sexta-feira, 9 de novembro de 2012

INFÂNCIA



Levaram as grades da varanda
Por onde a casa se avistava.
As grades de prata.

Levaram a sombra dos limoeiros
Por onde rodavam arcos de música
E formigas ruivas.

Levaram a casa de telhado verde
Com suas grutas de conchas
E vidraças de flores foscas.

Levaram a dama e o seu velho piano
Que tocava, tocava, tocava
A pálida sonata.

Levaram as pálpebras dos antigos sonhos,
Deixaram somente a memória
E as lágrimas de agora.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

CAIO FERNANDO ABREU



"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas
ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim,
pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que
não existe, pelo muito que amei e não me amaram,
pelo que tentei ser correto e não foram comigo.
Meu coração sangra com uma dor que não consigo
comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro
todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de
gritar que esta dor é só minha, de pedir que me
deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.
A única magia que existe é estarmos vivos e não
entendermos nada disso. A única magia que existe
é a nossa incompreensão."

Caio Fernando Abreu,
in Ovelha Negra

CAIO FERNANDO ABREU



"Vai passar,tu sabes que vai passar.Talvez não amanhã,
mas dentro de uma semana, um mês ou dois,quem sabe?
O verão está aí, haverá sol quase todos os dias,e sempre
resta essa coisa chamada¨impulso vital. Pois esse impulso
às vezes cruel,porque não permite que nenhuma dor
insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol,
para o mar, para uma nova estrada qualquer e,de repente,
no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás
pensando algo assim como "estou contente outra vez"..."

Caio Fernando Abreu,
in Ovelha Negra

terça-feira, 6 de novembro de 2012

ETERNA MÁGOA



O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do mundo, o homem que é triste,
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois nada há que traga
Consolo à mágoa a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

Augusto dos Anjos

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A SUAVE MÃO DA TUA AUSÊNCIA



A casa está cheia de ti
... Não apenas os retratos os recantos
Os quadros
Não apenas os objectos onde
Roça ao de leve
A suave mão da tua ausência.
Mas aquela luz que trazias dentro
E deixavas de passagem
Nos seres e nas coisas.
Talvez agora mores entre as estrelas
Mas brilhas
Intensamente brilhas dentro de casa.

MANUEL ALEGRE,
in DISPERSOS E INÉDITOS -POESIA-VOL. II

domingo, 4 de novembro de 2012

VII



Fechei o livro que falava
de essências, de existências, de substâncias
de acidentes e modos,
de causas e efeitos,
de matéria e de forma,
de conceitos e ideias
de númenos, fenómenos,
coisas em si e noutras, opiniões,
hipóteses, teorias...
Fechei o livro e abriu-se
a meus olhos o mundo.
Transposto tinha o sol já a colina;
no céu esmaltavam-se os álamos
e nasciam entre eles as estrelas;
a lua branqueava o firmamento,
cujo fulgor difuso
nas águas do rio se banhava.
E observando a lua, a colina,
as estrelas, os álamos,
o rio e o fulgor do firmamento
senti a grande mentira
de essências, de existências, de substâncias,
de acidentes e modos,
de causas e efeitos,
de matéria e de forma,
de conceitos e ideias
de númenos, fenómenos,
coisas em si e noutras, opiniões,
hipóteses, teorias;
isto é: palavras.

Sobre o livro fechado
que jazia sobre a erva
pela lua a sua capa iluminada,
mas seu interior às escuras,
descansava uma rã
que ia rondando na sua nocturna ronda.
Oh, Kant, quanto te admiro!



Miguel de Unamuno,
in Rimas de Dentro
Tradução Rui de Almeida

sábado, 3 de novembro de 2012

PONTA SECA



Remendo o coração, como a andorinha
Remenda o ninho onde foi feliz.
Artes que o instinto sabe ou adivinha...
Mas fico a olhar depois a cicatriz.


Miguel Torga
In: Antologia Poética

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O TEATRO DAS CIDADES



Qualquer tempo é um tempo duvidoso 
assim o meu cercado de cidades 
plataformas instáveis 
praticáveis cobertos de infinita gente náufraga 
que se inclina nas águas como um palco 

Paro na convergência dos estrados 
chove já sobre a raça ameaçada 
Incertas multidões em volta passam 
contemporâneas falam interpretam 
a duvidosa língua das imagens 

Assim no teatro abstracto das cidades 
morrem palavras sobre um palco náufrago 

O tempo cobre o céu que se enche de água 

Gastão Cruz,
 in "O Pianista"

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

VIVER



Mas era apenas isso, 
era isso, mais nada? 
Era só a batida 
numa porta fechada? 

