terça-feira, 26 de junho de 2012

AS LIÇÕES



"Ensinaram-me a falar
aprendi a escrever.
Ensinaram-me a escrever
aprendi a falar.
Ensinaram-me a ler
aprendi a ver.
Ensinaram-me a ouvir
aprendi a calar.
Ensinaram-me a pedir
aprendi a dar.
Ensinaram-me a comprar
aprendi a ter.
Ensinaram-me a beber
aprendi a rir.
Ensinaram-me a fugir
aprendi a ficar.
Ensinaram-me a aprender
aprendi a ignorar.
Ensinaram-me a amar
aprendi a criar.
Ensinaram-me a viver
aprendi a morrer.
Ensinaram-me a estar só
aprendi a estar.
Ensinaram-me a ser livre
aprendi a ser."


Ana Hatherly,


in Antologia da poesia portuguesa

segunda-feira, 25 de junho de 2012

NA BOCA DO DESERTO



Estava indo, há muito, pra o deserto
e não sabia.

Antes, ao revés, julgava caminhar
das pedras para o bosque
lugar de onde o mel e o vinho jorrariam.

Bastava fazer a travessia.

Em alguma parte passei por algum oásis
mas era para este destino de pedra
silêncio e pasmo
que me dirigia.

Os beduínos há muito compreenderam
o que eu não compreendia:
apenas nos movemos entre pedras, cabras e camelos
olhando ternamente o fim do dia.

A tenda é provisória.

Eterno
só o áspero horizonte de pedra
e a poesia.


Affonso Romano de Sant’Anna,
in Sísifo desce a montanha

HENRY DAVID THOREAU



“...Talvez os fatos mais estarrecedores e verdadeiros nunca
sejam comunicados de homem a homem.
A verdadeira colheita do meu dia-a-dia é algo de tão intangível
e indescritível como os matizes da aurora e do crepúsculo.
O que tenho nas mãos é um pouco de poeira de estrelas
e um fragmento de arco-íris.”

Henry David Thoreau,
in Walden ou a Vida Nos Bosques

domingo, 24 de junho de 2012

O VOO




Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento,
desabam no abismo.

Que sabes tu do fim?

Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o de estrelas.
conserva a ilusão de que teu vôo te leva sempre para o mais alto.

No deslumbramento da ascensão
se pressentires que amanhã estarás mudo
esgota, como um pássaro, as canções que tens na garganta.

Canta. Canta para conservar a ilusão de festa e de vitória.

Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.


Menotti Del Pichia

sábado, 23 de junho de 2012

JOSÉ SARAMAGO



“Vivi, olhei, li, senti...
Terás então de ler de outra maneira,
Como, Não serve a mesma para todos,
cada um inventa a sua, a que lhe for própria,
há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir
mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem
que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a
corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar
à outra margem, a outra margem é que importa,
A não ser, A não ser , quê, A não ser que esses rios não tenham
duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela,
a sua própria margem,e que seja sua, e apenas sua,
a margem a que terá de chegar.”

José Saramago,
in A Caverna

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O CISNE



Este cansaço de passar como que atado
a coisas que ainda não foram feitas,
parece o caminho incriado do cisne.

E o morrer, esse desapegar-se
do fundo em que diariamente estamos,
seu tímido abandonar-se às águas

que mansamente o acolhem e por serem
felizes e já passadas, onda a onda,
sob seu corpo se retraem;

então, firme e tranqüilo,
com realeza e crescente segurança,
abandona-se o cisne ao deslizar.


Rainer Maria Rilke
Trad. Dora Ferreira da Silva

quinta-feira, 21 de junho de 2012

ZOOLOGIA: O GATO



Um gato, em casa, sozinho, sobe
à janela para que, da rua, o
vejam.

O sol bate nos vidros e
aquece o gato que, imóvel,
parece um objecto.

Fica assim para que o
invejem - indiferente
mesmo que o chamem.

Por não sei que privilégio,
os gatos conhecem
a eternidade.


