segunda-feira, 22 de outubro de 2012

RECORDAÇÃO



E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.

Rainer Maria Rilke,
in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

domingo, 21 de outubro de 2012

SOFISMAS



Às vezes
eu sou chuva
e escorro pelas valas
da desilusão.

Às vezes
sou vento
e percorro alamedas
inutilmente.

Por que sou chuva?
Por que sou vento?
Por que reclamo poemas?
cânticos tão verdes?
se já sou inverno
a entoar hinos de hosana
entre folhas secas
pisadas
machucadas demais
para inventarmos outra igual.


Alvina Nunes Tzovenos
Palavras ao Tempo

sábado, 20 de outubro de 2012

NOCTURNO


 Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental,
in Sonetos

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

WILLIAM WORDSWORTH



Apesar de a luminosidade
outrora tão brilhante
Estar agora para sempre afastada do meu olhar,
Ainda que nada possa devolver o momento
Do esplendor na relva,
da glória na flor,
Não nos lamentaremos, inspirados
no que fica para trás;
Na empatia primordial
que tendo sido sempre será;
Nos suaves pensamentos que nascem
do sofrimento humano;
Na fé que supera a morte,
Nos tempos que anunciam o espírito filosófico.

William Wordsworth,
 "Esplendor na Relva" 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

SOL DE MARÇO



Embriagada de ardor matinal,
tonteia uma borboleta amarela.
Encolhido e com sono, um homem velho
descansa sentado junto à janela.

Entre as folhas da primavera, um dia
de viagem cantando partiu ele:
de uma porção de ruas a poeira
passou voando sobre os seus cabelos.

Naturalmente as árvores em flor
e as borboletas voando amarelas
parecem hoje as mesmas de outros tempos:
como se o tempo não tocasse nelas.

Os perfumes e as cores, entretanto,
tornaram-se mais finos e mais raros:
fez-se mais fria a luz, e o próprio ar
parece mais difícil respirar.

Como abelha a zumbir, a primavera
baixinho entoa os seus graciosos cantos:
a borboleta adeja em amarelo,
e o céu vibra em cristal de azul e branco.

Hermann Hesse
In Andares

terça-feira, 16 de outubro de 2012

RECONHEÇO-ME



Reconheço-me em todas as paisagens
anunciadas pelos profetas, ou pelos mágicos,
fascinada com o impulso que me faz arriscar
uma paixão sem aviso prévio.
Plagio sem restrições
a vida de heróis fantasiosos.
Procuro em todas as definições
acerca da vida e da morte
a síntese perfeita
e transcrevo-a nas cordas vocais
para a citar a propósito das coisas que acontecem.
Ninguém me diga o caminho onde se equivalem
os dias e as noites de um roteiro de verão.

Graça Pires
In Conjugar afectos

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

METAMORFOSES DA CASA




Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.


Eugénio de Andrade
in Poemas

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

ALEGRIAS



As alegrias passam por mim
Qual um sonoro bando de aves brancas
Por sobre o espelho do mar.

A superfície vibra de inquietas imagens.
Mas a profundeza é sempre a mesma,
Sempre a mesma,
E é eternamente a mesma a direção das vagas.

Helena Kolody

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A VOCÊ



A minha dor é um convento ideal
Cheio de  claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm sombras d´agonia
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...

A minha dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro!
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...

Florbela Espanca
In A Mensageira das Violetas

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

DA OBSERVAÇÃO



Não te irrites, por mais que te fizerem. . .
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio. . .


Mário Quintana
In: Espelho Mágico

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

SERENIDADE



Serenidade.Encantamento.
A alma é um parque sob o luar.
Passa de leve a onda do vento,
fica a ilusão no seu lugar.

Vem feito flor o pensamento,
como quem vem para sonhar.
Gotas de orvalho.Sentimento.
Névoas tenuíssimas no olhar.

Tombam as horas, lento e lento,
como quem não nos quer deixar.
Extase.Vésperas.Advento.

Ouve! O silêncio vai falar!
Mas não falou...Foi-se o momento...
E não me canso de esperar.

