quinta-feira, 26 de abril de 2012

EM ALGUMA VIDA FUI AVE



Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.

E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.

Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.

Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra."

Mia Couto

ROSAS


Rosas

As rosas
(brancas)
as claras rosas
calam-se
e floresce o silêncio.

Orides Fontela
In Trevo

RAMO EM FLOR



Para cá e para lá
sempre se inclina ao vento o ramo em flor,
para cima e para baixo
sempre meu coração vai feito uma criança
entre claros e nebulosos dias,
entre ambições e renúncias.
Até que as flores se espalham
e o ramo se enche de frutos,
até que o coração farto de infância
alcança a paz
e confessa: de muito agrado e não perdida
foi a inquieta jogada da vida.

Hermann Hesse,
in Andares



TODAS AS ÁGUAS



Quando pensei que estava tudo cumprido,
havia outra surpresa: mais uma curva
do rio, mais riso e mais pranto.

Quando calculei que tudo estava pago,
anunciaram-se novas dívidas e juros,
o amor e o desafio.

Quando achei que estava serena,
os caminhos se espalmaram
como dedos de espanto

em cortinas aflitas. E eu espio,
ainda que o olhar seja grande
e a fresta pequena.

Lya Luft

CONJECTURA



 "Não tinhas
nome. Existias
como um eco
do silêncio. Eras
talvez
uma pergunta
do vento".

Albano Martins

quarta-feira, 25 de abril de 2012

ANOITECER





Homem, cantava eu como um pássaro
ao amanhecer. Em plena unanimidade
de um mundo só.
Como, porém, viver num mundo onde todas as coisas
tivessem um só nome?

Então, inventei as palavras.
E as palavras pousaram gorjeando sobre o rosto
dos objetos.

A realidade, assim, ficou com tantos rostos
quantas são as palavras.

E quando eu queria exprimir a tristeza e a alegria
as palavras pousavam em mim, obedientes
ao meu menor aceno lírico.

Agora devo ficar mudo.
Só sou sincero quando estou em silêncio.
Pois, só quando estou em silêncio

elas pousam em mim - as palavras -
como um bando de pássaros numa árvore
ao anoitecer.


Cassiano Ricardo

VAZIO



Há certos dias
Que sinto em min’alma
Um vazio infinito,
Um vazio sem sentido,
Um vazio indefinível,
Vazio dos ventos e procelas,
Vazio que vem de longe
Cuja origem desconheço,
Maior,
Muito maior que a solidão...

Há certos momentos
Que sinto dentro de mim
Um vazio talvez originário das vagas,
Dos grandes mares
E que às vezes me inunda,
Quase me faz soçobrar...

Há certas horas
Que sinto dentro de mim
Um vazio que se agiganta,
Diante do qual me sinto pequenino
E comparo este vazio tão grande
Ao vazio da hora do adeus...

Mas existe,sim,
Um vazio,
Muito maior do que todos os vazios,
E que se alojam no âmago dos corações,
O vazio imenso da saudade!...



Olympiades Guimarães Corrêa
Em Neblina do Tempo

terça-feira, 24 de abril de 2012

AVE



"Seu rosto tinha um lado de ave. 
Por isso ele podia conhecer todos os pássaros 
do mundo pelo coração de seus cantos." 

Manoel de Barros,
in Aprendimentos 

QUINCAS BORBA - CAPÍTULO XLV




Enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo,
meu rico senhor; é a perfeição universal.
Tudo chorando seria monótono, tudo rindo cansativo;
mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas,
soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma
do mundo a variedade necessária,
e faz-se o equilíbrio da vida...

Machado de Assis,
in Quincas Borba














MILAN KUNDERA




"Não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor
porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente
pela primeira vez, sem preparação como se um actor entrasse em
cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida se o primeiro
ensaio da vida é já a própria vida?"

Milan Kundera, in
A Insustentável Leveza do Ser 

MILAN KUNDERA




"...Não existe nada mais pesado que compaixão.
Mesmo a nossa própria dor não é tão pesada
como a dor co-sentida com outro, pelo outro, 
no lugar do outro, multiplicada pela imaginação, 
prolongada em centenas de ecos." 

Milan Kundera, in
"A insustentável leveza do ser"

CLAREIRA





Dentro do coração
desenho

uma clareira
varrida de luz:
aí desdobro os mapas,
arrumo as
bússolas
e todos os instrumentos
para velejar no ar.

Iço as
palavras
"amor", "orvalho", "vento"
e recolho as âncoras.

Meu corpo,
livre de toda a gravidade,
já pode voar.

Roseana Murray




CARLOS DRUMOND DE ANDRADE




"Quando nos calamos, nem sempre quer dizer
que concordamos com o que ouvimos ou lemos,
mas estamos dando a outro a chance de pensar,
refletir, saber o que falou ou escreveu!"

