sábado, 18 de maio de 2013

sexta-feira, 17 de maio de 2013

FERNANDO CAMPANELLA


aquelas gotas de chuva
nas folhas
pesam, pesam...

e se tornam leves
quando não são mais tempo

e

caem

Fernando Campanella

FRUTOS DA TERRA



Benditos os filhos do ventre da terra
que o sol desperta tão cedo
que o trigo e a uva aguardam no campo
para o mágico processo do pão e do vinho.

Benditos os frutos da terra
que se abrem à manhã
em silêncios e cantos
que se mesclam no ar

e os filhos da paz
que ligam o céu ao mundo,
os que reciclam o dia
dele retirando sustento e eternidade. 

Abençoados os que bendizem,
os que curam, os que a dor amenizam
e que por via da tolerância se entendem.

Benditos os que domam a cólera
e se transformam no amor,
amor que bebe da vida em identidade. 

Bendito o sol 
que amadurece os frutos da terra. 
Mais bendita a luz
por que anseia a 'noite escura da alma'.

Fernando Campanella

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O FILHO DO FILHO




O filho do filho
é o fio da vela
do barco da vida:
de tao longe vem,
desde o começo
do mundo.
É a chama da vela
acesa desde o tempo
da primeira estrela
quando os homens
sabiam ler
o alfabeto dos ventos.

O filho do filho
é o rio que arrasta
tudo o que já houve
e tudo que haverá.

Roseana Murray

terça-feira, 14 de maio de 2013

CÂNTICO II



Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade...
É a eternidade.
És tu.

Cecília Meireles,
in Cânticos

segunda-feira, 13 de maio de 2013

RUBEM BRAGA



"...Há um grande vento frio cavalgando as ondas,
mas o céu está limpo e o sol muito claro. 
Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas.
As cigarras não cantam mais.
Talvez tenha acabado o verão ..."


Rubem Braga, in
A Cidade e a Roça

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A LAGRIMA QUE SE ACUMULA...




A lagrima que se acumula e tolda momentaneamente a vida
é apenas um pétala dessa grande arvore submersa
onde estão tempos, figuras, palavras ditas e ouvidas,
gestos, esforços, renuncias, insônias, misericórdias.
 

O suspiro é uma brisa paciente que deixa cair tudo isso
ai! que deixa cair tudo isso em grandes vales de silencio.
 

Outras lagrimas se sucedem, nessas tristes, intermináveis primaveras.
E assim vamos, até a morte, sem esquecimento possível,
e só valemos pela posição que ocupamos nesse fantástico espetáculo.

 

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)


quinta-feira, 9 de maio de 2013

CHUVA NA MONTANHA



Como caíram tantas águas,
nublou-se o horizonte,
nublou-se a floresta,
nublou-se o vale.

E as plantas moveram-se azuis
dentro da onda que as toldava.

Tudo se transformou em cristal fosco:
as jaqueiras cansadas de frutos,
as palmeiras de leque aberto,
e as mangueiras com suas frondes
de arredondadas nuvens negras superpostas.

O arco-íris saltou somo serpente multicor
nessa piscina de desenhos delicados.

Cecília Meireles
in Mar Absoluto

quarta-feira, 8 de maio de 2013

VIVER



Quem nunca quis morrer
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros, pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar... Ah,
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar...
e voar,
cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!


Mario Quintana
In Baú de Espantos

segunda-feira, 6 de maio de 2013

ROMANTISMO



Quem tivesse um amor, nesta noite de lua,
para pensar um belo pensamento
e pousá-lo no vento!...

Quem tivesse um amor - longe, certo e impossível -
para se ver chorando, e gostar de chorar,
e adormecer de lágrimas e luar!

Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas,
partisse por nuvens, dormente e acordado,
levitando apenas, pelo amor levado...

Quem tivesse um amor, sem dúvida nem mácula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria...
Ah! Quem tivesse... (Mas quem tem? Quem teria?)


Cecília Meireles
in Mar Absoluto e outros poemas

sábado, 4 de maio de 2013

PÁGINA AZUL



No país de minh’alma há um rio sem mágoas, 
Um rio cheio de ouro e de tanta harmonia, 
Que se cuida escutar no marulhar das águas 
Do sussurro de um beijo a doce melodia. 

Este rio é o meu sonho, um sonho azul e puro, 
Como um canto do Céu, como um braço do Mar; 
Loura réstia de sol a rebrilhar no escuro, 
Casta luz que cintila em torno de um altar. 