E ninguém respondendo, 
nenhum gesto de abrir: 
era, sem fechadura, 
uma chave perdida? 

Isso, ou menos que isso 
uma noção de porta, 
o projecto de abri-la 
sem haver outro lado? 

O projecto de escuta 
à procura de som? 
O responder que oferta 
o dom de uma recusa? 

Como viver o mundo 
em termos de esperança? 
E que palavra é essa 
que a vida não alcança? 

Carlos Drummond de Andrade,
 in 'As Impurezas do Branco' 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

SONETO DE PAZ



‘Cismando, o campo em flor, eu vi que a terra
Pode ser outra terra, de outra gente,
Para o prazer armada e competente
E desarmada para a voz da guerra.

No chão, olhando o céu que nos desterra,
Sem terminar falei, presente, ausente,
Ó vento desatado da vertente,
Ó doce laranjal sem fim da serra!

Mais tarde me esqueci, mas esse instante
De muito antiga perfeição campestre
Fez-me constante um pensamento errante:

Era o sem tempo, a paz da eternidade
Unindo a luz celeste à luz terrestre
Sem solução de amor e de unidade’.

Paulo Mendes Campos
In: O Domingo Azul do Mar

terça-feira, 30 de outubro de 2012

POEMA À BOCA FECHADA



Não direi: 
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago
In ‘Os Poemas Possíveis’

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

UM DIA VOLTAREI...


...


Um dia voltarei à morada das papoilas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.


Um dia o vento estará maduro.


Albano Martins
em 'Vocação do Silêncio'

ÉTICA


Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.

Luís Quintais,
in “Lamento”

domingo, 28 de outubro de 2012

sábado, 27 de outubro de 2012

NÃO ÉS OS OUTROS


Não há-de te salvar o que deixaram
Escrito aqueles que o teu medo implora;
Não és os outros e encontras-te agora
No meio do labirinto que tramaram
Teus passos. Não te salva a agonia
De Jesus ou de Sócrates ou o forte
Siddharta de ouro que aceitou a morte
Naquele jardim, ao declinar o dia.
Também é pó cada palavra escrita
Por tua mão ou o verbo pronunciado
Pela boca. Não há pena no Fado
E a noite de Deus é infinita.
Tua matéria é o tempo, o incessante
Tempo. E és cada solitário instante.

Jorge Luis Borges,
in "A Moeda de Ferro" 

AS COISAS



A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a ofendida
Violeta, monumento de uma tarde,
De certo inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas e taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão muito além de nosso olvido:
E nunca saberão que havemos ido.

Jorge Luis Borges
Tradução de Ferreira Gullar

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

FRAGMENTOS



Tem no ar 
um perfume
de gente
Tem no ar
um perfume
de árvores
Tem no ar
um perfume
de folhas
Tem no ar
um perfume
de flores
Tem no ar
um perfume
de primavera
Tem no ar
um perfume

de vida...

Delores Pires
In A Estrela e a Busca

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

MIA COUTO



Sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança
contra um destino que é sempre tardio e pouco."

Mia Couto

terça-feira, 23 de outubro de 2012

FRAGMENTO LITERÁRIO



"Lembrou-se bruscamente de que num café da rua Brasil (…) 
havia um gato que se deixava acarinhar pelas pessoas,
como uma divindade desdenhosa. Entrou.
Aí estava o gato, adormecido. 
Pediu uma xícara de café, adoçou-o lentamente,
experimentou-o (…)
e pensou, enquanto alisava a negra pelagem, que aquele
contato era ilusório e que estavam como separados por
uma vidraça, porque o homem vive no tempo, na sucessão,
e o mágico animal, na atualidade, na eternidade do instante."

Jorge Luis Borges 
em “Ficções: O Sul”

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

RECORDAÇÃO



E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.

Rainer Maria Rilke,
in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

domingo, 21 de outubro de 2012

SOFISMAS



Às vezes
eu sou chuva
e escorro pelas valas
da desilusão.

Às vezes
sou vento
e percorro alamedas
inutilmente.

Por que sou chuva?
Por que sou vento?
Por que reclamo poemas?
cânticos tão verdes?
se já sou inverno
a entoar hinos de hosana
entre folhas secas
pisadas
machucadas demais
para inventarmos outra igual.