Henriqueta Lisboa
In Enternecimento

terça-feira, 2 de outubro de 2012

PRESENÇA




É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

Mario Quintana
In: Apontamentos de História Sobrenatural

O ÁUGURE



Sou um prisma às avessas
as cores em mim se confundem
sou um tapete de ecos
uma cachoeira de gritos
uma cordoalha de muitos tempos

A esfera de lantejoulas
- passado presente futuro -
roda refletindo mil sóis

Sou essa colméia de incêndios
essa assembléia de sinais
esse rumor insone



Helio Pellegrino
in Minérios Domados 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

NÃO ERA ISSO





Não.
Não era isso.

O que eu queria dizer
era tão alto
e tão longe
que nem conseguiu soletrar
suas palavras-estrelas.



Helena Kolody
In: Poemas do Amor Impossível

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

XXV



Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre a tua alma nas tuas mãos
E abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!

Cecília Meireles

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

ROSA PLENA



Rosa plena. Em glória
de cor
de forma
de febre
de garbo.
Em auréola sobre si mesma
- estática.
Em arroubo diante da luz
- dinâmica.
Enrodilhada em aconchego de concha
buscando o núcleo.
Fugindo-lhe ao cerco
- asas aflantes flamejantes.

Rosa plena.
Turíbulo. Ostensório.
Convite à valsa dos ventos.
Tributo ao círculo - perfeição
de chegar e partir.
Cada pétala é um sonho de retorno.
E as pétalas se avolumam compactas
e esmaecidas logo se despejam
ao longo e ao largo
- no fascínio
do pretérito pelo devir.
Sangue em oblata
no altar maior.
Amor e morte
pela revelação.
Rosa plena.
Poesia
que se fez Carne

Henriqueta Lisboa
in: A Pousada do Ser

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

QUANDO VIER A PRIMAVERA



Quando vier a Primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo. 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é. 

Alberto Caeiro
in Poemas Inconjuntos

SOTÃO



Por interstícios das malas abertas de quando éramos
crianças gritam as bocas sem nenhum eco
das bonecas. Criaturas fictícias, escalpelizadas
e sem tintas, de ventre oco. Mas o mortal
lugar do coração está ainda a palpitar.
O bojo do peito de celulóide, como o meu,
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.

Fiama Hasse Pais Brandão
in Cenas Vivas

terça-feira, 25 de setembro de 2012

FRONTEIRA




Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...

Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.


Tasso da Silveira
In Regresso à Origem

BASTA UMA FLOR



Basta uma flor,
basta uma asa
para saber que a primavera
entrou em nossa casa.

Albano Martins

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

POEMA



Se queres o vôo desliga-te de tudo,
De tudo que é excrescência,
Desfaz o véu que te embacia a face,
Descalça os pés e sente a pura terra.
Desfaz-te da palavra que já vem mentida,
Do teu instinto de defesa
E dá a mão à nuvem que caminha por ti.
Se queres encontrar o teu canto
Deixa-te guiar pelas coisas ressoantes,
Se queres encontrar o que perdeste,
Se queres descobrir o que consola
E por que clamam os teus sonos tristes
Encolhe-te no silêncio.
Tudo a que aspiras são cadeias
Que te prendem ao pensamento consternado
Que o tempo reduz superado
Antes do primeiro desejo sepultado.

Adalgisa Nery
In Erosão 

MULHER




Na face, a geografia da angústia,
Dos pânicos e das medrosas alegrias.
Cada ruga é um presságio.
E auréola da aflição constante
O esplendor dos cabelos brancos.

Uma só raiz para frutos diversos,
Uma só vida para destinos tão complexos,
Um só pranto para dores tão diversas.

O útero que gera o herói, o sábio, o poeta,
O santo, o miserável e o assassino.
Uma só raiz para frutos tão diversos!

O dom da paz em cada gesto
Cai como noites quietas
Sobre a alma em rancor,
Amor acima do amor.

Adalgisa Nery
In Erosão 

domingo, 23 de setembro de 2012

DAS UTOPIAS



Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

Mário Quintana,
in Espelho Mágico 

sábado, 22 de setembro de 2012

PRIMAVERA



Despertam docemente as brisas.
Sopram serenas, noite e dia,
por toda a parte a sussurrar.
Aroma tenro, nova melodia.
Agora, pobre coração, reanima-te:
Agora tudo, tudo mudará.

Faz-se o mundo mais belo cada dia.
Se o momento presente é tão feliz
o amanhã que surpresas não trará!
Floresce ao longe o vale mais sombrio.
Agora, pobre coração, esquece a mágoa
Agora, tudo, tudo mudará.