Carlos Drummond de Andrade

ORIENTE




"Manda-me verbena ou benjoim no próximo crescente
e um retalho roxo de seda alucinante
e mãos de prata ainda (se puderes)
e se puderes mais, manda violetas
(margaridas talvez, caso quiseres)

manda-me osíris no próximo crescente
e um olho escancarado de loucura
(em pentagrama, asas transparentes)

manda-me tudo pelo vento:
envolto em nuvens, selado com estrelas
tingido de arco-íris, molhado de infinito
(lacrado de oriente, se encontrares)"

Caio Fernando Abreu
(in: Caio 3D: O Essencial da Década de 1970)

POEMA SONHADO




Se não for pela poesia, como crer na eternidade?
Os ossos da noite doem nos mortos.
A chuva molha cidades que não existem.
O silêncio punge em cada ser acordado pelos cães invisíveis
do assombro.
Os ossos da noite doem nos vivos.
A escuridão lateja como um seio.
E uma voz (de onde vem?) repete incessante, incessantemente:
Se não for pela poesia, como crer na eternidade.

Alphonsus de Guimaraens Filho







AMOSTRA SEM VALOR




Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém. 
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível: 
com ele se entretém 
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

António Gedeão

segunda-feira, 23 de abril de 2012

HINO AO SOL




Sol!
Divina
Oficina
Da luz! Crisol
Claro, onde se apura
O ouro ideal que fulgura
No céu, de brilho imortal!
Sol! Alquimista universal;
Químico eterno que, em áureo vaso,
Combina pela aurora e pelo ocaso
Cores e vapores pelos céus de anil;
Ourives da ilusão, da vida e da beleza,
De jóias adornando a virgem – natureza;
Gênio da arte excelsa que com o teu buril
Crias a perfeição em toda parte;
Mestre supremo dos deuses da arte,
Guia e protege o artista êxul
Que, ante o ouro fosco do Azul,
Uma só glória aspira:
Fundir sua lira,
Pelo arrebol,
Ao teu hino,
Divino
Sol!

Da Costa e Silva
in Poesias Completas



O IMPOSSÍVEL CARINHO




Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de sua infância!

Manuel Bandeira
In:"Melhores poemas"

O MURO


Resiste o velho paredão em ruínas,
já não é coisa, é uma lembrança
persistente e negra,
que a hera aperta em seu manto de esperança.


Mas se a planta tivesse coração,
e se abraçasse só por amizade,
largaria os tijolos . . . de piedade
abriria os seus ramos pelo chão.


Miguel Reale


GAIVOTAS


Bando de gaivotas
Cortam o infinito dos céus,
No seu vôo elas definem
O sentido maravilhoso e exato
Do que seja liberdade.
No seu vôo tranquilo
Parece às vezes
Que estamos diante
De uma orquestra magistral,
Onde são entoados salmos,
Salmos louvando a paz,
Canto sem silêncio
Em prol da libertação...
E o homem veste as roupagens da gaivota,
Tenta alçar o vôo,
Mas não consegue alcançar os céus
Nem a paz tão desejada,
As asas se partem
E ele cai por terra...

Olympiades Guimarães Corrêa
- In Eterna procura


domingo, 22 de abril de 2012

SOU O QUE SEREI





Às vezes me abandono inteiramente a saudades
estranhas
E viajo por terras incríveis, incríveis.
Outras vezes porém qualquer coisa à-toa –
O uivo de um cão na noite morta,
O apito de um trem cortando o silêncio,
Uma paisagem matinal,
Uma canção qualquer surpreendida na rua –
Qualquer coisa acorda em mim coisas perdidas no tempo
E há no meu ser uma unidade tão perfeita
Que perco a noção da hora presente, e então

Sou o que fui.
E sou o que serei.


Augusto Frederico Schmidt


SERENA


Essa ternura grave
que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavi-
dade do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.

E só assim, na levi-
tação da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.

Henriqueta Lisboa
In Azul Profundo

EPÍSTOLA PARA DÉDADLO




Porque deste a teu filho asas de plumagem e cera
se o sol todo-poderoso no alto as desfaria?
Não me ouviu, de tão longe, porém pensei que disse:
todos os filhos são Ícaros que vão morrer no mar.
Depois regressam, pródigos, ao amor entre o sangue
dos que eram e dos que são agora, filhos dos filhos.

Fiama Hasse Pais Brandão,

in Epístolas e Memorandos

COMPANHEIROS


quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho
e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados
deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros
mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei de inventar
um verso que vos faça justiça
por ora
basta-me o arco-íris
em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço
companheiros


Mia Couto


FRAGMENTO




E agora o que fazer com essa manhã
desabrochada a pássaros?


