segunda-feira, 21 de maio de 2012

RAINER MARIA RILKE



"(...) ter paciência com tudo o que há para resolver em seu coração
e procurar amar as próprias perguntas como quartos fechados
ou livros escritos num idioma estrangeiro.
Não busque por enquanto respostas que não lhes podem ser dadas,
porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo.
Viva por enquanto as perguntas.
Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo,
consiga viver a resposta."


Rainer Maria Rilke,
Fragmento de “Cartas a um jovem poeta.”

domingo, 20 de maio de 2012

CAIO FERNANDO ABREU


"Anota aí para seu futuro:
desapegar das pessoas,
se importar menos,
não se abalar por nada nem ninguém.
Correr atrás daquilo que faça seu coração vibrar,
ficar perto de quem te quer bem.
Correr atrás dos seus sonhos, se amar mais.
Esquecer tudo aquilo que te faça mal."

Caio Fernando Abreu

sábado, 19 de maio de 2012

O CASACO



Um homem estava anoitecido.
Se sentia por dentro um trapo social.
Igual se, por fora, usasse um casaco rasgado
e sujo.
Tentou sair da angústia
Isto ser:
Ele queria jogar o casaco rasgado e sujo no lixo.
Ele queria amanhecer .


Manoel de Barros
In.:"Os Melhores poemas"

sexta-feira, 18 de maio de 2012

ISABEL MEYRELLES


Eu morrerei.
E nos outros serei a recordação
dum grande pássaro selvagem
que bateu as asas
longamente...
longamente...
Enquanto se ouvir
o eco das minhas asas,
terei a vida das aves

Isabel Meyrelles
In Palavras Noturnas e Outros Poemas


quinta-feira, 17 de maio de 2012

ANÍBAL MACHADO



“Limpa de vez em quando tuas gavetas, ninho de fantasmas.
Queima os papéis velhos, os arquivos mortos.
Ajuda o esquecimento a esquecer...
Antes o virgem vazio que a sufocação dos entulhos.
Que em tua cabeça as idéias não se imobilizem nunca em
arranjos de museu, mas fermentem para novas metamorfoses
Chegarás, assim, à maturidade com direito aos fulgores da vida”...


Aníbal M. Machado,
in Cadernos de João

quarta-feira, 16 de maio de 2012

EMÍLIO MOURA



Eis a nossa fraqueza:
- a necessidade de compreender e de sermos compreendidos,
essa febre de ser, esse espanto, esse inconformismo,
e essa mágoa secreta de não conseguirmos captar a vida
em seus momentos mais puros.


Emílio Moura
in Itinerário Poético

INVENÇÃO DA NOITE



Deste silêncio e desta treva
construo a minha noite
particular e intransferível.
Não preciso inventar as estrelas,
elas nascem e brilham por si mesmas.
E à meia-noite uma lua triste
levanta a cara de prata no horizonte
e verte nos meus olhos um choro, um frio.


Anderson Braga Horta
In Fragmentos da Paixão


CAMINHO AO CONTRÁRIO



De vez em quando
caminho ao contrário:
é a minha maneira de lembrar.

Se caminhasse só para a frente,
poderia contar-te
como é o esquecimento.


Humberto Ak'abal,
In Tecedor de Palavras


terça-feira, 15 de maio de 2012

FRIEDRICH NIETZSCHE


"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás
de passar para atravessar o rio da vida. Ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem número, e pontes, e semideuses
que se oferecerão para levar-te além do rio, mas isso te custaria
a tua própria pessoa: tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar.
Aonde leva? Não perguntes, segue-o!"


Friedrich Nietzsche


segunda-feira, 14 de maio de 2012

A MEUS FILHOS



Estou aqui ao lado,
à margem de seu caminho,
vendo você passar.
Quero que vá sozinho
mas me mantenho por perto.
Se o rumo é certo,
me aprumo e aplaudo;
se é via tortuosa,
jogo-lhe aos pés uma rosa
pra que desviando dela
você chegue a outro lugar;
se a sombra é fria,
mando-lhe um beijo quente;
se o chão queima do sol nascente,
estendo-lhe a poesia
para que o possa atenuar,
se não houver alimento,
peço ao vento
sementes que lhe tragam vida.
Para a sede,
roubo do céu a lágrima caída da madrugada.
Mas se você não precisar de nada,
ainda assim eu estarei vigiando,
escondida talvez atrás de um querubim.
Abençoarei sua vida e sua estrada,
mesmo que já esteja transformada
na forma clara e casta de um jasmim.