Nuno Júdice
em Assinando a Pele

quarta-feira, 20 de junho de 2012

CANTO 81


(fragmento)

O que amas de verdade permanece,
o resto é escória
O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
Mundo de quem, meu ou deles
ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elíseo, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado


Ezra Pound
Trad.: Augusto de Campos

BEM-AVENTURADOS


Bem-aventurados os pintores escorrendo luz
Que se expressam em verde
Azul
Ocre
Cinza
Zarcão!
Bem-aventurados os músicos...
E os bailarinos
E os mímicos
E os matemáticos...
Cada qual na sua expressão!

Só o poeta é que tem de lidar com a ingrata linguagem alheia...
A impura linguagem dos homens!

MÁRIO QUINTANA,
in PROSA E VERSO

terça-feira, 19 de junho de 2012

CARL GUSTAV JUNG



Em todo adulto espreita uma criança - uma criança eterna,
algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo,
e que solicita cuidado, atenção e educação incessantes.
Essa é a parte da personalidade humana que quer
desenvolver-se e tornar-se completa.

Carl Gustav Jung


segunda-feira, 18 de junho de 2012

EU LUMINOSO NÃO SOU



Eu luminoso não sou.Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se no fundo do poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas.O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar,as aves se recolhem.

José Saramago
In Provavelmente Alegria

PAULO LEMINSKI



existe um planeta
perdido numa dobra
do sistema solar

aí é fácil confundir
sorrir com chorar

difícil é distinguir
esse planeta de sonhar


Paulo leminski

in Caprichos & Relaxos

sábado, 16 de junho de 2012

A ROSA



A rosa,
a imarcescível rosa que não canto,
a que é peso e fragrância,
a do negro jardim na alta noite,
a de qualquer jardim e qualquer tarde,
a rosa que ressurge da tênue
cinza pela arte da alquimia,
a rosa dos persas e de Ariosto,
a que sempre está só,
a que sempre é a rosa das rosas,
a jovem flor platônica,
a ardente e cega rosa que não canto,
a rosa inalcançável.


Jorge Luis Borges,
in Obras Completas 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

AULA DE MÚSICA



O violino principiante
arranha a pele do dia.
Ó dura, lenta porfia
da mão, soletrando o arco.
Ó marinheiro hesitante
— difícil carpintaria —
na construção do teu barco.


Hélio Pellegrino ,
IN Minérios Domados

quinta-feira, 14 de junho de 2012

SIMONE DE BEAUVOIR



“...Cada um deve passar por suas próprias experiências,
e o que há talvez de mais duro é pensar que todos os
nossos sofrimentos não nos permitem poupar, aos
que vem depois de nós, um único sofrimento sequer...”


Simone de Beauvoir,
in Quando o Espiritual Domina

terça-feira, 12 de junho de 2012

OS DEGRAUS



Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

Mario Quintana
In Baú de Espantos

HINO AO AMOR



Sempre que haja um vácuo na tua vida, 
enche-o de Amor. 
Adolescente, jovem, velho:
Sempre que haja um vácuo na tua vida,
Enche-o de Amor.
Logo que saibas
De um tempo livre à tua frente,
vai buscar o Amor.
Não penses: sofrerei.
Não penses: vão enganar-me.
Não penses: duvidarei.
Vai simplesmente, transparente,
Regozijando, em busca do Amor.
Que espécie de Amor?
Não importa.
Todo o amor
Está cheio de excelência, e de nobreza.Ama como puderes,
Ama a quem puderes tudo o que puderes...
Mas ama sempre
Não te preocupes com a felicidade do teu amor.
Ele tem em si mesmo a sua felicidade.
Não te julges incompleto
Porque não correspondem à tua ternura:
O amor tem em si mesmo a sua própria plenitude.
Sempre que haja um vácuo na tua vida,
Enche-o de AMOR."


Amado Nervo

segunda-feira, 11 de junho de 2012

BLADE RUNNER WALTZ



Em mil novecentos e oitenta e sempre,
ah, que tempos aqueles,
dançamos ao luar, ao sol da valsa
A Perfeição do Amor Através da Dor e da Renúncia,
nome, confesso, um pouco longo,
mas os tempos, aquele tempo,
ah, não se faz mais tempo
como antigamente.