Manoel de Barros


sábado, 21 de abril de 2012

ÁRVORES



Se pudéssemos plantar palavras,
como se planta uma árvore,
tantos frutos invisíveis
contido sem seu silêncio,
tanta sombra ao meio-dia
em seu futuro,
palavras simples e quentes,
amor, pão, mel, encontro,
as sementes seriam aladas,
e o vento varreria o jardim,
então, pouco a pouco,
atravessando montanhas,
mares, cidades,
a paz cobriria o mundo.


Roseana Murray


EQUILIBRISTA



Procura-se um equilibrista
que saiba caminhar na linha
que divide a noite do dia
que saiba carregar nas mãos
um fino pote cheio de fantasia
que saiba escalar nuvens arredias
que saiba construir ilhas de poesia
na vida simples de todo o dia.


Roseana Murray
in Falando de Passáros

FRAGMENTO


"...Eu gosto de olhos que sorriem,
de gestos que se desculpam,
de toques que sabem conversar
e de silêncios que se declaram..."

Machado de Assis


sexta-feira, 20 de abril de 2012

FRAGMENTO


...

Há casas que são um poema
para dar a um amigo.

Eugénio de Andrade


AVE DA ESPERANÇA


Passo a noite a sonhar o amanhecer.
Sou a ave da esperança.
Pássaro triste que na luz do sol
Aquece as alegrias do futuro,
O tempo que há-de vir sem este muro
De silêncio e negrura
A cercá-lo de medo e de espessura
Maciça e tumular;
O tempo que há-de vir - esse desejo
Com asas, primavera e liberdade;
Tempo que ninguém há-de
Corromper
Com palavras de amor, que são a morte
Antes de se morrer.

Miguel Torga
In Obra Completa

ALGUÉM



Um homem trabalhado pelo tempo,
um homem que nem sequer espera a morte
(as provas da morte são estatísticas
e não há ninguém que não corra o risco
de ser o primeiro imortal),
um homem que aprendeu a agradecer
as modestas esmolas dos dias:
o sonho, a rotina, o sabor da água,
uma não suspeitada etimologia,
um verso latino ou saxão,
a lembrança de uma mulher que o abandonou
já faz tantos anos
que hoje pode recordá-la sem amargura,
um homem que não ignora que o presente
já é o futuro e o esquecimento,
um homem que foi desleal
e com quem foram desleais
pode sentir de repente, ao cruzar a rua,
uma misteriosa felicidade
que não vem do lado da esperança
mas sim de uma antiga inocência,
de sua própria raiz ou de um deus disperso.

Sabe que não deve olhá-la de perto,
porque há razões mais terríveis que tigres
que lhe demonstrarão seu dever
de ser um desventurado,
porém humildemente recebe
essa felicidade, esse lampejo.

Talvez na morte para sempre sejamos,
quando o pó for pó,
essa indecifrável raiz,
da qual para sempre crescerá,
equânime ou atroz,
nosso solitário céu ou inferno.

Jorge Luis Borges,
in "O Outro, O Mesmo"


BORBOLETA AZUL


Pequenina borboleta
azul no vento esvoaça:
um tremor de madrepérola
flameja, reluz e passa.
Num átimo, num piscar
de olhos, eu vi assim
flamejante e reluzente
a sorte passar por mim.

Hermann Hesse ,
in Andares
Tradução de Geir Campos

RESSONÂNCIA



Deixa-me ser a gruta à beira-mar,
Longamente a ressoar de Teu rumor eterno.


Helena Kolody
in Viagem no Espelho



VIVÊNCIA


Se sua rua porventura aparecer coberta de pétalas caídas
pela inclemência de um vento qualquer,
Não faça nada.
Deixe-a assim, desordenada e descabida.
São reticências que sobraram da estação passada.
Acabarão varridas pela própria vida.

Flora Figueiredo

FRAGMENTO




"Os sentimentos que mais doem,
as emoções que mais pungem,
são os que são absurdos
- a ânsia de coisas impossíveis,
precisamente porque são impossíveis,
a saudade do que nunca houve,
o desejo do que poderia ter sido,
a mágoa de não ser outro,
a insatisfação da existência do mundo.
Todos estes meios tons da inconsciência
da alma criam em nós uma paisagem dolorida,
um eterno sol-pôr do que somos...
O sentirmo-nos é então um campo deserto a escurecer,
triste de juncos ao pé de um rio sem barcos,
negrejando claramente entre margens afastadas."

Bernardo Soares,


in o Livro do Desassossego

quinta-feira, 19 de abril de 2012

QUANDO EU NASCI...


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...


José Régio

MINHA VIDA NÃO É...




Minha vida não é essa hora abrupta
Em que me vês precipitado.
Sou uma árvore ante meu cenário;
Não sou senão uma de minhas bocas:
Essa, dentre tantas, que será a primeira a fechar-se.

