e acaba torto.
Uma folha caiu:
era um pássaro morto.

Neblina. Fim de tarde. Fim de Outono.
Nada nos fala, nos atrai, nos chama.
Choveu, parou a chuva,
ficou, porém, a lama.

Um banco no jardim. Árvores nuas,
um cisne velho, um tanque, água limosa,
nem a relva ficou,
quanto mais uma rosa.

Há barcos, há gaivotas sobre o rio,
e nas ruas há gente, há muitas casas.
Mais um dia perdido:
arrancaram-lhe as asas."


Fernanda de Castro,
 In Urgente


sábado, 22 de junho de 2013

XIV



Dentro da noite alguém cantou.
Abri minhas pupilas assustadas
De ave noturna... E as minhas mãos pelas paradas,
Não sei que frêmito as agitou!
 
Depois, de novo, o coração parou.
E quando a lua, enorme, nas estradas
Surgem... dançam as minhas lâmpadas quebradas
Ao vento mau que as apagou...
 
Não foi nenhuma voz amada
Que preludiando a canção sonâmbula,
No meu silêncio me procurou...
 
Foi minha própria voz, fantástica e sonâmbula!
Foi, na noite alucinada,
A voz do morto que cantou.

 
Mario Quintana,
in A Rua dos Cataventos
 
 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

SURDINA



Quem toca piano sob a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
recebo a lembrança apagada?

Minha vida, numa poltrona
jaz, diante da janela aberta.
Vejo árvores, nuvens, - e a longa
rota do tempo, descoberto.

Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som, descoloridos.

A chuva interfere na música.
Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de melancolia ...


Cecília Meireles
In Mar Absoluto e Outros Poemas

terça-feira, 18 de junho de 2013

ITINERÁRIO DAS URZES



Quando eu me sentir triste,
triste de doer, da dor barroca,
ou imemorial, inominável,
sem fundo, sem alças,
triste das coisas cridas,
dos impérios que inventei
ou do que nem senti nascer -
triste da palavra em mortal ferida -
serás meu fiel retorno,
capelinha das urzes, à beira da estrada,
meu cavalo sem peias, minha jornada de ossos -
minha Ítaca, minha Pasárgada.

Fernando Campanella

segunda-feira, 17 de junho de 2013

PAULO FREIRE



" Eu sou um intelectual que não tem medo
 de ser amoroso, eu amo as gentes e amo 
o mundo. E é porque amo as pessoas e amo 
o mundo, que eu brigo para que a justiça
 social se implante antes da caridade"


PAULO FREIRE

domingo, 16 de junho de 2013

NA VÉSPERA



Na véspera de nada ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via, ninguém aqui chegou.

Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.


Fernando Pessoa

sábado, 15 de junho de 2013

FLORES



Minhas mãos tão antigas
e mortais
que já tocaram
a harpa do horror
e do mel
já tatearam a madrugada
suas sombras na parede
até o fundo do abismo
arrumam essas flores

elas traduzem a casa
indicam o caminho
parecem dizer é por aqui
por aqui o sol e a lua
o amor

em cima da mesa flutuam
e com o seu voo
tiram a casa do chão.


Roseana Murray
In Poesia Essencial

quarta-feira, 12 de junho de 2013

BILHETE



Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada, 
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda... 

Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo


segunda-feira, 10 de junho de 2013

DA SAUDADE



Flor - cristal
a derramar-se dentro das horas
a dar-se em pólen
nos momentos brancos do existir

Recados de muito longe
acordando gestos dormidos!

Espera lenta
com sinal de regresso
Pedaço do sol
abrasando os minutos
Mulher-criança
brincando nos muros do Tempo

no rastro do Tempo
no tempo do Tempo


Lia Corrêa
In Uma Rosa no Tempo



domingo, 9 de junho de 2013

MACHADO DE ASSIS




"O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida,
e restaurar na velhice a adolescência.
Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o
que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia 
é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um
homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde;
mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo (...)" 

Machado de Assis
in: Dom Casmurro

sexta-feira, 7 de junho de 2013

AFERIDOR



"Tenho um aferidor de Encantamentos.
A uma açucena encostada no rosto de uma criança
o meu aferidor deu nota dez.
A uma fuga de Bach que vi nos olhos de uma criatura
o aferidor deu nota vinte.
Mas a um homem sozinho no fim de uma estrada
sentado nas pedras de suas próprias ruínas
o meu aferidor deu
d - e - s - e - n - c - a - n - t - o

(O mundo é sortido, Senhor, como dizia meu pai.)"