Aquilo sim é que eram horas,
dias enormes, semanas anos, minutos milênios,
e toda aquela fortuna em tempo
a gente gastava em bobagens,
amar, sonhar, dançar ao som da valsa,
aquelas falsas valsas de tão imenso nome lento
que a gente dançava em algum setembro
daqueles mil novecentos e oitenta e sempre.


Paulo Leminski
in La vie en close

O SENTIDO SECRETO DA VIDA



Há um sentido profundo
Na superficialidade das coisas,
Uma ordem inalterável
No caos aparente dos mundos.

Vibra um trabalho silencioso e incessante
Dentro da imobilidade das plantas:
No crescer das raízes,
No desabrochar das flores,
No sazonar das frutas.

Há um aperfeiçoamento invisível
Dentro do silêncio de nosso Eu:
Nos sentimentos que florescem,
Nas idéias que voam,
Nas mágoas que sangram.

Uma folha morta
Não cai inutilmente.
A lágrima não rola em vão.
Uma invisível mão misericordiosa
Suaviza a queda da folha,
Enxuga o pranto da face.

Helena Kolody
in Correnteza

domingo, 10 de junho de 2012

JOSÉ SARAMAGO



"Um som quase inaudível, como só pode ser o de umas lágrimas
que vão deslizando lentamente até às comissuras da boca e aí
se somem para recomeçarem o ciclo eterno das
inexplicáveis dores e alegrias humanas."

José Saramago
in “Ensaio sobre a Cegueira”

sábado, 9 de junho de 2012

MARIO QUINTANA



"Há uma cor que não vem nos dicionários.
É essa indefinível cor que têm todos os retratos,
os figurinos da última estação, a voz das velhas damas,
os primeiros sapatos, certas tabuletas,
certas ruazinhas laterais : a cor do tempo …''

Mario Quintana,
in Sapato Florido

sexta-feira, 8 de junho de 2012

ROTEIRO




Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se fôr claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.

Sidónio Muralha

quinta-feira, 7 de junho de 2012

HAVIA UM TEMPO



Havia um tempo de cadeiras
na calçada.
Era um tempo em que
havia mais estrelas.
Tempo em que as crianças
brincavam sob
a claraboia da lua.
E o cachorro da casa era
um grande personagem.
E também o relógio de parede!
Ele não media o tempo,
simplesmente:
ele meditava o tempo.


Mário Quintana,
in Na Volta da Esquina

quarta-feira, 6 de junho de 2012

ODE AO GATO



Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.


José Jorge Letria
In Animália Odes aos Bichos

terça-feira, 5 de junho de 2012

O VENTO



Queria transformar o vento.
Dar ao vento uma forma concreta e apta a foto.
Eu precisava pelo menos de enxergar uma parte física
do vento: uma costela, o olho…
Mas a forma do vento me fugia que nem as formas
de uma voz.
Quando se disse que o vento empurrava a canoa do
índio para o barranco
Imaginei um vento pintado de urucum a empurrar a
canoa do índio para o barranco.
Mas essa imagem me pareceu imprecisa ainda.
Estava quase a desistir quando me lembrei do menino
montado no cavalo do vento – que lera em
Shakespeare.
Imaginei as crinas soltas do vento a disparar pelos
prados com o menino.
Fotografei aquele vento de crinas soltas.


Manoel de Barros

LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS



Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade

O tempo fora de mim
é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
_dura eternamente
enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)


Ferreira Gullar
in Muitas Vozes

segunda-feira, 4 de junho de 2012

UMA SIMPLES ELEGIA


Caminhozinho por onde eu ia andando
E de repente te sumiste,
- o que seria que te aconteceu?
Eu sei ... o tempo... as ervas más... a vida...
Não, não foi a morte que acabou contigo:
Foi a vida.

Ah! nunca a vida fez uma história mais triste
Que a de um caminho que se perdeu...


Mario Quintana
In Nariz de Vidro

domingo, 3 de junho de 2012

SILHUETAS




Ao entardecer
são as pessoas e o mundo
meras silhuetas.