De um altar que palpita e que sofre e que sonha, 
Soletrando a cantar a linguagem do Amor... 
Do altar do Coração, a paisagem risonha 
Onde brotam sorrindo as ilusões em flor. 

Vem beber, meu amor, neste rio que é fonte, 
É fonte de esperanças e lago de quimera... 
Vem morar n’um país que não tem horizonte, 
Onde não chora o Inverno e só há Primavera. 


Auta de Souza
In Horto

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A MISSA DOS INOCENTES



Se não fora abusar da paciência divina
Eu mandaria rezar missa pelos meus poemas que não
conseguiram ir além da terceira ou quarta linha,
Vítimas dessa mortalidade infantil que, por ignorância
dos pais,
Dizima as mais inocentes criaturinhas, as pobres
Que tinham tanto azul nos olhos,
Tanto que dar ao mundo!
Eu mandaria rezar o réquiem mais profundo
Não só pelos meus
Mas por todos os poemas inválidos que se arrastam
pelo mundo
E cuja comovedora beleza ultrapassa a dos outros
Porque está, antes e depois de tudo,
No seu inatingível anseio de beleza!

Mario Quintana
In Baú de Espantos

quinta-feira, 2 de maio de 2013

É SEMPRE POSSÍVEL



É sempre possível reinventar uma história
para nós próprios,
um caminho desobediente, um grito de ontem,
um delírio figurando um cântico.

A nossa condição de passageiros
é a exacta norma do sonho,
o devaneio fantasmagórico dum réptil
embasbacado ao sol, inocente das noções de tempo,
passado e futuro, a história
que podemos ler nos olhos dos outros,
ou nas infinitas divagações do vento.

Fantasiemos, pois, um caminho tardo e lesto
de imaginárias flores num deserto
para a nossa sede sem recurso,
a não ser a possível ciência de inventar
outro azul para os olhos dos vindouros
nossos filhos.

Vieira Calado
In "Por detrás das Palavras"



POEMA ÀS FLORES




(...)

Ah..........inundemos o deserto
de flores
do deserto!

Vieira Calado
In ‘37 Poemas’

PAULO LEMINSKI


verde a árvore caída
vira amarelo
a última vez na vida

Paulo Leminski,
in Toda Poesia

PAULO LEMINSKI


de som a som
ensino o silêncio
a ser sibilino

de sino em sino
o silêncio ao som
ensino


Paulo Leminski,
in Toda Poesia

PAULO LEMINSKI


você me amava
disse
a margarida

a margarida
é doce
amarga a vida


Paulo Leminski,
in Toda Poesia

PAULO LEMINSKI



a folhas tantas
o outono
nem sabe a quantas

Paulo Leminski,
in Toda Poesia

PAULO LEMINSKI


(foto by Roger Dorl)

                                                            
no espelho
de relance
a cor do sonho
de ontem

Paulo Leminski,
in Toda Poesia


quarta-feira, 1 de maio de 2013

VIAJAM AS PALAVRAS



Passageiros, formo como que um diagrama
entre o céu tremido e o jornal que a trepidação do trem sacode
em minhas mãos.

A paisagem me vem oferecer seus buquês roxos e cor de ouro
mas foge, arrependida.

Vistos, de longe, de passagem,
todos os rostos são amigos, são iguais.

Só que depois, em minha memória, que estará rolando ainda esta paisagem
impressa em mim, à minha saudade
como um quadro à parede.

O possível desastre
faz cantar, como uma carretilha ao meu ouvido,
o pássaro do adeus.

O trem de ferro desloca o sentido das coisas.

Viajam as palavras.


Cassiano Ricardo
Em "O sangue das horas"






terça-feira, 30 de abril de 2013

ENTRE O CÉU E O MAR



Entre o céu e o mar
Há o infinito de esperas,
Conflito de incertezas,
Interrogação de cores,
Tristeza no olhar,
Prenúncio de paisagens.

Alvina Nunes Tzovenos
in 'Busca de Infinitos'

IMPROVISO À JANELA



Este é o começo do dia,
como o começo e o fim do mundo:
as nuvens aprendem a voar,
os campos vão sonhando nuvens,
o vento vai sonhando o pó
onde tristemente o amor palpitará.

Este é o começo do dia.
Vemos tudo o que já foi visto,
alguma coisa não mais se verá.

Nem sempre olhamos o dia
tão face a face e tão docemente.
Nem sempre sentimos esta saudade,
ainda ausente, ainda futura,
do que há e do que não há.

Este é o começo do dia:
- do céu, da luz, da terra, dos homens,
que acontecerá?