Ludwig Uhland
 Trad.: Henriqueta Lisboa) 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

LYGIA FAGUNDES TELLES



"...a beleza não está nem na luz da manhã
nem na sombra da noite, está no crepúsculo,
nesse meio tom, nessa incerteza."

Lygia Fagundes Telles

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

AMIGO



Amigo é o vinho mais tinto
o vinho mais branco
é água de afago
o rio mais manso
amigo é o caminho
mais leve
o lugar mais seguro
é clareira no tempo
é fogueira de mel.

Roseana Murray 
‘In Fruta no Ponto’ 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

JOSÉ SARAMAGO



" Costuma-se dizer,
dêmos tempo ao tempo,
mas aquilo que sempre
nos esquecemos de perguntar
é se haverá tempo para dar"

José Saramago
in "O Homem Duplicado"

terça-feira, 18 de setembro de 2012

CITAÇÃO



"O tempo não é tão precioso, porque é uma ilusão.
O que você define como precioso, não é o tempo, 
mas é algo que vai além disso:
O AGORA.
Isso é realmente precioso.
Quanto mais você está focado no tempo - passado 
e futuro - mais você perde o agora."

Eckhart Tolle

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

OS DEGRAUS DA VIDA



É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos, nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

David Mourão-Ferreira,
in Antologia Poética

PALAVRAS



Aluviões de palavras
corroem as cordilheiras.
Densas nuvens de palavras
limitam os horizontes.
Os batalhões de palavras
concentram as agressões.
Há loucura de palavras
a brotar por entre as pedras
de inumeráveis caminhos.

Ao passarem as palavras,
brilhará, límpido e eterno,
o Verbo esquecido.

Helena Kolody
In: Sinfonia da vida 

domingo, 16 de setembro de 2012

PÁSSARO AZUL



Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

Charles Bukowsky

sábado, 15 de setembro de 2012

ALBANO MARTINS


...
Há em teus olhos, dados ao momento,
uma tristeza de água reprimida,
que é como o pressentimento
duma próxima despedida.
Tristeza que faz lembrar
dias perdidos de outono
com luz pálida a incidir
nas folhas mortas de sono.
Deixa que a esperança os molhe,
os inunde de alegria.
Cada noite passa e colhe
o gosto dum novo dia.



Albano Martins,
in SECURA VERDE E OUTROS POEMAS

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

SAUDADE



Saudade! és a ressonância
De uma cantiga sentida,
Que, embalando a nossa infância,
Nos segue por toda a vida!

Da Costa e Silva,
in Poesias Completas

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

CAIO FERNANDO ABREU



"Não, não ofereço perigo algum: 
sou quieta como folha de outono esquecida 
entre as páginas de um livro, sou definida e
clara como o jarro com a bacia de ágata no
canto do quarto -se tomada com cuidado,
verto água límpida sobre as mãos para que se
possa refrescar o rosto mas, se tocada por
dedos bruscos num segundo me estilhaço
em cacos, me esfarelo em poeira dourada."

Caio Fernando Abreu,
in Morangos Mofados

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

VANDALISMO



Meu coração tem catedrais imensas,
templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos templários medievais,
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!


Augusto dos Anjos

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

PASTORAL




Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
bainha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.

Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.
Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.

António Gedeão,
in Poesias Completas

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A MIRAGEM NO CAMINHO



Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.

(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).

Helena Kolody,
in Viagem no Espelho

LOUCURA LÚCIDA




Pairo, de súbito,
noutra dimensão

Alucina-me a poesia,
loucura lúcida.

Helena Kolody,
in Viagem no Espelho


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

VELHA INTERROGAÇÃO



Passa a vida? Continua…
Porque o tempo é que flutua,
como um rio de veludo,
sobre todos, sobre tudo...

À sua imagem sonhamos:
de onde vimos? aonde vamos?

E o destino indiferente
vai impelindo a torrente...

Passa a vida? Continua...
Com o tempo quem passa é a gente.
Mas, vida, se nós passamos,

de onde vimos? aonde vamos?