Delores Pires
In: O livro dos Haicais 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

FERNANDO PESSOA


Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!


Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.

Fernando Pessoa






SIM, TU ÉS O PORVIR ...



Sim, tu és o porvir, a grande aurora,
que desponta das planícies da eternidade.
Tu és o canto do galo após a noite do tempo,
tu és orvalho, albas, menina,
tu és o viajante, a morte, a mãe ...

Tu és a forma que incessantemente muda,
que, solitária, emerge do destino,
que não se comemora nem lamenta,
pois ninguém te dirigiu, floresta selvagem.

Tu és o fundo essencial das coisas
que cala a última de sua essência
e que mostra aos outros sempre outro:
terra ao barco, e navio à costa.


Rainer Maria Rilke
in Antologia Poética



quinta-feira, 31 de maio de 2012

ANUNCIAÇÃO






Toca essa música de seda, frouxa e trêmula,
que apenas embala a noite e balança as estrelas noutro mar.

Do fundo da escuridão nascem vagos navios de ouro,
com as mãos de esquecidos corpos quase desmanchados no vento.

E o vento bate nas cordas, e estremecem as velas opacas,
e a água derrete um brilho fino, que em si mesmo logo se perde.

Toca essa música de seda, entre areias e nuvens e espumas.

Os remos pararão no meio da onda, entre os peixes suspensos;
e as cordas partidas andarão pelos ares dançando à toa.

Cessará essa música de sombra, que apenas indica valores de ar.
Não haverá mais nossa vida, talvez não haja nem o pó que fomos.

E a memória de tudo desmanchará suas dunas desertas,
e em navios novos homens eternos navegarão.


Cecília Meireles,
in Viagem

CRIANÇA


Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho,
que sozinho sofre, — e resiste.

Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente...

Cabecinha boa de menino mudo
que não teve nada, que não pediu nada,
pelo medo de perder tudo.

Cabecinha boa de menino santo
que do alto se inclina sobre a água do mundo
para mirar seu desencanto.

Para ver passar numa onda lenta e fria
a estrela perdida da felicidade
que soube que não possuiria.


Cecília Meireles,
in Viagem

NASCIMENTO DO POEMA




É preciso que venha de longe 
do vento mais antigo 
ou da morte 
é preciso que venha impreciso 
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insônia
morto e preservado.

E então desperta
para o rito da forma
lúcida
tranqüila:
senhor do duplo reino
coroado
de sóis e luas.


Dora Ferreira da Silva,
in Andanças

quarta-feira, 30 de maio de 2012

HENRY THOREAU



Fui para os Bosques

viver de livre vontade
Para sugar
toda a essência da Vida.
Para aniquilar
tudo o que não era vida
e para quando morrer,
não descobrir
que não vivi.


Henry Thoreau ,
in Walden ou A vida nos bosques

MANOEL DE BARROS


"As folhas das árvores servem para nos ensinar
a cair sem alardes .”


Manoel de Barros


terça-feira, 29 de maio de 2012

CREPÚSCULO




Na hora em que o dia não é mais dia,
em que a noite não é noite ainda,
tudo é magia, e o céu parece
veludo furta-cor
escorrendo das mãos vazias.

Roseana Murray,

in Poemas de Céu

CONQUISTA




Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!


Miguel Torga,
in Cântico do Homem

O BECO



No beco escuro e noturno
Vem um gato rente ao muro.
Os passos são de gatuno.
Os olhos são de assassino.

Esgueirando-se, soturno,
Ele me fita no escuro.
Seus passos são de gatuno.
Seus olhos são de assassino.

Afasta-se, taciturno.
Espanta-o meu vulto obscuro.
Meus passos são de gatuno.
Meus olhos são de assassino.


Dante Milano,
in Melhores Poemas



MIA COUTO




" Hoje sei : nenhuma rua é pequena .
Todas escondem infinitas histórias ,
todas ocultam incontáveis segredos ."

Mia Couto ,


in " Antes de nascer o mundo"

segunda-feira, 28 de maio de 2012

RUMO AO SUMO




Disfarça, tem gente olhando.
uns olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando
olhando ou sendo olhado

Outros olham pra baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
já que não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.

