terça-feira, 18 de setembro de 2012

CITAÇÃO



"O tempo não é tão precioso, porque é uma ilusão.
O que você define como precioso, não é o tempo, 
mas é algo que vai além disso:
O AGORA.
Isso é realmente precioso.
Quanto mais você está focado no tempo - passado 
e futuro - mais você perde o agora."

Eckhart Tolle

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

OS DEGRAUS DA VIDA



É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos, nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

David Mourão-Ferreira,
in Antologia Poética

PALAVRAS



Aluviões de palavras
corroem as cordilheiras.
Densas nuvens de palavras
limitam os horizontes.
Os batalhões de palavras
concentram as agressões.
Há loucura de palavras
a brotar por entre as pedras
de inumeráveis caminhos.

Ao passarem as palavras,
brilhará, límpido e eterno,
o Verbo esquecido.

Helena Kolody
In: Sinfonia da vida 

domingo, 16 de setembro de 2012

PÁSSARO AZUL



Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

Charles Bukowsky

sábado, 15 de setembro de 2012

ALBANO MARTINS


...
Há em teus olhos, dados ao momento,
uma tristeza de água reprimida,
que é como o pressentimento
duma próxima despedida.
Tristeza que faz lembrar
dias perdidos de outono
com luz pálida a incidir
nas folhas mortas de sono.
Deixa que a esperança os molhe,
os inunde de alegria.
Cada noite passa e colhe
o gosto dum novo dia.



Albano Martins,
in SECURA VERDE E OUTROS POEMAS

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

SAUDADE



Saudade! és a ressonância
De uma cantiga sentida,
Que, embalando a nossa infância,
Nos segue por toda a vida!

Da Costa e Silva,
in Poesias Completas

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

CAIO FERNANDO ABREU



"Não, não ofereço perigo algum: 
sou quieta como folha de outono esquecida 
entre as páginas de um livro, sou definida e
clara como o jarro com a bacia de ágata no
canto do quarto -se tomada com cuidado,
verto água límpida sobre as mãos para que se
possa refrescar o rosto mas, se tocada por
dedos bruscos num segundo me estilhaço
em cacos, me esfarelo em poeira dourada."

Caio Fernando Abreu,
in Morangos Mofados

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

VANDALISMO



Meu coração tem catedrais imensas,
templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos templários medievais,
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!


Augusto dos Anjos

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

PASTORAL




Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
bainha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.

Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.
Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.

António Gedeão,
in Poesias Completas

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A MIRAGEM NO CAMINHO



Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.

(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).

Helena Kolody,
in Viagem no Espelho

LOUCURA LÚCIDA




Pairo, de súbito,
noutra dimensão

Alucina-me a poesia,
loucura lúcida.

Helena Kolody,
in Viagem no Espelho


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

VELHA INTERROGAÇÃO



Passa a vida? Continua…
Porque o tempo é que flutua,
como um rio de veludo,
sobre todos, sobre tudo...

À sua imagem sonhamos:
de onde vimos? aonde vamos?

E o destino indiferente
vai impelindo a torrente...

Passa a vida? Continua...
Com o tempo quem passa é a gente.
Mas, vida, se nós passamos,

de onde vimos? aonde vamos?


Da Costa e Silva
in: Poesia Completa






PRECE



dá-me a lucidez das
correntezas para que eu descubra
entre as tristezas que se
avolumam algum
sorriso mesmo
que não seja para mim

dá-me a serenidade de uma
estrela para que eu imagine
entre as lágrimas que não
me deixam qualquer
paz ainda
que breve

dá-me a claridade das
luas cheias para que eu invente
entre as angústias que se esparramam um
horizonte mesmo
que se transmude em ilusão

dá-me a esperança das
árvores para que eu teça
entre as ausências que se
imensificam uma sanidade ainda
que estofada de
delírios

Adair Carvalhais Júnior

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

MIA COUTO



Eis o que aprendi
nesses vales
onde se afundam os poentes :
afinal , tudo são luzes
e a gente se acende é nos outros.
A vida é um fogo ,
nós somos suas breves incandescências . "

Mia Couto
in " Um rio chamado tempo , uma casa chamada terra"

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

UM SORRISO



Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moutas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.

A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto…

Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos…
Depois o céu… e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos…

A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada…

Manuel Bandeira

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

FOLHAS BREVES



Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.


Eugénio de Andrade 

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

COMO UMA SOMBRA LUMINOSA



Uma vida de flor ou borboleta
Foi-lhe a existência efêmera e enganosa;
Passou como uma sombra luminosa
De beleza e bondade no planeta.

Na minha solidão de anacoreta,
Surgiu como uma deusa misteriosa ...
Era simples e bela como a rosa,
Modesta e singular como a violeta.