Alvina Nunes Tzovenos
Palavras ao Tempo

sábado, 20 de outubro de 2012

NOCTURNO


 Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental,
in Sonetos

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

WILLIAM WORDSWORTH



Apesar de a luminosidade
outrora tão brilhante
Estar agora para sempre afastada do meu olhar,
Ainda que nada possa devolver o momento
Do esplendor na relva,
da glória na flor,
Não nos lamentaremos, inspirados
no que fica para trás;
Na empatia primordial
que tendo sido sempre será;
Nos suaves pensamentos que nascem
do sofrimento humano;
Na fé que supera a morte,
Nos tempos que anunciam o espírito filosófico.

William Wordsworth,
 "Esplendor na Relva" 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

SOL DE MARÇO



Embriagada de ardor matinal,
tonteia uma borboleta amarela.
Encolhido e com sono, um homem velho
descansa sentado junto à janela.

Entre as folhas da primavera, um dia
de viagem cantando partiu ele:
de uma porção de ruas a poeira
passou voando sobre os seus cabelos.

Naturalmente as árvores em flor
e as borboletas voando amarelas
parecem hoje as mesmas de outros tempos:
como se o tempo não tocasse nelas.

Os perfumes e as cores, entretanto,
tornaram-se mais finos e mais raros:
fez-se mais fria a luz, e o próprio ar
parece mais difícil respirar.

Como abelha a zumbir, a primavera
baixinho entoa os seus graciosos cantos:
a borboleta adeja em amarelo,
e o céu vibra em cristal de azul e branco.

Hermann Hesse
In Andares

terça-feira, 16 de outubro de 2012

RECONHEÇO-ME



Reconheço-me em todas as paisagens
anunciadas pelos profetas, ou pelos mágicos,
fascinada com o impulso que me faz arriscar
uma paixão sem aviso prévio.
Plagio sem restrições
a vida de heróis fantasiosos.
Procuro em todas as definições
acerca da vida e da morte
a síntese perfeita
e transcrevo-a nas cordas vocais
para a citar a propósito das coisas que acontecem.
Ninguém me diga o caminho onde se equivalem
os dias e as noites de um roteiro de verão.

Graça Pires
In Conjugar afectos

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

METAMORFOSES DA CASA




Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.


Eugénio de Andrade
in Poemas

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

ALEGRIAS



As alegrias passam por mim
Qual um sonoro bando de aves brancas
Por sobre o espelho do mar.

A superfície vibra de inquietas imagens.
Mas a profundeza é sempre a mesma,
Sempre a mesma,
E é eternamente a mesma a direção das vagas.

Helena Kolody

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A VOCÊ



A minha dor é um convento ideal
Cheio de  claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm sombras d´agonia
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...

A minha dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro!
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...

Florbela Espanca
In A Mensageira das Violetas

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

DA OBSERVAÇÃO



Não te irrites, por mais que te fizerem. . .
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio. . .


Mário Quintana
In: Espelho Mágico

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

SERENIDADE



Serenidade.Encantamento.
A alma é um parque sob o luar.
Passa de leve a onda do vento,
fica a ilusão no seu lugar.

Vem feito flor o pensamento,
como quem vem para sonhar.
Gotas de orvalho.Sentimento.
Névoas tenuíssimas no olhar.

Tombam as horas, lento e lento,
como quem não nos quer deixar.
Extase.Vésperas.Advento.

Ouve! O silêncio vai falar!
Mas não falou...Foi-se o momento...
E não me canso de esperar.

Henriqueta Lisboa
In Enternecimento

terça-feira, 2 de outubro de 2012

PRESENÇA




É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

Mario Quintana
In: Apontamentos de História Sobrenatural

O ÁUGURE



Sou um prisma às avessas
as cores em mim se confundem
sou um tapete de ecos
uma cachoeira de gritos
uma cordoalha de muitos tempos

A esfera de lantejoulas
- passado presente futuro -
roda refletindo mil sóis

Sou essa colméia de incêndios
essa assembléia de sinais
esse rumor insone



Helio Pellegrino
in Minérios Domados 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

NÃO ERA ISSO





Não.
Não era isso.

O que eu queria dizer
era tão alto
e tão longe
que nem conseguiu soletrar
suas palavras-estrelas.



Helena Kolody
In: Poemas do Amor Impossível

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

XXV



Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre a tua alma nas tuas mãos
E abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!