Manoel de Barros

terça-feira, 4 de junho de 2013

O CISNE



Este sacrifício de avançar
pelos feixes do irrealizado
lembra um cisne, altivo a caminhar.

E a morte – esse nada mais buscar
do chão diariamente repisado –
lembra a sua angustia de pousar

sobre as águas que o recebem mansas
e cedem sob ele, em suaves tranças
de marolas que cercá-lo vem;
enquanto ele, calmo e independente,
segue sempre majestosamente
como ao seu capricho lhe convém.


Rainer Maria Rilke

segunda-feira, 3 de junho de 2013

OS ARROIOS



Os arroios são rios guris...
Vão pulando e cantando dentre as pedras.
Fazem borbulhas d'água no caminho: bonito!
Dão vau aos burricos,
às belas morenas,
curiosos das pernas das belas morenas.
E às vezes vão tão devagar
que conhecem o cheiro e a cor das flores
que se debruçam sobre eles nos matos que atravessam
e onde parece quererem sestear.
As vezes uma asa branca roça-os, súbita emoção
como a nossa se recebêssemos o miraculoso
encontrão de um Anjo...
Mas nem nós nem os rios sabemos nada disso.
Os rios tresandam óleo e alcatrão
e refletem, em vez de estrelas,
os letreiros das firmas que transportam utilidades.
Que pena me dão os arroios,
os inocentes arroios...

Mario Quintana
In Baú de Espantos

domingo, 2 de junho de 2013

ADAGIO



O Outono é isto –
apodrecer de um fruto
entre folhas esquecido.
Água escorrendo,
quem sabe donde,
ocasional e fria
e sem sentido.

EUGÉNIO DE ANDRADE
In Primeiros Poemas

sexta-feira, 31 de maio de 2013

DE REPENTE



De repente, do bolso,
caiu-me o poema.
Um poema não escrito.
Que me lembrava um pássaro em vôo
para o azul mais inocente.
Um poema simples.
O poema mais puro.
Penoso era vê-lo assim,
pássaro branco, e cego,
sequioso de azul.


Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece

MEUS FILHOS




Aos meus filhos
que moraram dentro de mim
como se no fundo
da terra
ofereço o céu
e sua sinfonia de estrelas
e mistérios
ofereço meu passado,
eu-criança quando ainda não sabia
que eles já me habitavam,
e brincava nos vãos das escadas
em mundos imaginários.
Ofereço minhas mãos que envelhecem
como pássaros,
como pergaminhos, como livros
antiquíssimos.

Roseana Murray,
in Poemas para ler na escola

quinta-feira, 30 de maio de 2013

LUZ ACESA


Além, a luz acesa
sugere a família 
em torno à grande mesa;
sugere a vigília
do fazendeiro, agora
com os seus reunido;
sugere a grave hora
em que um comovido 
silencio se projeta
em torno à grande mesa,
como essa luz quieta
no descampado acesa.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece


quarta-feira, 29 de maio de 2013

LOUCA



Súbito
Em meio àquele escuro quarteirão fabril
Das minhas mãos se escapou um pássaro maravilhoso
E eu te amei como quem solta um grito,
Ó Lua enorme
Incompreensível...
Por que sempre me espantas e me assustas, Louca,
Como se eu te visse sempre pela primeira vez?!

Mario Quintana
In Baú de Espantos

segunda-feira, 27 de maio de 2013

JOGANDO COM O TEMPO



O presente ameaça
o futuro não chega
o passado não passa

o passado não passa
o futuro não chega
e o presente ameaça

o passado trespassa
o futuro não chega
o presente escorraça.

O tempo é trapaça?

tempo:
fogo-fátuo
na veia e na praça
floresta
onde o caçador é caça
labirinto
onde mais se perde
quanto mais se acha.


Affonso Romano de Sant'Anna
In Sísifo desce a montanha

domingo, 26 de maio de 2013

O TEMPO NO JARDIM



Nestes jardins - há vinte anos - andaram nossos muitos passos,
e aqueles que então éramos se contemplaram nestes lagos.

Se algum de nós avistasse o que seríamos com o tempo,
todos nós choraríamos, de mútua pena e susto imenso.