Flora Figueiredo
In Florescência

sexta-feira, 11 de maio de 2012

SÓ NA MEMÓRIA DO TEU ROSTO



Só na memória do teu rosto, mãe
posso encontrar agora as paredes
da casa onde nasci.
Como se fosse possível voltar
àquele tempo em que a felicidade
residia nas tuas mãos
entretidas a encaracolar os meus cabelos.


Graça Pires

quinta-feira, 10 de maio de 2012

HORA MEMÓRIA



Há rostos que nunca se irão.
Outros jamais veremos
mas aí estão,
sempre.
Nunca conheceremos todos
os convivas.
Nem os mais próximos.
Sequer o irmão.
A memória retém os
que devem ficar.
Mesmo os que, fugazes,
teimam em partir.
Lembrar é fingir.


Antonio Fernando de Franceschi,
in Tarde Revelada


DÁ-ME DE BEBER...



Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga do céu
sem coares as nuvens que passam.
Morde (se quiseres)
a romã entre a rosa e o amanhã.
Prisioneira de um mito
liberta-me (se quiseres)
na próxima primavera:
puxa-me as verdes tranças
arrebata-me do trono e de seu rei obscuro
Leva-me (se quiseres) em teus braços
para onde fores e seremos primavera.
As primícias serão tuas:
as mais belas campânulas
tilintando ouro ao sol
prata sob a lua.
O que dizer do que seremos
se mudamos a cada gesto?
Dança pura.
Dá-me de beber em tuas mãos
uma nesga do céu
sem coares as nuvens que passam.


Dora Ferreira da Silva,
in Cartografia do Imaginário

quarta-feira, 9 de maio de 2012

SIMONE DE BEAUVOIR


“...mudaram as coisas ao redor de mim.
O triunfo do BEM sobre o MAL deixou de ser evidente,
parecia mesmo duramente comprometido.

Eu caíra, como muitos outros, do azul coletivo
na poeira terrestre:
O solo estava juncado de ilusões desfeitas...”


Simone de Beauvoir,
in Sob o Signo da História


MIA COUTO




“O bom do caminho é haver volta .
Para ida sem vinda basta o tempo ."


Mia Couto,
in " Um rio chamado tempo , uma casa chamada terra"

A CONCHA



A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.



Vitorino Nemésio

CANTIGA PARA NÃO MORRER



Quando você for se embora,

moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.



Ferreira Gullar,
in De Dentro da Noite Veloz

terça-feira, 8 de maio de 2012

ALMA PERDIDA



Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda noite choraste...e eu chorei!
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...


Florbela Espanca

PARTITURA COM LUA



Notação de pássaros
no fio da rua:
mínimas semínimas pausas.
Sobre o piano rosas estremecem.
Cadências de alma sobressaltam um público
desalento e ao relento ressoam
algumas dissonâncias (tropel de potros
presos numa sala). Mas por acaso em pura sinfonia
pássaros refazem a partitura
no heptacorde dos fios da rua.
Ei-la tão plena do dia findo azulado —
a lua soberana e alta
do sono deste outono.


Dora Ferreira da Silva


INTERROGAÇÃO



Sozinho, sozinho, perdido na bruma.
Há vozes aflitas que sobem, que sobem.
Mas, sob a rajada ainda há barcos com velas
e há faróis que ninguém sabe de que terras são.

- Senhor, são os remos ou são as ondas
o que dirige o meu barco?
Eu tenho as mãos cansadas
e o barco voa dentro da noite


Emílio Moura


MEMÓRIA DA MANHÃ



A manhã vai longe
quando os pássaros dormem
e as cores sonham
o prefácio do dia.