Cecília Meireles

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

ROSA PLENA



Rosa plena. Em glória
de cor
de forma
de febre
de garbo.
Em auréola sobre si mesma
- estática.
Em arroubo diante da luz
- dinâmica.
Enrodilhada em aconchego de concha
buscando o núcleo.
Fugindo-lhe ao cerco
- asas aflantes flamejantes.

Rosa plena.
Turíbulo. Ostensório.
Convite à valsa dos ventos.
Tributo ao círculo - perfeição
de chegar e partir.
Cada pétala é um sonho de retorno.
E as pétalas se avolumam compactas
e esmaecidas logo se despejam
ao longo e ao largo
- no fascínio
do pretérito pelo devir.
Sangue em oblata
no altar maior.
Amor e morte
pela revelação.
Rosa plena.
Poesia
que se fez Carne

Henriqueta Lisboa
in: A Pousada do Ser

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

QUANDO VIER A PRIMAVERA



Quando vier a Primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo. 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é. 

Alberto Caeiro
in Poemas Inconjuntos

SOTÃO



Por interstícios das malas abertas de quando éramos
crianças gritam as bocas sem nenhum eco
das bonecas. Criaturas fictícias, escalpelizadas
e sem tintas, de ventre oco. Mas o mortal
lugar do coração está ainda a palpitar.
O bojo do peito de celulóide, como o meu,
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.

Fiama Hasse Pais Brandão
in Cenas Vivas

terça-feira, 25 de setembro de 2012

FRONTEIRA




Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...

Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.


Tasso da Silveira
In Regresso à Origem

BASTA UMA FLOR



Basta uma flor,
basta uma asa
para saber que a primavera
entrou em nossa casa.

Albano Martins

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

POEMA



Se queres o vôo desliga-te de tudo,
De tudo que é excrescência,
Desfaz o véu que te embacia a face,
Descalça os pés e sente a pura terra.
Desfaz-te da palavra que já vem mentida,
Do teu instinto de defesa
E dá a mão à nuvem que caminha por ti.
Se queres encontrar o teu canto
Deixa-te guiar pelas coisas ressoantes,
Se queres encontrar o que perdeste,
Se queres descobrir o que consola
E por que clamam os teus sonos tristes
Encolhe-te no silêncio.
Tudo a que aspiras são cadeias
Que te prendem ao pensamento consternado
Que o tempo reduz superado
Antes do primeiro desejo sepultado.

Adalgisa Nery
In Erosão 

MULHER




Na face, a geografia da angústia,
Dos pânicos e das medrosas alegrias.
Cada ruga é um presságio.
E auréola da aflição constante
O esplendor dos cabelos brancos.

Uma só raiz para frutos diversos,
Uma só vida para destinos tão complexos,
Um só pranto para dores tão diversas.

O útero que gera o herói, o sábio, o poeta,
O santo, o miserável e o assassino.
Uma só raiz para frutos tão diversos!

O dom da paz em cada gesto
Cai como noites quietas
Sobre a alma em rancor,
Amor acima do amor.

Adalgisa Nery
In Erosão 

domingo, 23 de setembro de 2012

DAS UTOPIAS



Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

Mário Quintana,
in Espelho Mágico 

sábado, 22 de setembro de 2012

PRIMAVERA



Despertam docemente as brisas.
Sopram serenas, noite e dia,
por toda a parte a sussurrar.
Aroma tenro, nova melodia.
Agora, pobre coração, reanima-te:
Agora tudo, tudo mudará.

Faz-se o mundo mais belo cada dia.
Se o momento presente é tão feliz
o amanhã que surpresas não trará!
Floresce ao longe o vale mais sombrio.
Agora, pobre coração, esquece a mágoa
Agora, tudo, tudo mudará.

Ludwig Uhland
 Trad.: Henriqueta Lisboa) 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

LYGIA FAGUNDES TELLES



"...a beleza não está nem na luz da manhã
nem na sombra da noite, está no crepúsculo,
nesse meio tom, nessa incerteza."

Lygia Fagundes Telles

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

AMIGO



Amigo é o vinho mais tinto
o vinho mais branco
é água de afago
o rio mais manso
amigo é o caminho
mais leve
o lugar mais seguro
é clareira no tempo
é fogueira de mel.

Roseana Murray 
‘In Fruta no Ponto’ 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

JOSÉ SARAMAGO



" Costuma-se dizer,
dêmos tempo ao tempo,
mas aquilo que sempre
nos esquecemos de perguntar
é se haverá tempo para dar"

José Saramago
in "O Homem Duplicado"