E assim nos separamos, suspirando sonhos futuros,
e nenhum se atrevia a desvelar seus próprios mundos.

E agora que separados vivemos o que foi vivido,
com doce amor choramos o que fomos nesse tempo antigo!


Cecília Meireles
in: Mar absoluto 

sábado, 25 de maio de 2013

MEMORANDO



Então me concentrei dizendo:
Guarda-a na memória esta paisagem
que não se repetirá na face da terra
com as mesmas indefinidas cores.
E esse vulto que teus olhos não verão de novo
passar com idênticos movimentos rítmicos.
E essa voz que te saudou do outro lado do oceano
assim como um fugidio marulho de ondas.
A paisagem desapareceu entre as cinzas do informe.
O vulto não regressou em sucedimento a si próprio.
A voz perdeu o timbre no exaurir da mensagem.
Mas por milagre se conservam tangíveis
dentro de um vago mundo sem dimensões
a paisagem o vulto a voz
que de longe em longe reencontro.
Aquela paisagem ninguém a viu como eu.
Aquele vulto não foi captado senão por mim.
Aquela voz me tocou e não a outrem.
Frágil tesouro da memória
– antes que a noite me desarme –
por algum tempo ainda resguardado

- Henriqueta Lisboa,
 in "Pousada do Ser"

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O FAZER POÉTICO



Como se acaba um poema?
Perguntou a alma
à pena.

Sem intenção,
respondeu
a página em branco.

Quando pena
se deposita
sobre pena
página
e alma
estão plenas.


Alice Ruiz

quarta-feira, 22 de maio de 2013

LIMIAR



Somos ainda o limiar – espessa
nuvem embrionária. Verdes,
imaturos crustáceos
emergimos
à superfície grávida das ondas.
Somos
o medo ou sua
improvável renúncia. O que
sabemos do 
amor, da morte, e só
difusa,
opaca, 
luminosa fábula.


Albano Martins
in Antologia Poética

terça-feira, 21 de maio de 2013

ERRANTE



Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura...

Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto...

Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!


Florbela Espanca

domingo, 19 de maio de 2013

CITAÇÃO



“Como um pássaro cantando na chuva,
deixe memórias agradáveis sobreviverem 
em tempos de tristeza.”

Robert Louis Stevenson

sábado, 18 de maio de 2013

sexta-feira, 17 de maio de 2013

FERNANDO CAMPANELLA


aquelas gotas de chuva
nas folhas
pesam, pesam...

e se tornam leves
quando não são mais tempo

e

caem

Fernando Campanella

FRUTOS DA TERRA



Benditos os filhos do ventre da terra
que o sol desperta tão cedo
que o trigo e a uva aguardam no campo
para o mágico processo do pão e do vinho.

Benditos os frutos da terra
que se abrem à manhã
em silêncios e cantos
que se mesclam no ar

e os filhos da paz
que ligam o céu ao mundo,
os que reciclam o dia
dele retirando sustento e eternidade. 

Abençoados os que bendizem,
os que curam, os que a dor amenizam
e que por via da tolerância se entendem.

Benditos os que domam a cólera
e se transformam no amor,
amor que bebe da vida em identidade. 

Bendito o sol 
que amadurece os frutos da terra. 
Mais bendita a luz
por que anseia a 'noite escura da alma'.

Fernando Campanella

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O FILHO DO FILHO




O filho do filho
é o fio da vela
do barco da vida:
de tao longe vem,
desde o começo
do mundo.
É a chama da vela
acesa desde o tempo
da primeira estrela
quando os homens
sabiam ler
o alfabeto dos ventos.

O filho do filho
é o rio que arrasta
tudo o que já houve
e tudo que haverá.

Roseana Murray

terça-feira, 14 de maio de 2013

CÂNTICO II



Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade...
É a eternidade.
És tu.

Cecília Meireles,
in Cânticos

segunda-feira, 13 de maio de 2013

RUBEM BRAGA



"...Há um grande vento frio cavalgando as ondas,
mas o céu está limpo e o sol muito claro. 
Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas.
As cigarras não cantam mais.
Talvez tenha acabado o verão ..."


Rubem Braga, in
A Cidade e a Roça

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A LAGRIMA QUE SE ACUMULA...




A lagrima que se acumula e tolda momentaneamente a vida
é apenas um pétala dessa grande arvore submersa
onde estão tempos, figuras, palavras ditas e ouvidas,
gestos, esforços, renuncias, insônias, misericórdias.
 