Edival Perrini
em Pomar De Águas

DESPEDIDA



Dizer adeus ao mistério daquela porta cerrada
à luz fosca desse dia abandonado.
Que severa parecias, longínqua e inviolada
flor deste inverno findando.
Recolhi-me entre os crisântemos
que te vestiam tristonhos:
tanto abandono querida uma parede tão dura
impermeável ao pranto à ternura
levados para te dar. Ao meu sim de desalento
nenhuma resposta ou lamento,
nada. Teu segredo, só ele persistia.
Fiquei noturna, olhando teu esquivo dia.


Dora Ferreira da Silva,
in Cartografia do Imaginário

ALMA ESTRANGULADA



Cada um de nós que vai por essa estrada deserta
sente que uma multidão de espíritos vive dentro de si.
Às vezes nos surpreendemos tão diferentes de nós mesmos...

(As sombras na alma pesam tanto, são tão quietas,
como a noite, são tão frias, como o luar).

... tão diferentes, como se, de súbito,
uma multidão de espíritos vivesse dentro de nós.



Emílio Moura

DO ECLESIASTES



Há um tempo para
desarmar os presságios

há um tempo para
desamar os frutos

há um tempo para
desviver
o tempo.


Orides Fontela
in Trevo

ISABEL MEYRELLES



Encontros que não marcaste
em ruas que desconheces
eu esperarei
até que as noites deslizem
sobre mim
e eu fique transformada
em arvore


Isabel Meyrelles, in
Palavras Noturnas & Outros Poemas

segunda-feira, 7 de maio de 2012

QUANDO EU PARTIR




Quando eu partir, quando eu partir de novo,
A alma e o corpo unidos,
Num último e derradeiro esforço de criação;
Quando eu partir...
Como se um outro ser nascesse
De uma crisálida prestes a morrer sobre um muro estéril,
E sem que o milagre lhe abrisse
As janelas da vida...
Então pertencer-me-ei.
Na minha solidão, as minhas lágrimas
Hão-de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência,
E eu serei o senhor da minha própria liberdade.
Nada ficará no lugar que eu ocupei.
O último adeus virá daquelas mãos abertas
Que hão-de abençoar um mundo renegado
No silêncio de uma noite em que um navio
Me levar para sempre.
Mas ali
Hei-de habitar no coração de certos que me amaram;
Ali hei-de ser eu como eles próprios me sonharam;
Irremediavelmente...
Para sempre

Ruy Cinatti,
In ‘Nós Não Somos deste Mundo’ 


domingo, 6 de maio de 2012

AS FLORES



Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura.


Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 5 de maio de 2012

sexta-feira, 4 de maio de 2012

FICAM AS SOMBRAS



Não. Não podeis levar tudo.
Depois do corpo,
E da alma,
E do nome,
E da terra da própria sepultura,
Fica a memória de uma criatura
Que viveu,
E sofreu,
E amou,
E cantou,
E nunca se dobrou
À dura tirania que a venceu.

Fica dentro de vós a consciência
De que ali onde o mundo é mais vazio
Havia um homem.
E sabeis que se comem
Os frutos acres da recordação...
Fantasmas invisíveis que atormentam
O sono leve dos que se alimentam
Da liberdade de qualquer irmão.


Miguel Torga
In "Antologia Poética"

quinta-feira, 3 de maio de 2012

INGENUIDADE


Escrevi meus versos
numa curva do caminho
vazia ou plena
ela descrevia vozes
dançava entre regaços de risos
desenhava solidões
entre cantos
sussurrava distâncias
transmitia saudade
como pássaro que foge

que foge

que morre

Escrevi meus versos ...

- Por onde voam os meus pássaros?
Por que minhas noites
não anoitecem?

Alvina Nunes Tzovenos,
in Palavras ao Tempo


quarta-feira, 2 de maio de 2012

DIA DE OUTONO


Senhor, é tempo. O verão foi grande.
Pousa sua sombra nos cadrans solares,
e pelos ares os ventos expande.

A tardia fruta torna madura;
dá-lhe mais dois dias meridionais,
amadurece-a com toques finais
e concentra na uva toda a doçura.

Não mais fará casa quem agora não a tem.
Quem agora está só, muito tempo há de ficar,
irá ler, velar e longas cartas esboçar,
pelas alamedas, inquieto, vai vagar,
enquanto no alto as folhas secas vão e vem.