Da Costa e Silva
in: Poesia Completa






PRECE



dá-me a lucidez das
correntezas para que eu descubra
entre as tristezas que se
avolumam algum
sorriso mesmo
que não seja para mim

dá-me a serenidade de uma
estrela para que eu imagine
entre as lágrimas que não
me deixam qualquer
paz ainda
que breve

dá-me a claridade das
luas cheias para que eu invente
entre as angústias que se esparramam um
horizonte mesmo
que se transmude em ilusão

dá-me a esperança das
árvores para que eu teça
entre as ausências que se
imensificam uma sanidade ainda
que estofada de
delírios

Adair Carvalhais Júnior

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

MIA COUTO



Eis o que aprendi
nesses vales
onde se afundam os poentes :
afinal , tudo são luzes
e a gente se acende é nos outros.
A vida é um fogo ,
nós somos suas breves incandescências . "

Mia Couto
in " Um rio chamado tempo , uma casa chamada terra"

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

UM SORRISO



Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moutas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.

A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto…

Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos…
Depois o céu… e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos…

A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada…

Manuel Bandeira

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

FOLHAS BREVES



Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.


Eugénio de Andrade 

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

COMO UMA SOMBRA LUMINOSA



Uma vida de flor ou borboleta
Foi-lhe a existência efêmera e enganosa;
Passou como uma sombra luminosa
De beleza e bondade no planeta.

Na minha solidão de anacoreta,
Surgiu como uma deusa misteriosa ...
Era simples e bela como a rosa,
Modesta e singular como a violeta.

Só de vê-la senti toda a inquietude
Que, por encanto, o coração invade,
Quando o amor o desperta, enleva e ilude.

Tive-a, a encarnar minha felicidade;
Quis detê-la comigo, mas não pude,
Porque a beleza aspira à eternidade.


Da Costa e Silva
in Poesias Completas

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

SILÊNCIO


"Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem. "

Octavio Paz,
in "Liberdade sob Palavra"



quarta-feira, 22 de agosto de 2012

MADRIGAL MELANCÓLICO



O que eu adoro em ti 
Não é a tua beleza. 
A beleza, é em nós que ela existe. 
A beleza é um conceito. 
E a beleza é triste. 
Não é triste em si, 
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza. 

O que eu adoro em ti, 
Não é a tua inteligência. 
Não é o teu espírito sutil, 
Tão ágil, tão luminoso, 
- Ave solta no céu matinal da montanha. 
Nem é a tua ciência 
Do coração dos homens e das coisas. 

O que eu adoro em ti, 
Não é a tua graça musical, 
Sucessiva e renovada a cada momento, 
Graça aérea como o teu próprio pensamento, 
Graça que perturba e que satisfaz. 

O que eu adoro em ti, 
Não é a mãe que já perdi. 
Não é a irmã que já perdi. 
E meu pai. 

O que eu adoro em tua natureza, 
Não é o profundo instinto maternal 
Em teu flanco aberto como uma ferida. 
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza. 
O que eu adoro em ti - lastima-me e consola-me! 
O que eu adoro em ti, é a vida. 

MANUEL BANDEIRA

terça-feira, 21 de agosto de 2012

EM LILÁS E CINZA


 
Minha alma, agora, é como uma janela aberta
para o infinito azul de uma hora de saudade:
Todo o imenso langor da tarde em sombra a invade,
enchendo-a de uma luz dúbia, esmaiada, incerta.

Não sei que estranhas mãos erguem véus de abandono,
num divino silêncio, entre minha alma e a vida,
para ela adormecer de distância, esquecida,
como uma flor serrôdia, às caricias do outono...

ALCEU WAMOSY,
In Coroa de Sonho 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

FRIEDRICH NIETZSCHE


 
Os poetas, na medida em que também querem tornar mais leve
a vida das pessoas, ou desviam o olhar do trabalhoso presente
ou ajudam o presente a adquirir novas cores, graças a uma luz
vinda do passado que fazem irradiar sobre ele. Para poderem
fazê-lo, têm eles próprios de ser, em muitos aspectos, seres
voltados para trás: de maneira que se os pode utilizar como
pontes para chegar a tempos e concepções muito distantes,
a religiões e civilizações em vias de extinção ou já extintas...

Friedrich Wilhelm Nietzsche,
in Humano, Demasiado Humano 

domingo, 19 de agosto de 2012

OCTAVIO PAZ



O mundo muda quando dois se olham e se reconhecem...
Amar, é despir-se de nomes.

Octavio Paz

MIGUEL DE UNAMUNO



Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida
aperfeiçoa-nos e enriquece-nos,
não tanto pelo que nos dá,
mas pelo que nos revela de nós mesmos.

Miguel de Unamuno