Só de vê-la senti toda a inquietude
Que, por encanto, o coração invade,
Quando o amor o desperta, enleva e ilude.

Tive-a, a encarnar minha felicidade;
Quis detê-la comigo, mas não pude,
Porque a beleza aspira à eternidade.


Da Costa e Silva
in Poesias Completas

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

SILÊNCIO


"Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem. "

Octavio Paz,
in "Liberdade sob Palavra"



quarta-feira, 22 de agosto de 2012

MADRIGAL MELANCÓLICO



O que eu adoro em ti 
Não é a tua beleza. 
A beleza, é em nós que ela existe. 
A beleza é um conceito. 
E a beleza é triste. 
Não é triste em si, 
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza. 

O que eu adoro em ti, 
Não é a tua inteligência. 
Não é o teu espírito sutil, 
Tão ágil, tão luminoso, 
- Ave solta no céu matinal da montanha. 
Nem é a tua ciência 
Do coração dos homens e das coisas. 

O que eu adoro em ti, 
Não é a tua graça musical, 
Sucessiva e renovada a cada momento, 
Graça aérea como o teu próprio pensamento, 
Graça que perturba e que satisfaz. 

O que eu adoro em ti, 
Não é a mãe que já perdi. 
Não é a irmã que já perdi. 
E meu pai. 

O que eu adoro em tua natureza, 
Não é o profundo instinto maternal 
Em teu flanco aberto como uma ferida. 
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza. 
O que eu adoro em ti - lastima-me e consola-me! 
O que eu adoro em ti, é a vida. 

MANUEL BANDEIRA

terça-feira, 21 de agosto de 2012

EM LILÁS E CINZA


 
Minha alma, agora, é como uma janela aberta
para o infinito azul de uma hora de saudade:
Todo o imenso langor da tarde em sombra a invade,
enchendo-a de uma luz dúbia, esmaiada, incerta.

Não sei que estranhas mãos erguem véus de abandono,
num divino silêncio, entre minha alma e a vida,
para ela adormecer de distância, esquecida,
como uma flor serrôdia, às caricias do outono...

ALCEU WAMOSY,
In Coroa de Sonho 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

FRIEDRICH NIETZSCHE


 
Os poetas, na medida em que também querem tornar mais leve
a vida das pessoas, ou desviam o olhar do trabalhoso presente
ou ajudam o presente a adquirir novas cores, graças a uma luz
vinda do passado que fazem irradiar sobre ele. Para poderem
fazê-lo, têm eles próprios de ser, em muitos aspectos, seres
voltados para trás: de maneira que se os pode utilizar como
pontes para chegar a tempos e concepções muito distantes,
a religiões e civilizações em vias de extinção ou já extintas...

Friedrich Wilhelm Nietzsche,
in Humano, Demasiado Humano 

domingo, 19 de agosto de 2012

OCTAVIO PAZ



O mundo muda quando dois se olham e se reconhecem...
Amar, é despir-se de nomes.

Octavio Paz

MIGUEL DE UNAMUNO



Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida
aperfeiçoa-nos e enriquece-nos,
não tanto pelo que nos dá,
mas pelo que nos revela de nós mesmos.

Miguel de Unamuno

sábado, 18 de agosto de 2012

INFINITO PRESENTE



No movimento veloz
de nossa viagem,
embala-nos a ilusão
da fuga do tempo.

Poeira esparsa no vento,
apenas passamos nós.
O tempo é mar que se alarga
num infinito presente.


Helena Kolody
in Viagem no Espelho

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

SOLIDÃO



Quedamos sempre sozinhos
Em nossas horas maiores

A dor, veneno latente,
Corrói-nos a alma em segredo.

A mais gloriosa alegria
Floresce na solidão.

Helena Kolody
In: Correnteza

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

NOTURNO



Meu pensamento em febre
é uma lâmpada acesa
a incendiar a noite.


Meus desejos irrequietos,
à hora em que não há socorro,
dançam livres como libélulas
em redor do fogo.


Henriqueta Lisboa 
In Prisioneira da Noite

domingo, 12 de agosto de 2012

CÂNTICOS



Certos cantares são quase eternos,
nascem de uns que sabem a outros
que beberam às fontes,
aos fundamentos do ar.

Certas canções, as trazemos do berço
Ou de antes dos salmos,
as entoamos de cor
anônimas, acéfalas,
só corações pulsantes
de lágrimas e pétalas.

Priscos diamantes -
Cantigas, idílios ou cânticos -
certos cantares seriam eternos
(Os anjos não considerados)
não fosse o princípio,
e desde o princípio
é então a glória do verbo:
amar.

Fernando Campanella

MEU PAI

(in memoriam de Adolfo Wichert)



"...O que a memória ama, fica eterno.

Te amo com a memória, imperecível..."