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos 




segunda-feira, 29 de abril de 2013

CITAÇÃO


Penso muitas vezes no dia em que vislumbrei o mar
pela primeira vez. 
O mar é grande, o mar é imenso, o meu olhar 
vagueava pela praia fora e esperava ser libertado:
mas lá ao fundo, porém, estava o horizonte. 
Por que razão tenho eu um horizonte?
Da vida, eu esperei o infinito.

Thomas Mann
in Desilusão 
(Tristão e Outros Contos)

sexta-feira, 26 de abril de 2013

OUTONO


 
O Outono escreve com vento
longas cartas alaranjadas
de luz diáfana
e traz como um perfume
a presença dos amigos ausentes,
dos sonhos antigos,
dos desejos que guardávamos
em caixinhas de música.

O outono nos convida
para o longo baile
dos amores perdidos:
convém reinventar roupas
de seda e renda,
gestos lentos e palavras
tecidas com suspiros.

Roseana Murray
In Rios de alegria
 
 


quinta-feira, 25 de abril de 2013

CITAÇÃO


"... a vida simplesmente é poesia. 
Inconscientes, nós a vivemos dia-a-dia 
e fragmento por fragmento, mas, em sua
inviolável integridade é ela que nos vive,
ela que nos leva...".

 Lou Andreas-Salomé


domingo, 21 de abril de 2013

TEMA SEM VARIAÇÃO



Sequer apago as passadas
deste meu vagar sozinho,
sozinho em tantas estradas:
triturador de caminhos,
move-me um remoinho
de frescas águas passadas.

Geir Campos
In Canto Claro

quinta-feira, 18 de abril de 2013

TELHADO


Tingem o dia
buganvílias no telhado
incêndio de flores.

Roseana Murray,
in Poemas para ler na escola

quarta-feira, 17 de abril de 2013

VOZ DA NOITE

 foto by  Luiz Alberto Ferreira


O sol se apaga.
De mansinho,
a sombra cresce.

A voz da noite
diz, baixinho:
esquece...esquece...


Helena Kolody,
in Sinfonia da Vida

domingo, 14 de abril de 2013

CITAÇÃO


“Vingarmo-nos de um mal de que fomos vítimas 
é privarmo-nos do conforto de gritarmos 
contra a injustiça.”

Cesare Pavese







quinta-feira, 11 de abril de 2013

AR LIVRE



A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.

Leva o arco-íris em cada fio de cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
pintam leves alvoradas de neblina.

Evaporam-se-lhe os vestidos na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.

E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo,
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.

Cecília Meireles,
in Retrato Natural

quarta-feira, 10 de abril de 2013

FOTOGRAFIA AMARELADA



O tempo pinta de amarelo
a fotografia:
de amarelo os olhares,
os sorrisos, as roupas,
as mãos, os sapatos.
Não é um amarelo qualquer:
é uma espécie de outono,
é um amarelo saudade.

Roseana Murray,
in Todas as Cores dentro do Branco

terça-feira, 9 de abril de 2013

ROSEANA MURRAY


O livro é a casa
onde se descansa
do mundo.

O livro é a casa
do tempo,
é a casa de tudo.

Mar e rio
no mesmo fio,
água doce e salgada.

O livro é onde
a gente se esconde
em gruta encantada.

Roseana Murray


segunda-feira, 8 de abril de 2013

A CREPITAÇÃO



A CREPITAÇÃO

Qualquer vida é naufrágio e perdimento.
Quando chegamos ao fim da restinga
encontramos apenas mar e vento.

Onde estão nossos sonhos? Um errante
raio de sol sumiu entre a folhagem,
dentro de nós o dia fez-se pálido.

Cercado pela luz da madrugada
e de mim rodeado, estou sozinho
entre as grutas da terra e a ira do mar.

Última luz da derradeira festa,
crepita na manhã a eternidade.
E a eternidade é tudo o que me resta.

Lêdo Ivo

sexta-feira, 5 de abril de 2013

RAINER MARIA RILKE


"Se não existir nada de comum entre você e as outras pessoas,
procure viver próximo das coisas. Elas não o abandonarão.
Ainda há noites, e ventos que silvam entre as árvores e por 
cima de muitas terras. Ainda, em coisas e em animais,
está tudo repleto de acontecimentos que você pode compartilhar.
E também as crianças continuam a ser como você próprio foi
em criança: tão tristes e tão felizes.
Enquanto você pensa na sua Infância, voltará a viver entre elas,
as crianças solitárias.
E então, as pessoas maiores já não significarão nada,
nem terá qualquer valor a sua dignidade.”