Rainer Maria Rilke
In Senhor, é Tempo


WALT WHITMAN



Não deixes que termine o dia sem teres crescido um pouco,
sem teres sido feliz, sem teres aumentado os teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém retire o direito de te expressares,
que é quase um dever.
Não abandones as ânsias de fazer da tua vida algo extraordinário.
Não deixes de acreditar que as palavras e a poesia podem mudar o mundo.
Aconteça o que acontecer a nossa essência ficará intacta.
Somos seres cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Derruba-nos, ensina-nos, converte-nos em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua:
tu podes tocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque os sonhos tornam o homem livre.


Walt Whitman

TRISTEZA DAS MÃOS



Choram em silêncio a dor de envelhecer.

Foram um dia a graça inocente
De um berço num lar.

Pálidas mãos, sulcadas de renúncias!

Foram jovens e belas,
Confiantes em si mesmas, todo-poderosas.

Tímidas mãos que se apagam na sombra!

Mãos feitas de luz, intrépidas e leais,
Solícitas e compreensivas,
Ternas mãos maternais.

Velhas mãos solitárias,
Como dói recordar!

Helena Kolody,
in Paisagem Interior

terça-feira, 1 de maio de 2012

MANOEL DE BARROS



Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.


Manoel de Barros

MANOEL DE BARROS


Por viver muitos anos dentro do mato
moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra.
E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar às pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em uma abelha, era
só abrir a palavra abelha e entrar dentro
dela.
Como se fosse infância da língua.


Manoel de Barros
in “Poemas Rupestres”

TUDO



Tudo me é uma dança em que procuro
a posição ideal,
seguindo o fio dum sonhar obscuro
onde invento o real.

À minha volta sinto naufragar
tantos gestos perdidos
mas a alma, dispersa nos sentidos,
sobe os degraus do ar…"

Sophia de Mello Breyner Andresen

POEMA DE MAIO



O poema
roça o abril da garganta
e multiplica seu tecido
de palavras.
Será um poema de maio.

Terá a luz da palavra
luz
e o brilho da palavra estrela.

Depois
haverá o abraço frio do outono
e o verbo
desaparecerá.

Edival Perrini

segunda-feira, 30 de abril de 2012

MÁGOAS


Quando nasci, num mês de tantas flores,
Todas murcharam, tristes, langorosas,
Tristes fanaram redolentes rosas,
Morreram todas, todas sem olores.

Mais tarde da existência nos verdores
Da infância nunca tive as venturosas
Alegrias que passam bonançosas,
Oh! Minha infância nunca teve flores!

Volvendo à quadra azul da mocidade,
Minh’alma levo aflita à Eternidade,
Quando a morte matar meus dissabores.

Cansado de chorar pelas estradas,
Exausto de pisar mágoas pisadas,
Hoje eu carrego a cruz das minhas dores!

Augusto dos Anjos

MACHADO DE ASSIS


"A saudade é isto mesmo;
é o passar e repassar de memórias antigas"


Machado de Assis
in Dom Casmurro


DÁ-ME TUA MÃO



Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela
canção das colheitas.
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem
os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas
entreabertas.

Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo
agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.

Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito
amada.


Adalgisa Nery
in As Fronteiras da Quarta Dimensão


NA ILHA


Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.

Então sabemos tudo do que foi e será.

O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.

Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
Com doçura.

Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.

Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago

CONSTÂNCIA



O que os Outros dizem,

ou pensam [sobre nós],

não nos define!


Vicente Ferreira da Silva
in Pensamentos e Reflexões Poéticas


REFLEXÃO



Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.

Em seu vôo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detem-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.

Elas, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...

Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...


Gilka Machado,
in Sublimação

domingo, 29 de abril de 2012

CREPÚSCULO


Quando o sol avermelhado
d’água imerge na planura,
e precede a noite obscura
o crepúsculo avermelhado
paira um clarão desmaiado
lutando co’a sombra escura
que desce da curvatura
do firmamento azulado.

Assim, dentro de mim, da Crença
resta um clarão quase frio,
que inda combate a Descrença,

e, nas ânsias d’esta luta,
- qual crepúsculo sombrio,
hoje a Dúvida me enluta ...


Medeiros e Albuquerque
in Canções de Decadência
e outros Poemas