Adélia Prado

sábado, 11 de agosto de 2012

BIOGRAFIA



Escreverás meu nome com todas as letras,
com todas as datas,
— e não serei eu.

Repetirás o que me ouviste,
o que leste de mim, e mostraras meu retrato,
—- e nada disso serei eu

Dirás coisas imaginárias,
invenções sutis, engenhosas teorias,
— e continuarei ausente,

Somos uma difícil unidade,
de muitos instantes mínimos,
— isso serei eu,

Mil fragmentos somos, em jogo misterioso,
aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente,
— Como me poderão encontrar?

Novos e antigos todos os dias,
transparentes e opacos, segundo o giro da luz,
nós mesmos nos procuramos.

E por entre as circunstâncias fluímos,
leves e livres corno a cascata pelas pedras.
— Que mortal nos poderia prender?


Cecília Meireles
in Poemas II

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

CIMO


A hora da tarde, a que põe
seu sangue nas montanhas.

Alguém nesta hora está sofrendo;
com angústia alguém perde
ao pôr do sol o único peito
contra o qual se estreitava.

Um coração existe em que molha
a tarde aquele cimo ensangüentado.

O vale já está na sombra
e se cobre de calma.
Olham porém, da profundeza, o incêndio
que enrubesce a montanha

Eu me ponho a cantar sempre nesta hora
minha invariável canção atribulada.

Serei eu a que banha
o cume de escarlate?

Levo a meu coração a mão e sinto
que uma ferida sangra.


Gabriela Mistral
Tradução de Henriqueta Lisboa

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

GUIMARÃES ROSA



"Pai, a vida é feita só de traiçoeiros altos-e-baixos?
Não haverá, para a gente. Algum tempo de felicidade,
de verdadeira segurança?"
E ele, com muito caso, no devagar da resposta, suave a voz:
– "Faz de conta, minha filha... Faz de conta..."

Guimarães Rosa,
In: Primeiras Estórias 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

CANÇÃO TRISTE



Vaga, sonâmbula e triste
Passa a lua devagar...
Nas noites claras existe
Muita coisa além do luar.

Muita coisa singular
Entre o céu e o mar flutua.
Não vem por certo da lua,
Por certo não vem do mar.

Vem... Quem pode acreditar?
De uma folha solta ao vento.
Uma folha é um pensamento
Que a árvore esquece pelo ar.

Vem de um passante vulgar
Que caminha pela rua.
Sua sombra não é sua,
O seu destino é passar.

Some-se ao longe a chorar...
Que saudade envolve a rua!
Não vem por certo da lua,
Por certo não vem do mar.

Na noite que continua,
Passa a lua devagar...


Olegario Mariano -
In: Quando Vem Baixando o Crepúsculo

E POR VEZES...



E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos


David Mourão-Ferreira

terça-feira, 7 de agosto de 2012

O NOME LÍRICO


 
Esta manhã
hoje
é um nome

Nem mesmo amanheceu
nem o sol
a evoca

Uma palavra
palavra só
a ergue

Com um nome
amanhece
clareia.

Não do sol
mas de quem
a nomeia



Fiama Hasse Pais Brandão

sábado, 4 de agosto de 2012

INSCRIÇÃO



Sou entre flor e nuvem,
Estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos,
Limitados em chorar?

Não encontro caminhos
Fáceis de andar.
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
Que não sabem de água e de ar.

E por isso levito.
É bom deixar
Um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança, em cada lugar.

Rastro de flor e estrela,
Nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
A sombra é que vai devagar.


Cecília Meireles
In Mar Absoluto e Outros Poemas

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

BEBO SOZINHO AO LUAR



"Bebo sozinho ao luar
Entre as flores há um jarro de vinho.
Sou o único a beber: não tenho aqui nenhum amigo.
Levanto a minha taça, oferecendo-a à lua:
com ela e a minha sombra, já somos três pessoas.
Mas a lua não bebe, e a minha sombra imita o que faço.
A sombra e a lua, companheiras casuais,
divertem-se comigo, na primavera.
Quando canto, a lua vacila.
Quando danço, a minha sombra se agita em redor.
Antes de embriagados, todos se divertem juntos.
Depois, cada um vai para a sua casa.
Mas eu fico ligado a esses companheiros insensíveis:
nossos encontros são na Via Láctea.."

Li Po
(Tradução de Cecília Meireles) 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

PÁSSAROS



Nos meus poemas não há pássaros
aflitos dentro dos versos,
bicos metidos entre as rimas
na angustia dos vôos livres.

Amo as aves revoluteando no ar
a liberdade em plena luz,
que não é querer nem cogitar
mas a forma mesma do corpo.

Asas irrequietas receosas
inconstantes buliçosas
o que voam são os olhos
acesos desconfiados vigilantes
perscrutando inimigos, vitimas, distancias,
adivinhando flores antevendo ninhos.