Rainer Maria Rilke,
in Cartas a Um Jovem Poeta

quinta-feira, 4 de abril de 2013

MAR ABSOLUTO



O mar risca a esquadro
a linha do horizonte

Ali arde uma sede
além de qualquer fonte

O alto voo grave
além de toda ave

O desmedido espaço
infindo a cada passo


Helio Pellegrino
in Minérios Domados

LEITURA NATURAL



Tendo lido os jornais
- infectado a mente, enauseado os olhos -
descubro, lá fora, o azul do mar
e o verde repousante que começa nas samambaias da sala
e recrudesce nas montanhas.

Para que perco tantas horas do dia
nessas leituras necessárias e escarninhas?
Mais valeria, talvez, nas verdes folhas, ler
o que a vida anuncia.

Mas vivo numa época informada e pervertida.
Leio a vida que me imprimem
e só depois
o verde texto que me exprime.

Affonso Romano de Sant’Anna

domingo, 31 de março de 2013

STEVENSON



Tão belas
são as coisas
do mundo,
em sinais
e números,
em formas
e matizes,
que penso
podermos ser reis
coroados,
sábios,
felizes!

Robert Louis Stevenson

quinta-feira, 28 de março de 2013

IMPRECISA PREMISSA


(quantas curitibas cabem numa só Curitiba)

Cidades pequenas,
como dói esse silêncio,
cantilenas, ladainhas,
tudo aquilo que nem penso,
esse excesso
que me faz ver todo o senso,
imprecisa premissa,
definitiva preguiça
com que sobe, indeciso,
o mais ou menos do incenso.
Vila de Nossa Senhora
da Luz dos Pinhais,
tende piedade de nós.


Paulo Leminski,
in Toda Poesia

quarta-feira, 27 de março de 2013

SOBRE A POESIA



Creio ser algo maior
– além de mera e fugaz
"matéria de sonho".

Algo quase tão
– insuportavelmente belo:

Quando em excelência
melhor cultivado;

Quando irrompe altivo
após chuva sobre o arado;

Quando não abriga ou tolera
riso, rima ou vereda menor!

Algo, sim – que nos alimenta
e salva da feroz vilania
do existir absurdo;

Da cotidiana demência.
Da cruel verdade e falácia:

Ambas – não privilégio
de tristes tempos nossos.

Algo que quase Tudo pode
abarcar – e que nada quer
ou pretende explicar:

Mas que, ainda assim,
sempre lemos levados por
curioso prazer – até o fim!


*Jairo De Britto,
 em “Dunas de Marfim”.


PARA ESCREVER UM SIMPLES VERSO


Para escrever um simples verso, 
é preciso conhecer muitas cidades, homens, animais
é preciso ter a alma aberta
para o voo dos pássaros
e ser capaz de perceber os gestos das flores
que se abrem ao amanhecer

Para escrever um simples verso,
é preciso viajar por regiões desconhecidas.
Estar preparado para encontros e desencontros inesperados.
É Preciso saber voltar a momentos de nossa infância
que até hoje não conseguimos compreender.
É preciso lembrar do que sentimos
quando ferimos alguém
que sempre nos desejou o melhor possível.

Para escrever um simples verso,
é preciso passar muitas manhãs diante do mar,
muitas tardes diante o pôr-do-sol
muitas noites diante de quem amamos
tudo isso para escrever um simples verso.

Para escrever um simples verso,
não basta lembrar-se do passado
é preciso saber esquecer
e ter paciência para esperar
até que suas lembranças
retornem novamente.

Porque um verso não é feito de memórias
ele transforma-se em nosso sangue,
e se confunde com a própria existência.
Só então chega o momento mágico
quando nasce a primeira palavra.
e ela traz consigo o verdadeiro poema.

Rainer Maria Rilke








domingo, 24 de março de 2013

RAINER MARIA RILKE



"Aprendo isso diariamente,
 aprendo em meio às dores às 
quais sou grato:
 a paciência é tudo!"

Rainer Maria Rilke


sábado, 23 de março de 2013

PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO



Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen

PAULO LEMINSKI



Achar
a porta que esqueceram de fechar.
O beco com saída.
A porta sem chave.
A vida.

Paulo Leminski,
in Toda Poesia

sexta-feira, 22 de março de 2013

COMO SE DESENHA UMA CASA



Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.