O suspiro é uma brisa paciente que deixa cair tudo isso
ai! que deixa cair tudo isso em grandes vales de silencio.
 

Outras lagrimas se sucedem, nessas tristes, intermináveis primaveras.
E assim vamos, até a morte, sem esquecimento possível,
e só valemos pela posição que ocupamos nesse fantástico espetáculo.

 

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)


quinta-feira, 9 de maio de 2013

CHUVA NA MONTANHA



Como caíram tantas águas,
nublou-se o horizonte,
nublou-se a floresta,
nublou-se o vale.

E as plantas moveram-se azuis
dentro da onda que as toldava.

Tudo se transformou em cristal fosco:
as jaqueiras cansadas de frutos,
as palmeiras de leque aberto,
e as mangueiras com suas frondes
de arredondadas nuvens negras superpostas.

O arco-íris saltou somo serpente multicor
nessa piscina de desenhos delicados.

Cecília Meireles
in Mar Absoluto

quarta-feira, 8 de maio de 2013

VIVER



Quem nunca quis morrer
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros, pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar... Ah,
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar...
e voar,
cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!


Mario Quintana
In Baú de Espantos

segunda-feira, 6 de maio de 2013

ROMANTISMO



Quem tivesse um amor, nesta noite de lua,
para pensar um belo pensamento
e pousá-lo no vento!...

Quem tivesse um amor - longe, certo e impossível -
para se ver chorando, e gostar de chorar,
e adormecer de lágrimas e luar!

Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas,
partisse por nuvens, dormente e acordado,
levitando apenas, pelo amor levado...

Quem tivesse um amor, sem dúvida nem mácula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria...
Ah! Quem tivesse... (Mas quem tem? Quem teria?)


Cecília Meireles
in Mar Absoluto e outros poemas

sábado, 4 de maio de 2013

PÁGINA AZUL



No país de minh’alma há um rio sem mágoas, 
Um rio cheio de ouro e de tanta harmonia, 
Que se cuida escutar no marulhar das águas 
Do sussurro de um beijo a doce melodia. 

Este rio é o meu sonho, um sonho azul e puro, 
Como um canto do Céu, como um braço do Mar; 
Loura réstia de sol a rebrilhar no escuro, 
Casta luz que cintila em torno de um altar. 

De um altar que palpita e que sofre e que sonha, 
Soletrando a cantar a linguagem do Amor... 
Do altar do Coração, a paisagem risonha 
Onde brotam sorrindo as ilusões em flor. 

Vem beber, meu amor, neste rio que é fonte, 
É fonte de esperanças e lago de quimera... 
Vem morar n’um país que não tem horizonte, 
Onde não chora o Inverno e só há Primavera. 


Auta de Souza
In Horto

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A MISSA DOS INOCENTES



Se não fora abusar da paciência divina
Eu mandaria rezar missa pelos meus poemas que não
conseguiram ir além da terceira ou quarta linha,
Vítimas dessa mortalidade infantil que, por ignorância
dos pais,
Dizima as mais inocentes criaturinhas, as pobres
Que tinham tanto azul nos olhos,
Tanto que dar ao mundo!
Eu mandaria rezar o réquiem mais profundo
Não só pelos meus
Mas por todos os poemas inválidos que se arrastam
pelo mundo
E cuja comovedora beleza ultrapassa a dos outros
Porque está, antes e depois de tudo,
No seu inatingível anseio de beleza!

Mario Quintana
In Baú de Espantos

quinta-feira, 2 de maio de 2013

É SEMPRE POSSÍVEL



É sempre possível reinventar uma história
para nós próprios,
um caminho desobediente, um grito de ontem,
um delírio figurando um cântico.

A nossa condição de passageiros
é a exacta norma do sonho,
o devaneio fantasmagórico dum réptil
embasbacado ao sol, inocente das noções de tempo,
passado e futuro, a história
que podemos ler nos olhos dos outros,
ou nas infinitas divagações do vento.

Fantasiemos, pois, um caminho tardo e lesto
de imaginárias flores num deserto
para a nossa sede sem recurso,
a não ser a possível ciência de inventar
outro azul para os olhos dos vindouros
nossos filhos.

Vieira Calado
In "Por detrás das Palavras"