Sou o intervalo entre as duas notas
Que a muito custo se afinam,
Porque a da morte quer ser mais alta…

Mas ambas, vibrando na obscura pausa,
Reconciliaram-se.
E é lindo o cântico.

Rainer Maria Rilke
Tradução: Guilherme de Almeida

terça-feira, 17 de abril de 2012

FRAGMENTO



“(...) Hoje estou melancólica e suspirosa,
choveu muito, a água invadiu este porão
de lembranças, bóiam na enxurrada a
caminho do rio. Deixo que naveguem,
pois não as perderei.
O rio é dentro de mim”.

Adélia Prado


CITAÇÃO



"Parou em frente de uma janela aberta
e compreendeu a noite"

Antoine de Saint-Exupéry,

in Vôo Noturno

DOS CAMINHOS E DESCAMINHOS...



...
Alma sozinha e perdida,
a solidão corre a toda a brida
para nada.
Mesmo assim, nasce a madrugada
sobre as casas vazias
e as penedias.
E tudo, em nós, verão ou primavera,
é uma vasta espera...

Artur Eduardo Benevides

A PALAVRA IMPOSSÍVEL



Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.

Adolfo Casais Monteiro




sexta-feira, 13 de abril de 2012

OS MEUS LIVROS


Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges
in "A Rosa Profunda"

quarta-feira, 11 de abril de 2012

PÁSSARO-POESIA


Carrega-me contigo. Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem-limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.

Carrega-me contigo.
No Amanhã.


Hilda Hilst


terça-feira, 10 de abril de 2012

É PRECISO AMAR O INÚTIL


"É preciso amar o inútil.
Criar pombos sem pensar em comê-los,
plantar roseiras sem pensar em colher rosas,
escrever sem pensar em publicar,
fazer coisas assim,
sem esperar nada em troca.

A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta,
mas é nos caminhos curvos
que se encontram as melhores coisas.

A música ...
Este céu que nem promete chuva ...
Aquela estrelinha que está nascendo ali...
está vendo aquela estrelinha?
Há milênios não tem feito nada, não guiou os Reis Magos,
nem os pastores, nem os marinheiros perdidos...

Não faz nada.
Apenas brilha.
Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil.
Pois é preciso amar o inútil porque no inútil está a Beleza.

Ligia Fagundes Telles
in Ciranda de Pedra


CANÇÃO




O país que procuras
fica além da distância.

Talvez teu passo não o atinja
mesmo se caminhares
toda a tarde do mundo.

O país que procuras
é longe.
Existe à beira dos profundos mananciais
de genesíaco frescor.
Banha-se na clara névoa das origens,
na pura luz da infinita inocência.

Talvez teu passo não lhe atinja
a perdida fronteira,
mesmo se caminhares, caminhares
ininterruptamente
toda a noite da Vida...


Tasso da Silveira,
in Poemas de Antes

CITAÇÃO




Amigo, para mim, é só isto:
é a pessoa com quem a
gente gosta de conversar,
de igual para igual, desarmado.


João Guimarães Rosa

segunda-feira, 9 de abril de 2012

CAIR DE TARDE


Neste cair de tarde
meus cantos são prelúdios.

São começos, apenas,
de largas sinfonias
que tombam subitamente
sem chegar à expressão.

O mistério é muito fundo
para que possa enche-lo outra música
que não a do infinito silêncio.

Tasso da Silveira

FRAGMENTO


"A poesia pretende captar o que existe alem da prosa quotidiana:
a mulher eh uma realidade eminentemente poetica, porquanto nela
o homem projeta tudo o que nao se decide a ser. Ela encarna o sonho,
o sonho eh para o homem a presenca mais intima e mais estranha,
o que ele nao quer, o que nao faz, aquilo a que ele aspira e que nao
pode ser atingido."

Simone de Beauvoir
In O Segundo Sexo

domingo, 8 de abril de 2012

PAUTA



Ao amanhecer
nas pautas do fio de luz
notas de andorinhas...

Delores Pires,
in O Livro dos haicais



DA CERTIDÃO DE NASCER


Nasci onde?
Nasci onde a geografia se faz de sentimento
Ali nasço
Ali nasço ainda.
Cada manhã.
Em cada manhã de medo.
Arremedo.
Degredo a degredo.
Em cada impulso, incompetência.
Na eterna e suave ironia do destino
de mais sentir que saber.
De saber
apenas sei
de quantas palavras
se faz a canoa de afetos.
Embora caminhe torto
por sonhos retos.
Muito aprendi
da palavra engolida em seco.
E da palavra abatida
por palavras de equívoco
e sutis alvenarias de cinismo.
Permaneço aqui
mesmo assim.
Nasço onde a geografia se faz de sentimento.
Entre princípio e fim de mundo.
Aurora a aurora.
Segundo a segundo.

Lindolf Bell