MANUEL ANTÓNIO PINA.

quinta-feira, 21 de março de 2013

POEMA DO AFINAL



No mesmo instante em que eu, aqui e agora,
Limpo o suor e fujo ao Sol ardente,
Outros, outros como eu, além e agora,
Estremecem de frio e em roupas se agasalham.

Enquanto o Sol assoma, aqui, no horizonte,
E as aves cantam e as flores em cores se exaltam,
Além, no mesmo instante, o mesmo Sol se esconde,
As aves emudecem e as flores cerram as pétalas.
Enquanto eu me levanto e aqui começo o dia,
Outros, no mesmo instante, exactamente o acabam.
Eu trabalho, eles dormem; eu durmo, eles trabalham.
Sempre no mesmo instante.

Aqui é Primavera. Além é Verão.
Mais além é Outono. Além, Inverno.
E nos relógios igualmente certos,
Aqui e agora,
O meu marca meio-dia e o de além meia-noite.

Olho o céu e contemplo as estrelas que fulgem.
Busco as constelações, balbucio os seus nomes.
Nasci a olhá-las, conheço-as uma a uma.
São sempre as mesmas, aqui, agora e sempre.

Mas além, mais além, o céu é outro,
Outras são as estrelas, reunidas
Noutras constelações.

Eu nunca vi as deles;
Eles,
Nunca viram as minhas.

A Natureza separa-nos.
E as naturezas.
A cor da pele, a altura, a envergadura,
As mãos, os pés, as bocas, os narizes,
A maneira de olhar, o modo de sorrir,
Os tiques, as manias, as línguas, as certezas.

Tudo.

Afinal
Que haverá de comum entre nós?

Um ponto, no infinito.


António Gedeão

terça-feira, 19 de março de 2013

NO FUNDO DA GARGANTA



Na mata o silêncio
cobre as folhas:
todas as palavras
que não foram ditas,
as que ficaram presas
no fundo da garganta
aqui habitam,
metade terra-metade ar.
As que mudariam
o rumo de uma vida,
as que se perderam,
as que se desmancharam,
as que nem nasceram.

Roseana Murray
In Poemas para ler na escola

sábado, 16 de março de 2013

NUM DIA EM QUE EU FICAR SOZINHA



terei saudade
da manhã em discordância
da flor delirante
e da nudez da nuvem.

terei saudade
da claridade do outono
em esplendor que se despede.

terei saudade
da surpresa da flor singela
com passo choroso
a bater em minha alma
como pingo d’água.

terei saudade
da maciez da noite quieta e morna
com sede de lua falante.

terei saudade
de meu pensamento sonâmbulo
saudade do irreal.

Alvina Nunes Tzovenos
Palavras ao Tempo

sexta-feira, 15 de março de 2013

O SILÊNCIO



" O silêncio é a minha maior tentação. As
palavras, esse vício ocidental, estão gastas
envelhecidas, envilecidas. Fatigadas, exasperam.
E mentem, separam, ferem, também apaziguam, é
certo, mas é tão raro! Por cada palavra que chega 
até nós,ainda quente das entranhas do ser, 
quanta baba nos escorre em cima a fingir de 
música suprema! A plenitude do silêncio
só os orientais a conhecem."

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 14 de março de 2013

EMILY DICKINSON



A dor - tem um elemento de vazio -
Não se consegue lembrar
De quando começou - ou se houve
Um tempo em que não existiu -

Não tem futuro - para lá de si própria -
O seu infinito contém
O seu passado - iluminado para aperceber
Novas épocas - de dor.

Emily Dickinson

terça-feira, 12 de março de 2013

FIODOR DOSTOIEVSKI



Tenta fazer esta experiência, construindo um palácio.
 Equipa-o com mármore, quadros, ouro, pássaros do paraíso,
 jardins suspensos, todo o tipo de coisas... e entra lá
 para dentro. Bem, pode ser que nunca mais desejasses sair daí. 
Talvez, de facto, nunca mais saisses de lá. Está lá tudo! 
"Estou muito bem aqui sozinho!". 
Mas, de repente - uma ninharia! O teu castelo é rodeado por muros,
 e é-te dito: 
'Tudo isto é teu! Desfruta-o! Apenas não podes sair daqui!".
 Então, acredita-me, nesse mesmo instante quererás deixar 
esse teu paraíso e pular por cima do muro. 
Mais! Todo esse luxo, toda essa plenitude, aumentará o teu 
sofrimento. Sentir-te-ás insultado como resultado de todo esse luxo... 
Sim, apenas uma coisa te falta... um pouco de liberdade. 

Fiodor Dostoievski,
 in "O Movimento de Liberação"