Paulo Leminski,

IN Toda Poesia

sexta-feira, 25 de maio de 2012

HERMANN HESSE



"...e mesmo a mais infeliz das existências tem os
seus momentos luminosos e suas pequenas flores de ventura
a brotar entre a areia e as pedras..."


Hermann Hesse,
in O Lobo da Estepe

quinta-feira, 24 de maio de 2012

NOTURNO



Nossos olhos nos pertencem —
não o dia.
Amor não nos pertence
nem a morte.
Apenas pousam na pérola mais fina.
Desce o luar
No flanco de rios precipitados
folhas se alongam
caules estremecem.

A noite já desfere
seu punhal de trevas.


Dora Ferreira da Silva,
in Poesia Reunida

O SILÊNCIO



O silêncio tem uma porta
que se abre
para um silencio maior:
antecâmara do ultimo,
que anuncia outro depois.


Dora Ferreira da Silva,
in Poesia Reunida

JARDIM NOTURNO


Os mortos chegam
pisando com pés de flores
tocam violetas
temem o brilho das rosas
luas de nácar desfazem
na grama
lúnulas maculas de pólen
e as mínimas flores
da deslembrança.
O silencio
agita sombras.
O que buscais amados mortos
pisando com pés de flores:
o odor de dias idos
nas magnólias?
Raízes
de que saudade?

Ah delírio de girassol da noite!

Só o vento desliza.
Os amores-perfeitos (eles buscam) e outros
de azulada memória.


Dora Ferreira da Silva,
in Poesia Reunida

AS HORAS


As Horas cismam no ar parado:
— Passado.

As Horas bailam no ar fremente:
— Presente.

As Horas sonham no ar obscuro:
— Futuro.


Da Costa e Silva

IDENTIFICAÇÃO



Eu me diluí na alma imprecisa das coisas.
Rolei com a Terra pela órbita do infinito,
Jorrei das nuvens com a torrente das chuvas
E percorri o espaço no sopro do vento;
Marulhei na corrente inquietadora dos rios,
Penetrei a mudez milenária das montanhas;
Desci ao vácuo silencioso dos abismos;
Circulei na seiva das plantas,
Ardi no olhar das feras,
Palpitei nas asas das pombas;
Fui sublime n’alma do homem bom
E desprezível no coração do mesquinho;
Inebriei-me da alegria do venturoso;
E deslizei dolorosamente na lágrima do infeliz.


Nada encontrei mais doloroso,
Mais eloquente,
Mais glorioso
Do que a tragédia cotidiana
Escrita em cada vida humana.


Helena Kolody,
in Paisagem Interior

quarta-feira, 23 de maio de 2012

ESTÁ SE CUMPRINDO O RITUAL



Está se cumprindo o ritual.

Depois dos avós
foram-se os pais
os tios, alguns primos.

Os amigos, uns distantes
outros próximos
apagam-se no horizonte.

É lento (e progressivo) o ritual.

Que os filhos não partam antes.
Deve haver uma certa ordem nessas coisas.

Consentimos.
Mas nem por isso deixamos de estremecer
antes do instante final.


Affonso Romano de Sant’Anna,
in Sísifo desce a montanha

terça-feira, 22 de maio de 2012

AS ESTRELAS DO LAGO


Havia, ontem à noite, tanta estrela
A tremer, a luzir n’água do lago,
Que eu pensei que era o céu
Que, por artes de algum mago,
Tinha descido à terra, de repente! ...
Parei-me junto ao lago, contemplando ...
E as estrelas, uma a uma,
Como espuma,
À flor d’água tremiam, refulgiam ...
Mas pouco a pouco foram reduzindo
O seu brilho,
E desapareceram ...

Olhei o céu: Lá estavam todas elas
A tremer, a brilhar! ...
Por certo riam
Da minha ingênua confusão ...
Que importa! ...
As estrelas do céu também se apagam.

Terra e céu cabem juntos
Dentro do mesmo sonho e da mesma ilusão ...


Emilio Kemp
in Cantos de Amor ao Céu e à Terra