sexta-feira, 23 de março de 2012

ENTARDECER



Vem, com a velhice, esta serenidade
Que nos faz ver o mundo sem rancor,
Ter um suave sorriso de piedade
Para quem no ódio viva, odiando o amor.
A ceticismo torna-se a vontade
De ser bom, fazer bem seja a quem for;
Ao mau que não tem culpa da maldade,
Ao que é, por seu destino, sofredor.
Abençoada velhice! Os desenganos
Que nas lições da vida ela nos traz
Nos trazem lucros, não nos trazem danos;
Vemos que a luta que ficou atrás
Não vale, bem medida, os poucos anos
Que nos resta viver, vivendo em paz.



Bastos Tigre

quarta-feira, 21 de março de 2012

SIM, EU TENTO



Sim, eu quis escrever
um poema alegre.

Sim, eu quis antever
um poema alegre.

Sim, eu quis até viver
um poema alegre.

Mas, a vida me impôs
uma tristeza imensa.

A vida me expôs
uma franqueza intensa.

Então, não havia escolha:
como a tristeza no bolso,
esmago a ausência insana.

Mas eu quis, sim, escrever
um poema alegre.

Apenas um, porque é preciso:
enquanto ainda sobrevivo.


Jairo De Britto, em
"Dunas de Marfim"

OLHAS O AMANHECER


Olhas o amanhecer,
vives o amanhecer como o único instante
em que o céu é entreaberto segredo de um deus mudo.

Espera: algo vai se revelar e deves estar pronto
para mergulhar teu sonho num poço de luz casta.

O intocado te espera. E amanhece. E te iluminas
como se trincasses com os dentes a polpa do absoluto.


Alphonsus de Guimaraens Filho,
in Luz de Agora

PARA ALÉM DA CURVA DA ESTRADA


Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

Alberto Caeiro
in "Poemas Inconjuntos"

HÁ UMA SOLIDÃO NO CÉU


Há uma solidão no céu,
uma solidão no mar
e uma solidão na morte.
Mas fazem todas companhia
comparadas a este local profundo,
esta polar intimidade,
uma Alma que reconhece a Si mesma:
finita infinidade.


Emily Dickinson
Tradução de Paulo Mendes Campos

A MEU FAVOR


A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.


Alexandre O'Neil
in Poesias Completas

MARIA FUMAÇA



Maria Fumaça
um trem que apitando vem.
Saudade que passa.

Delores Pires,
in O Livro dos Haicais


terça-feira, 20 de março de 2012

À NOITE SONHAMOS



À noite, seguimos descuidados,
a vida é solta, árvores nítidas de aromas,
flores tão lágrimas de orvalho.

À noite sonhamos em um céu de metáforas
onde a mínima lua
é unha que arrepia segredos
estrelas são hangares pequeninos -
a sombra, um dócil lobo que nos chama.

À noite, rompemos degredos,
volvemos aos ninhos,
somos meninos -

infância distraída de seus medos.



Fernando Campanella

DESPEDIDAS




Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.

Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas

Nada mais é gratuito, tudo é ritual.
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam
já não mentem.


Affonso Romano de Sant’Anna
In Epitáfio para o Séc.XX

SAUDADES



"Sentirei saudades dessa casa que só vi por fora
e na qual não conheço ninguém, a mesma nostalgia
que sinto de uma verdadeira pátria, de lugares
onde fui criança e feliz, pois também aqui, por
quinze minutos, fui criança e feliz."

Hermann Hesse,
in Caminhada


LIBERDADE...




"Que nada nos limite...
Que nada nos defina...
Que nada nos sujeite...
Que a liberdade
seja a nossa própria substância..."

Simone de Beauvoir

SE OS POETAS DESSEM AS MÃOS



Se os poetas dessem as mãos
 
e fechassem o mundo
 
no grande abraço da poesia,
 
cairiam as grades das prisões
que nos tolhem os passos,
os arames farpados
que nos rasgam os sonhos,
os muros de silêncio,
as muralhas da cólera e do ódio,
as barreiras do medo,
e o dia, como um pássaro liberto,
desdobraria enfim as asas
sobre a noite dos homens.
 
Se os poetas dessem as mãos
e fechassem o mundo
no grande abraço da poesia.
 
Fernanda de Castro, in
"Ronda das Horas Lentas"

O SONHO



Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e do que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.




Sebastião da Gama

SIGNIFICADO



No poema
e nas nuvens,
cada qual descobre
o que deseja ver.

Helena Kolody


in Poesia Mínima

OUTONO



As folhas caem como se do alto
caíssem, murchas, dos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.


E a terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.

Caimos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.

E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.

Rainer Maria Rilke

segunda-feira, 19 de março de 2012

LEMBRANÇAS DO LUGAR


LEMBRANÇAS DO LUGAR

Querida, vê no pranto que extravasa
o coração quando a lembrança aflora...
Os gerânios... As rosas... Como atrasa
o tempo entre o crepúsculo e a aurora!

Há sonhos que ainda vagam pela casa
em meu rústico albergue da memória...
E ainda um lírio que a min’alma vaza
de saudade do amor que ainda chora...

Nos beirais da varanda as andorinhas
bailam, querida, e as ninfas seminuas
das ribeiras em flor bailam sozinhas...

Beirando a vida nos beirais das ruas,
tu vives de sentir saudades minhas
e eu morro de sentir saudades tuas...

A. Estebanez

A MAGNÓLIA



A Magnólia

Sem paixão plantei-a no meio
do jardim. Pesado tributo
à insolvência dos dias.

Bandeiras de cor verde-ferrugem
transeunte natureza de amor desvelam
caravela de pássaros e o vento nas ramas
alegre o riso
na onda: o arco-íris.

(Comprei vestidos sem cor
e – pelo verão – esperei
as vergônteas da morte.
A água que bebi era de cinza.)

Nuvens se espedaçam
inflam botões
alvos
sorrisos na relva
e o chá vertido nas flores bebemos
da lembrança.

(Se nasceram luas apenas
é pétalas decepadas
acaso fui eu
acaso fui
eu?)

Dora Ferreira da Silva
In: Poesia Reunida