Miguel Reale,
In: Poemas do Amor e do Tempo

terça-feira, 31 de julho de 2012

DESCOMPASSOS



Baila sob a luz das estrelas.
Desata o fio de teus sapatos.
Deixa que o sol te beije de esperanças e risos.
Faze de tua vida
um hino ao beijar os olhos da manhã
uma harpa ao por os pés no ventre da noite
um rodopio de azuis, de conchas e de búzios.


Deixa que o vento brinque com teus pés
a chuva te beije ate se cansar
as flores e os verdes e os caracóis
enfeitem teus cabelos de verões.


Corre atrás da vida com ternura de criança
e canções plenas de paz
e com risos de palhaços
porque tudo, todos nos
brincamos de viver bem
sempre, sempre
num carrossel
no circo da vida.


Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo

segunda-feira, 30 de julho de 2012

SEMENTE DO DESERTO



No alto sertão da minha terra
Cai, misteriosa, uma semente
Que a outras sementes move guerra.

onde ela nasce, de repente,
— Seara de mão cruel e ignota —
A relva murcha, suavemente.

E nas planícies onde brota,
E onde nem sempre é conhecida,
Toda a campina se desbota...

(Semente bárbara e remota,
Quem te semeou na minha vida?)

Humberto de Campos
In ‘Poesias Completas’

domingo, 29 de julho de 2012

ISABEL MEYRELLES



“Farei do silêncio
uma proa de barco
da tua ausência um rio
d’árvores afogadas”

Isabel Meyrelles

NUNCA E SEMPRE



Sempre cheguei tarde
ou cedo demais.
Não vi a felicidade acontecer.

Nunca floresceram
em minha primavera
as rosas que sonhei colher..

Mas sempre os passarinhos
cantaram e fizeram ninhos
pelos beirais
do meu viver.


Helena Kolody
in Sinfonia da vida 

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A PASSAGEM



Que me deixem passar - eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por ser eu diferente ou indesejado
mesmo assim passarei.
Inventarei a porta e o caminho.
E passarei sozinho.

Lêdo Ivo,
in "O Rumor da Noite"

quinta-feira, 26 de julho de 2012

V



Basta que a sombra desça e o silêncio se faça,
para que tudo assuma as proporções, a graça,
o espirito, a cadência, a estranha realidade
das cousas de arte, mais reais do que a verdade.

Onestaldo de Penafort,
in Poesia

quarta-feira, 25 de julho de 2012

VINHO


É Puro o vinho deste odre,
vindo de preclaros vinhedos.
Apanha-o na taça de ouro,
ou no tarro de barro,
ou no caneco rústico:
- em qualquer humilde vasilha
ele te dará sempre o sabor transcendente
que trouxe de suas altas origens.


Tasso da Silveira
in Poemas de Antes

terça-feira, 24 de julho de 2012

UNANIMISMO


Neste momento em que te falo, algures
um homem agoniza e há um trem que parte.
Que isso não te magoe e antes murmures;
eu vivo, eu sonho e estou em toda parte.

Onestaldo de Pennafort,
in Poesia

segunda-feira, 23 de julho de 2012

SE EU PUDESSE DEIXAR DE CORRER



Se eu pudesse deixar de correr
Caminhava se eu pudesse deixar de caminhar
Sentava-me à sombra da nogueira azul do céu
Se eu pudesse deitar-me deitava-me
Numa cova com a forma do meu corpo em
Repouso se eu pudesse deixar de cantar
Fechava os olhos e olhava o alto vazio
Onde não acontece nada a não ser
A conciliação provisória do caos
E da luz que não se cansa de nascer.


Casimiro de Brito,

in Na Via Do Mestre

sábado, 21 de julho de 2012

APRENDIZADO



Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

Ferreira Gullar
In Barulhos

sexta-feira, 20 de julho de 2012

ROSEANA MURRAY



Procura-se algum lugar do planeta
onde a vida seja sempre uma festa
onde o homem não mate
nem bicho nem homem
e deixe em paz
as árvores na floresta.

Procura-se algum lugar no planeta
onde a vida seja sempre uma dança
e mesmo as pessoas mais graves
tenham no rosto um olhar de criança.

Roseana Murray
In Classificados Poéticos

quinta-feira, 19 de julho de 2012

ERA O DIA


Era o dia dos crisântemos brancos, -
e eu tinha quase medo de seu pesado esplendor.
Então vieste tomar meu coração,
Vieste a mim,
em plena noite.

Eu tinha muito medo, mas vieste, suave e querida,
em sonho, por um instante, eu pensara em ti.
Vieste, e docemente, como uma ária de lenda,
soou a noite.


Rainer Maria Rilke
in Antologia Poética